╔══════════════════✦✧❖✧✦════════════════╗

═══🎭✦✧ Ainda no playground... ✧✦🎭═══

Gabriel ergueu lentamente os olhos, fixando o olhar em Rodrigo, que permanecia de pé à sua frente.

— Rodrigo... — murmurou ele, a voz embargada por algo entre surpresa e desconfiança.

Rodrigo esboçou um leve sorriso, frio, contido.

— Finalmente nós dois frente a frente.

Gabriel se levantou do balanço, tenso e ofegante.

— O que você quer aqui?

— Vim te ver. Você é meu irmão, afinal de contas. E olha... eu não te julgo. De verdade. Não deve ter sido nada fácil crescer do jeito que você cresceu. Sozinho. Sem saber quem era sua família, sua origem. Essas coisas marcam a gente. Criam feridas que a gente nem sempre percebe. E feridas viram monstros quando a gente menos espera.

Gabriel deu um passo para trás, o olhar mais firme agora.

— Do que você tá falando? Você sabe que não fui eu que matei o Antunes.

Rodrigo parou. Estudou o rosto do irmão com um certo fascínio perverso antes de responder:

— Olha ao seu redor. — Fez um gesto com a cabeça, indicando o vazio ao redor do playground. — Só estamos nós dois aqui. Pra mim, você não precisa fingir. Eu já sei quem você é.

Gabriel engoliu em seco.

— Sim. Sabe que sou inocente.

Rodrigo riu, com deboche.

— Não é isso que diz aquela maleta. Você armou tudo direitinho, não foi por acaso que você foi parar na Mulambo. Você se infiltrou ali. E por quê, Gabriel? Qual era o seu objetivo?

— Para com isso cara. Aquela maleta só tem recortes do meu passado. Coisas que juntei tentando entender minha história. Eu só queria saber quem eu sou. Queria saber mais sobre nossa mãe... sobre você, Rodrigo.

Rodrigo se aproximou devagar, parando bem diante dele. Seus olhos estavam sombrios, quase indecifráveis.

— No fim dessa história, um de nós será preso. Um de nós vai pagar pelo que aconteceu com o Antunes. E só nós dois sabemos quem é o verdadeiro culpado.

Fez uma pausa, depois deu dois passos para trás.

— Tenho uma proposta pra te fazer, Gabriel.

Gabriel o observava com a respiração pesada.

— Proposta? Que tipo de proposta?

Rodrigo inclinou ligeiramente a cabeça.

— Você quer a maleta de volta, não quer? Aquela com provas que te comprometem tanto. Então venha comigo. A gente precisa continuar essa conversa em um lugar mais adequado. Aqui estamos na frente do orfanato, pode aparecer alguém e atrapalhar. E a nossa conversa vai ser bem longa.

Gabriel franziu o cenho, desconfiado.

— Eu não vou com você em lugar nenhum.

Rodrigo sorriu, com um sorriso mais afetuoso.

— A proposta que vou te fazer é do seu interesse. O que foi? Tá com medo de mim? Eu sou seu irmão, garoto. Não sou seu inimigo. Você sabe muito bem, que eu é quem deveria tá com medo de você. É só uma conversa, não vou tirar pedaço nenhum de você não. Desde que eu soube que tenho um irmão, que tô querendo te procurar, só não sabia como fazer isso. Vem, precisamos dessa conversa.

Gabriel pensou por um instante, e resolveu seguir o irmão. Os dois entraram no carro e saíram.


═══🎭✦✧ Boate Eclipse ✧✦🎭═══

Fabinho entrou na boate olhando de um lado para o outro. Ele seguiu até o balcão do botequim e pediu com educação:

— Por favor, um chopp.

Do outro lado da pista, ainda dançando com Edson, Carla avistou o rapaz. Seu corpo congelou por um segundo.

— Ih, carái! — exclamou, parando a dança abruptamente.

— O que foi? — perguntou Edson, confuso com a reação.

— O Fabinho chegou! E a Ludmila ainda tá lá se esfregando com o Glauber. Essa piranha não tem jeito!

Edson balançou a cabeça, desaprovando.

— Acho nada disso certo. O Fabinho é um cara bacana, e ela enganando ele.

Carla virou-se para ele com um olhar firme:

— Ah não, sem moralismo agora! Você vai me ajudar. Vai lá, despista o Fabinho, que eu vou atrás da Ludmila.

— Ah não, Carla! Não me envolve nesse rolo de vocês não!

— Por favor! Senão a gente vai brigar feio aqui, viu? — ameaçou ela, já começando a sair.

Sem muita escolha, Edson seguiu a contragosto em direção ao botequim, onde Fabinho tomava seu chopp. Ao mesmo tempo, Carla foi abrindo caminho pela boate, com o olhar atento, vasculhando cada canto em busca da amiga.

Nos fundos escuros da boate, Ludmila vestia a blusa às pressas, ajeitando os cabelos enquanto ainda recuperava o fôlego. Glauber, ao lado, subia o zíper da calça com um sorriso satisfeito no rosto, o olhar fixo nela.

— Que loucura foi essa? — disse Ludmila, olhando ao redor. — Olha onde a gente tá.

— Vai dizer que você não gostou? — rebateu Glauber com aquele tom malandro.

Ludmila riu, balançando a cabeça.

— E tinha como não gostar?

Ela se aproximou novamente, lançou os braços em volta do pescoço dele e o beijou com intensidade.

— Até que enfim te encontrei, sua puta! — a voz de Carla ecoou firme pelo beco.

Ludmila afastou-se de Glauber num pulo, surpresa.

— O quê que foi? — perguntou, nervosa.

— Você ainda pergunta? Adivinha quem tá lá na boate te esperando?

Ludmila arregalou os olhos.

— Misericórdia... o Fabinho! Eu esqueci completamente dele.

Sem esperar resposta, começou a caminhar de volta, os passos apressados, os dedos vasculhando a bolsa à procura do celular. Carla a acompanhava, ainda indignada.

— E eu sou o quê? Vai me largar aqui mesmo? — gritou Glauber atrás delas.

Mas Ludmila sequer olhou para trás. O celular finalmente se acendeu em sua mão.

— Ih, carái... ele me mandou um monte de mensagens! — murmurou, sentindo o estômago revirar.

Carla apenas lançou um olhar de reprovação.

— Imagino. Você vacila demais, né quenga ruim?

No balcão do botequim, Fabinho estava sentado com o copo de chopp nas mãos, mas não havia mais traço de animação em seu semblante. Ao seu lado, Edson tentava manter a naturalidade, mas sua inquietação era evidente.

— Seja sincero comigo, Edson... onde tá a Ludmila? — perguntou Fabinho, nervoso.

— Para de grilo, cara. Ela deve tá no banheiro. A Carla foi atrás dela — respondeu, desviando os olhos.

Fabinho virou-se levemente para encará-lo de frente, insistente.

— Olha lá, Edson, eu te tenho como amigo. Seja sincero comigo. A Ludmila tava com alguém?

Edson engoliu em seco. Ele coçou a nuca, nervoso, tentando manter o tom leve.

— Nada a ver isso, Fabinho... Poxa. A garota só foi no banheiro.

Mas antes que precisasse se enrolar mais, avistou as duas se aproximando.

— Olha ali... estão vindo.

Ludmila surgiu com um sorriso escancarado, tentando demonstrar naturalidade. Aproximou-se de Fabinho com um entusiasmo exagerado, lançou os braços ao redor dele e tentou beijá-lo.

— Oi, meu amor!

Mas Fabinho se esquivou sutilmente do beijo.

— Onde você estava mesmo? — perguntou, firme. — Te mandei um monte de mensagem, você não respondeu nenhuma.

Ludmila piscou rápido, já sacando uma desculpa.

— No banheiro, ué. Nem queria falar isso, mas... comi alguma coisa que não me caiu bem. Me bateu uma caganeira daquelas, parecia que não ia acabar nunca.

Carla, entrando no papel, completou sem hesitar:

— Eu te falei que aquela coxinha que você comeu mais cedo tava estranha.

Edson lançou um olhar de reprovação para Carla, que apenas deu de ombros.

— Acho que foi isso mesmo — continuou Ludmila, se recompondo rápido. — Mas já passou. Agora eu quero é beber! — E, virando-se para o barman, disse com um sorriso forçado: — Mais um chopp aí, amigo, por favor!

Fabinho permaneceu em silêncio por alguns instantes, observando Ludmila com atenção.


═══🎭✦✧ Na manhã seguinte, no Lar São Tarcísio... ✧✦🎭═══

O refeitório do orfanato estava tomado pelo barulho característico das crianças se acomodando para o café.

— Olha a bagunça! Todo dia isso! — exclamou Irmã Tereza, caminhando entre as mesas. — Todo mundo já sabe onde tem que sentar. Qual a necessidade dessa confusão?

Enquanto ajudava um dos pequenos a se ajeitar, ela se aproximou de Irmã Rosália, que observava a movimentação com um olhar preocupado.

— E a Maria, irmã? Alguma notícia? — perguntou Irmã Tereza em voz baixa.

Irmã Rosália suspirou, abatida.

— Nenhuma. Desligou completamente o telefone. Sumiu. Não tá querendo assumir a responsabilidade do que fez no desfile — sua voz soava desapontada. — E pensar que ela parecia uma menina tão boa. Não dá pra entender.

Nesse momento, Gabriel apareceu na entrada do refeitório, os ombros levemente tensos, o rosto cansado. Seus olhos percorreram rapidamente o ambiente antes de se dirigir às irmãs.

— Bom dia, irmãs! — cumprimentou, tentando soar natural.

Irmã Rosália o encarou com firmeza.

— Onde você estava, Gabriel? Não dormiu em casa?

Ele hesitou antes de responder, desviando o olhar.

— Desculpe, irmã... Eu precisei resolver umas coisas.

— Que coisas são essas que te tomam a noite inteira? — Quis saber Irmã Rosália.

Gabriel respirou fundo, e então respondeu com calma:

— Se a senhora não me leva a mal, preferia não falar sobre isso agora.

Houve um instante de silêncio. Irmã Rosália analisou-o por mais alguns segundos, mas acabou cedendo com um leve aceno.

— Tudo bem. Senta lá e vai tomar seu café.

Gabriel agradeceu com um sorriso contido e seguiu para seu lugar.


═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══

Angelina estava sentada à mesa, tomando café com calma. Diante dela, Diná se movia para servi-la.

— Mais café, dona Angelina? — perguntou Diná.

— Sim, Diná. Obrigada.

Daiana chegou na sala, o semblante ainda meio sonolento.

— Bom dia! — saudou com leveza.

— Bom dia, minha filha! — respondeu Angelina com ternura.

— Bom dia, Daiana! — completou Diná, já se adiantando para servi-la.

— Cadê o papai? — perguntou Daiana, puxando a cadeira ao lado da mãe.

— Já foi pra Mulambo com o Fabinho — disse Angelina, com a voz firme. — Fiquei aqui esperando você. Precisamos continuar aquela conversa de ontem.

— Já vai começar a falar mal do Gabriel. — resmungou, aceitando o café que Diná acabara de servir. — Obrigada, Diná.

Angelina pousou a xícara no pires, o olhar firme sobre a filha.

— Isso é sério, Daiana. Depois daquela conversa de ontem sobre a maleta, eu não consegui dormir. Passei a noite inteira preocupada com você.

— Menos, né, mamãe? — retrucou Daiana, bufando. — Isso tudo é armação do Rodrigo. Tá desesperado porque eu não quero mais nada com ele. E também com medo de voltar pra cadeia — disse, tomando um gole de café. — Aliás, de lá ele nem devia ter saído.

Angelina fez uma pausa, olhando a filha com cautela.

— A polícia voltou na Mulambo há alguns dias.

— E o que eles queriam? — perguntou Daiana, mais atenta.

— Confirmaram que o acidente do seu pai foi um atentado. Provocado pelo Antunes.

— Mas que canalha! — exclamou Daiana. — Não duvidaria nada, se o Rodrigo também estivesse envolvido nisso.

— E tem mais. — prosseguiu Angelina — Uma outra informação que a polícia me trouxe. O número que ligava com frequência para o Antunes está cadastrado em nome do tio do Gabriel. Tio esse, que mora lá no orfanato junto com ele.

Daiana arregalou os olhos, confusa.

— Como assim? Não tô entendendo nada.

— Um tal de Epaminondas. Parece que é jardineiro por lá. Você conhece?

— O Epaminondas é tio do Gabriel? — Interrogou Daiana, incrédula. — Isso não pode ser! O Gabriel nunca me falou nada sobre isso.

— Pois é. Parece que tem muita coisa que esse Gabriel tá te escondendo. E você, boba, nem sequer quis olhar direito o que tinha naquela maleta que o Rodrigo te mostrou.


═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══

Joana andava pela sala, dando instruções para a diarista.

— Arrasta esses móveis, Milena. Limpa bem aqueles cristais, tá? Capricha mesmo hoje. Mas começa lá pela cozinha — disse ela, apontando com o dedo. — Tem tempo que a gente não faz uma faxina boa lá.

Milena assentiu com um leve sorriso e antes que desse o primeiro passo, a campainha tocou.

— Atende primeiro a porta pra mim, por favor — pediu Joana.

Milena seguiu até a porta e, ao abri-la, deparou-se com Kléber. Ele cumprimentou a diarista com um balanço de cabeça e se aproximou de Joana.

— Bom dia, Joana! — disse ele, entrando animado. — Lhe trago boas notícias.

Joana arqueou as sobrancelha com curiosidade.

— Estou mesmo precisando de boas notícias — comentou, virando-se para Milena. — Obrigada, querida. Pode começar seu serviço lá na cozinha.

Milena apenas assentiu e desapareceu pelos fundos.

— O inventário foi marcado pra essa semana — anunciou Kléber.

Joana acomodou-se no sofá e indicou com um gesto para que Kléber sentasse ao seu lado.

— Ah, que bom! Assim já vou saber a parte que me cabe naquelas ações e me livrar logo delas — disse com firmeza.

— E aqui vem outra boa notícia — emendou Kléber, já abrindo a pasta que carregava consigo. — O senhor Meireles me enviou um e-mail com a somatória de todas as ações que te pertencem. Ele fez várias simulações. Eu dei uma boa estudada... e olha, Joana, os valores estão acima do que normalmente se paga. No fim das contas, acredito que você vai estar fazendo um ótimo negócio.

Joana se recostou no sofá, deixando escapar um sorriso sincero, desses que vêm com o alívio.

— Era tudo o que eu queria ouvir, Kléber. Assim que eu tiver certeza do que realmente me pertence, eu fecho negócio com o senhor Meireles.


═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

Gabriel caminhava pelos corredores do orfanato. Ele mantinha a postura calma, mas os olhos vasculhavam o ambiente com atenção. Desceu até o jardim, onde Epaminondas apareceu repentinamente.

— Tá tudo bem com você, meu filho? — indagou.

Gabriel virou-se bruscamente, como se não esperasse companhia.

— Que susto! Estou bem sim... Epaminondas.

— Ainda procurando a maleta?

— Não — respondeu Gabriel, desviando o olhar. — Eu já sei onde ela está. A maleta tá com o Rodrigo.

Epaminondas soltou um suspiro pesado, como quem pressentia um vendaval se formando.

— Como essa maleta foi parar com o seu irmão? Isso não é nada bom, Gabriel.

— Eu sei — respondeu o rapaz. — Ele me procurou com uma proposta. Disse que me devolvia a maleta se eu me afastasse da Daiana. É claro que não concordei.

— Você fez errado. Devia ter concordado, pelo menos pra ganhar tempo. Depois conversava com a Daiana e se entendia com ela.

Gabriel o encarou de soslaio.

— Você tá certo — disse, com um sorriso curto. — Mas vou dar um jeito de pegar minha maleta, antes que ele me entregue pra polícia.

Epaminondas se aproximou mais um pouco, preocupado.

— Meu filho, tá tudo bem mesmo? Tô te achando tão estranho. Tem algo que você queira me contar?

— Não tem nada de estranho, Epaminondas. Eu hein! — disse Gabriel, com um leve riso nervoso. — Vou ali , preciso ligar pra Daiana. Depois a gente conversa mais.

E sem esperar resposta, saiu com passos apressados em direção ao corredor, deixando Epaminondas parado, observando-o com desconfiança.


═══🎭✦✧ Casa da Diná ✧✦🎭═══

Soraia andava de um lado para o outro pela sala, apertando com força o celular entre os dedos.

— Desgraçado... — murmurou entre os dentes. — Ele me bloqueou em tudo. Rodrigo, você vai se arrepender. Se pensa que vai me usar e depois me descartar, tá muito enganado.

No mesmo instante, Charles, entrou em casa com sorriso de escárnio nos lábios.

— A princesinha já encontrou emprego, ou tá aqui só querendo sombra e água fresca? — disse com ironia.

Soraia parou de andar, os olhos ainda ardendo de fúria.

— Por favor, pai... não começa. Hoje eu tô sem paciência pras suas caretices.

— Olha lá como fala comigo, moleca! Me respeita que sou seu pai.

— Vai me bater agora, é isso? — rebateu ela, enfrentando-o com o queixo erguido.

Num gesto impulsivo, Charles levantou a mão.

— Não me provoca, que é isso mesmo que você vai levar!

— Se atreva a encostar uma mão em mim! — disparou Soraia, com a voz firme. — Eu vou à polícia.

Por um breve instante, o silêncio caiu na sala. O olhar de Charles vacilou, e ele enfim abaixou a mão, engolindo a raiva.

— Tá certa — disse, com a voz tensa. — Não é com violência que vou te educar. Mas preste bem atenção, Soraia. Isso aqui não é hotel. Você tem até o fim do mês pra arranjar um emprego e começar a ajudar nas despesas da casa. Caso contrário, vou esquecer que um dia você foi minha filha. E te jogo pra fora só com a roupa do corpo.

Soraia o encarou com desprezo. Pegou a bolsa que estava sobre o sofá, enfiou o telefone dentro e saiu de casa, sem dizer mais nada.


═══🎭✦✧ Mascarenhas Models ✧✦🎭═══

Daiana estava sentada em um poltrona, enquanto Frida estava em outra em sua frente.

— E se minha mãe estiver certa, Frida? — desabafou Daiana, passando as duas mãos pelo o rosto — E se eu estiver completamente enganada, e o Gabriel for mesmo o culpado?

Frida respirou fundo, tentando encontrar as palavras certas.

— Calma, Daiana! Essa história toda tá deixando todo mundo confuso. O melhor que você pode fazer agora é parar, respirar, e encarar a realidade com clareza. O que você precisa é ver o que tem dentro daquela maleta. Com atenção. Ver se as acusações do Rodrigo fazem algum sentido ou não.

— Pelo pouco que vi... havia cartas, fotos, jornais antigos. Tinha uns objetos lá dentro também, mas não prestei muita atenção do que se tratava. A maleta parece que chegou a pegar fogo, algumas coisas estavam chamuscadas.

— E você chegou a falar sobre isso com o Gabriel?

— Sim. Primeiro ele disse que não sabia de maleta nenhuma. Mas agora já quer conversar. Disse que vai me explicar tudo com calma.

Frida inclinou-se para frente, olhando nos olhos da amiga.

— Se essa maleta realmente pertence ao Gabriel, e dentro dela tem coisas do passado do Antunes... isso levanta uma questão importante: os dois se conheciam antes do homicídio. Isso muda muita coisa.

Daiana apoiou o rosto entre as mãos, o desânimo evidente.

— Nossa, véi... será que eu me iludi de novo? Será que errei mais uma vez ao me deixar levar por sentimentos?

— Vocês ainda vão se ver hoje?

— A gente tinha combinado de assistir um filme. Mas depois disso tudo, nem sei se tô com cabeça pra isso.

Frida tocou no braço dela com delicadeza.

— Talvez esse encontro seja ainda mais necessário agora. Escuta o que ele tem a dizer. Dá a ele a chance de se explicar. Vai que a gente tá aqui criando monstros que nem existem?

Daiana levantou os olhos, respirou fundo e assentiu lentamente.

— Você tem razão. Eu preciso ouvir o que ele tem pra dizer. Tenho certeza que ele deve ter uma boa explicação pra tudo isso. Não dá pra acreditar que o Gabriel tenha articulado todo um plano pra matar o Antunes.


═══🎭✦✧ Shopping ✧✦🎭═══

Gabriel caminhava lentamente pelos corredores do shopping. Falava sozinho, em voz baixa, como se desabafasse com seus próprios fantasmas.

— O cerco tá se fechando... Tudo tá tão embaraçoso. As coisas têm que dar certo. Agora não dá mais pra voltar.

Estava tão absorto em seus pensamentos que não percebeu a figura que se aproximava até ouvir seu nome ser chamado:

— Gabriel!

Ele virou-se abruptamente. Parou por um instante, seus olhos se arregalaram em surpresa e confusão.

— Maria? Você tá... você tá diferente.

A jovem diante dele sorriu com certo embaraço.

— Acho que tenho muita coisa pra te explicar, né?

— Sim... claro. — Gabriel ainda parecia atordoado. — Você fugiu do orfanato sem dar nenhuma explicação.

Soraia suspirou.

— A primeira explicação que tenho que te dar é sobre quem eu sou de verdade. Eu menti, Gabriel. Meu nome não é Maria. É Soraia. E toda aquela história de acampamento, de ser do Maranhão, também era mentira. Meus pais são de lá, mas eu nasci aqui mesmo.

— Mas por quê? — ele perguntou. — Por que você inventou tudo isso?

— Porque eu estava ajudando o Rodrigo. — confessou. — Eu precisava me aproximar de você, entender quem você era de verdade. Saber se havia alguma ligação entre você e o Antunes.

— Então foi por isso que você roubou minha maleta?

— Justamente. — confirmou com franqueza.

— Você tem ideia do que fez? Isso é crime, Soraia. Você pode ser presa.

— Não usei nenhum documento falso, nem assinei nada como "Maria". Talvez até responda por estelionato, sei lá — ela deu de ombros. — Mas você também pode acabar atrás das grades, né Gabriel? Homicídio, lembra?

— Eu não matei o Antunes! — respondeu ele, nervoso.

— A gente já sabe que sim. — disse ela, convicta. — Aquela maleta fala por si.

Mas então, suavizou a expressão, deu um passo em direção a ele e falou com doçura, enquanto deslizava a mão pelo o seu rosto:

— Relaxa... não tô aqui pra te julgar. Tô aqui pra te propor um acordo.

Gabriel a encarou desconfiado.

— Que tipo de acordo?

— Quero que você me ajude a colocar o Rodrigo atrás das grades.

Ele franziu a testa, surpreso.

— Você roubou minha maleta pra dar a ele, e agora quer minha ajuda pra prendê-lo?

— Eu tô com ódio daquele desgraçado. Depois de tudo que eu fiz, ele só pensa naquela vara seca de tirar mamão. — disse com desprezo.

E então, ela se aproximou mais. Os olhos brilhavam de malícia e estratégia. Passou a mão pelos os cabelos de Gabriel com suavidade.

— Pensa bem. Nós dois juntos poderíamos fabricar provas... deixar tudo nos trinques pra mostrar que foi ele quem matou o Antunes. Eu prometo recuperar sua maleta, antes que ele entregue à polícia. — disse em tom sussurrado, bem proximo de ouvido dele. — E você, eu sei que vai saber exatamente o que fazer.

Gabriel afastou levemente o rosto, incomodado.

— Você tá falando como se eu fosse mesmo o culpado.

Soraia lançou uma gargalhada debochada, erguendo o queixo com superioridade.

— Ah, Gabriel... — disse, saboreando aquele momento. — A mim você não engana mais, querido. Mas não se preocupe. Pensa com calma, não precisa me responder agora. Mas pense bem direitinho. Pois a polícia já tá juntando as peças. Não vai demorar até que cheguem até você. Tô te propondo um pacto. Juntos, podemos jogar a culpa toda em cima do Rodrigo.

Seus olhos agora percorriam o rosto de Gabriel com atenção.

— E olhando aqui agora de perto... — ela murmurou, com um sorriso lascivo. — Sabia que você é bem mais interessante do que o Rodrigo?

Sem esperar resposta, inclinou-se e o beijou. Um beijo calculado, provocante, audacioso. Gabriel, pego de surpresa, correspondeu ao beijo. E foi nesse exato instante que Daiana apareceu, parando a poucos passos, os olhos arregalados diante da cena.

— O que tá acontecendo aqui? — perguntou ela, com a voz embargada pela decepção.

╚═════════════════✦✧❖✧✦═════════════════╝