MINHA OUTRA FACE
9 O outro lado
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═══🎭✦✧ Ainda noLar São Tarcísio... ✧✦🎭═══
Soraia, visivelmente assustada, tentava disfarçar, com um sorriso nervoso.
— Oi! Eu sou a Maria. — Soraia improvisou, com a voz ligeiramente trêmula. — Tô indo pro refeitório. As irmãs vão servir o café da manhã pras crianças.
Epaminondas desconfiado, mantinha seu olhar fixo nela.
— Quem para perto demais de portas fechadas pode acabar abrindo janelas para problemas maiores. O refeitório fica mais adiante, moça. — disse ele, com a voz grave e tom sério.
Soraia engoliu seco, ajeitando o cabelo de forma inquieta.
— Sim... claro — respondeu, com um riso forçado, dando um passo hesitante para trás. — Com licença!
Soraia lançou um último olhar para a porta de Gabriel antes de se afastar, tentando parecer indiferente, mas claramente abalada. Epaminondas ficou parado, acompanhando-a com o olhar até que ela desaparecesse no final do corredor.
═══🎭✦✧ Casa do Juca ✧✦🎭═══
Em sua casa, Ludmila estava deitada no sofá com o celular na mão, mexendo freneticamente enquanto falava com Carla ao telefone.
— Estava online, Carla. Online o tempo todo e não me mandou uma mensagem. — Reclamou, irritada.
Já Carla, se encontrava no saguão da delegacia, respondia com tom divertido, usando fones de ouvidos sem fio, enquanto digitava no computador.
— Amiga, releva. Depois do que aconteceu ontem, né? Por que você não manda um 'oi' pra ele?
— Você acha que eu vou ficar correndo atrás de homem, minha filha? Nunca foi preciso. Era só o que me faltava agora.
— Pega leve. Dessa vez, ele merece uma exceção. Você não vai correr atrás, vai só se desculpar pelo que aconteceu. — ponderou Carla.
— Acontece que eu já me desculpei, e ele já aceitou as minhas desculpas. Agora o quê? Vai ficar fazendo cu doce? E a culpa de tudo isso é sua. — Disse Ludmila, exaltada.
— Oxe! Minha porquê? — riu Carla, sem parar de digitar.
— Porque você sabia que eu estava no cinema. Tinha que me ligar?
— Sim, eu sabia que você estava no cinema. Mas eu iria imaginar que cê iria assistir a um filme de três horas?
Ludmila jogou a cabeça pra trás, frustrada, bufando alto.
— Que ódio! Por que ele não me manda mensagem? É bem capaz de tá lá agora conversando com alguma piranha. Será, Carla? E se ele for casado e eu sou a amante? Já pensou nisso?
Do outro lado, Carla lançou um olhar impaciente para o relógio de parede.
— Para de show, né piranha? Preciso desligar. Isso aqui tá uma loucura, tenho que voltar ao trabalho.
— Viado! Vai ver ele é viado, né? — gritou Ludmila.
— Ai Ludmila, tem hora que não te aguento, viu? Deixa eu trabalhar, depois a gente se fala. Tchau!
Carla desligou, deixando Ludmila olhando para o celular.
— Olha só... continua online. E nada de me mandar mensagem — murmurou com desprezo.
Ela jogou o celular ao lado, cruzando os braços com irritação.
═══🎭✦✧ Conzinha do Meireles ✧✦🎭═══
Diná mexia nas panelas sobre o fogão, com Maristela ao seu lado ajudando a organizar os ingredientes. Charles, encostado no balcão, observava o movimento com preocupação.
— E Soraia não lhe deu nenhuma notícia? — Perguntou ele.
Diná respondeu desanimada, sem nem tirar os olhos da panela.
— E você acha que ela lembra que tem mãe, que tem pai? Não liga, não manda uma mensagem pra dizer que chegou bem da viagem. Aliás, viajou pra onde mesmo que ninguém aqui sabe?
— Vou ter uma conversa séria com essa menina. Desse jeito não dá pra ficar não.
Diná lançou um olhar rápido para Maristela.
— Maristela, dê uma olhada nessas panelas aqui, por favor.
Diná segurou o braço de Charles, levando-o para fora da cozinha, rumo a um canto mais reservado.
— Sabe qual é o meu medo, Charles? Ela tá envolvida em alguma coisa errada com esse Rodrigo. — Diná falou em um sussurro aflito:
— Mas que tipo de coisa errada seria?
— Meu amor, a Soraia desde pequena sempre teve inveja da Daiana. Tinha inveja até dos brinquedos que a outra tinha. Meu medo é essa obsessão dela pelo Rodrigo acabar levando ela a fazer algum mal à Daiana.
— Ainda mais agora que ele tá sendo acusado de ter matado o próprio pai, né? — Comentou Charles, com a expressão ficando ainda mais carregada.
— Nem me lembra disso. — murmurou Diná, com a voz embargada. — Meu coração tá aqui angustiado de preocupação. Essa mania de grandeza dessa menina vai ser a perdição dela. Eu conversei com meu irmão. O ideal seria a gente mandar ela lá pro Maranhão. Deixar ela longe daqui.
— E é isso que vou fazer. Quando ela aparecer vou ter uma conversa séria com ela. Ou se endireita ou vai pra roça catar feijão. Cuidar de bicho.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Will estava atrás da mesa do escritório, tentando forçar a gaveta trancada. Joana, encostada na porta, olhava com expressão preocupada. Rodrigo estava em frente à mesa, observando.
— A gaveta é trancada com chave. — disse Rodrigo. — Não sabemos onde foi parar a chave.
— Vamos ter que arrebentar. Pode ser que a arma esteja aqui dentro. — Will respondeu concentrado.
— O senhor fica à vontade. — respondeu Rodrigo. — Tudo o que eu quero é acabar logo com esse pesadelo.
Will, com a ajuda de Tony, finalmente conseguiu arrebentar a gaveta. Ambos examinaram o conteúdo, mas encontraram apenas papéis e objetos de escritório.
Will suspirou, frustrado.
— Aqui não tem nada de comprometedor. — Ele lançou um olhar a Tony. — Você achou alguma coisa, Tony?
Tony, que revirava outra gaveta lateral, sacudiu a cabeça.
— Também não encontrei nada demais.
Will parou, encarando Rodrigo, avaliando-o.
— Pelo jeito, o culpado escondeu muito bem a arma do crime.
Joana deu um passo à frente, a voz trêmula e aflita:
— Então foi com essa arma que atiraram no Antunes?
Tony respondeu com cautela:
— Ainda não podemos afirmar isso com toda certeza, dona Joana. Precisamos encontrar a arma para fazer a comparação. Mas é certo dizer que a bala que atingiu o seu Antunes partiu de uma arma semelhante a essa.
Will fez um gesto com a mão, encerrando aquele ponto e abrindo outro.
— Outra coisa que precisa ser esclarecida: encontramos na sala do Antunes, na Mulambo, documentos que comprovam que ele estava sabotando as ações que pertencem ao Meireles. — Ele fitou Rodrigo com seriedade. — Você sabia de algo sobre isso, Rodrigo? Já que trabalhava na empresa ao lado dele?
— Claro que não! Mas eu confesso que suspeitava. O Antunes sempre foi ambicioso, de olho nas ações do seu Meireles. — Rodrigo fez uma pausa, respirando fundo. — Outra coisa que me deixa com a pulga atrás da orelha é o acidente que aconteceu com seu Meireles.
Will olhou de lado, intrigado.
— O que tem o acidente?
— Nada me tira da cabeça que o Antunes teve algo a ver com isso. — Rodrigo falava com firmeza. — Acho muito bom o senhor investigar isso também, doutor. Pra mim, não foi acidente, e sim uma tentativa de homicídio.
Will e Tony trocaram olhares.
— Vou cuidar disso. — disse Will, com um tom grave e determinado.
═══🎭✦✧ Restaurante ✧✦🎭═══
Enquanto Carla comia tranquilamente, Ludmila não tirava os olhos do celular, mexendo nele o tempo todo.
Carla largou o garfo, visivelmente incomodada.
— Ah, não, Ludmila! Você veio aqui almoçar comigo e fica aí pregada nesse celular!
Ludmila nem piscou. Continuava de olhos grudados na tela.
— Vi-a-do! — resmungou, irritada. — Só pode ser viado. Já ficou online várias vezes, mas não fala comigo. Se ele pensa que eu vou ficar correndo atrás, tá muito enganado. Minha filha, tô cheia de contatinhos aqui que dão de dez a zero nele.
— Assume, já tá começando a se apaixonar pelo o bofe. — Disse Carla, provocativa.
— Isola! Chuta que é macumba! — exclamou, fazendo um gesto de afastamento com a mão como se estivesse espantando maus espíritos. Só então deixou o celular de lado. — Quer saber? Não vou ficar aqui esperando o Fabinho falar comigo. Se prepara, que hoje a noite promete. Aquela boate vai truvar!
Carla abriu um sorriso animado.
— Opa, aí sim! Já me animei.
— E hoje eu vou tá facim, facim. — disse Ludmila, jogando os cabelos para trás com confiança. — Tô nem aí pra esse bunda mole.
Carla estreitou os olhos, desconfiada.
— Hum... tá bom! Só espero que não mude de ideia se ele te ligar. Porque você é dessas: a gente combina, depois me deixa na mão.
Ludmila revirou os olhos.
— Para de show, que não é assim também, não. — Ela olhou para o prato e pegou o garfo, como se só então percebesse a comida.— Nossa, essa comida tá com uma cara ótima.
Carla riu, continuando a comer.
— Tá uma delícia. A sua deve tá até fria.
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Gabriel saía do orfanato com um saco de lixo nas mãos, indo em direção à lixeira, quando Bira passou pela calçada.
— Grande Gabriel! — disse Bira, se aproximando com um sorriso aberto no rosto.
Gabriel se virou, tentando retribuir a simpatia com um sorriso contido.
— E aí, Bira! Saiu mais cedo hoje, foi?
— Pois é — respondeu ele. — Aquelas máquinas vivem dando problema. Já estavam atrasando o serviço. Seu Juca liberou a gente. E você, como tá?
— Tô bem. Só meio encrencado aí com essas acusações que caíram sobre mim.
— Foda, hein, cara? Agora, eu não sabia que você já conhecia o seu Antunes.
Gabriel olhou para Bira, confuso.
— Mas eu não o conheci.
— Estranho... — disse Bira, com um leve encolher de ombros. — Muita coincidência, né? Você me procurou, pedindo ajuda pra conseguir um emprego lá onde eu trabalhava. Falei com o seu Juca, fiz a ponte, e deu certinho. Depois, quando soube do desfile, você ficou todo agoniado querendo um convite. E, bem no desfile, o homem morre.
— Bira, você é meu amigo. Tá desconfiando de mim, é isso?
Bira deu um meio sorriso, mas o tom era sério.
— Olha meu parceiro, eu desconfio até da minha mãe que me pariu. Imagina de você.
— Tá certo — disse. — Talvez eu, no seu lugar, também desconfiaria. Mas eu só estava no dia e no lugar errado. Tenho fé em Deus que vou provar minha inocência, Bira.
Bira assentiu com um tapinha leve no ombro do amigo.
— Amém! Espero que consiga. Boa sorte aí.
Bira continuou andando, enquanto Gabriel ficou parado por um momento, olhando para ele, antes de jogar o saco de lixo na lixeira. Ele respirou fundo e voltou para o orfanato, pensativo.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Joana estava sentada no sofá, visivelmente cansada. Kléber, sentado ao seu lado enquanto conversavam.
— Você deveria ter me ligado, Joana. Eu viria na mesma hora. Pelo menos eles trouxeram algum mandado?
— Sim, estavam com mandado. Vasculharam tudo o que puderam, procurando a arma do Antunes. Mas não encontraram nada.
Ela faz uma pausa, pensativa, antes de continuar:
— Outra coisa, Kléber. Encontraram na sala do Antunes, lá na Mulambo, documentos que provam que ele estava sabotando as ações do Meireles.
Kléber ficou visivelmente preocupado.
— Isso complica ainda mais a situação do Rodrigo, não acha? Primeiro, como o Gabriel teria acesso a essa arma? E, segundo, trabalhando junto com o Antunes... Será que o Rodrigo não sabia dessa manipulação?
— E você acha que eu não penso nisso? — Joana murmurou, aflita. — O Antunes era manipulador, capaz de usar qualquer pessoa para alcançar seus objetivos.
Kléber a observou em silêncio por um momento, antes de perguntar, hesitante:
— Você acha que o Rodrigo estava envolvido?
— Eu não sei, Kléber. Quero acreditar que não. No entanto preciso ir até a Mulambo, entender o que tá acontecendo e tomar uma posição diante de tudo isso.
— Você não tá sozinha nisso, viu? — disse Kléber, com suavidade. — Tô aqui pra te ajudar. Te quero muito bem, Joana.
Ele faz um carinho em seu rosto, mas Joana rapidamente se esquiva e se levanta abruptamente, claramente nervosa.
— Que isso, Kléber? — disse, num tom ríspido. — Peço que me respeite. Sou uma mulher viúva.
Kléber baixou o olhar, envergonhado.
— Desculpe, fui um pouco atrevido. Deixei transparecer os meus sentimentos.
Joana se afastou alguns passos, tentando controlar a indignação.
— Não tô gostando do rumo desta conversa, viu? O que tá acontecendo com você? Nunca me tratou assim.
Kléber se levantou e se aproximou dela.
— Porque eu não queria te prejudicar. Eu sabia muito bem o canalha com quem você era casada. Mas agora, te vendo assim, tão sozinha e frágil, Joana... Eu só quero cuidar de você.
Ela o interrompeu com a voz firme.
— Para com isso, Kléber! O Antunes não valia nada, mas eu sou a viúva dele. Não quero que misture as coisas.
Ela respirou fundo, tentando recuperar a compostura.
— Agora vou tomar um banho. Preciso ir à Mulambo resolver tudo isso. E espero que você não volte a misturar as coisas, pois eu odiaria ter que contratar outro advogado.
Joana saiu apressada, ainda visivelmente desconfortável. Kléber ficou parado, pensativo, com um misto de arrependimento e frustração por ter ultrapassado os limites.
— O que você fez Kléber? — murmurou para si mesmo. — Contenha-se!
═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══
Will estava sentado à sua mesa. Tony foi se aproximando, dele, segurando uma folha de papel.
— Aqui está — disse Tony, entregando-lhe o papel. — A lista de todas as ligações feitas e recebidas do celular do Antunes.
Will pegou a folha, passando os olhos rapidamente pelas informações.
— Ótimo. Agora temos que saber de quem pertence os números.
— Todas as ligações foram feitas e recebidas de um mesmo número.
Will arregalou os olhos, intrigado.
— O mesmo número? Isso é curioso. Vamos ligar para esse número então.
— Eu já fiz isso. — respondeu Tony, frustrado. — Só cai fora de área.
Will jogou a lista sobre a mesa, com um suspiro irritado.
— É claro que tá fora de área. O dono do número já deve saber que o Antunes morreu e deu um jeito de sumir com o chip. Entre em contato com a operadora. Quero saber em nome de quem esse chip tá cadastrado.
— Pode deixar. Vou cuidar disso. — Tony assentiu
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Soraia estava encostada em um poste em frente ao orfanato, o olhar atento à movimentação ao redor, enquanto segurava o telefone próximo ao ouvido.
— Oi, bebê! Desculpe por não responder suas mensagens e nem atender o telefone. Preciso manter sigilo nesse lugar, então preferi ficar com o celular desligado.
Do outro lado da linha, Rodrigo respondeu com um tom de preocupação.
— Tô preocupado, viu Soraia? Com medo do que você anda aprontando.
Ela sorriu, confiante.
— Relaxa, gatinho, tá tudo sob controle. Eu inventei uma personagem, mudei o visual... tô outra pessoa, você tem que ver! Para todos aqui, eu sou Maria das Dores, uma pobre garota vinda de um acampamento de sem-terras. — Ela ri com deboche. — Pobrezinha, perdeu os pais em confronto com os donos das terras e agora não tem pra onde ir.
— Não acha que tá indo longe demais? Qual a necessidade de tudo isso, Soraia?
— Você quer ou não que eu investigue o seu irmão? — retrucou ela, incisiva. — Foi a maneira que encontrei de me infiltrar no meio deles e investigar melhor esse Gabriel. Eu te avisei: se o Gabriel deve alguma coisa, eu vou descobrir.
Houve uma breve pausa.
— E você já conseguiu descobrir alguma coisa? — perguntou Rodrigo, ansioso.
— Nada concreto ainda. Mas vou te falar uma coisa: esse garoto é todo estranho. Vive retraído pelos cantos, não se mistura muito, cheio dos mistérios. Sondei algumas crianças, perguntei algumas coisas sobre ele. Sabe o que descobri? Parece que ele tem uma foto da sua mãe.
Do outro lado da linha, Rodrigo ficou incrêdulo.
— Como ele conseguiu uma foto da minha mãe? Logo da minha mãe? Ela dificilmente tira foto.
— Isso eu não sei. Não vi a foto. Foi uma pirralhinha linguaruda aqui do orfanato que me contou. Também fiquei sabendo que ele andou investigando o próprio passado. E isso, oh... muito antes da morte do Antunes.
Rodrigo refletiu por um momento.
— Talvez não seja por acaso que ele tenha começado a trabalhar na Mulambo. Ele já tinha algo em mente contra o Antunes.
— Também pensei nisso. — disse Soraia. — Tá vendo? Eu te falei que seria uma boa ideia eu me infiltrar aqui.
— Pois acho uma loucura essa que você tá fazendo. — retrucou Rodrigo,.
— Não se preocupe. Ninguém aqui desconfia de mim. Ninguém, exceto um velho jardineiro que tem aqui.
— Ele desconfia de você?
— Sei lá... é um homem esquisito, não fala coisa com coisa. Tenho é medo dele.
Rodrigo elevou o tom, preocupado.
— Fica esperta, viu, Soraia?
— Relaxa, tá tudo sob controle. Vou desligar agora, assim que possível entro em contato com você. Beijão, não esqueça que te amo, viu?
Soraia desligou o telefone, guardou-o no bolso e esboçou um sorriso de canto, carregado de malícia, antes de retornar ao orfanato.
═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══
Meireles estava deitado em uma maca, com o semblante abatido. Edson, organizava alguns equipamentos ao lado enquanto observava Meireles.
— Parece desanimado, seu Meireles. O que houve? — perguntou Edson, aproximando-se.
Meireles suspirou profundamente antes de responder.
— Muita coisa acontecendo, rapaz. Não tem como não ficar preocupado.
Edson segurou suavemente a perna de Meireles, ajustando-a para o exercício.
— Te compreendo. Mas agora preciso que o senhor relaxe e se concentre na fisioterapia.
— Tô cansado de tudo isso. Você mexe aí, nem parece ser minhas pernas. Não sinto nada.
Edson pausou e olhou diretamente para Meireles, com seriedade e empatia.
— Tenha paciência, seu Meireles. Não pode desanimar. Esse é um processo lento, e os movimentos vão voltando aos poucos. Sua força de vontade é fundamental para o nosso trabalho.
Edson ajustou a postura de Meireles e colocou as mãos perto do tornozelo dele.
— Vamos lá. Tente se concentrar. Imagine o movimento começando no tornozelo. Só um pequeno esforço, o suficiente para mexer o pé.
Meireles olhou para o pé com descrença, mas respirou fundo. Ele fechou os olhos, tentando se concentrar.
— Isso mesmo. — incentivou Edson. — Continue tentando. Pequenos esforços fazem uma grande diferença.
Após alguns segundos de tentativa, o pé de Meireles se moveu levemente. Ele abriu os olhos, surpreso e emocionado.
— Eu... Meu Deus, eu... eu consegui. Meu pé se mexeu!
Ele olhou para Edson, com lágrimas brotando nos olhos. Edson sorriu, seus olhos brilhando com satisfação.
— Conseguiu sim! É um ótimo sinal. Isso mostra que estamos no caminho certo.
Meireles cobriu o rosto com as mãos, tentando conter o choro. As lágrimas escapavam enquanto ele balançava a cabeça, ainda incrédulo.
— Achei que nunca mais sentiria isso. Depois de tudo o que passei... Meu pé mexeu, eu senti ele mexendo. Você viu, não viu?
— Vi, sim! Esse é o resultado do seu esforço e da nossa persistência.
Meireles enxugou as lágrimas, determinado.
— Quero tentar de novo. — disse com firmeza. — Preciso sentir meus pés novamente.
Edson pousou uma mão em seu ombro, num gesto de apoio.
— Vamos tentar, mas com calma. Não se desanime se não conseguir. Esse é um processo lento, seus movimentos vão voltar aos poucos. Hoje já tivemos uma grande vitória.
Meireles acenou com a cabeça, mais confiante, enquanto Edson ajustou novamente sua postura para continuar os exercícios.
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Irmã Tereza caminhou até a porta enquanto Ana, um pouco afastada, observava com curiosidade. Ao abrir a porta, Frida e Daiana estavam do lado de fora, sorrindo.
— Olá, boa tarde! Sejam bem-vindas ao Lar São Tarcísio! — saudou Irmã Tereza.
— Obrigada, irmã. — respondeu Frida, apontando para Daiana ao seu lado. — Esta é Daiana Meireles, uma das minhas modelos. Ela aceitou desfilar conosco em prol da ONG.
Tereza sorriu com gratidão.
— Obrigada! Vocês não fazem ideia de como essa ajuda é importante para nós. — Fez um gesto acolhedor com a mão. — Mas, por favor, entrem! Fiquem à vontade. É uma alegria enorme recebê-las aqui.
As duas entraram, enquanto Daiana observava o ambiente simples, mas acolhedor.
— Eu que agradeço pela oportunidade de contribuir através do meu trabalho. — disse ela.
Irmã Tereza indicou Ana, que se aproximou com um sorriso tímido.
— Vamos conhecer o Lar! Esta é Ana, uma das nossas órfãs. Ela foi deixada aqui ainda recém-nascida, muito frágil e doente. Achávamos que não sobreviveria, mas agora está cheia de saúde e ainda nos ajuda a cuidar das outras crianças.
Ana olhou para Daiana com atenção e, de repente, seu rosto iluminou-se de reconhecimento.
— Ei, eu conheço você! — Disse Ana, empolgada por reconhecer Daiana — Você é a Daiana Meireles, não é? Eu sigo você nas redes sociais!
Daiana riu suavemente, tocada pela espontaneidade da menina.
— Sou eu mesma. Fico muito feliz em saber disso.
Irmã Tereza soltou uma risada leve,
— A Ana vive antenada nessa internet. Sabe de tudo e conhece todo mundo.
— E conheço mesmo! — respondeu Ana, encantada. — Principalmente modelos bonitas, como você.
— Você nunca pensou em ser modelo, Ana? — Perguntou Frida.
— Nossa, seria um sonho. — Disse Ana, já empolgada com a ideia.
Frida então lançou um olhar sugestivo para Daiana, um meio sorriso brincando nos lábios.
— Olha só, Daiana. Já temos uma ideia de quem pode fechar o desfile.
Antes que Daiana pudesse responder, Gabriel apareceu vindo de um corredor. Assim que o viu, ela paralisou, encarando-o com olhos arregalados. A semelhança dele com Rodrigo era impressionante e a deixou visivelmente abalada.
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