MINHA OUTRA FACE
31 O sabor do meu veneno
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═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══
Will estava de pé, encostado na mesa, girando distraidamente a caneca de café entre os dedos. Tony, sentado à sua frente, o observava com atenção.
— Estive no orfanato — começou Will. — Conversei com a freira que dirige o lugar, e também com alguns moradores. Ninguém viu a Soraia por lá. Gabriel esteve lá sozinho.
— Mas a Soraia pode ter encontrado com ele pelo caminho — argumentou Tony. — O fato de ela não ter entrado no orfanato não quer dizer que não estava na kombi na hora do acidente.
— Você está certo — disse Will, pousando a caneca na mesa com um leve ruído. — Mas isso só deixa a história ainda mais confusa. Se os dois estiveram juntos na fazenda da Rita, e depois Gabriel foi para o orfanato... por onde Soraia andou nesse tempo?
Fez uma pausa, como quem repassa cada detalhe na mente.
— Não adianta dizer que ela foi juntar as coisas para fugir. Na kombi não havia nada dela. Nenhum pertence, nada. Só coisas de Gabriel.
— Você tá sugerindo que Soraia pode não ter estado na kombi?
— Talvez ela estivesse. Mas uma coisa é certa afirmar, a fuga dela não foi premeditada. Ela pode ter encontrado o Gabriel por acaso, no caminho. Voltamos a estaca zero Tony, precisamos encontrar os corpos dos dois para sabermos exatamente o que aconteceu.
═══🎭✦✧ Casa do Juca ✧✦🎭═══
Ludmila estava jogada no sofá, o celular nas mãos, o rosto iluminado pela luz da tela.
— Que isso? — murmurou, franzindo o cenho. — A minha mensagem não foi?
Ela tocou a tela várias vezes, impaciente. A foto do Fabinho não aparecia.
— Não acredito que esse viado me bloqueou — disse, incrédula, apertando os botões como se pudesse forçar uma resposta. — Deve ter alguma coisa errada...
Abriu o Facebook, depois o Instagram. A cada clique, a mesma constatação.
— Bloqueada em tudo... — sussurrou, indignada. — Ah, mas ele vai me ouvir.
Tentou ligar. O toque nem chegou a completar. A tela piscou uma mensagem seca: "Chamada não permitida."
— Não acredito nisso! — gritou, jogando o celular no sofá. — O que foi que eu fiz pra ele fazer isso comigo?
Permanecia imóvel por alguns segundos, tentando entender. De repente, ergueu o olhar, como se uma ideia lhe atravessasse a mente.
— Ah, não... — murmurou. — A Talita. Com certeza foi ela. Deve ter contado que eu fiquei com o Glauber.
Pegou o celular de volta, abriu a conversa com Carla e gravou um áudio, a voz tremendo de raiva e ressentimento:
— Piranha, você não vai acreditar! Aquele viado me bloqueou em tudo, acredita? Facebook, Instagram, WhatsApp... nem ligar eu posso! Mas eu não sou besta, sei bem quem é a culpada. Isso é coisa da Talita. Aposto que me viu com o Glauber e foi dá com a língua nos dentes. Mas ela me paga, isso não vai ficar assim não!
Enviou. Ficou olhando a tela, Carla estava online. Mas não abriu.
Ludmila suspirou, levantando-se. Foi até a cozinha, abriu a geladeira e bebeu um gole de água direto da garrafa. Voltou para a sala, olhou o celular novamente. Carla já estava offline. O áudio permanecia ali, intacto.
Ela apagou a mensagem, largou o telefone na mesa e passou a mão pelos cabelos, desolada.
— Não adianta mandar áudio... — murmurou. — É outra que também não quer falar comigo. Poxa... nunca me sentir tão sozinha.
═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══
Rodrigo estava concentrado diante do computador, quando a porta se abriu com um leve toque.
— Com licença, Rodrigo.
Rodrigo levantou os olhos.
— Algum problema, seu Meireles?
— Nenhum. — Meireles adentrou a sala em sua cadeira motorizada. — Pelo contrário, vim comunicar que já recebi a parte da TexHold. A partir de agora, não somos só nós os acionistas da Mulambo.
Um breve sorriso se formou no rosto de Rodrigo. Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços.
— Isso é ótimo, seu Meireles. O senhor vai ver que fez a escolha certa. A TexHold vai limpar o nome da Mulambo, e a gente vai voltar a ser líder no mercado.
— Estou contando com isso.
Houve uma pequena pausa.
— Só tem uma coisa que me deixou intrigado — continuou Meireles. — Geralmente, holdings fazem seus pagamentos por meio de contas comerciais, certo?
Rodrigo franziu o cenho, sem entender bem.
— Sim, é o mais comum... por quê?
— Porque o pix que recebi veio em nome de um tal de Adolfo Pereira da Silva.
O ar pareceu pesar de repente. Rodrigo empalideceu por um instante — mínimo, mas perceptível. Sua mão, que até então repousava tranquila sobre a mesa, crispou-se de leve.
— Adolfo...? — repetiu, buscando tempo. — Deve ser alguém do setor financeiro da TexHold... talvez responsável pelas transações.
— Talvez — disse Meireles. — Só achei curioso. Mas enfim, agora esperar o contato deles. Já mandei um e-mail informando que recebi o pagamento.
— Certo.
Rodrigo forçou um sorriso, mas o nervosismo traía o disfarce.
═══🎭✦✧ Mascarenhas Models ✧✦🎭═══
Daiana estava sentada diante da mesa, inquieta. Frida, do outro lado, a observava atenta.
— A gente se beijou, Frida — disse Daiana. — Você tem noção disso? Esse beijo não poderia ter acontecido.
— O beijo foi tão ruim assim? — perguntou Frida com um sorriso provocador.
— Você sabe que não é isso. O Rodrigo me traiu, Frida. E eu não tô disposta a perdoar. Acabou. O Rodrigo é um passado que eu não quero que volte. — fez uma pausa breve, a voz suavizando — Não é dele que eu gosto... é do Gabriel que eu sinto falta.
— Mesmo sabendo que o Gabriel também te traiu? E que ele é o culpado pela morte do Antunes?
Daiana levantou o olhar, hesitante.
— O pior ainda não te contei. — murmurou. — A polícia suspeita que a Soraia também estava na kombi, na hora do acidente.
Frida se endireitou na cadeira, surpresa.
— Então, isso quer dizer que ela também morreu?
— Parece que sim. — disse Daiana, sem emoção. — Aquela garota não valia nada. Era uma peste.
Frida arqueou as sobrancelhas.
— Eu não sei... você mesma me contou que foi ela quem pichou as roupas da Mulambo, lembra?
— Foi sim. — confirmou Daiana, com um toque de desprezo. — Mal caráter. Sempre foi assim, desde criança. Mas tenho tanta pena da mãe dela... a coitada tá arrasada. Mas me diz uma coisa, Frida... — continuou Daiana — Pensa comigo. Eu tô errada? Se os dois estavam juntos na kombi, isso só comprova o que eu já desconfiava: eles tinham um caso. E deve ter começado lá atrás, quando ela ficou infiltrada no orfanato.
Por um instante, Frida não respondeu. Apenas observou Daiana. Então falou com suavidade:
— E se isso for verdade, isso muda o quê?
Daiana respirou fundo, como se precisasse buscar coragem para admitir:
— Na verdade, não muda nada. — murmurou. — Eu só não queria mais sentir tanta falta dele.
═══🎭✦✧ Casa do Antunes ✧✦🎭═══
A mesa da cozinha estava tomada por papéis, amostras de tecidos e plantas da reforma. Joana, com o cabelo preso de qualquer jeito e o olhar animado, explicava cada detalhe a Kléber, que a escutava com atenção genuína.
— A ideia é deixar o ambiente mais acolhedor — dizia ela, apontando para o projeto. — Mesas menores, iluminação quente, e aquele cantinho perto da janela pra quem quiser jantar vendo o pôr do sol.
Kléber sorriu, encantado não só com a ideia, mas com o brilho nos olhos dela.
— Você nasceu pra isso, Joana. Eu falei desde o início: esse restaurante vai ser um sucesso.
Ela riu, desviando o olhar, meio tímida.
— Eu só quero fazer algo que tenha a minha cara, sabe? Um lugar simples, mas cheio de vida.
Kléber se aproximou, encostando levemente a mão na dela.
— E é por isso que vai dar certo. Porque tudo que você faz... tem verdade.
Joana o olhou por um instante. O silêncio entre os dois foi tomando forma, denso, íntimo. As risadas cessaram, e o ar pareceu se encher de algo novo. Sem pensar, os dois se aproximaram e se beijaram — primeiro com hesitação, depois com entrega.
Mas o instante se quebrou quando uma voz conhecida soou da porta.
— Mas o que é isso mesmo?
Os dois se afastaram bruscamente. Joana levou a mão aos lábios, o rosto tomado por constrangimento.
— Rodrigo! — exclamou, tentando recompor o tom de normalidade. — Eu... eu não te ouvi entrar, filho.
Rodrigo observou a cena por alguns segundos, e para surpresa dela, ele sorriu.
— Tá tudo bem, mãe. Não se preocupe — disse, caminhando até ela. — Sempre desconfiei, vocês dois sempre junto. Agora cuida bem dela, viu Kléber.
Joana o olhou, emocionada, sem saber o que dizer. Kléber sorriu diante da atitude de Rodrigo.
— Quanto a isso você não tem o que se preocupar.
— A gente estava falando sobre o restaurante — explicou Joana, entusiasmada. — Já fechamos contrato com o local e começamos a reforma. Tá ficando lindo, filho.
Rodrigo abriu um sorriso sincero.
— Olha aí, que notícia boa! — respondeu, abraçando-a com carinho. — Parabéns, mãe. No fim nós dois fizemos um bom negócio.
Ela retribuiu o abraço, o coração leve, em ver o apoio do seu filho.
═══🎭✦✧ Casa do Juca ✧✦🎭═══
A mesa estava posta, mas o clima era de silêncio. Ludmila empurrava o arroz no prato com o garfo, distraída, o olhar perdido.
— Que cara é essa, minha filha? — perguntou Juca, observando-a com preocupação.
Ludmila suspirou.
— Pai... você acha que eu sou uma pessoa horrível?
Juca arqueou as sobrancelhas.
— Que isso, Ludmila? Que baixo astral é esse? Você é uma moça incrível — tentou animá-la. — Alegre, espontânea, divertida... O que aconteceu? Esse baixa astral não combina com você.
Ela deu de ombros, mexendo na comida.
— Sei lá. Sempre fui assim, né? De bem com a vida, divertida, sem ligar pro que os outros pensam. Mas ultimamente tô me sentindo sozinha.
— Você e a Carla brigaram, foi?
— Não foi bem uma briga. Depois que ela começou a namorar, parece que esqueceu que eu existo. Agora tudo é Edson. "Não posso sair, tô com o Edson. Não posso falar, tô com o Edson." — falou, imitando a amiga. — Saco!
— E o seu namoro, o que houve?
Ludmila deu uma risada curta, amarga.
— Ah, outro fresco. Me bloqueou em tudo só porque eu traí ele.
— Aí fica difícil te defender, né, minha filha? — disse com um meio sorriso. — Você precisa começar a levar as coisas mais a sério.
Ela o encarou, indignada.
— Pronto, começou. Você também vai pegar no meu pé agora? Ouvi vocês falando, parece até que eu não levo nada a sério!
— E o que você leva a sério, Ludmila? — retrucou ele, olhando sério para a filha. — Me diz. Você nunca se firmou num emprego, nunca respeitou nenhum relacionamento... e, pelo que tô vendo, até a amizade com a Carla tá indo pro brejo.
Ludmila largou o garfo, cruzou os braços e ironizou com cara de choro:
— Nossa, pai, obrigada. Eu já tava me sentindo pra baixo, mas agora você conseguiu me deixar subterrânea.
Juca suspirou, sentindo o peso do que disse.
— Desculpa, minha filha. É que você também...
— Tá bom, pai. Já entendi. — interrompeu ela, levantando-se. — Não quero ouvir mais nada. Vou pro meu quarto. Depois eu arrumo a cozinha.
Ela saiu, pisando firme.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Em seu quarto Rodrigo falava ao telefone enquanto caminhava descalço pelo carpete. Do lado da cama, um copo com uísque pela metade.
— Eu vacilei, Xavier — disse ele, num tom de irritação. — O comprovante do pagamento foi no nome do velho. Em situações como essa, a gente não pode dar esse tipo de vacilo.
A voz de Xavier soou pelo viva-voz, abafada, mas tranquila:
— Também não é tão sério assim. Você já não vai assumir que tá por trás da TexHold?
Rodrigo parou diante da janela. A cidade brilhava lá fora, indiferente. Ele apoiou a mão no vidro e respondeu com firmeza:
— É um nome suspeito que não deveria ter vindo à tona. Mas tudo bem, eu inventei uma desculpa... espero que isso não me traga problemas futuros.
Ele se virou, sentou-se à beira da cama, e passou a mão pelos cabelos, pensativo.
— Agora eu preciso cuidar de outro assunto mais sério. Você conseguiu o remédio que pedi?
Houve um breve silêncio. A resposta veio com hesitação:
— Sim, tá aqui comigo. Rodrigo, vê lá o que você vai fazer... isso aqui pode ser perigoso.
Rodrigo olhou para o copo de uísque, pegou-o e deu um gole lento, mantendo o olhar fixo no nada.
— Já vou passar aí pra pegar. — um leve sorriso curvou o canto de sua boca. — Você não tem que se preocupar com mais nada.
Ele encerrou a ligação, deixou o celular sobre a cama e abriu a gaveta do criado-mudo. Dentro, havia um maço de notas de dinheiro. Rodrigo fitou as notas por alguns segundos, em silêncio.
═══🎭✦✧ Casa do Adolfo ✧✦🎭═══
Adolfo estava sentado na poltrona, o rosto franzido. Aparecida, sentada do braço da poltrona ao lado do pai. Gabriel, de pé diante deles, segurava o documento que Adolfo havia assinado.
— Isso aí só pode tá errado. — resmungou Adolfo, balançando a cabeça. — O seu Antunes era um homem bom. Isso aí deve ser coisa daquele filho dele. Aquele rapaz é bicho ruim.
Gabriel respirou fundo, tentando explicar.
— Seu Adolfo, o Rodrigo também tá por trás de tudo isso. Mas as coisas começaram com o seu Antunes. Com ele e esse frei... que provavelmente não é frei coisíssima nenhuma.
Adolfo olhou para ele, desconfiado, os olhos estreitos.
— Tô aqui começando a desconfiar é de você, viu, Gabriel. Acho que cê tá é acomunado com teu irmão. Tô gostando disso não.
Aparecida se levantou, indignada.
— Isso é um absurdo, meu pai! Como pode dizer uma coisa dessas? O Gabriel só tá querendo ajudar.
Adolfo bufou, nervoso.
— O seu Antunes e o frei Otávio sempre foi tão bonzinhos, ajuda a gente há tanto tempo. Agora esse rapaz vem dizer que sou laranja. Eu não sou nenhuma fruta!
Gabriel deu um passo à frente, com a voz firme, mas serena.
— Seu Adolfo, o senhor tem todo direito de desconfiar de mim. Mas, por favor, me deixa ajudar vocês. Tem muita coisa errada nessa história toda.
Adolfo olhou para ele por um longo instante. Depois murmurou, seco:
— Eu acho que o certo é chamar a polícia e falar que você tá escondido aqui.
O coração de Gabriel disparou. O silêncio se instalou. Aparecida, aflita, se aproximou do pai e colocou a mão sobre o ombro dele.
— A gente não vai falar nada, pai. — pediu ela, suavemente. — Por favor, não complica ainda mais as coisas.
Adolfo a olhou, respirou fundo, mas não respondeu.
Gabriel abaixou os olhos, pensativo. Depois levantou o olhar, decidido:
— Eu preciso de ajuda. Alguém que possa guardar o meu segredo... — fez uma pausa. — E eu já sei quem pode me ajudar.
═══🎭✦✧ Fazenda da Rita ✧✦🎭═══
O farol do carro de Rodrigo cortou a escuridão da estrada de terra, iluminando a varanda da casa de Rita. O motor silenciou. Ele desceu, se ajeitou e pegou uma maleta no banco do passageiro.
A porta se abriu lentamente. Rita apareceu com um olhar cansado e desconfiado.
— Resolveu aparecer? — disse ela, sem disfarçar o tom de ironia. — Agiu com sabedoria.
Rodrigo entrou, a lamparina sobre a mesa lançava sombras que dançavam pelas paredes.
— Eu não tive muita escolha, né? — respondeu ele. — A última coisa que quero é a senhora fazendo escândalos em frente à Mulambo.
— Eu não sou mulher de escândalos, sou mulher de estratégias. E não vem com esse ar de autoritário pra cima de mim, garoto. Porque aqui, quem dá as cartas sou eu.
Ela se virou, foi até o fogão mexer o chá que fervia.
— Espero que essa visita tenha a ver com o que conversamos — disse, sem se virar. — E que nessa maleta que você carrega esteja o meu dinheiro.
Rodrigo colocou a maleta sobre a mesa.
— Aqui está o que me pediu. — abriu a tampa, revelando maços de notas perfeitamente empilhados.
Rita se aproximou com a xícara de chá nas mãos, olhou o dinheiro com desdém.
— Só isso?
— Aqui tem cinquenta mil reais, dona Rita. Um bom começo. Assim que eu me estabelecer melhor na Mulambo, trarei mais.
Ela pousou a xícara na mesa e ergueu a sobrancelha.
— Acho bom mesmo. — Fechou a maleta e a puxou contra o peito. — Nós somos cúmplices, Rodrigo. Mas se eu sonhar que tô sendo passada pra trás... não vou pensar duas vezes antes de acabar com você.
Rita caminhou até o quarto, sumindo no corredor. O olhar de Rodrigo acompanhou-a até o último segundo. Assim que ela desapareceu, ele tirou do bolso uma pequena cápsula. Com movimentos precisos, despejou o conteúdo no chá, mexendo o líquido com o próprio dedo.
Limpou o dedo na toalha da mesa, recostou-se na cadeira e esperou.
Rita voltou com o mesmo ar confiante, mas desta vez sem a maleta.
— E então, como vai o andamento na empresa? — perguntou, pegando a xícara. — Conseguiu virar sócio majoritário?
Rodrigo cruzou as pernas, tranquilo.
— As coisas estão evoluindo. O seu Meireles mordeu a isca.
Rita levou o chá à boca e sorveu um gole.
— Eu criei uma holding falsa, é claro — continuou Rodrigo, com frieza. — E através dela consegui a maioria das ações.
Ela o fitou, com um meio sorriso, antes de tragar outro gole.
— Devo te dar os parabéns... — disse, mas a voz falhou. — Você conseguiu ser mais esperto que... o desgraçado do Antunes.
Rita levou a mão ao peito, o rosto se contorcendo. A xícara caiu, o líquido quente se espalhou sobre a mesa.
— Que isso...? — murmurou entre tosses. — Uma pontada... aqui no peito...
Ela cambaleou, derrubando tudo o que estava sobre a mesa. Rodrigo se levantou, imóvel, observando.
— Foi você... — arfou Rita, tentando afrouxar a gola da blusa. — Você colocou alguma coisa no meu chá... maldito!
Rodrigo não respondeu. Apenas a observou, impassível. Rita caiu, o corpo rígido, os olhos arregalados.
Ele soltou um breve sorriso de canto.
— Gente velha morre tão fácil.
Calmamente, enfiou a mão no bolso, tirou um par de luvas e as calçou. Foi até o quarto; voltou com a maleta debaixo do braço.
Antes de sair, olhou para o corpo estendido no chão. A chama da lamparina tremulava, lançando sombras sobre o rosto sem vida de Rita.
Rodrigo saiu pela porta da frente. Do lado de fora, o som do motor voltou a romper o silêncio da noite.
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