MINHA OUTRA FACE
7 A farsa de Antunes
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═══🎭✦✧ Continuando na casa de Rita... ✧✦🎭═══
Embora surpresa ao ver a polícia à porta, ela logo recuperou sua compostura e esboçou um sorriso tênue.
— Entrem, fiquem à vontade.
Will assentiu educadamente enquanto ele e Tony cruzavam o portão. Rita caminhou à frente, conduzindo os dois homens. Por toda parte, haviam velas derretidas em castiçais tortuosos e pequenos potes de ervas espalhados em prateleiras. Objetos místicos, como amuletos, bonecas de pano e figuras de animais esculpidas, davam ao local um toque sombrio, que parecia refletir a própria aura de Rita.
Os três entraram, e Rita indicou cadeiras velhas de madeira. Ela própria sentou-se em uma poltrona, posicionada estrategicamente para observar os dois visitantes.
— Sentem-se!
Will foi direto ao assunto.
— Dona Rita, tive conhecimento de que a senhora foi acusada do assassinato do Jurandir Siqueira, que morreu aqui mesmo nessa fazenda.
Ela ergueu as sobrancelhas, mas sua voz manteve-se firme:
— Eu já cumpri minha pena, senhor. Não devo mais nada à justiça. Agora, tudo o que eu quero é tocar o resto dos dias que me restam em paz.
— Compreendo. A senhora está ciente da morte do senhor José Antunes? — Will continuou.
— Li no jornal. Mas o que tenho eu a ver com isso?
— Estamos investigando a morte desse senhor...
Antes que Will pudesse completar a frase, Rita o interrompeu com um tom cortante.
— E por acaso sou eu uma suspeita?
Tony interveio:
— Não, senhora. Os suspeitos são os gêmeos, cujas imagens aparecem nas câmeras de segurança.
Will prosseguiu, sem rodeios:
— Dona Rita, o que aconteceu aqui no dia do nascimento dos gêmeos? No inquérito consta que foi a senhora que matou o Jurandir. Isso é verdade?
Rita, com os olhos distantes, parecia reviver cada detalhe daquela noite.
— E adianta eu dizer que não? Minhas digitais foram encontradas na arma. O maldito usava luvas, já para não deixar rastros.
— O maldito a que a senhora se refere é o Antunes? — Will perguntou, afim de confirmar.
— Esse homem era um demônio em forma de gente. Azucrinou a pobre da Joana a vida toda. Joana e Jurandir tinham tudo para serem felizes, se esse maldito não tivesse infernizado a vida deles.
Ela fez uma pausa, o olhar fixo em um ponto distante, antes de continuar com a voz embargada.
— Naquela noite chovia muito, doutor. Eu havia saído e deixado os dois a sós, Joana já nos dias de ganhar. Quando cheguei aqui, encontrei um ambiente macabro. Logo na entrada da casa, já vi a arma jogada no chão. Peguei-a sem pensar e entrei correndo para ver o que havia acontecido. A criança no berço chorava desesperada, e o corpo do Jurandir estava jogado no chão. Nessas horas, a gente não pensa direito e age por impulso. Foi o que fiz. Vendo o desespero daquela criança, só pensei em salvá-la. Ajeitei-o, coloquei-o em um cestinho e o levei para o orfanato. Quando voltei, já me deparei com a polícia. Não quiseram ouvir minha explicação e me encaminharam algemada.
Will e Tony a escutavam em silêncio, enquanto Rita narrava ódio no olhar.
— No julgamento, Joana testemunhou a favor do Antunes e contra mim, o que contou muito para minha condenação. Não tiro a razão dela. Ela vivia sob ameaças. Aquele homem tinha poder total sobre a vida dela. Fiquei dez anos presa, culpada de um crime que não cometi. Só agora a justiça foi feita, e aquele demônio retornou para o inferno.
Will e Tony trocaram olhares, absorvendo o relato.
═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══
Angelina estava concentrada em sua mesa, revisando papéis com atenção, enquanto Meireles, sentado em sua cadeira de rodas próximo a ela, observava-a em silêncio.
— Chega de trabalho por hoje. Vamos pra casa, não é, meu amor? — Ela ergueu os olhos, percebendo o olhar fixo de Meireles. — O que foi? Tá me olhando desse jeito por quê?
— Só estou aqui admirando o seu jeito prestativo. — respondeu ele, orgulhoso.
— Você não devia ter se preocupado em vir aqui. Tem que cuidar da sua recuperação.
— Mas eu tô cuidando. Hoje me dediquei horas à fisioterapia. Minhas pernas eram mexidas de um lado pro outro, mas não senti foi nada.
— É assim mesmo, meu amor. Não pode desanimar. Cada esforço é um passo pra frente.
Nesse momento, Fabinho entrou na sala com um jeito brincalhão, interrompendo o clima sério.
— Sabia que não iria resistir e viria aqui nos espionar!
— E esse moleque? Tá dando conta do serviço? — Meireles provocou com um sorriso.
— Oxe! Eu sou profissional, pai. Olha só, desfazendo do meu trabalho... — disse Fabinho, fingindo ofensa.
— O Fabinho já está pronto pra assumir o seu lugar. — comentou Angelina, rindo.
— Isso vai demorar, porque eu não pretendo morrer tão cedo!
Fabinho, bateu na mesa três vezes.
— Se Deus quiser, não mesmo!
— Vamos deixar de lado esse assunto de morte. — pediu Angelina, mais séria.
Fabinho mudou de assunto com um tom mais sério:
— Certo, mudando de assunto então... Vocês sabiam que o Rodrigo veio aqui hoje? Ele foi lá na tecelagem.
Meireles imediatamente ficou alerta.
— O Rodrigo esteve aqui? Ele é suspeito de um crime que aconteceu aqui na empresa! Não deveria ter vindo.
— Eu alertei ele sobre isso, mas ele disse que tinha um detalhe pra conferir lá.
Angelina, com um tom mais suave, tentou justificar.
— O coitado deve tá desesperado, tentando buscar alguma informação sobre o Gabriel.
Mas Meireles, com o semblante agora sério, cortou:
— Ele tem que deixar a polícia cuidar disso. Esse escândalo envolvendo o nome do Rodrigo não soa bem pro nome da Mulambo.
Ele fez uma pausa e olhou fixamente para Fabinho e Angelina.
— Vou fazer uma boa proposta e comprar as ações que pertencem a ele. Preciso desvincular o nome dos Antunes da nossa empresa.
═══🎭✦✧ Casa da família do Charles ✧✦🎭═══
O quarto de Diná era simples, mas organizado, com um guarda-roupa de madeira clara encostado em uma das paredes e uma cama com colcha florida no centro. Soraia estava ali, rodeada por roupas espalhadas sobre a cama, enquanto mexia no guarda-roupa de sua mãe. Diná entrou no quarto, boquiaberta ao ver a bagunça.
— O que tá futucando nas minhas coisas?
Soraia virou-se, segurando um vestido.
— Achei o que eu estava procurando. Tô querendo apenas algumas de suas roupas emprestadas.
— Você sempre disse que as minhas roupas são cafonas, ultrapassadas. E agora quer emprestadas?
— Por isso mesmo, mãe, elas são perfeitas para o que eu quero.
— E eu posso saber pra que você quer as minhas roupas?
— Festa à fantasia, dona Diná. — respondeu, experimentando o vestido e se olhando no espelho. — Olha, até que não ficou tão ruim. Vou usar ele.
Soraia pegou outros acessórios e separou mais roupas.
— Vou precisar disso aqui, e disso aqui também. E também desse outro vestido. Agora já estou quase pronta, só preciso dar um jeito no cabelo. Mas isso eu resolvo no caminho. Providenciar uma peruca, ou uma lace, pra parecer mais natural.
— O que você tá aprontando, hein, minha filha?
Soraia começou a colocar as roupas e acessórios em uma mala com rapidez.
— Relaxa, mãe, eu não estou aprontando nada demais. E tudo o que eu peguei eu devolvo depois, tá? Não se preocupe. Agora eu tenho que ir.
Nesse momento, Charles entrou no quarto e parou na porta, cruzando os braços.
— E posso saber pra onde a senhorita tá indo?
Diná nem levantou a cabeça.
— Como se ela contasse.
Soraia respirou fundo, tentando manter a paciência.
— Estou indo viajar, tá bom pra vocês? Vivem falando que eu fico me metendo na vida da Daiana. Pois então, resolvi tirar um tempo só pra mim. Agora com licença, papai, posso passar?
Charles hesitou, mas deu um passo para o lado, permitindo que ela saísse. Soraia passou por ele com a mala. Charles olhou para Diná com uma expressão de preocupação.
— O que tá havendo com essa menina?
Diná apenas balançou a cabeça e respondeu, seca:
— Falta de um bom corretivo quando era criança.
═══🎭✦✧ Lar São tarcísio ✧✦🎭═══
Irmã Rosália estava no canto da sala, falando ao telefone, enquanto Irmã Tereza organizava livros em uma estante próxima.
— Está bem, desde já agradeço a solidariedade de todos vocês. Muito obrigada, tchau!
Desligando o telefone, irmã Rosália suspirou e deu um leve sorriso, enquanto guardava o aparelho no bolso do hábito. Irmã Tereza, curiosa, virou-se para ela.
— Quem era, Irmã Rosália?
— Uma ONG. Eles fizeram um acordo com uma agência de modelos e vão organizar um desfile beneficente.
— Desfile? — repetiu Irmã Tereza, surpresa.
— Sim, e toda a renda arrecadada vai ser doada aqui para o São Tarcísio.
Tereza arregalou os olhos e juntou as mãos com alegria.
— Que coisa boa, Irmã. As nossas crianças estão mesmo precisando. Só o pouquinho que vem do dízimo da igreja não dá pra sustentar essa criançada toda.
— Pois é. Ainda tem gente boa nesse mundo, Irmã Tereza.
— E quando vai ser esse desfile? — quis saber Tereza, esperançosa.
— Ainda não têm uma data marcada, mas eles vão vir aqui nos visitar, conhecer nosso trabalho.
Irmã Tereza, juntando as mãos em prece, olhou para o alto.
— Que Deus os abençoe!
— Amém.
═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══
Will estava próximo a uma mesa pequena, servindo café em uma xícara. Tony, concentrado no computador, de repente chamou a atenção do colega.
— Olha só isso, Will. O Antunes tinha uma arma registrada em seu nome. Uma pistola Taurus PT 57 calibre 7,65mm. E coincidência ou não, a bala que o atingiu veio de uma pistola semelhante.
Will virou-se para Tony, segurando a xícara de café com uma expressão séria.
— Então o assassino pode ter usado a própria arma do Antunes contra ele?
— É o que tudo indica.
— Isso põe o Rodrigo um passo à frente. O Gabriel não teria acesso a essa arma. Pelo o que sabemos, ele e o Antunes mal se conheciam.
Tony levantou as sobrancelhas, pensativo.
— Mas aí vem uma questão, Will: será que o Antunes e o Gabriel de fato não se conheciam?
Will esfregou o queixo, ponderando.
— Iremos na Mulambo. Precisamos vasculhar direito por lá.
— Principalmente a sala do Antunes. — observou Tony.
— Não me atentei a isso. Essa arma pode estar por lá. Nos preocupamos muito com o depósito e esquecemos de olhar a sala do homem.
Will tomou um gole de café e colocou a xícara de volta na mesa.
— Vamos Tony, quanto antes, melhor.
Ambos pegaram seus pertences e saíram.
═══🎭✦✧ Crematório ✧✦🎭═══
Pessoas vestidas de preto enfileirados em um semicírculo ao redor do caixão. Enquanto um sacerdote fazia as últimas preces. Angelina e Meireles estavam juntos, com as cabeças inclinadas, demonstrando respeito à família de Antunes. Próximos deles, Rodrigo e Kléber permaneciam ao lado de Joana, que olhava fixamente para o caixão, o rosto sério, como se as palavras do sacerdote fossem nada além de um protocolo vazio.
O sacerdote segurava um livro com capa de couro, de onde lia as últimas palavras para a alma de Antunes.
— "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim jamais morrerá." Que estas palavras do Evangelho de João tragam conforto aos nossos corações.
O silêncio era quebrado apenas pelo som abafado de fungadas e o leve murmúrio de preces. O sacerdote fechou o livro, colocou-o de lado e continuou com as mãos unidas diante de si.
— Hoje nos despedimos de José Antunes. Um homem que, como todos nós, teve suas virtudes e desafios. Que sua jornada terrena seja encerrada com a paz, e que sua alma encontre a luz divina. Nós confiamos em Deus para acolhê-lo, assim como confiamos na força do tempo para curar as dores que sua ausência nos causa.
O caixão começou a se mover lentamente em direção ao forno crematório. O som das engrenagens ecoou no salão. Todos os olhares se voltaram para o caixão enquanto desaparecia por entre as portas metálicas. O sacerdote fez o sinal da cruz e murmurou a última bênção.
— Vá em paz, José Antunes, e descanse nos braços do Pai Celestial.
Após a cerimônia terminou, as pessoas começaram a se dispersar em pequenos grupos. Meireles e Angelina se aproximaram de Joana, Rodrigo e Kléber.
— Meus sentimentos, Joana. Rodrigo. — disse Angelina, com respeito.
Joana respondeu com um pequeno aceno de cabeça, mantendo a compostura.
— Obrigada, dona Angelina. Seu Meireles. Este é o meu advogado, Kléber. Ele está cuidando do caso do Rodrigo. Meu filho é inocente, seu Meireles.
Meireles assumiu um tom diplomático.
— Tenho certeza que sim, dona Joana. A polícia está investigando, e logo tudo será esclarecido. Mas, Rodrigo, é importante que você evite aparecer na Mulambo enquanto isso não se resolve. Afinal, o crime aconteceu lá, e você ainda é um dos suspeitos.
Kléber se adiantou, em tom firme:
— Rodrigo, você esteve na Mulambo depois do ocorrido?
— Sim, fui conferir um assunto na tecelagem. — respondeu Rodrigo, sem hesitar. — Não se preocupe que nem passei perto do local do crime.
Joana olhou para o filho, alarmada.
— Mas, meu filho...!
Rodrigo a encarou com firmeza.
— Mãe, na ausência do Antunes, eu e a senhora somos donos de 30% daquela empresa. — Virando-se para Meireles — Como ficaria isso, seu Meireles?
O tom de Meireles endureceu.
— Tenho uma proposta a fazer, Rodrigo. Estou disposto a comprar as ações que lhe cabem.
— Fora de cogitação! Não abro mão das minhas ações. — Disse Rodrigo, decidido.
Joana tentou intervir, cautelosa.
— Meu filho, talvez seja o melhor.
— A senhora não entende de negócios, mãe. — retrucou Rodrigo, visivelmente irritado. Depois, voltou-se para Meireles. — E o senhor, seu Meireles, me perdoe, mas está tentando se aproveitar de um momento frágil da nossa família para se dar bem.
Meireles deu um passo atrás, erguendo as mãos levemente.
— Não é nada disso. Só estou propondo uma solução plausível para evitar mais complicações.
Angelina pousou a mão no ombro do companheiro.
— Meu amor, vamos respeitar o momento deles. Podemos conversar sobre isso outra hora.
Meireles respirou fundo e assentiu.
— Tá certo. Peço desculpas por qualquer transtorno. — virou-se para Rodrigo, num tom mais cauteloso. — Mas, de toda forma, Rodrigo, é importante que você evite ir à Mulambo para não levantar mais suspeitas. Suas ações na empresa podem ser administradas por sua mãe, com o auxílio do seu advogado.
Rodrigo respondeu com frieza:
— Pode deixar que sei o que fazer. Das minhas ações cuido eu.
═══🎭✦✧ Tempos depois no Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Sentadas no sofá da sala Irmã Tereza e Irmã Rosália conversavam calmamente, o som do relógio de parede pontuando os momentos de silêncio entre elas. Uma batida suave na porta interrompeu a paz.
— Quem será? — perguntou irmã Rosália, franzindo a testa.
— Pode deixar, eu vejo — respondeu Irmã Tereza, já se levantando.
Ao abrir a porta, Irmã Tereza foi surpreendida pela figura de uma jovem. Estava encharcada de suor e poeira, com os cabelos longos desgrenhados caindo sobre o rosto. Carregava uma mala pequena e surrada em uma das mãos, enquanto a outra segurava a barra do vestido simples, agora amassado e sujo.
Era Soraia usando seu disfarce para se infiltrar no orfanato.
— Boa noite, moça — disse irmã Tereza, com gentileza.
— Boa noite, irmã — respondeu a jovem, com a voz embargada, o olhar baixo e os olhos úmidos. — Por caridade, eu preciso de um lugar para ficar. Pelo menos até amanhã... eu não tenho pra onde ir.
Irmã Rosália, que já se aproximava curiosa, notou o tom de desespero e a expressão cansada da jovem.
— Algum problema, irmã Tereza? — perguntou.
— Essa jovem precisa de ajuda, irmã Rosália — explicou irmã Tereza, com a voz carregada de preocupação.
— O que aconteceu com você, menina? — perguntou irmã Rosália, pousando os olhos com ternura sobre a desconhecida.
Soraia hesitou, pensou um pouco antes de responder.
— Eu vim de longe, irmã... Eu e meus pais morávamos em um acampamento de sem-terras. Já fazia anos que estávamos lá, acreditando que conseguiríamos um pedaço de terra para chamar de nosso. Mas... os donos reivindicaram a área. Eles... eles tacaram fogo no acampamento — contou, os olhos marejados. — Meus pais não conseguiram fugir. Morreram queimados.
— Meu Deus, que horror! — exclamou irmã Tereza, levando a mão ao peito.
— Só Deus sabe o que eu passei — continuou a jovem, as palavras saindo apressadas e carregadas de dor. — Vim para cá atrás de uma tia, mas... não sei nada sobre ela. Não sei se está viva, se mora aqui. Faz anos que a vi pela última vez.
Ela olhou para o céu escuro por um instante, a voz embargando novamente.
— Eu não tenho pra onde ir. Só queria que as senhoras me deixassem passar uma noite aqui. O tempo tá fechando e vem chuva. Não posso ficar na rua. Já andei por toda essa cidade, mas... não tenho dinheiro para pagar uma hospedaria.
As duas freiras trocaram olhares, ambas sentindo o impacto das palavras de Soraia.
— Entre, minha filha — disse irmã Rosália, com um aceno gentil.
— Não podemos deixar você desabrigada.
Soraia deu um passo hesitante, segurando a mala contra o corpo, os olhos marejados e um sorriso dissimulado discreto nos lábios.
— Muito obrigada, que Deus abençoe as senhoras. Eu só preciso de um cantinho. Não quero incomodar.
— Como se chama, menina? — perguntou irmã Rosália, puxando-a suavemente para dentro.
Soraia hesitou por um instante, pensando antes de responder.
— Eu me chamo Maria... Maria das Dores.
— Que nome bonito — disse irmã Tereza, com um sorriso caloroso.
═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══
Angelina e Meireles entraram juntos em sua sala, onde Fabinho estava, mexendo no celular. Ele levantou o olhar ao ouvir os passos.
— Oi, meu filho! — cumprimentou Angelina com um sorriso breve.
— E aí, como foi a cerimônia de cremação? — perguntou Fabinho, guardando o celular no bolso.
— Uma cremação comum, nada demais — respondeu Meireles. — Já a conversa com o Rodrigo... Bem, essa foi um pouco tensa. Ele não quer vender as ações.
— Falando em tensão, — interrompeu Fabinho. — A polícia tá na sala do Antunes, investigando.
Angelina franziu a testa, preocupada.
— Vamos até lá. Vai que eles precisam de alguma informação.
— Eu tô indo embora, só estava esperando vocês chegararem — anunciou Fabinho, pegando a mochila. — Tenho um compromisso.
Meireles o encarou desconfiado.
— Humm, sei. Tô de olho em você, viu, garoto.
Fabinho sorriu, desviando o olhar, e saiu apressado. Angelina e Meireles se entreolharam sorrindo.
Na outra sala, Will e Tony estavam agachados e concentrados, vasculhando cada canto. Gavetas abertas, papéis espalhados pela mesa, nada parecia ser descartado.
— Alguma coisa aí, Tony? — perguntou Will, sem tirar os olhos de uma pilha de relatórios.
— Por enquanto nada — respondeu Tony, revirando uma gaveta. — Só relatórios, blocos de notas, alguns documentos da empresa.
Angelina chegou empurrando a cadeira de rodas de Meireles.
— Boa tarde! — saudou Angelina.
— Boa tarde! — ecoou Meireles.
Will ergueu o olhar e acenou.
— Boa tarde, dona Angelina, seu Meireles. Este aqui é o inspetor Tony. Acredito que a senhora o tenha visto na delegacia.
— Me lembro bem dele. Prazer revê-lo — respondeu Angelina, cordial.
— O prazer é todo meu — devolveu Tony com um leve sorriso.
Will se levantou, batendo as mãos para tirar o pó.
— Estamos focados em encontrar uma pistola registrada no nome do Antunes. Pelo o que indica, a bala que o atingiu saiu dessa arma.
Meireles ficou boquiaberto, surpreso.
— Pistola? Nunca soube que o Antunes tinha arma nenhuma.
Will balançou a cabeça, pensativo.
— Pelo jeito, o Antunes guardava muitos segredos.
Enquanto a conversa continuava, Tony começou a bater levemente no fundo de uma gaveta, o som era diferente, mais abafado.
— Espera aí, isso aqui tá estranho — disse ele, estranhando.
Will se aproximou.
— O que foi?
— Acho que tem um fundo falso aqui.
Com cuidado, Tony puxou o forro da gaveta, revelando um compartimento oculto. Dentro, havia uma pasta de couro preta e um celular de modelo antigo.
Angelina arregalou os olhos ao ver o conteúdo.
— Que coisa estranha! Por que ele guardaria um celular dentro de uma pasta?
Tony ergueu o objeto, analisando-o.
— Para que ninguém soubesse da existência dele. Provavelmente era usado para ligações confidenciais.
Will pegou a pasta e abriu, revelando uma série de documentos. Seus olhos se fixaram em um conjunto específico de papéis. Ele leu em silêncio por alguns instantes antes de falar.
— Seu Meireles, o senhor deu procuração para o Antunes vender suas ações?
— Claro que não. Que conversa é essa?
— Pelo que estou entendendo aqui, então. O Antunes estava dando um jeito de passar a perna no senhor.
Meireles estendeu a mão, pedindo os documentos.
— Posso dar uma olhada?
Will entregou a papelada, e Meireles os examinou com atenção. Ele ficou pálido ao reconhecer os termos.
— Meu Deus, isso aqui é um contrato de seção de ações. E estão todos assinadas por mim!
Angelina arregalou os olhos.
— O quê? Como assim meu amor?
Meireles passou a mão pelo rosto, tentando conter a indignação.
— O Antunes me enganou! Ele me fez acreditar que isso era parte de outra papelada administrativa da empresa. Usou isso para transferir as minhas ações para o nome dele!
Will balançou a cabeça lentamente, os olhos fixos no documento.
— Parece que seu sócio estava mais envolvido em sujeira do que imaginávamos.
Enquanto isso, Tony examinava o celular antigo, inclinando-o para observar melhor.
— Será que esse troço ainda funciona? — perguntou, intrigado.
Will deu de ombros.
— Talvez. Mas o importante é descobrir o que tem nele. Contatos, mensagens... qualquer coisa pode ser útil.
Tony guardou o celular em uma sacola plástica para evidências, enquanto Meireles, ainda com os papéis nas mãos, parecia lutar contra a indignação crescente.
— Eu não estou acreditando nisso — disse Meireles, irritado. — Ele aproveitou o momento em que eu estava vulnerável, internado no hospital, para finalizar esse golpe. Eu perdi a minha empresa, Angelina.
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