╔══════════════════✦✧❖✧✦════════════════╗

═══🎭✦✧ Ainda no quarto do Gabriel... ✧✦🎭═══

Daiana deu dois toques, abrindo a porta do quarto de Gabriel.

— Posso entrar, meu amor? — perguntou ela, espiando com um sorriso nos lábios.

Gabriel estava de pé diante da cômoda, ainda atônito, os olhos vagando por entre a gaveta aberta. Ao ouvir a voz dela, virou-se rapidamente.

— Claro! — respondeu, forçando um sorriso.

Daiana franziu levemente o cenho, percebendo o nervosismo escondido por trás do olhar inquieto do namorado.

— O que houve? Você tá bem?

— Sim, sim... — respondeu ele, fechando a gaveta. — É que eu guardei umas coisas aqui, e agora não encontro. Mas devo ter colocado em outro lugar. Depois eu acho.

Ela se aproximou, lançando os braços ao redor do pescoço dele com ternura.

— Humm... então tá bom. — disse em tom suave. — Vim até aqui pra me despedir. Preciso ir embora.

— Mas já? — lamentou ele. — Ainda tá cedo.

— Cedo nada. Já passou da hora. Daqui a pouco anoitece, e eu ainda tô aqui.

— Pra mim não seria problema.

— Mas pra mim seria — disse ela, divertida. — Já pensou? Não cairia nada bem eu aqui, nesse orfanato com você.

Gabriel nada respondeu. Apenas inclinou o rosto e a beijou com carinho. Ao se afastarem, ela afagou o rosto dele com delicadeza.

— Agora arruma o que você tem pra arrumar, e vem. Sua mãe tá lá na sala, ansiosa pra te ver.

Gabriel olhou ao redor, o coração ainda apertado pela inquietação que tentava esconder.

— Não tenho mais nada pra arrumar aqui. Vamos lá!


═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══

Sentado em sua cadeira de rodas no quarto, Meireles digitava com concentração, os olhos fixos na tela do notebook.

— Pronto — disse ele, fechando o notebook. — Já enviei o contrato da proposta para o advogado da Joana. Agora é torcer pra que aceitem e realmente vendam as ações dela pra mim.

Angelina, sentada na cama, organizava algumas peças de roupa. Ela interrompeu o que fazia, voltando o olhar para o marido.

— Ela já está convicta de que vai fazer isso — disse, tentando lhe transmitir tranquilidade. — Assim que o inventário sair, ela vai vender. Mas... tô percebendo que tem alguma coisa a mais te preocupando?

Meireles fez uma breve pausa antes de responder. Seu semblante se fechou.

— A verdade é que a empresa não anda nada bem, Angelina. Desde que o Antunes morreu, e pior, dentro da sede da Mulambo, começamos a perder contratos, dinheiro, prestígio. Alguns parceiros internacionais cancelaram acordos, desfiles foram adiados. E as ações da empresa estão despencando. Isso me preocupa. Eu tô pagando pelas ações da Joana um valor muito acima do que elas realmente valem hoje. É arriscado. Mas não tenho escolha.

Angelina mordeu o lábio inferior, pensativa.

— Eu já venho observando isso também. Você acha que a gente pode entrar no vermelho?

— Não sei. Mas creio que vamos enfrentar um período difícil. De vacas magras. O Antunes era quem cuidava dos contratos internacionais, das finanças, das parcerias estratégicas. A morte dele, do jeito que aconteceu, foi um golpe direto na reputação da empresa. Os investidores perderam a confiança. Os estrangeiros, então, nem se fala. E agora, sou eu quem tem que reconquistar tudo isso.

Angelina se levantou e se aproximou, sentando-se de frente para o marido. Pegou suas mãos entre as dela, firme e carinhosa.

— A gente vai passar por essa, meu amor. Assim como já passamos por tantas outras crises.


═══🎭✦✧ Casa do Juca ✧✦🎭═══

Ludmila estava esparramada no sofá de sua casa com o celular na mão quando soltou um grito:

— Ih, carái! Olha isso, piranha!

Carla, que estava sentada no tapete fazendo as unhas, levou um susto.

— O que foi, criatura?

— Mensagem do Glauber. Ele quer se encontrar comigo hoje. E agora, o que eu faço?

— Ah, Ludmila... não sei, né? Você tá aí doidinha pra repetir a noite com ele, né não?

Ludmila deu um risinho safado, mas logo fez cara de confusa.

— Querer eu quero, não vou mentir. Mas que porra é essa? De manhã ele tá com o coroa, e à noite quer tá comigo? Acho que mais uma vez vou acabar não ficando à vontade com ele.

Carla levantou os olhos, séria.

— Acho que você tá esquecendo de outro detalhe, né? Fabinho.

Ludmila fez uma careta.

— Ele é tão devagar que até esqueci dele. Mentira, esqueço dele não. Passou o dia me mandando um monte de mensagem cheia de coraçãozinho, aquela friscureba da porra! Mas eu gosto dele.

Carla soltou uma risada irônica.

— Até tô tentando, mas não tô conseguindo te acompanhar. Decide logo, mulher! É Fabinho, é Glauber...

— E Edson?

Carla arregalou os olhos e apontou o palito de unha na direção dela:

— Aí não, né, piranha?

— Que é, minha filha! Só quero saber como tá você e o Edson.

O rosto de Carla amoleceu, e um sorriso tímido surgiu.

— Ah, bom! Sabia que tô gostando dele? É tão bom as nossas conversas, tão bom quando a gente tá junto. Acho que tá virando algo sério.

Ludmila deu um tapinha nas costas da amiga.

— Aí sim! Piranha também ama!


═══🎭✦✧ Enquanto isso, em frente a casa dos Meireles... ✧✦🎭═══

Rodrigo estava dentro de seu carro, estacionado discretamente. Seus olhos fixaram-se no veículo que se aproximava pela rua. Era o carro de Daiana. Assim que ela reduziu a velocidade para entrar no portão da garagem, Rodrigo saltou do carro com uma maleta nas mãos e atravessou rapidamente na frente do automóvel, obrigando-a a frear.

— Daiana! — chamou ele, ofegante.

Ela abriu o vidro apenas o suficiente para se fazer ouvir.

— Ficou maluco, Rodrigo? — disse, irritada. — O que você quer agora?

— A gente pode conversar um pouco?

— Eu não tenho nada pra falar com você!

Rodrigo se aproximou da janela, a maleta ainda em sua mão.

— Eu sei que te dei motivos pra estar com raiva de mim. Mas você me conhece, Daiana. Eu jamais seria capaz de tirar a vida de alguém.

— Isso quem vai dizer é a polícia. — retrucou ela, fria. — Sempre soube que a Soraia vivia se oferecendo pra você. Só não imaginava que você estava gostando. Quer me fazer um favor? Volta lá pra sua piranha e me deixa em paz.

— Calma! — implorou ele. — Esse cara tá mentindo pra você. Ele é um psicopata! Essa carinha de bom moço é só fachada!

— Rodrigo, vamos poupar o meu tempo. — rebateu ela. — O Gabriel sequer conhecia o Antunes. Já você... você tinha motivos de sobra pra querer vê-lo morto.

— Ele conhecia sim o Antunes. E eu posso provar.

Daiana franziu a testa, desconfiada.

— Do que você tá falando?

Com cuidado, ele estendeu a maleta pela janela do carro.

— Veja isso. Esse cara não é quem diz ser. Tá envolvido em um monte de mentiras. Ele entrou na Mulambo com um propósito: se aproximar do Antunes. Ele queria vingar a morte do nosso pai.

Daiana hesitou antes de pegar a maleta. Abriu-a com receio e vasculhou superficialmente o conteúdo. Ela levantou os olhos, confusa.

— Como você conseguiu isso?

Rodrigo desviou o olhar, desconfortável.

— Uma pessoa se ofereceu pra me ajudar.

— Uma pessoa? Que pessoa?

Antes que ele respondesse, uma voz se intrometeu:

— Rodrigo!

Soraia vinha se aproximando, seus olhos alternando entre os dois. Daiana imediatamente fechou a maleta e a empurrou de volta para Rodrigo com uma expressão de nojo.

— Claro. Quem mais poderia ser? — disse com desprezo. — Você é mesmo baixo, Rodrigo. Isso tudo é só uma armação ridícula pra me afastar do Gabriel.

— Daiana, me escuta! — implorou ele. — A gente esteve junto por tantos anos! Você me conhece, eu não estaria fazendo isso se não soubesse a gravidade do que tá acontecendo. A gente não sabe quem é esse Gabriel, nem do que ele é capaz.

— Eu é que não sei mais quem é você. — respondeu ela, com ódio. — Fiquem bem longe de mim, você e essa piranha.

Ela engatou a marcha e entrou com o carro pelo o portão, deixando Rodrigo ali, imóvel, com o coração em frangalhos.

— Daiana, por favor! — gritou ele, impotente.

Soraia se aproximou devagar.

— Será que agora a gente pode conversar, Rodrigo?

Ele girou com raiva nos olhos.

— O que você ainda quer, garota?

— Eu quero você. Só isso. Poxa, bebê, a gente podia ser tão feliz, se você não fosse tão obcecado por essa vara pau seca. — ela se aproximou dele, com a voz arrastada e um sorriso malicioso. — Esquece a Daiana. Fica comigo. Pega essa maleta, leva pra polícia, prove a sua inocência, eu te ajudo, faço o que você quiser. Se for preciso, volto a me infiltrar no orfanato.

Rodrigo afastou-se com firmeza.

— Chega, Soraia! Eu não quero mais nada com você! Olha o que você fez de novo. Por sua causa, a Daiana nem olhou direito pra maleta. Tinha que vir se meter?

Antes que ele recuasse, Soraia avançou, abraçando-o com força, desesperada.

— Rodrigo, eu te amo! Não me deixa, por favor!

— Me solta, garota! Me deixa em paz!

Rodrigo a empurrou com força. Ela caiu sentada no chão, as mãos se apoiando atrás do corpo. Ele entrou em seu carro e arrancou em disparada. Soraia ficou ali, sozinha na calçada, com o olhar fixo no carro que desaparecia.

— Eu não vou deixar vocês ficarem juntos — proferiu com ódio. — Eu juro!


═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

Gabriel entrou ofegante no pequeno barraco de Epaminondas.

— Sumiu! — exclamou ele, com os olhos arregalados.

Epaminondas, que esquentava água numa chaleira amassada sobre o fogareiro, nem se virou. Apenas respondeu, com a voz baixa e arrastada:

— O que sumiu?

Gabriel avançou alguns passos, inquieto.

— A maleta. Alguém pegou a maleta que estava no meu quarto, Epaminondas.

O velho finalmente se virou, seus olhos fundos e calmos.

— Você não disse que a maleta estava escondida? Quem pode ter achado?

— Assim que eu cheguei no quarto, eu vi aquela foto 3x4 do meu pai no chão. Quando eu abrir a gaveta, a maleta não estava mais lá.

Epaminondas caminhou até a porta e espiou para fora.

— Aquela moça de olhos claros, desapareceu também, não foi?

Gabriel assentiu, o rosto tenso.

— A Maria? Sim. Sumiu do orfanato, sem avisar ninguém.

Epaminondas fechou a porta com calma e voltou a encará-lo.

— Então não sabemos onde a maleta está, mas já sabemos quem a pegou.

— Faz sentido... — murmurou Gabriel. — O Pedrinho encontrou um brinco no meu quarto, e a gente achou que fosse da Ana. Mas a Ana afirmou que é da Maria. Mas por que ela faria isso?

Epaminondas sentou-se em sua poltrona.

— A pergunta não é porque ela fez. A pergunta ideal seria: Quem é Maria? Se é que esse é mesmo seu nome. Irmã Rosália comentou que queria registrá-la como monitora, mas Maria nunca entregou os documentos.

— Meu Deus, Epaminondas, você acha que a Maria é algum tipo de impostora?

— O que eu acho, é que essa história de escondermos nosso parentesco não faz mais sentido. A sombra tá se dissipando. E o que antes estava escuro, agora começa a se revelar. Quem levou a maleta não queria apenas fugir. Quer provar que você sabe muito mais do que diz.

Gabriel olhou assustado para Epaminondas.


═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══

Joana e Kléber entraram em casa em silêncio. Ela caminhou até o centro da sala, soltando um longo suspiro:

— Foi tão bom ver o meu filho de novo! — Fez uma pausa, antes continuar. — Eu queria tanto que tudo isso não estivesse acontecendo. Só queria poder curtir meus filhos, sem me preocupar com nada disso.

Kléber a observava com carinho.

— Você tá sofrendo muito com tudo isso, né?

— Você nem imagina o quanto. Olha pra mim, Kléber. Uns acreditam na inocência do Rodrigo. Outros defendem o Gabriel. E eu? Como é que eu escolho entre dois filhos?

— Mas você sabe que um deles é o culpado, Joana. E vai ter que responder por isso. Vai preparando seu coração, porque esse dia vai chegar.

Ela levou a mão ao peito, como quem tentava segurar a dor antes que transbordasse.

— Meu Deus... eu só queria eles aqui, perto de mim. Só isso. É pedir muito, Kléber? Uma mãe querer os filhos por perto?

Kléber deu um passo atrás dela. Levantou a mão, quase tocando seu ombro, mas parou no ar. Faltou coragem.

— Eu queria tanto poder fazer alguma coisa pra te ajudar. Pra te dar um pouco de paz. Mas, sinceramente, Joana... eu não sei como aliviar essa sua dor.

Ela virou-se para ele, os olhos marejados, mas o tom sereno.

— Você já tá fazendo muito. Tem sido um grande amigo. Eu sou grata a você por isso.

Kléber sorriu. Com delicadeza, colocou uma mecha do cabelo dela atrás da orelha.

— Você sabe que... eu queria ser muito mais que isso, né?

O corpo de Joana enrijeceu. Ela recuou um passo, desviando o olhar.

— Por favor, Kléber, não vamos começar com essa conversa.

— Desculpa. — disse, cosntrangido. — Acho melhor eu ir embora. Qualquer coisa... qualquer coisa mesmo, me liga.

Ele se retirou, sozinha, Joana caminhou pela sala pensativa.


═══🎭✦✧ A noite na Boate Eclipse... ✧✦🎭═══

No botequim, Ludmila observava Carla e Edson trocando beijos apaixonados, de braços entrelaçados.

— Domingão animado esse, né? — comentou Ludmila, revirando os olhos com um sorriso de escárnio. — E eu aqui queimando minha mão nessa vela.

Carla soltou uma risada e olhou de lado para a amiga.

— Para de show, piranha! Cadê o Fabinho? Não tava vindo pra cá?

— Você ainda não entendeu que aquele dali é todo enrolado? — resmungou Ludmila. — Deve estar saindo de casa agora, com aquela lerdeza de sempre.

Nesse momento, Glauber se aproximou do grupo com um sorriso seguro e olhar direto.

— Boa noite a todos! — cumprimentou.

— E aí, Glauber! Como está? — respondeu Edson, estendendo a mão para um cumprimento rápido.

— Bem... e querendo melhorar — disse Glauber, já voltando o olhar para Ludmila. Ele se aproximou com charme. — Boa noite, gatinha.

Ludmila recuou um passo, surpresa.

— Ih, carái...

— Vai fugir de mim de novo? — provocou ele com um meio sorriso.

— Que isso? Eu nunca fugi de você — respondeu ela.

Carla, percebendo o clima, puxou Edson pelo braço.

— Vem, amor. Vamos dançar.

Edson a acompanhou para o centro da pista, enquanto Glauber e Ludmila permaneciam próximos ao botequim. corredor lateral.

— Qual é o rolo entre você e o Fabinho Meireles? — perguntou Glauber, direto.

— A gente tá se curtindo. Por quê? — Ludmila respondeu com desdém, mas os olhos curiosos denunciavam o interesse.

— Algo mais sério ou só pegação mesmo?

— Isso é o quê, agora? Entrevista de emprego ou cadastro do IBGE? Que tanto interrogatório é esse, garoto?

Glauber deu uma risadinha, balançando a cabeça.

— Você é toda engraçadinha, né? Mas da última vez me deu um toco por causa desse Fabinho. E eu... eu tô doido pra repetir aquela nossa noite. Pensei que você também estivesse interessada.

Ludmila mordeu o lábio inferior, sorrindo.

— Não chega perto que eu me arrepio toda, menino!

— Vem comigo. Vamos curtir um tiquinho ali — disse ele, apontando discretamente para os fundos da boate.

— Aqui mesmo? Na boate?

— Sim. Tem um cantinho ali atrás... só nosso.

Antes que ela pudesse responder com clareza, Glauber segurou sua mão e a puxou com leveza, conduzindo-a por entre as sombras, em direção aos fundos do local, onde a música era mais abafada e a iluminação escassa.

Na pista de dança, Carla rodopiava ao som de um funk envolvente. Mas, ao ver Ludmila sendo puxada por Glauber, sua expressão mudou.

— Isso não vai dar bom — murmurou, preocupada.

— O que foi? — perguntou Edson, sem entender.

— A Ludmila, toda se engraçando pro lado do Glauber. E o Fabinho deve estar chegando a qualquer momento.

Edson soltou um comentário espontâneo:

— Sua amiga é bem assanhadinha, né?

Carla parou de dançar e lançou um olhar cortante.

— Oh! Quem pode falar mal dela só eu, viu?

Edson ergueu as mãos em sinal de rendição.

— Desculpa! Bora dançar.

E os dois voltaram a se mover no ritmo da música.


═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══

Daiana estava sentada no sofá, mexendo no celular. Angelina se aproximou.

— Oi filha!

— Oi mãe!

— Eu estava no meu quarto, e vi pela janela a hora que você chegou. Era o Rodrigo lá fora? — perguntou ela, com o semblante tenso.

— Era. Veio fazer picuinha. Tentando armar pra me separar do Gabriel. Ele não se conforma em me ver seguindo em frente, em outro relacionamento.

Angelina se aproximou, sentando-se ao lado da filha.

— Minha filha, eu tô muito preocupada com você no meio disso tudo.

— Não tem com o que se preocupar, mãe. — Daiana respondeu firme. — Eu não vou deixar o Rodrigo se aproximar. E se ele insistir, eu peço uma medida protetiva. Ele tem que entender que acabou, e foi ele quem escolheu isso.

— Minha preocupação não é só o Rodrigo — murmurou, preocupada. — E se você estiver enganada, Daiana? E se esse Gabriel for, de fato, o responsável pela morte do Antunes? Você parece que eliminou essa possibilidade da sua cabeça.

Daiana a encarou com firmeza.

— Porque, pra mim, essa possibilidade simplesmente não existe. Sabe o que o Rodrigo queria? Apareceu aqui com uma maleta, cheia de recortes de jornais, fotos, sei lá mais o quê. Tentando me convencer de que o Gabriel e o Antunes já se conheciam há anos. E adivinha quem conseguiu essa maleta pra ele. A vagabunda da Soraia.

Angelina arregalou os olhos, surpresa.

— Espera aí, que história é essa de maleta?

— Não sei, não olhei direito — continuou Daiana, agora com tom indignado. — Tinha uns papeis, acho que era cartas, sei lá... tinha também fotos, a maleta e algumas coisas até meio carbonizadas. Ele queria me convencer que tudo aquilo pertencia ao Gabriel. A Soraia e o Rodrigo estão de armação para tentar jogar a culpa em cima do Gabriel. Já até mandei mensagem para o Gabriel alertando ele sobre esses dois.

Angelina cerrou os olhos, pensativa, a inquietação crescendo.

— E o que o Gabriel disse sobre isso?

— Ele nem sabia da existência dessa maleta. Rodrigo tá inventando coisa, tentando me manipular.

— Pois se eu fosse você teria dado crédito à dúvida — disse com a voz grave e firme. — Pelo menos isso. Olhava com mais atenção essa tal maleta. O que exatamente tem dentro dela? Como o Rodrigo conseguiu? Você conheceu esse Gabriel ontem, minha filha. Ele pode muito bem estar mentindo.

Daiana desviou o olhar, mas a semente da dúvida, mesmo que pequena, parecia ter sido plantada.


═══🎭✦✧ Em um playground, próximo ao Lar São Tarcísio... ✧✦🎭═══

Gabriel balançava-se devagar no velho balanço de madeira, os pés arrastando levemente no solo. O olhar perdido no escuro, a mente cheia de dúvidas e inquietações.

— Essa maleta não poderia ter sumido — murmurou para si mesmo. — A Daiana agora não vai acreditar em mim.

Fez uma pausa, como se as peças de um quebra-cabeça começassem a se encaixar.

— Então, isso quer dizer que a Maria... Ela só pode ter vindo aqui a mando do Rodrigo.

Assim que pronunciou as palavras, um carro parou em frente ao playground. Os faróis apagaram-se lentamente, e a porta do motorista se abriu com um estalo seco. Rodrigo desceu do veículo com passos firmes e um semblante fechado.

Ele se aproximou do irmão, sem pressa.

— Boa noite — disse, com um tom contido. — Acho que já passou da hora da gente ter uma conversa... não é, meu irmão?

Gabriel permaneceu calado por alguns segundos, ainda sentado no balanço.

╚═════════════════✦✧❖✧✦═════════════════╝