MINHA OUTRA FACE
38 Quando o sangue ferve
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═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══
Rodrigo estava sentado atrás de sua mesa, postura rígida. O olhar fixo em Xavier, que permanecia à sua frente, igualmente sentado .
— Essa mulher é completamente maluca. — disse Xavier. — Mas você acha mesmo que ela teria coragem de ir até o fim?
Rodrigo não desviou o olhar.
— Eu conheço a Soraia. — respondeu, preocupado. — Quando ela coloca uma ideia na cabeça, ela não recua. Ela tá com ódio. Orgulho ferido é combustível perigoso. Antes de tudo isso, ela já estava disposta a se juntar com o Gabriel pra bolar algo contra mim. Isso quando achava que ele era o assassino. Imagina agora, depois de tudo o que aconteceu.
— E o que você pretende fazer?
Rodrigo respondeu sem hesitação:
— O óbvio. Dar um fim nela antes que ela acabe comigo.
Xavier respirou fundo.
— Rodrigo... cuidado. Você já tem fantasmas demais. Não transforma isso em um serial killer. Sua conta já tá bem grande.
Rodrigo abriu um meio sorriso.
— Tecnicamente, essa vítima já tava na lista. Ela só teve o desprazer de ressuscitar. Agora é uma questão de sobrevivência. Ou é ela, ou sou eu.
Ele se inclinou sobre a mesa.
— Mas antes, tenho um serviço pra você. Vai agora pra delegacia com ela prestar esse depoimento. Não posso permitir que o Kléber cuide desse caso. E precisamos garantir que a versão dela esteja alinhada com a nossa.
Xavier assentiu devagar.
— Ok. Cuidarei disso.
Rodrigo se recostou na cadeira.
— Depois quero conversar direito com você sobre o divórcio. Não posso permitir que a Soraia fique com nada que é meu.
Xavier o encarou com cautela.
— Você quer separação litigiosa?
Rodrigo se ajeitou na cadeira.
— Quero que você consiga um jeito de blindar. Quero essa vadia fora da minha vida... e se possível sem um centavo.
═══🎭✦✧ Barzinho ✧✦🎭═══
O bar era discreto. Mesas espalhadas pela calçada, um movimento tranquilo.
Gabriel estava sentado na mesa do canto. Postura firme. Ombros retos. Tentava copiar cada gesto de Rodrigo.
No ouvido, um fone sem fio discreto. Ele pegou o celular e discou.
Do outro lado da rua, dentro de um carro estacionado, Fabinho estava ao volante. Daiana no banco do passageiro e Epaminondas atrás, inquieto. Daiana atendeu em viva-voz.
— Oi, meu amor...
Gabriel folheou o cardápio como se estivesse apenas escolhendo algo.
— Acho que o cara desistiu. — murmurou, quase sem mover os lábios. — Já passou da hora. As últimas mensagens nem foram visualizadas.
— Calma. — respondeu Daiana. — Vamos esperar mais um pouco. Ele pode estar chegando.
Fabinho, atento ao movimento da rua, observou.
— Tem um carro encostando ali na esquina... — disse, baixando a voz. — Pode ser ele. Daiana, prepara o celular pra gravar.
Epaminondas suspirou.
— Vocês tão achando o quê? Que isso aqui é filme de Tom Cruise? Isso pode ficar perigoso. A gente não sabe quem é esse sujeito de verdade.
— Mas a gente tinha que fazer alguma coisa, né, seu Epaminondas? — retrucou Daiana.
— Ele tá descendo do carro. — avisou Fabinho. — Tomara que o Gabriel arranque algo relevante. Senão vamos ter que pensar em um plano B.
Epaminondas murmurou:
— Plano feito às pressas é estrada sem placa... só descobre o destino quando já tá perdido.
Do outro lado da rua, Gabriel respirou fundo.
— Agora silêncio... — sussurrou. — O homem tá chegando.
Daiana apertou o botão de gravação.
Artur se aproximava devagar. Olhos atentos, varrendo o ambiente antes de sentar.
— Boa tarde, seu Rodrigo... — disse, acomodando-se com cautela. — Desculpe se demorei.
Gabriel sustentou o olhar.
— Tudo bem. Vai beber alguma coisa?
— Aceito lhe acompanhar na cerveja.
Gabriel fez um gesto discreto ao garçom.
Artur respirou fundo antes de falar.
— Seu Rodrigo... sei que o senhor é influente. Não quero que pense que sou chantagista. Mas eu tô desesperado. Meu pai anda muito mal. O dinheiro que me pagaste... já acabou. Eu preciso de pelo menos metade do que me deste antes.
Gabriel inclinou a cabeça, calculado.
— Complicado, portuga. Como você mesmo disse... eu já paguei o que combinamos.
Artur se inclinou para frente e segurou firme o braço de Gabriel.
No carro, Daiana arregalou os olhos. E todos trocaram olhares.
— Presta atenção. — sussurrou Artur, a voz agora fria. — Se o senhor não me pagar, eu vou à polícia e conto tudo o que sei. Não me importo de ser preso. Mas eu derrubo o vosso império.
Gabriel sentiu o estômago gelar. No carro, os três trocaram olhares tensos.
— Gabriel tá arriscando demais... — murmurou Epaminondas. — Esse cara pode estar armado.
Gabriel puxou o braço com firmeza, incorporando Rodrigo.
— Quem você pensa que é pra me ameaçar? — disse, baixo e cortante. — O que exatamente você poderia falar pra polícia?
Artur sorriu de canto.
— O senhor sabe muito bem. Pagaste o hacker pra criar um fundo fake pra sua holding. Eu fui como representante pra convencer o bacana lá a vender as ações dele pra ti.
Ele se aproximou ainda mais.
— E é importante o senhor também saber de outra coisa: eu e o Denis estamos juntos nisso. Se o senhor não me ajudar... ele desfaz tudo o que construiu. Sistema, documentos, transferências... tudo. Já era o histórico da TexHold.
Fez uma pausa, com olhar ameaçador.
— E aí, seu Rodrigo... o senhor já viu, né?
O silêncio entre os dois ficou pesado.
═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil – Sala do Meireles ✧✦🎭═══
Angelina estava sentada à frente da mesa. Meireles, em sua cadeira de rodas, mantinha os olhos fixos no computador.
— E o Fabinho falou mais alguma coisa sobre não ter vindo trabalhar? — perguntou ela.
Meireles desviou os olhos da tela por um instante.
— Disse que tinha umas coisas importantes pra resolver. — respondeu. — Pediu pra ser dispensado hoje. Falou que ainda não podia explicar.
Angelina franziu a testa.
— Quanto mistério. A Daiana saiu lá de casa junto com ele. Esses dois estão aprontando alguma coisa.
Meireles soltou um suspiro discreto.
— Deixa eles. Não devem estar fazendo nada demais.
Ele voltou a encarar o monitor.
— Minha preocupação agora é outra.
Angelina se inclinou um pouco na cadeira.
— O que foi meu amor?
Meireles passou a mão pelo queixo, pensativo.
— Eu acho que tem alguma coisa errada com a nossa contabilidade.
Angelina arregalou os olhos.
— Coisa errada em que sentindo?
— Eu ainda não consigo explicar exatamente o que é. Mas tem algo aqui que não tá fechando.
Ele apontou para a tela.
— Esses lançamentos... essas transferências... parecem normais à primeira vista, mas o fluxo não bate com a produção real da empresa.
Angelina ficou tensa.
— Mas por que você não manda isso pra auditoria?
Meireles a encarou sério.
— A questão é que isso aqui veio justamente da auditoria. Se tiver alguma coisa errada aqui, Angelina... isso significa um ralo operacional. Dinheiro saindo da empresa sem controle.
Ele fechou alguns relatórios e abriu outro arquivo.
— Mas não se preocupa ainda. Eu vou entender exatamente o que é isso primeiro... depois a gente decide o que fazer.
Angelina se preocupou.
— Você acha que tem a ver com o Rodrigo?
Meireles não respondeu de imediato. Seus dedos bateram lentamente na mesa.
— Vou ter que averiguar isso com muito cuidado. Sem levantar suspeitas.
Ele finalmente levantou o olhar para ela.
— Porque, se for o que eu estou pensando... o Rodrigo pode estar nos roubando. Fazendo caixa dois dentro da empresa.
Angelina arregalou os olhos e se encheu de espectativas.
— O Rodrigo soube muito bem como aplicar aquele golpe... — disse ela. — Mas pode ser que ele tenha deixado um fio solto.
Meireles ficou em silêncio por alguns segundos.
— E se esse fio existir... — murmurou. — Eu vou puxar até encontrar a ponta.
═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══
Carla abriu a porta da sala do delegado sem bater.
— Will... tem uma moça aí dizendo que foi intimada.
Antes que ele respondesse, Soraia entrou com passos seguros. Logo atrás, Xavier, com uma pasta nas mãos.
— Não é necessário, querida. Eu mesma me apresento. — disse Soraia, cravando os olhos no delegado. — Como prometi, aqui estou.
Will manteve o semblante neutro.
— Pode deixar, Carla.
Carla mediu Soraia dos pés à cabeça, sem disfarçar o desprezo.
— Com licença.
A porta se fechou.
Soraia puxou a cadeira sem pedir autorização e sentou-se.
— Este é o meu advogado, Dr. Otávio Xavier.
O advogado fez um leve aceno.
— Boa tarde, delegado.
Tony permanecia de pé, braços cruzados, observando cada gesto.
— Boa tarde. Fiquem à vontade. — disse Will. — A senhora foi intimada porque constava como desaparecida há semanas. Seus pais registraram boletim de ocorrência.
Soraia ergueu o queixo.
— O senhor já disse isso quando esteve em minha casa.
Xavier entrou, técnico:
— A Constituição assegura o direito à liberdade e à privacidade. Minha cliente é maior, capaz e não estava sob qualquer restrição judicial.
Will apoiou os cotovelos na mesa.
— Acho melhor irmos com calma. Nas buscas, rastreamos o celular da senhora. A última localização apontava uma fazenda. Estivemos lá. A proprietária confirmou que você esteve no local acompanhada de Gabriel. Confirma?
Um segundo de hesitação. Soraia lançou um olhar rápido a Xavier.
— Confirmo. — respondeu. — Gabriel queria investigar o próprio passado. Pediu que eu fosse com ele. Eu já estava desconfiada, aquela obsessão dele juntamente com a maleta que encontrei... tudo muito estranho.
Ela respirou fundo.
— No caminho de volta, comecei a pressioná-lo sobre a morte do Antunes. Ele se alterou. Ficou agressivo. Acho que foi ali que perdi meu celular.
— Então a senhora perdeu o celular na fazenda? — perguntou Will.
— Sim. Por isso a última localização indicou que eu estivesse lá.
Will virou levemente o rosto.
— O que você acha, Tony?
— Conveniente. A historinha tá muito bem ensaiada... mas mal contada. — respondeu ele, seco.
Soraia percebeu a resistência. Endireitou-se na cadeira e colocou emoção na voz.
— Eu estou falando a verdade! Depois da fazenda, fomos até o orfanato. Gabriel queria que eu fugisse com ele. Eu estava com medo... então fingi concordar. Quando ele entrou, eu corri. Fugi.
Seus olhos marejaram.
— A máscara dele tinha caído. Eu vi do que ele era capaz. Delegado, eu não tenho dúvida de que ele me mataria se me encontrasse. Ao fugi entrei em uma igreja, fiquei lá por horas... Encontrei um amigo que me ajudou e levou pra casa do irmão dele. Foi lá que fiquei escondida todo esse tempo.
— Então a senhora afirma oficialmente que foi agredida por Gabriel e que temia pela própria vida? — perguntou Will, pausado.
Soraia engoliu seco.
— Sim.
Xavier fez um leve movimento de cabeça, avaliando cada palavra.
— A senhora registrou ocorrência por agressão? Procurou hospital? — continuou Will.
— Não. Eu tive medo.
— Entendi. — disse ele. — A senhora afirma que esteve na fazenda, foi agredida, foi com o Gabriel até o orfanato, depois que ele entrou você fugiu e se escondeu numa igreja e depois permaneceu na casa do irmão de um amigo por semanas.
Ele a encarou.
— É isso mesmo?
— Exatamente.
— Quem é esse amigo?
Xavier pousou a mão na mesa.
— Minha cliente não é obrigada a expor terceiros sem investigação formal contra eles.
Will inclinou-se para frente.
— Ela acabou de relatar agressão e possível ligação do agressor com homicídio. Isso já configura investigação formal.
O clima mudou.
Soraia percebeu que tinha avançado demais.
— Eu só tive medo... — disse, deixando as lágrimas caírem. — Eu não sabia do que ele seria capaz.
Tony deu um passo à frente.
— Curioso. A senhora não voltou nem quando soube do acidente envolvendo Gabriel. E reaparece agora... casada com o irmão dele.
Um frio percorreu a espinha de Soraia.
— Eu não voltei por medo. O corpo dele nunca apareceu. Que garantia eu teria de que ele não estava vivo? Nem a polícia se quer encontrou o corpo dele — respondeu rápido. — Quanto ao meu casamento com Rodrigo, é assunto pessoal. Irrelevante.
Xavier respirou fundo.
— Delegado, minha cliente já esclareceu o necessário. Essa situação a deixa emocionalmente abalada. Se não houver mais perguntas, solicitamos encerrar por aqui.
Will manteve o olhar firme em Soraia por longos segundos.
— Tudo bem. Por enquanto.
Fez uma pausa.
— Mas é bom saber que estamos de olho.
Soraia levantou-se sem responder. Xavier a acompanhou para fora.
A porta se fechou.
Will soltou o ar que estava segurando.
— E aí, Tony?
Tony descruzou os braços.
— Uma excelente atriz. Montou uma narrativa que encaixa perfeitamente no que já sabíamos. Mas tá óbvio que foi instruída pra isso.
═══🎭✦✧ Casa do Juca ✧✦🎭═══
Ludmila andava de um lado para o outro pelo o quarto, o celular colado no ouvido. O cabelo preso de qualquer jeito, a expressão irritada.
— Aquele viado deve tá se divertindo por ter me deixado desse jeito! — disparou. — Com tanto macho no mundo, por que eu tenho que ficar assim, alucinada por causa de um? Era muito mais fácil quando eu não ficava com essas frescuras. Aff!
Do outro lado da linha, Carla soltou uma gargalhada.
— Se lascou, piranha. Quem mandou você se apaixonar?
Ludmila fez uma careta.
— Não enche.
— Agora aguenta. — continuou Carla, se divertindo. — O que você tem que fazer é tentar reconquistar ele. E parar de aprontar também, né? Porque, olha... o Fabinho tá bem desapontado com você.
Ludmila revirou os olhos e se jogou na cama.
— Problema dele! Ele que trate de ficar de boa. Eu só sei que tô com saudade daquele idiota.
Fez silêncio por um segundo... até que seus olhos brilharam.
— Já sei!
Carla já conhecia aquele tom.
— Lá vem...
Ludmila se levantou de um salto.
— Eu vou na casa dele!
— Como é?
— Isso mesmo. E mais que isso. Vou acampar lá na frente até ele resolver falar comigo. Meu pai já foi lá uma vez, ele sabe o endereço. Vou pedir pra ele.
Carla arregalou os olhos.
— Ludmila, se controla. Também não é pra tanto.
Mas Ludmila já estava abrindo um armário e jogando coisas no chão.
— Você sempre reclamou que eu era orgulhosa e nunca corria atrás, não era? Pois pronto! Agora eu vou correr.
Pegou uma mochila e começou a enfiar roupas dentro.
— Ele que trate de não falar comigo. Eu fico lá. Dia... e noite... na porta da casa dele.
Carla suspirou.
— Você é completamente maluca.
— Eu estou paixonada, piranha! — corrigiu Ludmila.
Ela puxou uma lona velha de dentro do armário.
— Cadê essa porcaria de barraca?
— Ludmila, pensa direito. Você vai fazer um escândalo na rua do menino.
— Melhor ainda. Assim ele não tem como fingir que não me viu.
Carla já estava rindo de nervoso.
— Isso vai dar ruim...
— Tchau, rapariga. Tenho que achar minha barraca.
— Ludmila, escuta—
TU... TU... TU...
A ligação caiu.
Carla afastou o celular do ouvido e ficou olhando para a tela.
— Meu Deus... — murmurou. — O que essa louca vai fazer?
═══🎭✦✧ Barzinho ✧✦🎭═══
Na mesa mais afastada, os quatro conversavam em voz baixa.
Gabriel ainda estava com a tensão do encontro estampada no rosto. Fabinho mexia no celular, ouvindo trechos da gravação com o fone em um dos ouvidos. Daiana observava os dois, enquanto Epaminondas bebia seu café devagar, pensativo.
Daiana quebrou o silêncio.
— E agora... o que a gente vai fazer com essas informações?
Epaminondas respondeu quase imediatamente:
— Ir na polícia. Contar toda a verdade, mostrar a gravação que vocês fizeram e deixar que eles investiguem. O certo a fazer é isso.
Gabriel balançou a cabeça.
— Não, tio... ainda não posso aparecer. Se eu surgir agora, o Rodrigo pode tentar alguma coisa contra mim.
Daiana assentiu.
— O Gabriel tem razão.
Fabinho levantou os olhos do celular.
— Além disso, ainda falta coisa. A gente precisa de mais provas. E, se possível, provas que mostrem que quem matou o Antunes foi o Rodrigo e não o Gabriel.
— E o que vamos fazer com esse Artur? — Perguntou Gabriel, preocupado — Ele terminou a conversa me dando uma semana pra arrumar o dinheiro. Disse que, se eu não pagar, ele vai denunciar tudo pra polícia.
Epaminondas deu de ombros.
— Então deixa ele denunciar. Ele não vai te denunciar, Gabriel. — continuou, com calma. — Ele vai entregar o Rodrigo. Se ele for mesmo à polícia, os únicos prejudicados vão ser eles mesmos.
Fabinho apoiou os cotovelos na mesa.
— Gente, vamos manter a calma. Primeiro: esse cara não vai procurar a polícia. Ele também tá envolvido. Isso aí é blefe. O problema é ele procurar o Rodrigo ou o Xavier. Porque aí eles vão estranhar quando ele disser que conversou com você.
Daiana completou imediatamente:
— E vão perceber que você tá vivo.
Epaminondas suspirou, frustrado.
— Então todo esse teatro não serviu de nada?
Fabinho balançou a cabeça.
— Serviu. Claro que serviu. A gente ainda não tem como provar tudo... mas agora deu pra entender bem o que o Rodrigo fez.
Gabriel olhou para ele.
— E o que você pretende fazer?
Fabinho respirou fundo.
— Eu agora mais do que nunca, vou tentar achar uma brecha pra provar que a TexHold é falsa.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Milena bateu levemente na porta do quarto.
— Entra! — respondeu Soraia.
Milena abriu só o suficiente para colocar a cabeça.
— Com licença, dona Soraia... sua mãe tá na sala.
Soraia estranhou.
— Minha mãe? Aqui? Era só o que me faltava...
Revirou os olhos, tentando conter a irritação.
— Tá bom, Milena. Eu já tô indo.
Milena saiu em silêncio.
Alguns minutos depois, Soraia apareceu na sala.
Diná estava sentada no sofá. Assim que viu a filha, levantou-se rapidamente, os olhos cheios de emoção.
— Filha... meu Deus do céu... — disse, com a voz tremendo. — Como é bom te ver!
Ela correu e a abraçou com força.
— Como você tá, meu amor? Tá bem? Te fizeram algum mal?
Soraia ficou rígida no abraço por um segundo. Então soltou as mãos da mãe com brusquidão e se afastou.
— Ai, para... me solta! Que exagero é esse? Eu tô bem. Tô ótima. Nunca estive melhor.
Ela abriu os braços, indicando a casa.
— Olha em volta. Tá vendo? Essa agora é minha casa. Não é mais aquele muquifo onde eu morava.
Diná olhou o ambiente luxuoso. Seus olhos se entristeceram.
— Tô vendo... — disse, decepcionada. — Parece que você finalmente conseguiu o que queria, né?
Soraia sorriu com arrogância.
— Consegui. E vou conseguir muito mais.
Então olhou a mãe de cima a baixo com desprezo.
— Agora olha pra você... uma velha desajeitada, malvestida... esse cabelo cheio de óleo... faz um favor pra mim? Tira essa figura triste da minha frente. E para de se meter na minha vida. Me deixa em paz.
Diná baixou os olhos por um instante.
— Tá certa... eu sou uma figura triste.
Ela respirou fundo, segurando a emoção.
— Desde pequena você sempre teve vergonha de ser minha filha, não foi? Mas sabe o que mais me dói agora? É que eu sempre passei a mão na tua cabeça... sempre quis te proteger. Te dei nas mãos tudo o que eu pude.
As lágrimas começaram a cair.
— Chorei... e como chorei quando disseram que você podia estar naquela kombi... que minha menina podia estar morta... parecia que tinham arrancado um pedaço de mim.
Ela levou a mão ao peito.
— E você por aí... sem nem se importar comigo...
Soraia levantou a mão, interrompendo-a irritada.
— Chega! Eu não aguento mais esse drama melodramático! Eu tenho nojo de tudo o que vem de você! Dessa mentalidade de pobre... de se contentar com qualquer migalha... de ficar contando moedinha pra tudo!
Apontou para a mãe.
— E eu não suporto você se metendo na minha vida! Some da minha vida, esquece que eu existo!
Diná ficou em silêncio por alguns segundos.
Quando falou novamente, sua voz estava diferente. Mais dura.
— Eu mereço. Mereço tudo isso, pois a culpa é minha.
Soraia revirou os olhos.
— Eu que errei. — continuou Diná. — Eu não soube te educar. Não soube dizer não. Não soube te dar limites.
Ela ergueu o olhar, agora cheio de uma dor antiga.
— Não dei a surra que você merecia.
Soraia riu, descrente.
— Ah, por favor, me poupe.
Num impulso repentino, Diná avançou.
— Mas ainda há tempo de corrigir isso.
O primeiro tapa ecoou forte na sala.
Soraia cambaleou para trás, caindo sobre o sofá.
— Mãe! Você tá louca?!
Mas Diná já estava por cima dela, tomada por uma explosão de raiva e sofrimento acumulados por anos.
— Monstro! — gritava. — Eu não acredito que pari um ser tão desprezível!
Outro tapa. Depois outro.
Soraia tentava se proteger, desesperada.
— Para! Para com isso!
Mas Diná parecia não ouvir.
Cada golpe vinha acompanhado de lágrimas, de anos de humilhação engolida, de culpa, de amor ferido.
— Eu devia ter te ensinado respeito! — gritava. — Devia ter te ensinado a ser gente!
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