MINHA OUTRA FACE

22 O que esconde, Gabriel?


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═══🎭✦✧ Ainda na delegacia... ✧✦🎭═══

Epaminondas permanecia em pé diante da mesa do delegado Will. Tony, atento, observava da mesa ao lado, mas em silêncio. Will ergueu o olhar, sua voz firme e direta:

— Seu Epaminondas, faz o favor de se sentar. Me conte melhor sobre isso.

Com um leve aceno, Epaminondas se acomodou na cadeira, soltando um suspiro antes de começar.

— Um dia... o Gabriel entrou no meu barraco — começou, lentamente. — Nem percebi. Eu tava no meu quarto, mexendo numa maleta antiga que era do meu irmão. Nela, ele guardava lembranças, bilhetes, fotos... coisas entre ele e a Joana.

Will e Tony trocaram um olhar discreto.

— Naquela época, o Gabriel já tava obcecado, querendo saber mais sobre a família biológica dele. Tinha investigado tudo que podia, mas ainda sabia pouco... não tinha nomes, não tinha rostos, só perguntas. Eu fui pego de surpresa. A maleta tava aberta em cima da cama quando ele apareceu. Ainda tentei esconder, disfarçar... mas vi que não adiantava. Ele já tinha visto demais. Então, resolvi contar tudo.

— Tudo o quê exatamente? — perguntou Will, atento.

— Contei tudo, toda a história de como aconteceu. Inclusive sobre nosso parentesco. Que sou tio dele.

Will se inclinou para frente.

— Isso aconteceu exatamente quando?

— Já faz uns dois anos. No fim, eu acabei presenteando ele com a maleta. Ele guardou aquilo como se fosse uma relíquia. Me fez prometer que eu não contaria pra ninguém. E assim fiz. Até a pouco tempo... ninguém no orfanato sabia de nada.

— E por que só agora o senhor resolveu contar isso?

Epaminondas abaixou os olhos.

— Porque eu tô preocupado, doutor. A maleta sumiu de onde ele guardava. Segundo o Gabriel, foi parar nas mãos do irmão dele. Desde então, ele anda nervoso, inquieto, desesperado... de um jeito muito suspeito.

Ele levantou o olhar, sério.

— Eu não queria dizer isso, mas... acredito sim que o Gabriel tem alguma coisa a ver com tudo o que aconteceu. Alguma coisa ele tá escondendo.

Will respirou fundo, recostando-se na cadeira.

— Ouviu tudo isso, Tony?

— Ouvi sim.

— Me chame o escrivão — continuou Will. — Seu Epaminondas, eu quero que o senhor me conte direitinho... tintim por tintim.


═══🎭✦✧ No boteco em frente ao orfanato ✧✦🎭═══

Soraia girava o copo de cerveja entre os dedos, impaciente. Sentada ao lado de Bira, seus olhos vagueavam pela rua, enquanto a maleta repousava ao seu lado.

— Pelo jeito o Gabriel ainda vai demorar. — murmurou, sem esconder o tédio. — Pague aí a cerveja. Tô indo nessa.

Antes que ela se levantasse completamente, Bira arregalou os olhos.

— Olha ele bem ali! — exclamou, empurrando a cadeira para trás com pressa. — Dodô, pendura aí! Depois eu acerto!

Soraia se virou e viu Gabriel atravessando a rua com passos apressados e expressão tensa. Assim que percebeu os dois, parou.

— O que vocês estão fazendo aqui? — disparou, o olhar já cravado na maleta nas mãos de Soraia.

— Olha pra mão dela — provocou Bira.

Gabriel arregalou os olhos, avançou sem pensar duas vezes, arrancando a maleta das mãos de Soraia.

— Como você pegou isso aqui?

— De nada. — disse Soraia, com ironia. — Eu disse que conseguiria a maleta de volta. Aí está.

Gabriel apertou o objeto contra o peito, o rosto fechado numa expressão difícil de decifrar.

— Pra começo de conversa, você não devia nem ter tocado nisso. — disse, com a voz densa.

— Calma, rapaz — interferiu Bira, tentando amenizar. — A garota tá do nosso lado.

— Que lado, Bira? — Gabriel se virou para ele, os olhos faiscando. — Eu tô do lado da verdade. Da justiça. Eu sou inocente!

— Sério que vai continuar negando? — Soraia cruzou os braços, encarando-o. — Gabriel, a faca e o queijo estão nas suas mãos. Tá tudo aí pra colocar o Rodrigo atrás das grades. Ele comentou, uma vez, que pelas investigações da polícia, foi usada a própria arma do Antunes para matá-lo. E eu sei bem que você sabe onde essa arma está. Acredito que nunca chegou a tocar nela, não é? Você não seria burro a esse ponto. O que você precisa fazer é simples: dê um jeito de imprimir as digitais do Rodrigo na arma, e depois faz uma ligação anônima pra polícia. Pronto.

Bira assentiu, quase empolgado.

— Sacou, né? Acompanhou direitinho? A gata tem visão, meu brother. Não é uma má ideia...

— Cola comigo — insistiu Soraia, a voz aveludada e provocativa. — Você só tem a ganhar.

Gabriel apenas balançou a cabeça, com um sorriso amargo.

— Já disse que sou inocente. Vai embora os dois. Depois a gente vai ter uma conversinha séria, viu Bira? — disse num tom mais duro que o habitual.

Ele virou-se e entrou no orfanato sem olhar para trás. O portão bateu com força.

Soraia ficou ali, parada, os olhos fixos na entrada.

— Ele pode enganar todo mundo... — disse ela, baixinho. — Mas a mim, não engana mais. Eu não tenho mais dúvidas. Foi ele. Foi o Gabriel quem matou o Antunes.


═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══

Angelina estava sentada no sofá lateral, na sala do Meireles, o celular em mãos. O rosto sério se contraiu em incredulidade.

— Não acredito nisso... — murmurou, os olhos vidrados na tela.

Fabinho, de pé ao lado da mesa, virou-se rapidamente.

— O que foi, mãe?

Ela demorou um segundo. Depois, ergueu o olhar, já tomada por uma inquietação crescente.

— A Joana... me mandou uma mensagem aqui agora. Disse que desistiu de vender as ações para o seu pai.

Fabinho franziu a testa.

— Como assim, já não estava certo?

— Ela preferiu vender para o Rodrigo. Ou seja... os trinta por cento continuam com a família Antunes.

Fabinho soltou um palavrão abafado, passando a mão nos cabelos.

— Caralho! O meu pai vai surtar. Ele estava apostando tudo nisso. Já tava tratando como certo!

Angelina levantou-se. Andou alguns passos pela sala, inquieta.

— E o pior é que eu não entendo por que a Joana fez isso. Ela estava decidida, firme. Seu pai ofereceu uma proposta excelente, muito acima do mercado. Queria resolver isso logo...

— Ah, mas o Rodrigo deve ter feito a cabeça dela, né mãe.

Angelina olhou para o filho, com o semblante sombrio.

— Espero não termos problema com o Rodrigo, como tivemos com o Antunes.


═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══

Joana chegou em casa acompanhada de Kléber. Em seu rosto, havia um misto de incerteza e arrependimento.

— Dona Angelina não gostou nem um pouco de saber que vendi as minhas ações para o Rodrigo — disse ela, depositando a bolsa sobre o sofá da sala. — Já tinha confirmado com eles, Kléber... Me senti um pouco traíra.

Kléber se aproximou com calma.

— O Rodrigo também era herdeiro do Antunes, — ponderou — você não foi traíra, só deu preferência pra isso. No momento foi o certo a fazer.

Joana sentou-se no sofá com um suspiro cansado.

— Não sei se fiz bem em vender essas ações para o Rodrigo... — murmurou — Ele anda tão obcecado com essa Mulambo que, às vezes, fala como se fosse o próprio Antunes... Isso me dá medo.

— Procure se preocupar com isso não, Joana, — disse Kléber, sentando-se ao lado dela. — No fim das contas, o Rodrigo fez um bom negócio. Usou a parte dele dos investimentos herdados pra comprar sua parte das ações e ainda garantiu a parte da casa. E você... Você agora tem o recurso pra realizar seu sonho. Com esse dinheiro, pode montar o seu restaurante.

Joana abriu um leve sorriso, tocada pela lembrança de um antigo desejo.

— Eu queria tanto ter os meus filhos trabalhando comigo nesse negócio. Um sonho que, pelo jeito, tá difícil de realizar. Ainda mais com todo esse julgamento em cima deles.

— Seus filhos são adultos, Joana. Já sabem se cuidar. E você não está sozinha. Pode contar comigo — Kléber tomou o celular do bolso e o desbloqueou com rapidez. — Olha só... já andei pesquisando alguns lugares que seriam excelentes pra montar seu restaurante. Esse aqui, por exemplo, fica numa rua movimentada, com boa visibilidade, e o aluguel é bem em conta. Olha essa fachada...

Ele virou o celular para ela.

— Dá pra imaginar uma placa com o nome "Casa da Mãe Joana" bem aqui em cima, não dá?

Joana arregalou os olhos, surpresa, e soltou uma risadinha sincera.

Casa da Mãe Joana? Você já tá até batizando o meu restaurante, é?

— Claro! — respondeu ele, sorrindo. — Nome é tudo. E pensa bem... casa de mãe é lugar de acolhimento, de comida quente, de abraço apertado. Sempre cabe mais um. E quem entra, nunca mais quer ir embora.

Joana ficou em silêncio. O celular ainda nas mãos, seus olhos passearam pela imagem da fachada.

— Ual... gostei muito. — disse com a voz embargada.

Ela baixou os olhos, emocionada. Depois olhou para Kléber, com uma gratidão contida.

— Você sempre fala as coisas certas... — murmurou. — Tem esse dom, sabia? De fazer a gente acreditar nos próprios sonhos. Mas isso me assusta.

— Por quê? — perguntou ele, suave.

Ela hesitou, tentando encontrar as palavras.

— Ser feliz de novo. — respondeu, por fim. — Vivi reclusa durante anos, sem vontade própria... agora, com tudo isso acontecendo, a felicidade me assusta. Parece um salto alto demais.

Kléber tocou levemente o braço dela.

— Vai no seu tempo. Do seu jeito. No seu ritmo. Nada precisa ser atropelado agora. E eu vou estar sempre aqui, do seu lado. Te aguardando... e te resguardando.

Joana se comoveu. Seus olhos abaixaram, tomados por um pudor doce, como quem se sentia descoberta demais.

— Eu... Eu... — gaguejou, fugindo do olhar dele — vou ali ver como ficou o serviço da Milena. Ela lavou a área externa hoje, preciso conferir antes que escureça.


═══🎭✦✧ A noite na boate Eclipse ✧✦🎭═══

Ludmila e Carla estavam acomodadas em banquetas altas, encostadas no balcão do botequim. Ludmila virou o restante do chopp de uma vez, limpando os lábios com as costas da mão.

— Outro, Cezinha! — pediu, batendo levemente o copo vazio no balcão.

Carla a observou de soslaio, franzindo a testa com desaprovação.

— Vai com calma, piranha... — disse num tom de advertência. — Acho que você já bebeu foi demais.

Ludmila soltou uma risada.

— Me erra, Carla. Eu bebo é pra ficar ruim. Se fosse pra ficar boa, tomava era remédio.

Antes que Ludmila conseguisse alcançar o próximo copo, Carla o afastou com um movimento rápido.

— Para com isso. Você dá suas vaciladas e depois fica aí, se martirizando.

Ludmila se recostou no encosto da banqueta, o olhar perdido.

— Ele nem se quer veio falar comigo... — disse, engolindo seco. — Simplesmente acreditou no que falaram pra ele. Cadê esse viado agora? Era pra ele tá aqui... comigo.

Carla suspirou, com a paciência se esgotando.

— E por acaso o que falaram pra ele é mentira?

— Não sei... — murmurou. — Eu não sei o que foi que disseram. Mas queria saber quem foi o linguarudo... juro que eu torcia o pescoço igual galinha. — Estendeu a mão. — E você me devolve o meu chopp!

Antes que Carla dissesse qualquer coisa, Ludmila já tinha recuperado o copo.

— Eu não vou falar é mais nada — desistiu Carla, se levantando. — Vou lá ver onde tá o Edson.

Assim que Carla sumiu entre as pessoas, Talita se aproximou com um sorriso atrevido.

— E aí, gatinha? — disse com um sorriso torto.

Ludmila suspirou e rolou os olhos.

— Pronto. Chegou quem estava faltando.

— Sempre dando uma de difícil — Talita provocou, chegando mais perto, sua voz abaixando de tom, a boca próxima demais. — Quanto mais difícil você se torna, mais encantada eu fico.

— Eu tô namorando, sabia? — respondeu Ludmila.

— O Fabinho? — Talita deu uma risadinha debochada. — Acho bem difícil ele querer continuar contigo depois de saber que você agarrou outro atrás da boate. Vacilo em gata, eu aqui todinha pra você.

Ludmila paralisou por um segundo.

— Então foi você, né? Sua ordinária... Claro, você trabalha junto com ele.

— Eu, o quê?

Sem pensar duas vezes, pegou o copo de chopp e despejou seu conteúdo gelado diretamente na cabeça de Talita.

— Esse, Cezinha — disse Ludmila, encarando o barman — você põe na conta dela. Dessa pilantra!

Virou as costas e saiu enfurecida, enquanto Talita ficava ali, molhada, ridicularizada e sem reação.


═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

Gabriel andava de um lado para o outro no quarto, falando no celular.

— Não gostei nem um pouco dessa sua aproximação com a Soraia — disse, em voz baixa e firme. — Qual é o rolo, Bira?

A voz de Bira soou do outro lado da linha, despreocupado.

— Relaxa, rapaz... tá tudo sob controle. Não sei por que essa preocupação toda. Mas vem cá, e sobre aquilo que você me mandou no WhatsApp, o seu Epaminondas foi mesmo lá na delegacia?

— Foi. Aparentemente contou tudo o que sabia, inclusive sobre a maleta. Escuta, Bira... a gente vai fazer exatamente o que a Soraia sugeriu.

— Como assim, cara? Agora me perdi. — Disse Bira, agora menos seguro.

— Vou te passar todas as coordenadas por mensagem. Na hora certa, você age. Hoje eu não posso sair daqui, mas amanhã...

Gabriel parou lentamente diante do espelho, encarando seu próprio reflexo.

— Amanhã a gente resolve isso de vez. Já passou da hora de colocar o meu irmãozinho em seu devido lugar.


═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══

Na manhã seguinte, Daiana estava em seu quarto, sentada no cama com o celular nas mãos. O toque do WhatsApp soou e ela viu que era um áudio de Rodrigo. Apertou o play:

🔊— "Não tem como, linda... A Soraia veio aqui, roubou a maleta e levou direto pro Gabriel."

Daiana arregalou os olhos, incrédula.

— Isso é um absurdo! — disse em voz alta, digitando a resposta. "Essa garota não tem limite e nem vergonha na cara, não?"

Ficou olhando pensativa por alguns segundos, processando a informação, e então escreveu outra mensagem:

"Rodrigo, como é que a Soraia conseguiu pegar essa maleta no orfanato?"

A resposta não demorou:

🔊— "É uma longa história. Ela inventou um pseudônimo... Depois eu te explico melhor, meu amor. Agora tô meio enrolado aqui".

Daiana deixou o celular de lado, estralando as pontas dos dedos, enquanto pensava. Até que uma ficha caiu. Murmurou, com um amargo sorriso de quem finalmente conecta as peças:

— Claro... agora tô entendendo tudo. A tal da Maria era a vaca da Soraia. Logo vi... só poderia ser uma pessoa baixa nesse nível pra estragar o desfile.


═══🎭✦✧ Casa do Juca ✧✦🎭═══

Na cozinha, Juca terminava de coar o café, quando Ludmila apareceu, de ressaca.

— Minha cabeça tá explodindo! — resmungou, se jogando numa cadeira.

Juca lançou-lhe um olhar de lado, sem parar de mexer o café.

— Você andou bebendo, né, minha filha? E pelo jeito exagerou.

— Eu bebi só um pouquinho, pai... — respondeu ela com a voz arrastada. — Mas no fim... tomei uma tequila que, sinceramente, devia tá vencida. Não tem condição, não.

Carla entrou pela porta dos fundos como um furacão, animada como sempre.

— Bom dia, piranha! Bom dia, seu Juca!

— Bom dia, Carla! — respondeu ele, sorrindo.

— Fala mais baixo, criatura! — reclamou Ludmila, tapando os ouvidos. — Minha cabeça tá querendo explodir.

Carla riu e foi direto à garrafa de café. Serviu-se sem cerimônia, puxou uma cadeira e pegou duas torradas da travessa.

— Também, com o tanto que você bebeu... — retrucou Carla.

— Eu nem bebi tanto assim. Foi aquela tequila amaldiçoada.

Juca se aproximou com uma xícara na mão.

— Bebe um pouco de café, isso ajuda na ressaca.

Ludmila deu um gole, fez careta e soltou:

— Esse café tá amargo.

— Amargo e forte, do jeito que cura ressaca — disse Juca, com um meio sorriso.

— Muito feio o que você fez ontem, viu?

— Do que você tá falando, puta? — perguntou, até que a lembrança veio como um estalo. — Ah, tá! Da sua amiguinha... que levou banho de cerveja? Pilantra insuportável.

— A coitada tinha acabado de chegar, teve que ir embora. Você encharcou a roupa da garota!

Juca arregalou os olhos, surpreso.

— Você não fez isso, Ludmila?

Ela deu de ombros, emburrada.

— A garota não tem um pingo de respeito por mim. Comportamento abusivo, pior que homem. E ainda foi ela quem abriu a boca pro Fabinho. Descobri tudo.

Carla bufou, terminando de comer uma torrada e virando o café na boca.

— Não aguento mais essa sua ladainha sobre o Fabinho. Vou é trabalhar que ganho mais.

Juca terminou o café num gole só e pegou as chaves do carro.

— Humm! Espera aí que eu te dou carona.

Os dois se despediram às pressas e saíram pela porta.

— Bom trabalho pra vocês — desejou Ludmila.


═══🎭✦✧ Casa da Diná ✧✦🎭═══

Diná estava parada diante do fogão, o olhar perdido em pensamentos. Foi despertada de seu transe quando o leite, já em ebulição, transbordou, sibilando ao tocar o ferro quente.

— Ah, meu Deus, que bagunça! — exclamou, afastando a panela com pressa. — Agora vou ter que limpar tudo isso...

Nesse instante, Charles entrou na cozinha.

— O que foi, mulher? — perguntou, preocupado.

— Coloquei o leite no fogo e fiquei aqui, voando... acabei deixando passar. Derramou tudo.

Ele se aproximou, pegou um pano e começou a ajudar na limpeza.

— Deixa que eu te ajudo. Você tá bem?

Diná suspirou fundo. Seus olhos pareciam marejados, mas ela ainda resistia.

— Não. Meu coração tá apertado, Charles. Uma angústia estranha, como se eu estivesse pressentindo que algo muito ruim está prestes a acontecer.

Charles continuou limpando o fogão, mas parou por um instante para encará-la.

— Você tá assim por causa das besteiras que a Soraia anda aprontando, né? Falando nisso... onde é que ela tá? Devia estar aqui te ajudando.

— Levantou cedo. Você ainda dormia. Quando fui ao banheiro, ela já tinha saído.

— Devia ter me acordado. Eu teria entendido direitinho pra onde ela tava indo.

— Foi exatamente por isso que não te acordei. Você só ia piorar as coisas. E, Charles... — fez uma pausa longa — meu medo é que ela tenha sido cúmplice do Rodrigo nesse crime que ele cometeu.

— Não fala besteira, meu amor. — respondeu, tentando soar tranquilo. — A Soraia não seria louca de fazer uma coisa dessas.

— Seja sincero comigo. Você acha mesmo que ela não seria capaz?

Charles hesitou por um segundo.

— Prefiro acreditar que não. Isso seria demais.

— Eu já não sei mais do que minha filha é capaz. Ela é facilmente influenciada. Vive nesse mundo de ilusões, cega de paixão por esse Rodrigo.


═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

O refeitório estava tomado pelo burburinho das crianças, que corriam entre as mesas, sem dar ouvidos aos chamados da irmã Tereza.

— Todo mundo sentado! — ela exclamou, com voz firme. — Senão vou pedir pra irmã Marlúcia guardar o café da manhã e ninguém come!

— E a gente vai ficar sem comer, irmã? — perguntou Pedrinho, arregalando os olhos.

— Vão sim! — respondeu ela, implacável. — Porque não estão se comportando como filhos de Deus!

— Duvido! — retrucou Rafa, num tom de desafio infantil.

— Duvida, né, Rafinha? — Irmã Tereza o encarou e levou o apito à boca. — Silêncio... e sentido!

Imediatamente, todas as crianças ficaram em posição, alinhadas e caladas.

— Assim que eu gosto. — disse ela, baixando o tom. — Agora todos com as mãos juntas e cabeças baixas. Vamos agradecer.

As crianças obedeceram, e irmã Tereza conduziu a oração:

— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo... Amém.

Todos responderam em coro:

— Amém!

— Senhor Jesus, nós vos agradecemos pelo pão de cada dia, por este novo amanhecer e pela nossa grande família do Lar São Tarcísio. Abençoai nossos corações, nosso alimento e todas as pessoas que cuidam de nós. Amém.

— Amém.

— Agora sim, irmã Marlúcia. Pode servir. — disse irmã Tereza, sorrindo.

Enquanto os primeiros pães começavam a ser distribuídos, Gabriel cruzou o salão apressado, mochila nas costas, tentando passar despercebido.

— Gabriel? — chamou irmã Rosália. — Aonde vai com tanta pressa, meu filho? Nem tomou o café... E essa mochila?

— Tô levando meu notebook pra consertar, irmã. — respondeu ele. — Tô sem fome. Depois eu como alguma coisa... É rapidinho, já volto.

Antes que irmã Rosália pudesse insistir, ele já havia atravessado o corredor. Irmã Tereza se aproximou devagar.

— Pra onde ele foi, irmã?

— Disse que ia arrumar o notebook. — Irmã Rosália respondeu, com o semblante carregado de preocupação. — Sabe o que tá parecendo irmã Tereza? É que o cerco tá se fechando, e ele tá começando a entrar em desespero.

Do lado de fora do orfanato, Gabriel saiu apressado pelo portão, ajustando a mochila nos ombros e olhando discretamente para os lados.

Um carro preto, encostou no meio-fio. Bira estava ao volante. Sem dizer uma palavra, Gabriel abriu a porta do passageiro e entrou. O veículo arrancou suavemente.

A poucos metros dali, meio oculta atrás de uma banca desativada, Soraia observava a cena com atenção.

— Gabriel e esse sujeito de novo? — murmurou para si mesma. — Isso tudo tá muito estranho. Fiz bem em vir ficar de sentinela aqui. Eles tão aprontando alguma.

Ergueu o braço e acenou com impaciência para o primeiro táxi que passou.

— Táxi!

Entrou apressada, sem tirar os olhos da direção para onde o carro desaparecera.

— Segue aquele carro preto, rápido. Mas sem chamar atenção.

O táxi arrancou, levando Soraia pela trilha incerta dos segredos que começavam a se desenrolar.

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