MINHA OUTRA FACE

21 A maleta, a mentira e o inventário.


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═══🎭✦✧ Na copa da Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══

Fabinho segurava uma xícara entre os dedos, bebericando lentamente seu café. Talita se aproximou, pegou uma caneca e se serviu.

— Eu acabei ouvindo do seu pai, que a Mulambo tá perdendo investidores. — disse, enquanto mexia o açúcar. — Vai ter corte de pessoal?

— Ainda não sei, Talita. A gente vai tentar resolver sem precisar mandar ninguém embora. Mas se não tiver jeito, vai ser inevitável.

— Que chato isso, hein?

— Nem me fala... — soltou ele, em um suspiro. — Só te peço uma coisa: não espalha isso por aí. A gente precisa resolver isso com calma, do jeito mais sensato possível.

— Claro. Pode deixar. — Talita assentiu.

Houve um breve silêncio. Ela mexeu o café de novo, olhando pra ele de canto de olho:

— Mudando de assunto... você e a Ludmila? Ainda estão juntos?

O rosto de Fabinho suavizou. Um leve sorriso escapou, os olhos brilhando.

— Sim. Estamos. Eu tô bem envolvido com ela, pra ser sincero, viu Talita?

Talita forçou um sorriso. Desviou o olhar e virou o rosto para a janela. Passou a mão pela nuca, tentando disfarçar o desconforto.

— Que bom... — disse, num tom que contrariava as palavras.

Fabinho franziu o cenho.

— O que foi, Talita? — ele perguntou, desconfiado. — Tem alguma coisa que você quer me dizer?

Ela demorou. Respirou fundo, virou-se para ele e resolveu abrir o jogo.

— Olha, Fabinho... talvez eu esteja me metendo onde não devia, não tenho nada a ver com isso. Mas... uma amiga minha viu a Ludmila ontem à noite, atrás da boate. Ela tava com um cara. Bem... os dois estavam, assim... íntimos. Bem íntimos. Se é que você me entende.

As palavras ecoaram como uma martelada dentro dele. O sangue ferveu, o maxilar se contraiu, e os dedos apertaram com mais força a xícara que ele ainda segurava.

Talita percebeu a mudança imediata.

— Desculpa por te falar isso, cara. Mas achei que você devia saber.

Fabinho assentiu com um aceno curto, contido.

— Tudo bem. Obrigado por ter me contado. — disse ele, tentando manter a voz firme. — Vamos. voltar ao trabalho.

Sem esperar resposta, ele se virou e saiu.


═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

Gabriel entrou no orfanato devagar e cabisbaixo, ao chegar deu de cara com Irmã Rosália.

— Oh, meu filho... que bom que você chegou — disse ela, com a voz doce, mas o olhar carregado de preocupação. — O padre Onofre tá te esperando lá no escritório. Ele tá com o doutor Francisco... seu advogado.

— Advogado? — Disse Gabriel, claramente pego de surpresa.

— Sim — confirmou a freira. — Você não pode ficar indo à delegacia sem acompanhamento de um advogado. Tá tudo bem com você?

Ele baixou os olhos, a voz saindo abafada:

— Não. A Daiana me viu numa situação embaraçosa. — respirou fundo, os olhos marejados. — Ela ficou furiosa, foi embora sem me deixar explicar. Eu fui atrás, mas a vi conversando com o Rodrigo. Desde então, ela não respondeu mais nenhuma das minhas mensagens.

Irmã Rosália suspirou com pesar.

— Sinto muito que vocês tenham se desentendido. Mas agora vá lá, meu filho. Fale com o padre Onofre e o doutor Francisco. Depois a gente conversa com mais calma.

Gabriel assentiu de novo e seguiu em direção ao corredor.


A𝖑𝖌𝖚𝖓𝖘 𝖉𝖎𝖆𝖘 𝖍𝖆𝖛𝖎𝖆𝖒 𝖘𝖊 𝖕𝖆𝖘𝖘𝖆𝖉𝖔 𝖉𝖊𝖘𝖉𝖊 𝖔𝖘 𝖚́𝖑𝖙𝖎𝖒𝖔𝖘 𝖆𝖈𝖔𝖓𝖙𝖊𝖈𝖎𝖒𝖊𝖓𝖙𝖔𝖘...

═══🎭✦✧ Casa dos Antunes✧✦🎭═══

Joana ajustava os brincos diante do espelho. Atrás dela, Kléber folheava os documentos dentro de uma pasta.

— Estou pronta, Kléber — disse Joana. — Bora logo cuidar desse inventário que quero ficar livre disso.

— Só esperando o Rodrigo — respondeu ele, fechando a pasta.

Rodrigo desceu as escadas, decidido.

— Mãe... — começou ele, com a voz calma — Antes da gente ir, eu queria te propor uma coisa.

Joana virou-se para ele, franzindo o cenho.

— O que foi, meu filho?

— Sei que a senhora tá decidida a vender suas ações da Mulambo pro seu Meireles assim que o inventário sair. Estive pensando... por que pra ele e não pra mim?

Joana o encarou, surpresa com a pergunta.

— Ah não, Rodrigo... você vem com isso agora? Que proposta descabida é essa?

— Não tem nada de descabido. — retrucou ele, firme — Não faz sentido deixar a Mulambo nas mãos de alguém de fora, se eu também tenho interesse.

— O certo seria nós dois vendermos essas ações para o seu Meireles, e não você querer comprar a parte que me cabe. Meu filho, esquece essa ambição por essa empresa. Vamos montar o nosso restaurante e cuidar do que é nosso.

Rodrigo deu um passo à frente, o tom da voz agora mais ríspido.

— A senhora não tem mesmo noção das coisas, né? Eu sei onde estou pisando. Sei também que o Antunes não tinha só as ações, tinha alguns investimentos financeiros. Não é mesmo, Kléber?

Kléber só assentiu com um gesto contido.

— Vou pegar o dinheiro que me caber desses investimentos — continuou Rodrigo — juntamente com a minha parte desta casa, e vou passar tudo pro seu nome. Pra mim o que mais interessa são as ações da Mulambo. Com esse dinheiro a senhora monta o seu restaurante e vai ser feliz.

Joana baixou os olhos por um instante, suspirou.

— Oh, meu filho... eu tenho tanto medo de você naquele lugar. .

— Olha, Joana... — disse Kléber, com a voz ponderada — Como herdeiro, o Rodrigo tem direito de preferência na compra dessas ações. Se você está mesmo decidida a vender, é legalmente mais seguro negociar com ele primeiro.

Ela desviou o olhar para o filho, em silêncio.

— Tá vendo? — Disse Rodrigo.

— O seu Meireles fez uma boa proposta. — disse Joana, ainda tentando convencer o filho — Está disposto a pagar um valor bem acima do que essas ações realmente valem.

— Eu pago. — respondeu Rodrigo, sem hesitar — O valor que for necessário. Faço pelas suas ações a mesma proposta que o seu Meireles. Pode ser parcelado, se for preciso, a gente faz tudo dentro da lei. Com contrato, registro... tudo nos conformes, como tem que ser.

— O Rodrigo tá certo, Joana. — reforçou Kléber. — E já podemos até deixar isso encaminhado após a audiência.

Joana ficou em silêncio por mais um tempo. Por fim, esboçou um leve sorriso.

— Está bem. — disse suavemente. — Mas, meu amor... me prometa uma coisa.

Rodrigo se aproximou e segurou as mãos da mãe, olhando-a nos olhos com ternura.

— Prometo o que a senhora quiser. Diga.

— Que você não vai deixar a Mulambo te transformar no que o seu pai se tornou.

— Não se preocupe, dona Joana — apontou para o próprio braço — Aqui nessas veias corre é sangue, e não o veneno daquele maldito. O Antunes era um canalha e eu jamais vou ficar igual a ele. Eu não vou usar meios ilegais como ele fazia lá dentro não. Eu vou trabalhar direitinho e vou fazer a minha parte render. A Mulambo é uma empresa grande tem nome reconhecido no mercado. Agora a senhora quer que eu jogue tudo isso no ralo? Vai dá tudo certo, minha mãe. Eu tenho certeza que a gente vai fazer um bom negócio.... e no fim, a senhora também vai poder montar seu restaurante.

Kléber pegou a pasta e ergueu-se com serenidade.

— Então vamos? Já estamos atrasados.


═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══

A campainha tocou e, antes mesmo que Diná pudesse surgir, Fabinho se adiantou em direção à porta.

— Pode deixar, Diná. Eu atendo — disse ele.

Ao abrir a porta deu de cara com Edson.

— Bom dia — disse, seco. — Meu pai já tá vindo aí.

Edson franziu a testa, estranhando a frieza.

— Ué, que isso, Fabinho? Tá me tratando assim, por quê? Aconteceu alguma coisa?

Fabinho inclinou levemente a cabeça, os olhos carregados de mágoa e desconfiança.

— Não sei... aconteceu?

Edson deu um passo à frente, confuso.

— Não tô te entendendo.

— Olha, Edson — começou Fabinho, num tom firme — eu gosto de gente sincera. Que joga limpo, que fala a verdade... mesmo que doa.

— E eu não sou sincero com você?

— Não tá parecendo. Na última vez que a gente se viu na boate, você ficou todo cheio de rodeios pra me dizer onde a Ludmila estava. E depois, ela apareceu do nada, toda desconfiadinha comigo... Agora eu sei exatamente onde ela estava. E você também sabia.

Edson respirou fundo, tentando manter a calma.

— Cara... eu não tenho nada a ver com o seu rolo com a Ludmila. Acho que você tá confundindo as coisas.

Fabinho desviou o olhar por um instante.

— Ela me traiu, né? E eu aqui, achando que a gente tava vivendo algo real, verdadeiro.

— Me desculpa, Fabinho — disse Edson, se justificando. — Mas naquele dia, não cabia a mim dizer nada. Se tinha alguma coisa pra ser dita, era ela quem tinha que te contar.

— E o pior é que... eu tô gostando dela, Edson. Gostando de verdade. Mas ela não vale nada. E aquela amiga dela também não vale. Cuidado, viu? Duas piranhas!

Edson se enrijeceu.

— Ei, calma aí! — cortou, firme. — Vamos manter o respeito. Eu sei que você tá magoado, mas minha relação com a Carla é séria, ok?

Antes que a tensão crescesse, Meireles surgiu, vindo do corredor, acompanhado por Angelina, que empurrava sua cadeira.

— Bom dia, doutor! — disse Meireles, sorrindo.

— Bom dia, seu Meireles. Dona Angelina — cumprimentou Edson, cordial.

— Bom dia — respondeu Angelina, educada.

Meireles lançou um olhar atento ao filho.

— Que cara é essa, Fabinho?

— Coisa minha, pai. Nada demais — desconversou. — Bora, mãe?

— Bora — disse Angelina, curvando-se para dar um beijo carinhoso no marido. — Boa fisioterapia pra vocês.

— Tchau, meu amor. Mais tarde eu passo lá na Mulambo — disse Meireles, observando-os se afastarem.

Ele então se voltou para Edson, curioso.

— Era impressão minha ou vocês estavam discutindo?

— Foi só um desentendimento por causa de uma garota. Mas tá tudo certo — respondeu Edson, desconversando. — Vamos?

Meireles assentiu com a cabeça e girou levemente a cadeira.

— A partir de hoje, a fisio vai ser lá na minha clínica — explicou Edson, empurrando a cadeira de Meireles. — Quero ver se essas pernas já estão prontas pra encarar as barras.


═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══

Milena abriu a porta e encontrou Soraia parada em pé do outro lado.

— Dona Soraia... — disse, surpresa. — Sinto muito, mas todo mundo já saiu. Hoje é o dia da audiência do inventário, da partilha dos bens do seu Antunes.

— Que pena... — disse Soraia, forçando um suspiro. — Queria ter chegado antes do Rodrigo sair. Só vou entrar rapidinho, pegar uma maleta que tá no quarto dele.

Milena hesitou, colocando-se meio à frente da entrada.

— Eu acho melhor não, dona Soraia... Dona Joana não ia gostar de saber que a senhora entrou aqui sozinha.

Soraia sorriu, com deboche.

— Milena, né? É esse o seu nome?

Milena assentiu com um leve movimento de cabeça.

— Então, Milena — continuou Soraia, a voz agora mais firme —, eu sou a namorada do Rodrigo. Será que nem no quarto do meu homem eu posso mais entrar?

A jovem engoliu seco.

— É que... até onde eu sabia, a noiva dele era a dona Daiana.

Soraia gargalhou, debochada, inclinando-se ligeiramente para a trás.

— Ai, filhinha... você tá atrasada, viu? — E num gesto brusco, empurrou Milena de lado. — Dá licença aqui.

Sem esperar resposta, Soraia entrou e subiu as escadas com passos decididos, deixando Milena paralisada, sem saber o que fazer.


═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

Na cozinha do orfanato, Irmã Tereza e Irmã Rosália trabalhavam lado a lado, cortando tomates e separando folhas de alface para a salada do almoço das crianças.

— Estou muito preocupada com o Gabriel, irmã Tereza — murmurou Irmã Rosália.

— Anda sumido de novo, né irmã? — comentou Irmã Tereza. — E parece que nem dormiu aqui essa noite.

Irmã Rosália confirmou com a cabeça, os olhos perdidos na janela, como se esperasse vê-lo entrando pelo portão.

— Ontem ele saiu com aquele rapaz que mora aqui em frente... Aquele que conseguiu o emprego pra ele lá na Mulambo.

— O Bira — completou Irmã Tereza, com um aceno breve.

— Esse mesmo. Não sei o que ele foi inventar. Gabriel anda tão estranho, Irmã Tereza... Às vezes olho pra ele e nem reconheço. Nem parece mais o nosso menino.

Irmã Tereza pousou a faca, olhando firme para a colega.

— Ele tá angustiado com tudo o que tem acontecido. Não é fácil, irmã. Tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo...

— Eu... eu não quero acreditar, sabe? Mas tem horas que é difícil negar. Por todos os sinais... parece que o Gabriel realmente tem alguma culpa nessa história. E não é só eu não, o Epaminondas também tá desconfiado. Disse que vai voltar na delegacia pra desmentir o que contou antes. Quer falar agora também sobre a maleta. Só está esperando o Gabriel voltar... Pra falar com ele antes.


═══🎭✦✧ Mascarenhas Models ✧✦🎭═══

Modelos iam e vinham ensaiado. Daiana, sentada no canto do sofá, parecia alheia ao vai-e-vem ao redor. Frida se aproximou devagar, sentando-se ao seu lado, atenta ao semblante tenso da amiga.

— Ele ainda não levou a maleta pra polícia — disse Daiana, desabafando. — A última vez que falei com ele, disse que queria esperar o inventário... e só depois ir à delegacia.

— Então agora você tá acreditando no Rodrigo? — Questionou Frida, tentando entender.

— Eu não sei mais em quem acreditar, Frida. Mas bloqueei o Gabriel... não quero mais falar com ele. Também não quero nada com o Rodrigo — fez uma pausa curta — mas ainda falo com ele, só pra ver se resolve logo essa história.

Frida se recostou, observando-a com atenção.

— E o coração? Como é que ele tá lidando com toda essa bagunça?

Daiana deu um leve riso triste, sem humor.

— Tá bagunçado. Sinto tanta saudade do Gabriel. Era como se tudo em volta ganhasse cor quando ele tava comigo. Tinha um jeito manso, uma doçura no olhar, um carinho que me fazia esquecer do mundo... parecia mágico, perfeito. — Ela parou de repente, os olhos se estreitando. — Igualzinho a um psicopata. Porque, vai ver, o Rodrigo tá certo. É assustador imaginar que o Gabriel já sabia tudo o que tinha naquela maleta. E, se for verdade, tudo indica que ele entrou na Mulambo já decidido a matar o Antunes.

— Situação complicada essa sua, Daiana — disse Frida com delicadeza. — Acho que o fato de ter sido traída pelo Rodrigo te deixou em estado de alerta com tudo que ele fez depois. Aí veio o Gabriel... e você acabou projetando nele o Rodrigo que queria ter tido. Você mesma dizia que ele era a "versão melhorada do Rodrigo".

Daiana assentiu lentamente, engolindo em seco.

— E agora, sabendo que o Gabriel pode ser o culpado... como é que seu coração se posiciona em relação ao Rodrigo? — completou Frida, sem rodeios.

— No momento... — respondeu Daiana, suspirando fundo — prefiro deixar meu coração neutro. Porque não se trata só de saber quem é o culpado pela morte do Antunes. O que me dói... é saber que, de um jeito ou de outro, os dois me traíram. E isso, pra mim, é inaceitável.


═══🎭✦✧ Enquanto isso... ✧✦🎭═══

Ludmila e Carla desciam a calçada movimentada do bairro. As duas andavam lado a lado, enquanto conversavam.

— Olha aí — resmungou Ludmila, com o celular na mão. — Voltou de novo com aquele pitizinho de sempre. Tá online faz tempo, Carla. Mas não responde. E antes que você diga alguma coisa, saiba que dessa vez eu mandei mensagem. Ele me deixou no vácuo. Já tem quase uma semana que não fala comigo.

Carla respirou fundo, os olhos revirando discretamente.

— Ah Ludmila... você também apronta, né? E olha, não tô gostando nada disso. Tá respingando na minha relação com o Edson. Escuta aqui o áudio que ele me mandou — ela puxou o celular e apertou o play:

🔊"Fala pra sua amiguinha não te envolver mais nos rolos dela. Sério, amor... vamos ficar longe disso. Encontrei com o Fabinho aqui, ele ficou todo seco comigo."

Ludmila bufou.

— Humm! Fala pro seu namoradinho que antes dele ser seu namorado, você já era minha amiga.

Carla parou por um instante, encarando Ludmila com seriedade.

— Tô falando sério, piranha. Pelo jeito, a casa caiu pro seu lado.

— Como assim?

— O Edson me contou... O Fabinho já tá sabendo que você ficou com o Glauber na boate aquele dia.

Ludmila arregalou os olhos, colocando a mão na boca.

— Ih, carái! Quem foi a língua de trapo que me esparrou por aí?

— Vai saber, minha filha. A boate tava cheia aquele dia. Você acha mesmo que ninguém viu aquela fudelança toda lá trás?

— E agora? E se ele não quiser mais falar comigo?

Carla deu de ombros, lamentando.

— Quem quer todo mundo, no fim não tem ninguém. Agora deixa eu entrar que já tá passando da hora de eu bater meu ponto.

Carla entrou para a delegacia, e Ludmila permaneceu na calçada, pensativa.


═══🎭✦✧ Do outro lado da cidade... ✧✦🎭═══

Soraia atravessava a rua, com os olhos fixos no portão do orfanato. Parou em frente ao boteco da esquina, e escolheu uma das mesas. Sentou-se, ajeitando a maleta ao lado da cadeira. O garçom, logo se aproximou, enxugando as mãos num pano de prato.

— Vai beber alguma coisa? — perguntou sem rodeios.

— Me traz um litrão. O mais gelado que você tiver aí — respondeu ela, sem desviar os olhos da direção do orfanato.

O garçom assentiu e foi até o balcão. Sozinha, Soraia murmurou baixinho:

— Vou ver se algum dos pirralhos aparece... aí peço pra chamar o Gabriel.

Mas antes que qualquer criança surgisse, uma voz soou às suas costas.

— Pode deixar, Dodô, a cerveja dela sou eu que pago.

O garçom virou-se no mesmo instante em que Bira pegava a garrafa de suas mãos e a colocava sobre a mesa de Soraia. Ele despejou a cerveja no copo, e se sentou sem esperar convite.

Soraia o encarou de cima abaixo, arqueando uma sobrancelha.

— Você é bem atrevido, hein? — disse com um meio sorriso.

— Eu te conheço... Você é a Maria. Aquela que sumiu do orfanato. Tá bem diferente, mas eu lembro bem desses olhos marcantes.

Ela girou levemente o copo com os dedos, sem beber.

— Então já vi que você não me conhece. Meu nome é Soraia.

— Soraia, Maria... — disse ele, apontando discretamente para a maleta ao lado dela — A mesma pessoa que sumiu com essa maleta aí.

Soraia se inclinou na cadeira, os olhos apertados, medindo suas palavras.

— Você tá sabendo de muita coisa, pro meu gosto.

— Eu sou Bira, amigo do Gabriel — disse ele, tranquilo. — Ele me falou sobre seu interesse em manipular as provas, colocar a culpa no irmão dele.

Ela arregalou os olhos, surpresa.

— O Gabriel te falou sobre isso? Eu... eu não tô entendendo.

Bira sorriu, com aquele ar de quem sempre sabe um pouco mais.

— Eu te explico. Tô disposto a ajudar vocês. Nunca fui com a cara desse seu Rodrigo. E menos ainda com a do pai dele. Teve o fim que merecia, se quer saber. Também trabalho na Mulambo, sabia? Fui eu que indiquei o Gabriel pra vaga lá. Então... me diz. O que você tem em mente?

Soraia fechou a expressão, agora mais cautelosa.

— Isso é coisa minha. E eu só vou dizer pro Gabriel.

Bira encostou-se na cadeira, cruzando os braços.

— Então vai ter que esperar. Ele ainda não voltou pro orfanato.

Soraia não respondeu. Apenas levou o copo à boca e deu o primeiro gole.


═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══

A porta da sala do delegado abriu, Carla entrou:

— Com licença, Will — disse, sem formalidade. — O seu Epaminondas tá aí fora... quer falar contigo.

Will levantou os olhos dos papéis que examinava e lançou um olhar rápido para Tony, que o observava do canto da sala.

— Epaminondas Siqueira? — perguntou, surpreso. — O tio dos gêmeos?

Carla assentiu com um gesto sutil.

— Manda entrar — disse Will, ajeitando a postura na cadeira.

Ela se virou para a porta e fez sinal para o visitante. Epaminondas entrou, Carla se retirou logo em seguida.

— Com licença, delegado... — disse Epaminondas, se aproximando. — Tem algo muito importante que eu preciso contar.

Will assentiu, indicando a cadeira à frente da mesa.

— Sente-se, por favor!

Epaminondas não se sentou, preferiu manter-se de pé.

— Eu menti, doutor — confessou, olhando firme nos olhos do delegado. — Quando disse que o Gabriel não sabia do nosso parentesco... eu menti.

Um silêncio pesado se instalou na sala. A verdade começava, enfim, a sair das sombras.

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