MINHA OUTRA FACE
32 O dono da TexHold
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═══🎭✦✧ Casa do Juca ✧✦🎭═══
Ludmila, de camiseta larga e um coque improvisado no alto da cabeça, ajeitava xícaras e torradas sobre a mesa — algo raríssimo de se ver.
Juca entrou, ainda com a camisa meio aberta e a gravata folgada. Parou na porta, piscou duas vezes, incrédulo.
— O que tá acontecendo? Abduziram minha filha e colocaram um clone no lugar? — brincou.
Ludmila revirou os olhos.
— Nossa, que engraçado. O café já tá pronto. Fiz torradas também, não ficaram boas como as suas, mas dá pra comer.
Juca se aproximou devagar, pondo a mão na testa da filha em fingida preocupação.
— Tá tudo bem? Tá com febre? Tá sentindo alguma coisa?
— Você hoje tá tão engraçadinho, pai. — suspirou. — Não tão todos reclamando? Dizendo que eu não levo nada a sério? Pois pronto: vou terminar meu café e sair atrás de emprego.
— Deus seja louvado! Minha filha, você tem que fazer isso mesmo. Mas não pelos outros — disse Juca com suavidade — é por você mesma.
— Tá certo, tá todo mundo certo. Tô quase com trinta anos e ainda com atitudes de adolescente, né isso?
— É... é bem por aí mesmo. — concordou Juca, terminando de beber o café. — Agora deixa eu ir que já tô atrasado.
Ele saiu apressado, deixando Ludmila sozinha com seus pensamentos. Estava terminando o café quando a campainha tocou.
Ela franziu o cenho.
— Oxe... será que é a Carla? — murmurou, animando-se por um segundo, mas logo descartou a ideia. — Não, a Carla entraria direto, não ia tocar campainha.
Abriu a porta e deu de cara com Talita, parada na varanda com as mãos nos bolsos e um sorriso torto.
— Mas que porra é essa? — disparou Ludmila. — O que tá fazendo aqui, criatura?
— Que recepção calorosa — respondeu Talita, sem se abalar.
— Não se faça de sonsa! Sei muito bem que foi você que contou pro Fabinho que eu traí ele. Agora ele me bloqueou em tudo!
Talita ergueu o queixo, sem culpa.
— Exatamente. Fui eu que contei.
— Cara de pau! — disse Ludmila, indignada. — E o que veio fazer aqui então?
— Te esperei ontem na boate. Você não apareceu. Como eu tava passando por aqui... resolvi ver se você tá bem.
— Já viu. Tô ótima. Agora vaza.
Ludmila empurrou a porta com força, mas Talita segurou, impedindo o fechamento.
— Calma aí, gata! — disse, inclinando a cabeça. — Poxa, Ludmila... só me dá uma chance. Sai hoje comigo?
Ludmila bufou.
— Garota se toca, eu não gosto da fruta. Você ainda não entendeu?
— Tô só te chamando pra sair como amiga — explicou Talita, levantando as mãos num gesto inocente. — Beber, curtir, ficar de boa... que mal tem? Eu já tô sabendo que a Carla também anda te evitando. Aí pensei... Por que não?
Ludmila estreitou os olhos, avaliando a outra.
— Você não desiste, hein?
— Não — respondeu Talita, com um sorrisinho.
— Tá ok, vou pensar. Depois te mando mensagem. Agora... tchau.
Ela finalmente fechou a porta, deixando Talita do lado de fora.
═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══
A sala de reuniões parecia pequena demais para conter a ansiedade de Meireles. Ele batucava os dedos na mesa, ora olhando para a porta, ora para o relógio pendurado na parede.
— Cadê o Rodrigo? Já chegou? — perguntou, impaciente.
Fabinho, sentado ao seu lado, respondeu num suspiro:
— Já sim, pai. Tá na sala dele. Disse que vem a qualquer momento.
Meireles bufou.
— E o pessoal da holding? Até agora nada? Essa gente não sabe respeitar horário, não?
Angelina tocou de leve no braço dele, com voz calma:
— Meu amor, respira. Ainda está no horário... vamos esperar.
Antes que Meireles pudesse responder, a porta se abriu. Rodrigo entrou com um sorriso impecável, acompanhado de Xavier.
— Bom dia a todos! — anunciou Rodrigo, com um entusiasmo.
— Bom dia, Rodrigo — respondeu Meireles. — Dr. Xavier? Não sabia que o senhor participaria.
Xavier cumprimentou com a cabeça.
— Bom dia, seu Meireles. O Rodrigo pediu que eu viesse. Apenas isso.
Rodrigo tomou a palavra antes que alguém pudesse processar.
— O Dr. Xavier é um dos nossos principais investidores. Achei importante a presença dele hoje. E, se me permitem, acho que já podemos dar início à reunião, né?
— Como dá início? — repetiu Meireles, franzindo o cenho. — A reunião é exclusivamente para conhecermos os representantes da TexHold. E até agora não chegou ninguém deles.
Rodrigo sorriu. Um sorriso frio.
— Acontece senhor Meireles, que o representante da TexHold... sou eu.
O silêncio na sala pesou como uma pedra. Rodrigo retirou alguns documentos da pasta e espalhou sobre a mesa, deslizando-os na direção de Meireles.
Angelina piscou algumas vezes, incrédula.
— Que brincadeira é essa, Rodrigo?
— Nenhuma brincadeira. — Rodrigo cruzou os braços, firme. — A partir de hoje, eu sou o dono majoritário das ações da Mulambo Têxtil. Com cinquenta e cinco por cento, passo a ocupar a cadeira da presidência.
Meireles empalideceu. Levou a mão ao peito.
— Isso não tá acontecendo. Acho que eu... eu... — sua voz falhou — acho que não estou muito bem...
Angelina levantou-se num salto.
— Água! Cadê a Talita? Alguém chama a Talita!
— A Talita não chegou — avisou Fabinho, já correndo até a mesa de apoio para pegar um copo. Entregou ao pai, que bebeu com mãos trêmulas — Bebe pai.
Rodrigo inclinou-se ligeiramente na direção dele.
— Está melhor, seu Meireles?
— Como posso tá melhor? — Meireles recuperou um pouco do ar. — Que golpe é esse, Rodrigo?
— Não existe golpe nenhum. — Disse Rodrigo. — Eu prefiro chamar de estratégia de mercado. A empresa nas suas mãos, estava afundando. Eu apenas agi. Vamos ser sincero seu Meireles, olhe os gráficos. Os números estão melhorando.
Angelina fechou os olhos por um segundo, tentando controlar a raiva.
— Então é isso? Aquela história toda da TexHold... tudo não passou de uma armação para você pegar as ações que nos pertencem?
— Pra começo de conversa, ninguém pegou nada de ninguém. — Rodrigo ergueu os documentos. — Tudo foi comprado. De forma justa, dentro de todos os trâmites legais. Está tudo aí, podem ler com calma.
Fabinho, desconcertado, perguntou:
— Espera um pouco, que não tô entendendo. Se a TexHold foi uma armação... O que era tudo aquilo que saiu na internet?
— Se eu for explicar tudo tim por tim, vamos passar o dia todo aqui — cortou Rodrigo, impaciente. — E como novo presidente, eu tenho trabalho. Muito trabalho. Não posso perder tempo.
Rodrigo recolheu os seus papéis, bateu-os levemente na mesa com absoluto controle.
— Agora, por favor, seu Meireles... tenha a bondade de desocupar a sala da presidência. Quero começar imediatamente.
A frase caiu como uma sentença, firme e definitiva. Por um instante, Meireles permaneceu imóvel, encarando Rodrigo como se ainda houvesse tempo de desfazer aquilo, como se tudo não passasse de um mal-entendido cruel.
Mas não havia mal-entendido. Apenas a verdade nua e fria.
Meireles respirou fundo, tentando manter a dignidade que lhe restava.
— Me ajude aqui, Angelina — disse com a voz embargada.
Depois, olhou para Rodrigo, que permanecia impassível, quase entediado:
— Não se preocupe. Em instantes a sua sala será desocupada.
Angelina recolheu os documentos. Aproximou-se da cadeira de rodas e posicionou-se atrás do marido. Fabinho acompanhou em silêncio, o rosto tomado por uma mistura de revolta e impotência.
Antes de cruzar a porta, Meireles ainda olhou por cima do ombro.
Era um olhar que não pedia compaixão — pedia explicação.
═══🎭✦✧ Igreja ✧✦🎭═══
A igreja estava quase vazia, iluminada pelas velas acesas diante do altar. Gabriel estava sentado no meio da nave, olhar voltado para a imagem do crucificado.
Epaminondas entrou, fez o sinal da cruz com devoção e caminhou alguns passos, curioso para ver quem o chamara ali. Quando seus olhos pousaram na figura sentada, estranhou.
— Rodrigo? — chamou, desconfiado, aproximando-se. — Então é você que tá querendo falar comigo?
Gabriel se levantou devagar e virou o rosto. Os olhos marejados brilhavam sob a luz amarelada das velas.
— Sou eu, tio Epaminondas — disse com a voz embargada. — O Gabriel. Eu estou vivo.
Por um instante, Epaminondas ficou paralisado. Depois, as lágrimas brotaram rápidas.
— Meu Divino Pai Eterno... — murmurou, levando as mãos à boca. — Você tá vivo, meu filho!
Ele avançou e envolveu Gabriel num abraço apertado, emocionado, como quem recupera algo que achava perdido para sempre.
— Não tô acreditando nisso! — dizia, soluçando. — Irmã Rosália tá arrasada... Quando souber que você tá vivo... e o pessoal do orfanato... meu Deus do céu...
— Calma, Epaminondas. — Gabriel o segurou pelos braços, firme. — Ninguém pode saber. Ainda não. Eu conto com a sua discrição.
Epaminondas piscou várias vezes, tentando assimilar. E então recuou um passo, olhando-o de alto a baixo.
— Eu... eu já tinha até esquecido. Suas mãos estão sujas de sangue, né? Por isso ainda tá se escondendo. Gabriel, o que você fez?
Gabriel negou imediatamente.
— Não. Não é verdade. Eu não matei o Antunes. — Ele respirou fundo, com raiva contida. — Foi ele... o Rodrigo. Foi ele que também tentou me matar.
Epaminondas arregalou os olhos.
— Mas você mesmo confessou pra irmã Rosália! Pouco antes de fugir com a kombi!
— Não era eu. — Gabriel disse com firmeza, aproximando-se. — O Rodrigo me sequestrou. Me manteve preso por dias. Depois ele tomou o meu lugar. Era ele quem estava no orfanato. Ele se confessou como se fosse eu, para que a culpa caísse sobre mim.
Epaminondas levou a mão ao peito, surpreso.
— Meu Deus... eu bem que desconfiei! Te achei tão estranho nos últimos dias... agora faz sentido!
— Eu vou te contar tudo o que sei — disse Gabriel. — Mas eu preciso muito da sua ajuda. Quero provar minha inocência, tio. E quero fazer o Rodrigo pagar por tudo.
O velho jardineiro respirou fundo, enxugou as lágrimas.
— Você pode contar comigo, meu filho. Pro que der e vier.
═══🎭✦✧ Fazenda de Rita ✧✦🎭═══
O carro de Bira levantou poeira quando parou diante da casa de Rita. Ele desceu, jogou a porta para trás e entrou chamando:
— Vó? Cheguei!
O silêncio era sua resposta. Um silêncio estranho, pesado, que arrepiou sua pele.
Bira deu mais alguns passos — e então viu.
Rita estava estendida no chão da sala, o corpo rígido, a pele já perdendo o calor. A xícara caída ao lado, o líquido derramado formando uma poça escura no chão de cimento.
— Vó! — o grito saiu rasgado.
Ele correu até ela, se ajoelhou, virou o corpo com cuidado. A mão tremeu ao aproximar o rosto, tentando perceber qualquer sopro de vida.
— Pelo amor de Deus, vó... fala comigo. Sou eu, o Ubiratan... reage, por favor...
Nada.
A respiração de Bira começou a falhar. Um nó apertou seu peito. Ele encostou o ouvido no nariz dela, esperando, suplicando por um mínimo sinal.
Silêncio.
— Não... não, isso não pode estar acontecendo... — murmurou, a voz se quebrando. — Eu só tenho a senhora...
As lágrimas começaram a descer, quentes, desesperadas. Ele puxou o celular com mãos trêmulas, discou o número quase sem enxergar a tela.
— Alô? É da SAMU? — A voz saiu trêmula e molhada. — Eu... eu acabei de chegar em casa... achei minha vó caída no chão... ela tá desacordada, eu acho que ela tá morta... por favor... por favor, me ajuda...
Ele respirou fundo, tentando controlar o choro.
— Sim... sim, vou passar o endereço... venham rápido, pelo amor de Deus...
═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══
Daiana estava sentada no sofá, rolando a tela do celular olhando algumas de suas fotos, quando ouviu a porta se abrir. Levantou o olhar no exato momento em que Angelina entrou, empurrando a cadeira de rodas de Meireles. O semblante dos dois denunciava que algo havia dado errado.
— Ué... vocês já chegaram? — estranhou Daiana, deixando o celular ao lado.
Angelina soltou o ar num suspiro pesado.
— O seu pai não está se sentindo muito bem. Preferimos voltar pra casa. O Fabinho ficou lá resolvendo o restante das coisas na Mulambo.
Daiana se levantou imediatamente e se aproximou.
— O que o senhor tá sentindo, paizinho?
Meireles ergueu os olhos, vermelhos, marejados de indignação.
— Decepcionado. Frustrado. Contrariado... — Ele respirou fundo, mas a voz saiu embargada. — Fui traído, minha filha. O pai começou o golpe e o filho finalizou.
— Do que o senhor tá falando? — Daiana franziu o cenho. — Hoje não era o dia em que a TexHold ia assumir parte das ações da Mulambo?
Angelina se sentou no sofá, exausta, como se tivesse levado uma surra emocional.
— A TexHold era uma armação do Rodrigo. Ele estava por trás de tudo. Agora ele é o sócio majoritário... e seu pai ficou com a menor parte.
Daiana balançou a cabeça devagar, como se confirmasse algo que já intuía.
— Impressionante. Esse cara não cansa de me surpreender. Logo eu vi que tinha coisa errada. O Rodrigo nunca abriria mão das ações dele assim... tão fácil.
Angelina apoiou as mãos no rosto por um instante, antes de desabafar:
— E pensar que fui eu quem mais defendeu o Rodrigo aqui dentro. Me sinto uma completa idiota.
Meireles cerrou os punhos sobre os apoios da cadeira.
— Mas esse moleque não vai ficar com a minha empresa. Vou recorrer. Vou conversar com meus advogados, e ver o que posso fazer. A Mulambo Têxtil sempre teve um presidente: eu. Só saio daquela cadeira quando for para um dos meus filhos sentar nela.
Angelina assentiu, segurando a mão dele.
— Você tem razão, meu amor. Estamos decepcionados agora, mas isso vai mudar. Nós vamos reverter essa situação.
Daiana, inquieta demais para continuar parada, pegou a bolsa de repente.
— Preciso ir ali — avisou já caminhando para a porta.
— Filha, aonde você vai? — Angelina se levantou meio alarmada. — Daiana, não vai fazer besteira!
A porta se fechou antes que qualquer resposta pudesse vir.
═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══
O relógio na parede marcava quase quatro horas da tarde quando Will abriu a porta da sala de interrogatório, segurando uma pasta azul com o relatório da perícia.
Bira, ainda com a roupa suja de terra da fazenda, estava sentado à mesa. Os olhos vermelhos denunciavam horas de choro.
Will se sentou à frente dele, cruzando as mãos sobre a mesa.
— Ubiratan... antes de qualquer coisa, meus sentimentos pela sua avó — disse num tom menos duro do que o habitual.
Bira respirou fundo.
— Obrigado, delegado... Ainda não tô acreditando. A minha vó era forte demais pra cair assim... do nada.
— A gente entende seu choque — disse Will. — Mas precisamos esclarecer algumas coisas. Você encontrou o corpo por volta de que horas mesmo?
— Eram... umas dez horas, eu acho. Cheguei, chamei ela, mas ninguém respondeu. A porta da sala tava aberta... Quando entrei, já tava caída no chão. — A voz dele vacilou. — Eu tentei levantar... tentei chamar... mas ela já tava fria.
— Notou algo estranho na casa? Algo fora do lugar?
Bira pensou por um instante, enxugando o nariz.
— Não... tava tudo normal. Só a xícara dela caída. Minha vó não vivia sem chá.
Will finalmente abriu a pasta, retirando algumas folhas, mas mantendo-as viradas pra ele.
— Ubiratan... recebemos o laudo preliminar da perícia — disse, pousando o papel na mesa. — E, de acordo com o diagnóstico, sua avó sofreu um ataque cardíaco fulminante.
Bira olhou de lado, como se não tivesse escutado direito.
— Ataque cardíaco?
— Sim — confirmou Will. — Não foram encontrados sinais de agressão, queda, luta... nada que indique violência.
— Mas ela nunca teve problema no coração! — protestou Bira, a voz embargada. — Minha avó era forte... mexia com tudo na fazenda.
— Ataques assim podem acontecer sem aviso. O laudo indica parada cardíaca. E os exames preliminares descartam envenenamento, intoxicação ou qualquer outra causa externa.
Bira passou a mão no rosto, tremendo levemente.
— E quanto ao enterro? A liberação do corpo demora?
Will organizou as folhas à sua frente, falando com calma:
— Como não há sinais de crime, o processo é mais rápido. O laudo final leva alguns dias, mas o corpo deve ser liberado hoje à noite ou amanhã cedo. Assim que o IML confirmar, você será avisado.
Bira assentiu, tentando manter a compostura.
— Obrigado... Eu só quero fazer tudo certinho. Dá um enterro digno pra ela. Eu posso ir pra casa agora?
— Claro — disse Will, levantando.
Ele se aproximou, pousando uma mão firme no ombro do rapaz — um gesto raro, mas sincero.
— E, mais uma vez... meus sentimentos.
Silêncio. Bira apenas balançou a cabeça, derrotado pela dor, e saiu lentamente. A porta fechou-se.
Will soltou o ar preso no peito, cruzando os braços.
— "Ataque cardíaco fulminante", hein? — murmurou pra si mesmo.
Olhou para o relatório, sua expressão ficando pesada.
— Fulminante demais pro meu gosto.
═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══
Rodrigo estava sentado na cadeira da presidência, girando levemente de um lado para o outro como quem saboreia a própria vitória.
À sua frente, Xavier observava de braços cruzados, preocupado.
— Olha bem, Xavier. — Rodrigo abriu os braços, como se estivesse apresentando um trono. — Vê como eu fico bem nessa cadeira? Eu agora sou o presidente da Mulambo. E daqui ninguém me tira.
Xavier respirou fundo.
— Se eu fosse você, ficaria mais esperto. Seu Meireles não engoliu isso tão fácil. Ele vai recorrer. E aí... seu castelo de areia pode desmoronar.
Rodrigo riu com desdém.
— Nada aqui vai desmoronar. Se alguém vai cair, é ele. Sabe por quê? Porque eu não quero ser só majoritário... eu quero ser o dono absoluto. Vou tirar o Meireles daqui a pontapés.
Xavier ergueu uma sobrancelha.
— Quem avisa amigo é. Você tá se complicando demais, Rodrigo. Tem hora que você troca os pés pelas mãos. Por exemplo: o que você aprontou ontem.
Rodrigo gelou por um segundo, mas disfarçou.
— Cala a boca. Esse assunto morreu. Aquele remédio não deixa vestígio. Eu fiz o que era melhor. Aquela bruxa ia aprontar uma pra mim... me antecipei.
Antes que Xavier respondesse, a porta foi aberta com força. Daiana entrou ofegante, furiosa.
— O que significa isso? — gritou. — O que você tá armando, Rodrigo?
Rodrigo ergueu as mãos, tentando manter a postura.
— Calma, Daiana... vamos manter a compostura aqui.
— Eu não tenho compostura com gente baixa como você! — rebateu ela, indo em direção à mesa. — Inventou uma holding só pra roubar o meu pai, é isso?
— Eu não roubei ninguém. Eu comprei as ações do seu pai pelo bem da nossa empresa — disse Rodrigo, virando o monitor para ela. — Olha aqui os gráficos, você vai entender.
— Eu não vou olhar nada! — Daiana cuspiu as palavras. — Eu tenho nojo de gente asquerosa como você.
Ela deu meia-volta e seguiu para a porta. Rodrigo foi atrás, tocando no braço dela.
— Daiana, escuta...
Ela se virou num movimento rápido e estalou um tapa no rosto dele.
— Não toque em mim, canalha!
O silêncio que se seguiu foi pesado como chumbo. Xavier arregalou os olhos. Rodrigo ficou parado, a mão no rosto.
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