MINHA OUTRA FACE
37 Casados & Armados
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═══🎭✦✧ Em uma rua qualquer ✧✦🎭═══
Gabriel continuava encarando Artur pelo retrovisor. O coração acelerou por um instante, mas ele manteve a postura. Precisava sustentar o personagem para entender qual era, afinal, a ligação daquele homem com Rodrigo.
— Claro que lembro. — respondeu, com naturalidade ensaiada. — Como vai?
Artur suspirou pesado antes de falar, o sotaque português ainda mais carregado.
— Não muito bem, senhor Rodrigo. Sei que o senhor já me pagaste pelos meus serviços... — fez uma breve pausa. — Mas estou a passar por uma necessidade muito grande.
Gabriel permaneceu em silêncio, atento.
— O meu pai, que mora em Lisboa, está com câncer. — continuou Artur. — Preciso voltar pra lá e ajudar no tratamento. Mas não tenho dinheiro suficiente.
Gabriel percebeu que havia muito mais por trás daquela conversa. Mas qualquer movimento errado poderia denunciá-lo.
— Sinto muito pelo seu pai. — disse, controlado. — Mas não posso te ajudar. Como você mesmo disse, os seus serviços já foram pagos.
— Seu Rodrigo... — falou num tom mais baixo. — Não quero parecer chantagista. Mas se o senhor não me ajudar, vou ter que procurar outros meios.
O aviso estava dado.
Gabriel respirou fundo, ponderando. Precisava ganhar tempo. Precisava entender melhor o que Artur realmente sabia.
— Me passa o seu número. — disse, firme. — Vou ver direitinho o que posso fazer. Mas escuta bem: ninguém, absolutamente ninguém, pode saber dessa nossa conversa.
Artur hesitou por um segundo. Depois, puxou um cartão do bolso e entregou a ele.
— Não me procure. — alertou. — Deixe que eu te procuro. Amanhã mesmo entrarei em contato.
Gabriel pegou o cartão, analisando rapidamente.
— Obrigado. — disse Artur, aliviado. — Desculpe por falar desse jeito. Mas é que tô desesperado.
Gabriel apenas assentiu.
Ele desceu do carro e ficou parado na calçada, observando o veículo se afastar até desaparecer na esquina.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes — quarto do Rodrigo ✧✦🎭═══
Soraia estava sentada na poltrona ao lado da cama, pernas cruzadas, o corpo imóvel. O olhar fixo em Rodrigo dormindo.
Ele despertou e se ergueu de uma vez, assustado.
— Que porra é essa? — disparou. — O que você faz aí me olhando desse jeito?
Soraia não piscou.
— Estava pensando. — respondeu, com calma perturbadora. — Pensando em como vou fazer pra te matar.
Rodrigo soltou uma risada curta, forçada.
— Voltou cheia do deboche, né? — disse, levantando-se. — Mas agora eu preciso me arrumar e ir trabalhar.
Aproximou-se dela e deu uma bitoca rápida, quase automática.
— Foi bom matar a saudade desse seu corpo. — completou, irônico. — Mas ser presidente de empresa não é só sentar numa cadeira bonita. A gente trabalha muito. Você sabe o que é isso, trabalhar?
Soraia descruzou as pernas lentamente e se levantou. O sorriso que surgiu não tinha humor algum.
— Você não tá me levando a sério, né, Rodrigo?
Ela deu um passo em direção a ele, a voz baixa, venenosa.
— Então presta atenção. — disse. — Cuidado ao pegar o carro... o freio pode estar cortado. Um clichê, eu sei, mas sempre funciona. Cuidado ao atravessar a rua... um carro desgovernado resolve muita coisa. São Paulo anda violenta... bala perdida acontece. E cuidado com o que você bebe. A gente nunca sabe o que colocaram no copo.
Rodrigo engoliu seco.
— Eu vou te matar. — concluiu ela, firme. — É só uma questão de tempo.
Num acesso de fúria, Rodrigo avançou e segurou o pescoço de Soraia, apertando com força.
— Toma cuidado você, sua piranha desgraçada. — rosnou. — Eu posso te matar primeiro.
Soraia tentou respirar, levando as mãos ao braço dele, mas sem perder o brilho desafiador no olhar.
Antes que a situação fosse mais longe, alguém bateu forte na porta.
— Seu Rodrigo! — a voz de Milena soou do outro lado. — A polícia tá embaixo querendo falar com a dona Soraia.
Rodrigo soltou o pescoço dela de imediato. Soraia se dobrou levemente, respirando com dificuldade e a mão no pescoço.
— Como a polícia já sabe que você tá aqui? — ele resmungou, passando a mão pelo rosto. — Foi o Kléber, é claro...
Endireitou-se, tentando recuperar o controle.
— Ok, Milena. Já estamos descendo.
Virou-se para Soraia, o olhar duro, ameaçador.
— Presta bem atenção no que você vai falar lá embaixo. — disse, em tom baixo.
Soraia apenas o encarou.
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Epaminondas cuidava da roseira. Ao podar um dos ramos, o espinho atravessou a pele de seu dedo.
— Droga! — murmurou, fechando a mão instintivamente.
— Epaminondas? — a voz de Irmã Rosália soou atrás dele. — Tá tudo bem?
Ele se virou rápido, quase culpado.
— Me perdoe, irmã, pelo palavrão. — disse, apertando o dedo ferido. — Não foi nada demais. Me furei com o espinho.
Irmã Rosália aproximou-se, observando-o com atenção.
— Tenho notado que você anda tenso esses dias. — comentou. — Aconteceu alguma coisa?
Epaminondas desviou o olhar para a roseira, fingindo concentrar-se novamente.
— Nada não. — respondeu. — Coisa do trabalho mesmo.
— Você não precisa se matar assim, viu? — disse ela, com doçura. — Essa poda pode ficar pra depois.
Ele soltou um meio sorriso.
— O trabalho não me mata, irmã. — respondeu. — Pelo contrário... me distrai.
Irmã Rosália suspirou fundo, cansada.
— Tá aí uma coisa que eu também precisava. — confessou. — Me distrair. Nenhuma notícia ainda do corpo do Gabriel. — a voz embargou. — E essa demora só me angustia mais. Porque a gente fica alimentando a esperança de que ele possa está vivo.
Epaminondas parou por um instante. Limpou o sangue do dedo com o pano do bolso e então falou, com calma quase solene:
— Dizem que Deus tem uma mania curiosa... — começou. — De escrever o certo com linhas tortas.
Ele ergueu os olhos para ela.
— Acalma o vosso coração, irmã. Talvez o corpo do Gabriel não esteja tão longe quanto a gente imagina. Só esteja esperando o momento certo pra aparecer.
Irmã Rosália franziu o cenho, sentindo um arrepio estranho.
— Por que você tá dizendo isso, Epaminondas? — perguntou. — Tá sabendo de alguma coisa?
Ele sustentou o olhar por alguns segundos. Depois, abaixou a cabeça, sereno.
— O que eu sei é que Deus é justo. — respondeu. — E Ele não abandona um filho Seu.
Epaminondas largou a tesoura sobre o carrinho de jardinagem.
— Vou fazer uma pausa e tomar um café. — disse, tentando mudar o tom. — A irmã aceita um pouco?
Irmã Rosália assentiu devagar, mas permaneceu parada, observando-o se afastar.
═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══
Daiana estava no quarto, com o celular colado ao ouvido.
— Calma aí, Gabriel... — disse, tentando organizar as ideias. — O motorista é português e tá envolvido com a TexHold? Porque, pelas pesquisas que o Fabinho fez, essa holding é de Lisboa. Esse cara pode ser o caminho pra gente desvendar as tramoias do Rodrigo por trás disso tudo.
— Foi exatamente o que eu pensei — respondeu Gabriel, do outro lado da linha. — Eu já não sabia como prosseguir, então adiei a conversa pra amanhã. Precisava falar com você antes... tentar entender melhor onde tô pisando.
Daiana suspirou.
— Eu sei muito pouco. Só o que a gente levantou na internet quando meu pai ainda tava em dúvida se fechava acordo ou não com essa holding. Sei também que eles tiveram uma reunião antes com um representante da TexHold. Acredito que seja aí que esse tal de Artur entra. — Fez uma pausa, mais dura. — Com certeza não era representante de coisa nenhuma. Apenas mais um pau mandado do Rodrigo. Mas não posso dá certeza de nada.
— Mas com certeza é isso mesmo — Gabriel concordou. — Vou me encontrar com esse cara amanhã de novo. Quero ver até onde ele vai... tentar arrancar mais alguma coisa.
— Meu amor, toma cuidado — a voz dela baixou, preocupada. — Isso pode ser muito perigoso. E se ele resolver falar alguma coisa pro Rodrigo?
— Eu deixei claro que ele não comentasse nada com ninguém — disse Gabriel. — Pedi pra esperar, que amanhã eu entraria em contato.
Hesitou.
— O problema é que ele tá querendo dinheiro, né, Daiana? E aí... eu já não sei como agir.
— Gabriel... — Daiana pensou por um instante. — E se a gente contar pro Fabinho? Ele tá mais por dentro dos assuntos da Mulambo. Pode ajudar a pensar numa saída melhor.
— Não sei como seu irmão vai reagir quando souber que eu tô vivo — confessou ele, com receio.
— Não acho que ele vá agir mal — respondeu, firme. — Eu explico tudo direitinho. A gente precisa encontrar um jeito desse cara entregar os podres do Rodrigo.
Do outro lado da linha, um breve silêncio.
— Então tá certo — disse Gabriel, por fim. — Fala com seu irmão. Eu fico aguardando uma resposta.
— Assim que ele chegar, vou conversar com ele — garantiu Daiana, antes de desligar.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Will estava na sala, sentado de frente para Kléber e Joana.
No topo da escada, Soraia surgiu, descendo devagar, o braço apoiado no de Rodrigo.
— Boa tarde, delegado. Como vai? — disse Rodrigo, num tom cordial.
— Boa tarde, Rodrigo — respondeu Will, desviando o olhar para Soraia. — E a moça, como está?
— Muito bem — respondeu ela, firme. — E curiosa pra saber por que o senhor se deslocou da delegacia até aqui pra falar comigo.
— Você sabe que seus pais registraram uma ocorrência de desaparecimento, né? — começou. — Durante a investigação, levantamos a suspeita de que a senhorita estivesse na kombi com Gabriel no momento do acidente. Onde esteve todo esse tempo?
Soraia respirou fundo antes de responder, como quem escolhe cada palavra.
— Delegado, meus pais são exagerados. Fazem tempestade em copo d'água. Sou maior de idade, plenamente capaz, e tenho o direito de ir e vir sem dar satisfação da minha vida pessoal a ninguém. Apenas tirei um tempo pra mim. Longe da cobrança... da pressão do meu pai querendo que eu arrumasse um emprego.
Fez uma breve pausa. O olhar endureceu.
— Agora, essa história de que eu estava na kombi com o Gabriel... isso não passou de uma teoria sem prova alguma. Uma suposição levantada por uma investigação preguiçosa da polícia.
O semblante de Will fechou na mesma hora.
— Como é que é?
— Peço desculpas se soei grosseira, delegado — disse ela, num tom que não parecia nem um pouco arrependido. Em seguida, virou-se levemente para Joana. — Mas veja bem, temos aqui uma mãe que até hoje não pôde sequer enterrar o filho. O acidente aconteceu há tanto tempo... e até agora a polícia nem encontrou o corpo do Gabriel.
Joana levou a mão ao peito. Os olhos se encheram de lágrimas, mas ela permaneceu em silêncio.
— A polícia continua trabalhando no caso — respondeu Will, firme, tentando manter a autoridade. — Mas o assunto aqui é o seu desaparecimento.
Soraia deu um passo à frente.
— Delegado, desaparecimento é quando alguém some contra a própria vontade. Não foi o meu caso. Eu sei exatamente quais são os meus direitos. Não estou detida. Não fui intimada. E não sou obrigada a prestar depoimento aqui, na minha casa.
Ela respirou fundo antes de concluir:
— Amanhã estarei na delegacia, acompanhada de um advogado. Hoje... não tô disposta.
Soraia entrelaçou o braço no de Rodrigo.
— Com licença. Eu e meu marido temos coisas mais urgentes pra resolver. Vamos, querido.
Rodrigo sorriu de canto, surpreso com a postura da Soraia. Ele lançou um último olhar para Will e acompanhou a esposa.
A porta se fechou.
Will quebrou o silêncio:
— Mas essa garota é bem abusada, hein?
Joana soltou o ar lentamente.
— O senhor nem imagina o quanto.
— Mas, no momento, não posso fazer nada. — Continuou Will. — Vou aguardar que ela apareça na delegacia amanhã. Caso contrário... farei uma intimação mais formal.
═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══
Fabinho estava tirando a camisa quando Daiana entrou em seu quarto sem bater.
— Oi... Tá ocupado? A gente pode conversar um pouco? — perguntou ela.
— Eu só ia tomar um banho. Pretendo sair mais tarde. — Ele estranhou o semblante dela. — Aconteceu alguma coisa?
Daiana encostou a porta, como se quisesse garantir que ninguém ouviria. Caminhou até ele, segurou seu braço e o puxou até a cama. Sentaram-se lado a lado.
— Aconteceu. Mas você precisa me prometer que não vai contar nada pra ninguém. Nem mesmo pro nosso pai e nem pra mamãe.
Fabinho franziu a testa.
— Tá. Eu prometo. Mas você tá me assustando. O que houve?
Daiana engoliu seco e pensou antes de continuar.
— O Gabriel... o Gabriel não morreu, Fabinho.
— O quê? — Fabinho arregalou os olhos, assustado. — Como assim não morreu? E onde ele tá?
— Escondido. Eu não sei exatamente onde. Mas ele tá vivo. E tá precisando muito da nossa ajuda pra provar que é inocente.
Fabinho boquiaberto, tentava processar.
— Então... isso quer dizer que não foi ele que matou o Antunes? Daiana, podemos mesmo confiar nisso?
Daiana encarou o irmão.
— Diante de tudo que o Rodrigo vem fazendo... você ainda acredita que ele seja inocente nesse caso?
Fabinho ficou em silêncio por alguns segundos.
— Tá certo. E como você acha que a gente pode ajudar?
Daiana respirou fundo.
— Hoje a gente fez uma loucura. O Gabriel se passou pelo Rodrigo e foi até a Mulambo. A ideia era conseguir alguma coisa que incriminasse o Rodrigo. Um documento, um contrato, qualquer coisa que seja. Mas o verdadeiro Rodrigo voltou antes do previsto. Gabriel teve que fugir às pressas.
Fabinho começou a entender.
— Então era por isso que você tava nervosa mais cedo...
— Exatamente. Enquanto eu estava lá com vocês... o Gabriel estava na sala do Rodrigo.
— Inacreditável.
— Eu sei. Mas tem mais. — Ela hesitou. — Na volta pra casa, o Gabriel pegou um carro de aplicativo. O motorista era português... e confundiu ele com o Rodrigo. Deixando escapar que tinha ligação com a TexHold.
— Pera aí.. Será que é o mesmo português que apareceu como representante da holding? — perguntou Fabinho, já conectando as peças.
— Foi o que eu pensei. Esse cara pode ser o caminho pra gente desmascarar o Rodrigo.
Fabinho encarou a irmã, pensativo.
═══🎭✦✧ Avenida Paulista ✧✦🎭═══
Novo dia. E logo pela manhã, Rodrigo dirigia com uma das mãos no volante e a outra apoiada na janela. Óculos escuros. Expressão tranquila.
O som do carro ligado alto. Batida eletrônica pulsando no interior do veículo.
A cidade viva ao redor. Ônibus passando, motos costurando o trânsito e sinal abrindo.
Então ele ouviu.
Tic... tac... tic... tac...
Rodrigo franziu a testa. A música continuava. Grave vibrando.
Ele abaixou o volume.
O som persistiu.
Tic... tac... tic... tac...
Ele trocou de faixa.
Outra batida começou.
O tic-tac continuou.
Desligou completamente o som.
Silêncio.
Só o motor.
E o barulho.
Tic. Tac. Tic. Tac.
Agora estava claro. Não vinha do painel. Não vinha do celular. Vinha da direita. Do porta-luvas.
Um arrepio subiu devagar pela espinha.
— Mas que porra é essa? — murmurou.
O trânsito estava pesado. Carros colados. Um ônibus enorme à frente.
Ele esticou a mão, devagar.
Abriu o porta-luvas.
Lá dentro, preso na lateral interna. Um dispositivo pequeno, preto. Um visor digital aceso.
00:10
O mundo pareceu afundar.
— Que isso? Como isso veio parar aqui?!
O contador caiu.
00:09... 00:08...
Ele pisou no freio.
O pedal afundou até o fim.
O carro não reduziu.
— Não... não... NÃO! Mas o que tá acontecendo?
Puxou o freio de mão com violência.
O carro começou a derrapar.
Buzinas explodiram ao redor.
Uma moto passou raspando. O motoqueiro gritou:
— Tá maluco, porra?!
00:07... 00:06...
Ele tentou jogar o carro para a direita.
Outro carro bloqueava.
Suor escorria pelo rosto.
As mãos tremiam.
00:05... 00:04...
O ônibus à frente freou bruscamente.
Rodrigo girou o volante com força e lançou o carro contra a lateral da via, raspando violentamente no meio-fio.
O veículo perdeu velocidade.
Bateu contra uma lixeira metálica.
00:03... 00:02... 00:01...
Silêncio.
Nada.
Nenhuma explosão.
Nenhum impacto.
Apenas o som distante das buzinas e o coração dele disparado no peito.
Rodrigo ficou imóvel.
Respirando como se tivesse voltado da morte.
O carro parado.
O visor dentro do porta-luvas apagou.
O celular vibrou ao lado.
Ele pegou com a mão ainda trêmula.
Mensagem:
📲 "Bom dia, querido. Essa foi só pra testar o seu coração. Cuidado, na próxima posso não ser tão generosa." 📱
Rodrigo fechou os olhos por um segundo.
— Desgraçada... maldita... — murmurou entre os dentes.
Dessa vez, não havia apenas raiva.
Havia medo.
E pela primeira vez, Rodrigo percebeu:
Soraia não estava brincando.
═══🎭✦✧ Casa do Bira ✧✦🎭═══
Bira estava na poltrona, a preocupação era visível.
Soraia caminhava de um lado para o outro na sala, lenta, saboreando cada segundo do caos que havia plantado.
— Você tá maluca, Soraia? — Bira disparou. — Você tá provocando ele! Já viu muito bem do que aquele cara é capaz!
Ela parou no meio da sala. Virou o rosto devagar.
— Já vi do que ele é capaz. — respondeu, firme. — Mas ele ainda não viu do que eu sou capaz. Eu não tenho medo não, Bira. Assim como ele pode me matar... eu também posso matar ele. E é isso que eu vou fazer. — completou, fria. — Mas, na hora certa.
Ela caminhou até a janela, afastando levemente a cortina, observando a rua como se calculasse possibilidades.
— Eu ainda tô recém-casada. Uma morte agora levantaria suspeitas. Você acha mesmo que eu casei em comunhão total de bens pra viver com o Rodrigo, sabendo que ele divide a cama comigo pensando em outra?
Virou-se com um meio sorriso.
— Eu acordei pra vida, bebê.
Bira se levantou e aproximou dela.
— Me escuta. Não entra nessa pilha. Até agora você não cometeu crime nenhum. Não vai ser presa. Eu é que já tô todo enrolado nisso.
Ela riu — um riso curto, seco.
— Não cometi crime? — arqueou a sobrancelha. — Eu acabei de colocar uma bomba no carro do Rodrigo. Você acha que isso não é crime?
— Ele não vai te denunciar. — ele respondeu rápido. — Até porque a bomba era falsa. Não tinha nada ali que realmente explodisse. Você não vai responder por isso. Mas se continuar assim... você pode se enrolar de verdade.
Ele se aproximou, olhando nos olhos dela.
— Gatinha, se liga. Se o Rodrigo for preso, você já fica com tudo que é dele. Não precisa ir além disso.
Os olhos de Soraia escureceram.
— Ainda é pouco. — disse, com ódio. — Eu quero muito mais. Eu voltei disposta a me vingar. Não é só dinheiro. Não é só patrimônio. Eu quero ver o Rodrigo cair, e eu por cima olhando. Eu voltei pra matar o Rodrigo.
Fez uma pausa, mais controlada.
— Mais tarde eu tenho que ir à delegacia prestar depoimento sobre o meu desaparecimento. Preciso de uma história bem convincente pra contar pro delegado. Não posso deixar a polícia no meu pé.
Bira estreitou os olhos.
— Você vai chamar o namorado da sua sogra pra ser seu advogado?
Soraia soltou uma gargalhada debochada.
— Só se eu tivesse louca. — respondeu. — Quem vai comigo é o Dr. Xavier. O capacho do Rodrigo. Ele também tem interesse nisso. Vai me ajudar a construir uma versão bem convincente.
Bira balançou a cabeça.
— Você tá se perdendo. Tá brincando com fogo.
Soraia se aproximou lentamente, o olhar firme, quase hipnótico.
— Não, meu amorzinho. Você é que ainda não entendeu.
Ela bateu no próprio peito.
— Eu é que sou fogo. E é o Rodrigo quem vai se queimar.
═══🎭✦✧ Casa dos Meireles — barraco dos fundos ✧✦🎭═══
Diná estava de costas, esfregando as louças, Charles entrou falando ao telefone.
— Claro... eu sei. Entendi direitinho. — fez uma pausa. — Obrigado, doutor, por avisar.
Desligou.
Ficou parado no meio da sala, encarando a esposa. O rosto pálido, os olhos arregalados.
— Que foi, homem? Que cara é essa?
Ele demorou a responder.
— Era a polícia.
Diná se aproximou, o coração disparado.
— Eles encontraram o corpo da nossa filha? — a voz falhou. — Eu vou poder finalmente dar um enterro digno pra ela?
Charles engoliu seco.
— A Soraia tá viva, Diná.
Por um segundo, o mundo pareceu parar. Os olhos de Diná se encheram de lágrimas.
— Viva? — levou a mão à boca. — Minha filha tá viva? Onde ela tá? Eu preciso falar com ela... preciso abraçar minha menina. Onde tá minha filha, Charles?
Ele foi até o filtro, encheu um copo de água e bebeu de uma vez.
— Calma. Eu ainda tô tentando entender o que o delegado me falou.
— Como assim, entender? — ela se aproximou, aflita. — O que aconteceu? Ela tá ferida? Tá num hospital? Fizeram mal à minha filha? Eu sou mãe, Charles! Eu preciso saber!
Charles virou-se, já irritado.
— Aquela ali nunca se importou nem comigo nem contigo! Nunca esteve desaparecida! Sumiu porque quis!
Diná ficou paralisada.
— E sabe onde ela tá agora? — continuou ele, amargo. — Lá na casa da família Antunes. O delegado disse que ela e o seu Rodrigo tão casados.
— Casados? — disse Diná, confusa. — Que casamento é esse? Nós somos os pais! Nem ficamos sabendo!
Charles soltou uma risada seca.
— Você acha mesmo que a Soraia ia convidar a gente pro casamento dela?
As pernas de Diná fraquejaram. Ela se apoiou na mesa, respirando com dificuldade.
— Eu aqui... chorando a morte dela... — murmurou, a voz quebrada. — Acendendo vela... pedindo pra Deus cuidar da alma da minha filha.
As lágrimas começaram a cair, mas o olhar mudou. Ficou duro.
— Pois eu vou lá. — disse, firme. — Minha filha vai olhar na minha cara e me dizer o que aconteceu. Porque isso não tá certo. Não tá. Tem que ter uma explicação muito séria.
Diná enxugou o rosto com as mãos.
— Eu cometi muitas falhas nessa vida... — sussurrou. — Mas não posso acreditar que eu criei um monstro desses.
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