MINHA OUTRA FACE

33 Que começa os jogos


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═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══

Rodrigo levou a mão ao rosto ainda quente do tapa, mas tentou se recompor. Endireitou a postura.

— Eu entendo — disse ele, num tom artificialmente pacífico. — Você tá nervosa. Acabou se acendendo e perdendo o controle. O Xavier tá aqui, ele pode confirmar o que eu tô dizendo. Se o seu pai continuasse na presidência, a Mulambo ia afundar.

Xavier deu um passo à frente, alinhando-se ao discurso de Rodrigo.

— O Rodrigo tá certo, senhorita — disse ele com a voz baixa. — A empresa estava perdendo muitos investidores por causa da gestão do seu pai. O que pode parecer um golpe... talvez seja, na verdade, a solução mais plausível para voltar à liderança no mercado.

Daiana encarou os dois como se estivesse diante de algo podre.

— O que eu acho — disse ela, com o dedo apontado para eles — é que vocês dois sempre estiveram de conluio pra derrubar o meu pai. Mas a nossa família é unida. E pode ter certeza: nós vamos dar um jeito de reverter essa situação.

Ela se aproximou de Rodrigo, inclinando-se o bastante para que ele sentisse o ódio na respiração dela.

— E quanto a você, Rodrigo... nunca mais se atreva a se aproximar de mim.

Daiana saiu com passos duros, a porta batendo com força atrás dela.

Rodrigo permaneceu parado por alguns segundos, Xavier observava-o de canto.

— Você sabe que podemos ter aí um problema, não sabe? — murmurou ele, a voz baixa, carregada de preocupação.

Rodrigo então ergueu o queixo, forçando uma postura de autoridade.

— Ainda estamos no controle — respondeu, com frieza. — Essa aí não entende nada dos assuntos da Mulambo. Apenas uma nepo baby que se deu bem nas passarelas por influência do pai.

Virou-se para a mesa, puxando uma pasta de documentos com brusquidão.

— Bora trabalhar — disse, o tom agora sem paciência, uma ordem. — A gente tem muita coisa pra fazer.


═══🎭✦✧ Sala do Fabinho ✧✦🎭═══

Daiana estava sentada na cadeira como quem tenta manter a compostura, mas o pé batendo no chão e o ar forte que soltava denunciavam o contrário. Ela bufou alto, passando as mãos no rosto.

— Tô com ódio... — disse, quase cuspindo as palavras. — Como é que eu pude gostar desse cara um dia?

Fabinho, encostado na mesa, observava a irmã em silêncio por alguns segundos, dando espaço para o desabafo.

— Se acalma, Daiana. Ficar nervosa agora não resolve nada.

— Resolve sim! — rebateu ela, a voz embargando. — Resolve porque eu fico com vontade de arrancar o pescoço daquele idiota. Você precisava ver o estado que o nosso pai chegou em casa. Ele estava destruído, Fabinho. Ver a empresa que ele criou, a vida dele inteira... caindo nas mãos de outro assim.

— Primeiro: o nosso pai não perdeu a empresa. Ele ainda tem 45% das ações. Segundo: se essa holding do Rodrigo for de fachada, se tiver qualquer irregularidade, a venda é cancelada. E ele pode responder criminalmente por isso.

A expressão de Daiana mudou na hora. Os olhos, antes marejados de raiva, brilharam com esperança.

— Claro! Óbvio que é falsa, Fabinho! Ele vai cair do cavalo. E ainda vai ser preso — ela sorriu, um sorriso torto de vingança — que é o que ele merece.

Fabinho puxou a cadeira e se sentou diante dela, girando o notebook na direção dos dois.

— Eu queria te dar essa certeza, mas... — Ele deslizou o dedo pelo o teclado. — Tudo que encontro aqui na internet sobre a TexHold é sólido. Registro, histórico... tudo parece absolutamente legítimo.

Ele deu um leve tapa frustrado no teclado.

— Seja lá o que ele fez, ele fez muito bem feito.

— Tem que existir alguma coisa. Pede pra equipe de advogados analisar essa papelada toda. Linha por linha, detalhe por detalhe. A gente precisa encontrar uma brecha. Qualquer brecha.

Fabinho fechou o notebook devagar. Depois respirou fundo e abraçou a irmã.

— É exatamente o que eu vou fazer. — disse ele, firme. — E você minha irmã... tenta manter a calma. A gente vai resolver isso do jeito certo.


═══🎭✦✧ Shopping ✧✦🎭═══

O shopping estava tranquilo naquela hora do dia. Ludmila ajeitou a blusa, passou a mão pelos cabelos e entrou em uma loja. Assim que atravessou a porta, se viu diante de vestidos que custavam mais que um carro usado, sapatos que valiam duas parcelas de um apartamento e joias que, se ela tocasse, podia até ser presa só pelo susto que daria no preço.

— Valha minha nossa senhora... — murmurou, encarando um scarpin Louboutin. — Olha o preço desse sapato... Eu teria que vender meu rim pra comprar ele. Se brincar, teria que vender os dois.

De longe, uma vendedora a observava com o tédio de quem já sabia o final da história. Ludmila pegou outro modelo, pontudo e agressivo.

— E esse aqui? Credo. Uma coisa horrenda dessa, nesse preço todo. Dava nunca. Nem de graça eu usava.

A moça veio andando devagar, no passinho clássico de vendedora que não vai ganhar comissão.

— Pois não? Está procurando alguma coisa em específico? — perguntou, fazendo uma varredura de cima a baixo com desdém técnico.

— Boa tarde primeiramente, né? — disse Ludmila, com um sorriso doce e debochado. — Eu vim trazer meu currículo. Gostaria muito de trabalhar nessa loja tão... sofisticada.

A vendedora revirou os olhos, já lamentando o tempo perdido.

— É que no momento não estamos contratando ninguém.

— E você, por acaso, é a gerente?

A vendedora travou por um segundo. Respirou fundo.

— Não. Sou apenas vendedora.

— Então eu prefiro falar com a gerente. Já que é pra ouvir "não", quero ouvir de quem tem autoridade pra isso.

A vendedora piscou bem devagar, ofendida em seu orgulho profissional.

— Acontece, querida, que eu já sei que a loja não está contratando.

— Acontece, querida, que eu gostaria de ouvir isso da gerente. Poderia chamá-la por obséquio? — repetiu Ludmila, empurrando a palavra com veneno educado.

Foi então que a gerente apareceu, atraída pelo cheiro de confusão.

— Pode deixar comigo, Paula — disse ela. — Pois não?

— Vim deixar meu currículo — respondeu Ludmila, estendendo o papel.

A gerente pegou com dois dedos, como se temesse sujar as unhas.

— Você tem alguma especialidade? — perguntou. — Sabe falar outras línguas?

— Trabalhei uma semana numa loja na feira. Foi uma experiência... intensa. Língua, só português mesmo.

A gerente manteve um sorriso sem revelar muitos os dentes.

— Algum conhecimento de tecidos? Caimento? Tendências? Joias?

— Eu sei diferenciar malha de lycra. E sei que joia boa é aquela que não deixa o dedo verde. O resto eu aprendo.

A gerente respirou fundo.

— Então... Ludmila, é isso né? — leu no currículo. — Olhe, minha querida, aqui trabalhamos com um público muito exigente. Muito mesmo. Não é qualquer um que serve. É preciso preparo, presença, postura... e um certo refinamento.

Ela fez uma pausa, avaliando Ludmila como se avaliasse uma peça danificada.

— Infelizmente, você não se encaixa no perfil da nossa marca.

Atrás dela, Paula sorriu com o canto da boca.

Ludmila sentiu o rosto queimar, mas engoliu seco. Sorriu sem humor.

— Entendi. Refinamento, né? Pois pronto. Obrigada.

Virou-se para sair, mas voltou o rosto com doçura afiada:

— Só pra constar... tem uma pelinha de feijão atrás do seu dente. Dá uma agonia ficar olhando.

A gerente imediatamente passou a língua nos dentes, tentando ser discreta — e falhando.

Ludmila saiu da loja resmungando:

— Frescurada do caralho. Refinamento é o meu pinguelo.

Sentou-se num banco, exausta.

— Saco... rodei essas lojas todas e nada de emprego. Acho que vou virar é puta mesmo.


═══🎭✦✧ Casa do Adolfo ✧✦🎭═══

Gabriel estava diante do espelho, esforçando-se para manter o queixo erguido. Ajustou os ombros, firmou o olhar... e tentou reproduzir aquele trejeito arrogante de Rodrigo.

Aparecida surgiu na porta, franzindo o cenho.

— Que é isso, Gabriel? O que cê tá fazendo?

Ele nem piscou, manteve a postura por um segundo, depois relaxou.

— A gente precisa de provas, Aparecida. É a única forma de desmascarar o meu irmão. Eu conversei com meu tio... e ele vai me ajudar. O Rodrigo se passou por mim, se infiltrou no orfanato pra me ferrar. Agora chegou minha vez. Eu vou me infiltrar no mundinho dele e conseguir as provas que preciso.

Aparecida arregalou os olhos.

— Oxe... e você vai fazer isso como?

— Ainda não sei direito, mas tô bolando um plano. — Ele se encarou novamente no espelho. — A gente é idêntico. Eu só preciso dominar o jeito dele... o jeito de andar, de falar, de olhar. Se eu conseguir imitar direitinho, ninguém percebe.

— Sei não, Gabriel. Tô achando isso tudo perigoso demais. E se descobrir que é você?

— Vou ter que correr esse risco, Aparecida. Eu não tenho outra saída. — Ele se aproximou dela, sério. — Eu preciso provar minha inocência. E não vou conseguir isso escondido aqui.

Aparecida respirou fundo, inquieta.

— E como é que seu tio vai te ajudar nessa doidice?

— Eu vou precisar de outra ajuda também... — Gabriel hesitou. — Mas eu não podia procurar ela direto. Não sei como as coisas estão do lado de lá, nem sei se ela e Rodrigo... enfim. Então eu procurei primeiro o Epaminondas.

— A outra ajuda que cê tá falando... é a moça lá que cê é apaixonado?

Gabriel desviou os olhos, mas não negou.

— Ela vai me ajudar. Agora tenho certeza. O Epaminondas disse que ela foi no orfanato, e só acreditou na minha "culpa" porque a irmã Rosália jurou que eu confessei pra ela. Mas quem confessou foi o Rodrigo. — A voz dele ficou mais grave. — Foi ele que assumiu o crime como se fosse eu.

Ele respirou fundo, como se ainda fosse difícil engolir aquilo.

— O Epaminondas sabe chegar nela. Primeiro ele vai sondar... entender como ela tá, o que ela sabe, o que ela acha. Depois, ele conta que eu tô vivo.

Aparecida balançou a cabeça, apreensiva.

— Tomara que dê certo. Porque meu pai... ah, ele anda todo desconfiado de você.

— Ele ainda acredita na inocência do Antunes.

— Tá caduco, o coitado. — retrucou Aparecida. — Pra ele, o seu Antunes sempre foi um protetor. E foi nada, né! Mas deixa pra lá. Uma hora ele vai enxergar.

Gabriel voltou a encarar o espelho. Endureceu o rosto. Endureceu a alma.

— Uma hora... todo mundo vai enxergar.


═══🎭✦✧ Sapphira Club ✧✦🎭═══

O carro de Talita reduziu a velocidade e parou diante da fachada iluminada em tons de roxo neon. A placa piscava: Sapphira Club.

— Pronto, chegamos no nosso destino — disse Talita, sorrindo como quem acaba de revelar um segredo.

Ludmila franziu o rosto imediatamente.

— Que lugar é esse? Pensei que você fosse me levar pra Boate Eclipse, onde a gente sempre vai.

Talita soltou uma risada curta, debochada.

— Lá não, né? Vai que o Fabinho aparece... ou aquele outro que você pega escondido atrás da boate. — Piscou. — Hoje eu não quero concorrência. Você vai ser só minha.

Ludmila virou o pescoço rápido.

— Tá viajando, né garota? Se enxerga. — Apontou o dedo. — Eu aceitei sair com você como amiga. A-mi-ga. Isso porque a outra que eu chamava de melhor amiga me trocou por causa de macho. Não confunda as coisas, tá entendendo?

Talita levantou as mãos em sinal de paz.

— Relaxa, gata. Eu prometi que iria me comportar, lembra? Agora vamos descer e curtir a noite.

As duas saíram do carro e caminharam até a entrada. O som do baixo vibrava no chão. Quando passaram pelas portas, Ludmila arregalou os olhos, nervosa.

Casais de meninas se beijavam encostadas nas paredes, outras dançavam no centro da pista, e no palco uma cantora amadora improvisava um pop romântico meio desafinado, mas cheio de atitude.

Ludmila olhava pra tudo com um misto de curiosidade e leve pânico.

Elas foram até o bar. Assim que Talita se aproximou, a bartender abriu um sorriso enorme.

— Boa noite, Talita! Pensei que você tinha se mudado daqui, anda sumida. — Olhou para Ludmila com interesse. — Namorada nova, é?

Ludmila quase engasgou com o ar.

— Amiga! Eu sou amiga dela! — disse rápido, levantando as mãos. — E sou hétero, viu? Nada contra, mas eu prefiro homem mesmo.

A bartender riu, divertida.

— Relaxa, Ludmila — Talita interveio. — Prepara dois drinks daqueles caprichados, Babu.

Enquanto Babu começava a misturar as bebidas, Ludmila virou para Talita com os olhos semicerrados.

— O que é que você tá pensando, hein? Você acha que me trazer pra um lugar desses vai fazer eu mudar de ideia e te querer?

Talita apoiou o cotovelo no balcão, encarando-a de frente.

— Eu só quero te mostrar coisas diferentes, Ludmila. Você vive indo pro mesmo lugar, vendo as mesmas pessoas. — Deu um sorriso suave, disfarçando a malícia. — Eu prometi que ia te respeitar. Me dá um voto de confiança.

Ludmila cruzou os braços, ainda desconfiada.

— Não sei onde eu tava com a cabeça quando inventei de sair contigo.

Talita ergueu o drink recém-preparado pela bartender e brindou no ar:

— No lugar certo, gata. No lugar certo. Tim-tim.


═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══

A família estava reunida na sala, discutindo os últimos acontecimentos.

— Eu falei com o Dr. Rui. Ele analisou toda a documentação... e, pelo que viu, não tem nada de errado. Tudo dentro dos trâmites legais — informou Fabinho.

— Não pode ser. Tem falcatrua aí, eu tenho certeza — retrucou Daiana, impaciente.

— E essa holding? — questionou Angelina, franzindo a testa. — Até ontem o Rodrigo não tinha nada. Como agora ele aparece como dono de uma holding com histórico antigo?

— Essa parte eu também não entendi muito bem — admitiu Fabinho. — Mas, segundo o Dr. Rui, a holding já existia. O Rodrigo comprou pouco antes da negociação com o meu pai. Reativou o CNPJ, pagou débitos antigos, regularizou tudo e atualizou o quadro societário.

— O Rodrigo é esperto, preparou o golpe direitinho — comentou Meireles, apertando o braço da cadeira, a irritação transbordando.

Nesse momento, Diná apareceu na porta da sala.

— Com licença. Daiana, tem um senhor lá na frente querendo falar com você. Disse que o nome é Epaminondas.

Angelina olhou para a empregada, confusa.

— Epaminondas? Quem é esse?

— É do orfanato, mãe — explicou Daiana. — Pede pra ele entrar, Diná.

— Ele disse que prefere conversar com você em particular — completou Diná.

Daiana respirou fundo.

— Certo... eu vou lá ver o que ele quer. Obrigada, Diná.

Daiana saiu até o jardim. O ar fresco da noite tocava o rosto dela quando avistou Epaminondas parado próximo às roseiras, chapéu na mão, olhar carregado.

— Seu Epaminondas... que surpresa o senhor por aqui. Aconteceu alguma coisa? — perguntou, preocupada.

— Boa noite, Daiana. Me perdoe a hora. É que eu não sei muito dos seus horários... achei que agora você já pudesse estar em casa.

— Não tem problema nenhum. O senhor não quis entrar... quer que eu peça pra trazerem alguma coisa?

— Não, não. Tô bem assim. Prefiro que a gente converse aqui mesmo.

— Tudo bem, então... vamos sentar ali na varanda.

Eles caminharam até a varanda lateral, onde a luz amarelada deixava o clima mais intimista. Sentaram-se.

Epaminondas respirou fundo.

— Daiana... no último dia que você esteve no orfanato, você não acreditava na culpa do Gabriel. Não é isso?

Daiana suspirou, o coração apertando só de ouvir aquele nome.

— Acho que ninguém acreditava, né, seu Epaminondas? Não tem como acreditar que o Gabriel... aquele Gabriel que eu conheci... fosse capaz de tirar a vida de alguém. Mas a irmã Rosália me contou que ele chegou a confessar pra ela. Disse que era culpado.

Epaminondas balançou a cabeça, lento.

— Nem tudo que a gente enxerga, é realmente o que é. A irmã Rosália viu o Gabriel, mas podia não ser ele.

Daiana franziu a testa.

— O senhor tá querendo dizer o quê?

O velho olhou para ela com seriedade.

— E se... não fosse o Gabriel ali na frente dela? E se fosse o Rodrigo? Os dois são idênticos. Talvez ela não tenha conseguido distinguir.

Daiana levantou-se imediatamente, a mão cobrindo a boca, perturbada com aquilo. Ela deu alguns passos pelo espaço da varanda, depois virou-se para ele.

— Seu Epaminondas... isso é muito sério. Mas... eu não duvido. O Rodrigo é bem capaz disso... — ela suspirou. — Eu já nem sei mais do que ele é capaz.

Daiana voltou a se sentar, ainda agitada.

— Mas não... as coisas estão todas bem claras. O Gabriel me traiu com a Soraia, eu mesma vi os dois juntos. Aquela que fingiu que era Maria e se infiltrou no orfanato. Foi pouco antes de eu encontrar o Rodrigo. E essa mesma Soraia fugiu com ele. E os dois tiveram um fim trágico. Tudo tá muito bem explicado, infelizmente o Gabriel é mesmo culpado.

Epaminondas ouviu com paciência antes de falar de novo.

— Eu entendo. Realmente... desse jeito, tudo parece fazer sentido. — Ele fez uma pausa, escolheu bem as palavras. — Desculpa se estou me intrometendo, filha... mas como anda sua relação com meu outro sobrinho? Sei que vocês já foram noivos. Terminaram pouco antes do padrasto dele morrer. Vocês... reataram?

Daiana nem hesitou.

— Isso não tem a menor possibilidade de acontecer. Esse Rodrigo que estou vendo agora, eu nunca conheci. É uma pessoa sem escrúpulos, desonesta, capaz de qualquer coisa pra conseguir o que quer.

Epaminondas encarou o chão por um instante.

— Você sabe que o corpo do Gabriel... ainda não foi encontrado, não sabe?

Daiana ficou imóvel.

— Sei...

— O que você faria se... se o Gabriel aparecesse? Vivo. Na sua frente.

Daiana arregalou os olhos.

— Pelo amor de Deus, seu Epaminondas... o senhor... o senhor tá sabendo de alguma coisa? É isso?

— Não, não, se acalme. — Ele levantou as mãos. — Não sei de nada, filha. Só quis compartilhar uma esperança minha. Porque eu ainda acredito que o Gabriel esteja vivo. E ainda acredito na inocência dele.

A voz de Daiana embargou.

— Ai, seu Epaminondas... eu amo o Gabriel. E o que eu mais queria na vida era ter a oportunidade de ver ele de novo. Olhar nos olhos dele... e ouvir a explicação pra tudo isso. Porque... pra mim também tá difícil acreditar que ele seja culpado.


═══🎭✦✧ Sapphira Club ✧✦🎭═══

A balada já transbordava gente quando Ludmila chegou ao terceiro drink — o famigerado drink que faz a boca perder o filtro, o corpo perder o eixo e o juízo pedir demissão. Riso escandaloso, dança sem ritmo, tropeços e mais tropeços.

— Eu sou hétero, viu? — avisava a cada nova pessoa que chegava perto, sacudindo o copo como uma maraca. — Gosto de homem! Mas eu amo vocês, vocês são tudooo! Você quer me beijar, né safada?

Duas garotas, ambas com sorriso de predadora, se aproximaram quando perceberam que Ludmila mal conseguia distinguir o chão do teto.

— Tá sozinha, linda? — perguntou uma, segurando firme no braço dela.

— Eu? Tô nada! — respondeu Ludmila, rindo como se tivesse contado uma piada genial. — Eu tenho um homem... um homão gostoso... maravilhoso... o Fabinho! — ergueu o copo triunfalmente. — Eu quero é o Fabinhooooo... cadê ele, hein?

As garotas trocaram um olhar cúmplice. Uma delas mordeu o lábio.

— Pode me chamar de Fabinho e me usar toda — sussurrou, inclinando-se perto demais.

Ludmila arregalou os olhos, bêbada porém indignada.

— Querendo fazer ringue de aranha, né tarada? Curto não.

As garotas riram. Ludmila riu também, mas estava quase caindo.

De longe, Talita viu a cena... e entrou no meio na mesma hora.

— Ela tá comigo — disse seca, puxando Ludmila pelo pulso. — Valeu, meninas.

Talita praticamente arrastou Ludmila até um canto mais vazio, perto de uma pilastra iluminada em azul.

— Senta aqui, criatura — ordenou, tentando segurá-la antes que ela despencasse.

Mas Ludmila, tomada pelo álcool e pelo drama da vida, resolveu transformar o momento em sedução. Envolveu o braço no pescoço de Talita, grudou o rosto no dela e sorriu torto, meio sexy, meio trágica.

— Até que você não é de se jogar fora... — arrastou a voz, aproximando mais. — Eu sei que você me quer... tá doida pra me beijar...

Talita segurou os ombros dela, firme.

— Ludmila, para. Você tá bêbada. Fora de si. Não é você falando.

Ludmila fez biquinho e afundou a testa no ombro de Talita como se fosse um travesseiro.

— Eu só quero o Fabinho... — começou a chorar, desmoronando completamente. — Por que ele não me quer? Ele me bloqueou em tudo... eu sou um lixo... eu só faço merda...

Talita fechou os olhos por um instante, segurando a emoção.

— Ei. Ei... olha pra mim. — Passou a mão pelo cabelo dela, com cuidado. — Calma. Eu disse que ia cuidar de você. Tô aqui.

— Eu tô feia, né? — soluçou Ludmila. — Tô feia, tô desempregada, não faço nada direito, ninguém me quer... por isso eu tô sozinha...

— Você tá bêbada. Só isso. — Talita a levantou com delicadeza. — Vamos embora. Acabou a noite pra você.

Ludmila tentou ficar em pé sozinha, falhou. Caiu quase inteira nos braços de Talita.

— Me leva pra casa... Talitinha... — murmurou, agarrando a camisa dela. — Não me deixa aqui...

— Não vou te deixar. — Talita passou o braço pela cintura dela, sustentando o peso. — Você tá segura comigo. Vamos.

Entre olhares curiosos, cochichos e alguns risinhos maldosos, Talita a guiou para fora do Sapphira Club.


═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══

Epaminondas e Daiana permaneciam na varanda, a luz fraca da área iluminando apenas metade dos rostos.

— Obrigado por ter me confiado tudo isso, filha — disse Epaminondas, com uma dor antiga na voz. — É lamentável o que meu sobrinho Rodrigo está fazendo com a empresa do seu pai. De tanto conviver com o mal, ele acabou se contaminando.

Daiana suspirou, resignada.

— Nem me fale, seu Epaminondas. É por isso que eu disse que seria bem mais fácil acreditar na inocência do Gabriel do que na do Rodrigo. Por que isso teve que acontecer com ele?

Epaminondas respirou fundo. Depois estendeu as mãos e segurou as dela com firmeza.

— Agora sou eu... que preciso te confiar um segredo.

Daiana arregalou os olhos, e o encarou curiosa.

Epaminondas fez uma pausa longa. Forçou o ar para dentro, depois deixou escapar devagar.

— Ele tá vivo... O Gabriel tá vivo.

Daiana empurrou o corpo pra trás, sem perceber.

— O quê?

Epaminondas continuou, com o olhar marejado:

— Ele tá vivo Daiana, ele veio até mim. Me procurou.

O silêncio bateu pesado. Daiana ficou incrédula.

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