MEMÓRIAS
23 CAPÍTULO 22- Não foi uma lembrança
Um erro pequeno.
Duas palavras.
Boa tarde, esposa.
No início parecera apenas justo.
Sarah passara semanas chamando-o de marido sempre que queria irritá-lo. Ele finalmente encontrara uma maneira de devolver a provocação.
O problema era que Sarah Cullen Clearwater não sabia perder.
Na segunda-feira, ela entrou na sala dele às oito e dezessete, colocou uma pasta sobre a mesa e disse:
— Assina aqui, marido.
Jacob nem levantou os olhos.
— Bom dia para você também, esposa.
Sarah ficou em silêncio por dois segundos.
Jacob sorriu para o relatório.
Vitória.
Na terça, encontrou um café sobre sua mesa com um bilhete:
Para o marido autoritário. Sem açúcar, porque alguém nesta relação precisa cuidar da sua saúde.
Jacob leu.
Depois releu.
Dobrou o papel.
Abriu uma gaveta.
Guardou.
Ficou olhando para a gaveta fechada.
Então franziu a testa para si mesmo.
Era um bilhete idiota.
Deveria jogar fora.
Não jogou.
Na quarta, Sarah passou por ele durante uma reunião, inclinou-se para entregar um documento e murmurou:
— Seu voto é comigo, marido.
Jacob respondeu no mesmo tom:
— Isso se chama conflito de interesses, esposa.
Sarah mordeu o sorriso.
Emmett, sentado do outro lado da mesa, levantou a cabeça.
— Eu ouvi.
Edward nem olhou.
— Todos ouvimos.
— Isso está ficando constrangedor.
Jacob apontou para o relatório.
— Emmett.
— Sim, presidente.
— Trabalha.
Sarah completou:
— Obedece ao meu marido.
Emmett levou a mão ao peito.
— Vocês estão assumindo!
Sarah riu.
Jacob também.
E esse era o verdadeiro problema.
Ele gostava.
Gostava muito mais do que deveria.
Naquela quinta-feira, Sarah passou quase todo o dia fora da empresa.
Audiência pela manhã.
Reunião externa à tarde.
Jacob sabia.
Não tinha motivo para pensar nisso.
Pensou mesmo assim.
Às quatro, olhou pela parede de vidro da sala.
Vazia.
Às cinco e vinte, perguntou à secretária se Sarah voltaria.
— Acho que não.
Jacob assentiu.
— Certo.
Às cinco e quarenta, Edward entrou.
— Vai embora?
— Daqui a pouco.
Edward olhou para a mesa.
— Você terminou isso há meia hora.
Jacob levantou os olhos.
— Está fiscalizando meu trabalho?
— Não.
Edward pegou uma cadeira.
— Você está esperando Sarah?
— Não.
— Certo.
Jacob estreitou os olhos.
— Você e Emmett precisam arrumar hobbies.
— Tenho.
— Então pratica.
Edward sorriu.
— Boa noite.
— Boa noite.
Chegou à porta.
— Jacob?
— O quê?
— Ela disse que voltaria.
Jacob olhou imediatamente.
Edward abriu um sorriso.
— Sabia.
— Sai.
Edward saiu rindo.
Jacob olhou para a porta fechada.
— Idiota.
Mas às seis e quinze, quando ouviu a voz de Sarah no corredor, soube que Edward tinha razão.
Ele estava esperando.
Sarah surgiu na porta.
Cabelo preso de qualquer maneira.
Pasta embaixo do braço.
Saltos na mão.
Descalça.
Jacob ficou olhando.
— Nem começa.
— Eu não falei nada.
— Seu rosto falou.
Ele lembrou dela usando exatamente a mesma frase semanas antes.
— Por que está descalça?
— Porque quem inventou salto alto odiava mulheres.
— Argumentação jurídica impecável.
Sarah entrou.
Largou a pasta.
— Ganhei.
— A audiência?
— A liminar.
Jacob sorriu.
Orgulho.
Foi a primeira palavra que lhe ocorreu.
E precisou de um instante para perceber como aquilo era novo.
Não orgulho da menina que sobrevivera.
Não alívio.
Não gratidão.
Orgulho dela.
Da advogada.
Da mulher que entrava em sua sala exausta depois de vencer uma discussão jurídica e parecia absolutamente satisfeita consigo mesma.
— Parabéns.
Sarah fez uma pequena reverência.
— Obrigada.
Então caiu no sofá.
— Morta.
Jacob levantou.
— Comeu?
Sarah abriu um olho.
— Você também?
— Responde.
— Café conta?
Jacob parou.
— Sarah.
— Tinha leite.
— Isso não é comida.
— Havia açúcar.
— Continua não sendo comida.
Ele pegou o telefone.
Sarah levantou a cabeça.
— O que está fazendo?
— Pedindo alguma coisa.
— Não precisa.
— Precisa.
— Jacob.
— Sarah.
Ela deixou a cabeça cair.
— Marido mandão.
Ele nem pensou.
— Esposa irresponsável.
Sarah ergueu a cabeça.
Os dois se olharam.
E riram.
Quarenta minutos depois estavam sentados no chão da sala.
Sarah alegara que precisava esticar as pernas.
Jacob dissera que existiam cadeiras.
Sarah ignorara.
Ele acabara no chão também.
Claro.
A comida estava espalhada sobre a mesa baixa.
Sarah pegou uma batata do prato dele.
Jacob viu.
Não disse nada.
Ela pegou outra.
— Você tem as suas.
— Essas estão melhores.
— São do mesmo lugar.
— Já tivemos essa discussão.
— E você estava errada naquela vez também.
Sarah pegou uma terceira.
Jacob afastou o prato.
— Chega.
Ela se inclinou.
— Me dá.
— Não.
— Jacob.
— Sarah.
Ela tentou alcançar.
Ele levantou o prato.
— Isso é abuso de poder.
— Compre sua própria comida.
— Você comprou com o cartão da empresa.
— Meu cartão.
— Presidente da empresa.
— Não funciona assim.
Sarah avançou novamente.
Jacob desviou.
Ela segurou seu braço.
— Me dá.
— Não.
— Jacob!
Ele começou a rir.
Sarah praticamente passou por cima dele tentando alcançar o prato.
— Sarah!
— Só uma!
— Você já roubou três!
— Então não vai sentir falta de quatro!
Ela conseguiu.
— Peguei!
— Você é impossível.
Sarah ergueu a batata como troféu.
— Ganhei.
— Você é advogada de uma multinacional e está comemorando furto de batata.
— Furto privilegiado.
— Não existe privilégio conjugal nesse caso.
Sarah parou.
Jacob também.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Conjugal?
Ele percebeu.
— Não começa.
— Foi você que falou.
— Sarah.
— Interessante.
— Come a batata.
Ela sorriu.
— Sim, marido.
Jacob balançou a cabeça.
Mas sorriu.
E Sarah viu.
Depois comeram em silêncio.
Confortável.
Fácil.
Talvez fosse justamente aquilo que mais assustava Jacob.
Não parecia uma grande história de reencontro.
Não parecia algo que precisava ser explicado.
Parecia normal.
Sarah no chão da sala dele.
Os saltos abandonados perto do sofá.
Uma batata roubada.
O cabelo caindo sobre o rosto.
O silêncio sem necessidade de preenchimento.
Jacob percebeu que conseguia imaginar aquilo em outros lugares.
Na casa dele.
Na casa dela.
Num domingo.
Num sábado à noite.
E interrompeu o pensamento.
Não.
Cedo demais.
Sarah encostou no sofá.
— Posso perguntar uma coisa?
— Você vai perguntar independentemente da resposta.
— Está me conhecendo.
— Infelizmente.
Ela empurrou seu ombro.
— Idiota.
— Pergunta.
Sarah ficou séria.
— Por que você recuou?
Jacob soube imediatamente.
O quarto.
A tempestade.
A lembrança.
A proximidade.
O instante em que quis beijá-la.
— Sarah...
— Eu percebi.
Claro que percebera.
Ela percebia tudo.
— Você estava perto de mim. Depois ficou estranho e deu um passo para trás.
Jacob desviou os olhos.
— Não foi nada.
— Mentira.
— Você sempre interroga as pessoas depois do expediente?
— Só quando a pessoa ia me beijar e desiste.
Ele levantou-se.
Precisava de distância.
Sarah observou.
Jacob foi até a janela.
— Você tinha acabado de recuperar uma lembrança.
— Sim.
— Uma lembrança comigo.
— Sim.
— Da infância.
Sarah esperou.
Jacob respirou fundo.
— Eu não queria misturar as coisas.
— Que coisas?
Ele fechou os olhos por um instante.
Não havia mais saída.
— Você realmente vai me obrigar a falar?
— Provavelmente.
Jacob virou.
— Você descobriu há pouco mais de um mês que eu fazia parte da sua infância.
— Eu sei.
— Descobriu que confiava em mim. Que corria para mim. Que dormia no meu quarto quando tinha medo. Que...
— Que eu queria casar com você.
— Exatamente.
Sarah quase sorriu.
— Isso ainda te assusta?
— Não a história.
— Então o quê?
Silêncio.
Jacob sentiu o coração acelerar.
— Eu não quero que você olhe para alguma coisa que sente agora e pense que precisa sentir porque aquelas duas crianças tinham uma ligação.
Sarah ficou imóvel.
— Alguma coisa que você sente agora?
Droga.
Jacob percebeu tarde demais.
— Sarah.
— Não.
Ela levantou.
— Você falou.
— Eu sei.
— Então termina.
Jacob passou a mão pelo rosto.
— Isso é uma péssima ideia.
— Por quê?
— Porque você é você.
Sarah piscou.
— Excelente argumento.
— Você entendeu.
— Não. Na verdade, não.
Jacob soltou o ar.
— Você acabou de reconstruir metade da sua identidade.
— E?
— E eu estou no meio dela.
— Você está numa parte dela.
— Exatamente.
— Não é a mesma coisa.
Jacob ficou quieto.
Sarah aproximou-se.
— Você acha que eu não sei a diferença entre lembrar de um menino de dez anos e olhar para um homem de vinte e cinco?
Aquilo atingiu diretamente.
Porque era exatamente a distinção que Jacob vinha fazendo dentro de si havia semanas.
A menina.
A mulher.
Passado.
Presente.
Sarah continuou:
— Para de decidir por mim o que eu consigo separar.
— Eu não estou decidindo.
— Está tentando.
Ele não conseguiu negar.
— Você está tentando fazer a coisa certa — Sarah disse.
— Estou.
— Então pergunta o que eu quero.
Jacob a encarou.
Demorou alguns segundos.
— O que você quer?
Agora Sarah ficou quieta.
Jacob quase sorriu.
— Viu?
— Cala a boca.
Ele sorriu.
— Você começou.
Sarah respirou fundo.
Então olhou para ele.
E alguma coisa mudou.
Jacob viu antes de ouvi-la.
— Você.
O sorriso desapareceu.
— O quê?
— Eu quero você.
O mundo parou.
Não metaforicamente.
Para Jacob, realmente pareceu parar.
Nenhum som do corredor.
Nenhum computador.
Nenhum telefone.
Nada.
Apenas aquelas três palavras.
Eu quero você.
Não:
Eu lembro de você.
Não:
Eu confiava em você.
Não:
Você prometeu.
Não:
Me protege.
Eu quero você.
Presente.
Sarah adulta.
Escolha adulta.
Jacob sentiu alguma coisa dentro dele romper.
Não de forma dolorosa.
Era como uma porta que mantivera fechada por força durante semanas simplesmente cedendo.
Sarah continuou falando.
— Não estou dizendo que sei o que isso significa.
Jacob mal conseguia acompanhar.
— Não estou dizendo que amanhã vamos casar porque duas crianças fizeram uma cerimônia ridícula dezenove anos atrás.
Ele conseguiu:
— Ainda bem.
— Não estraga.
— Desculpa.
— E para de pedir desculpa.
Jacob sorriu automaticamente.
Mas por dentro estava completamente desorganizado.
Sarah queria ele.
Não a lembrança.
Não o menino.
Ele.
Jacob Black.
O homem de vinte e cinco anos.
O presidente irritante.
O homem que discutia contratos com ela.
Que roubava — ou melhor, tinha roubadas — as batatas.
Que mandava ela comer.
Que ria das provocações.
Que queria beijá-la desde antes de admitir para si mesmo.
Sarah deu mais um passo.
— Estou dizendo que quando você olha para mim...
A voz ficou mais baixa.
— Eu percebo.
Jacob perdeu o sorriso.
— E quando você chega perto...
Ela respirou.
— Eu percebo também.
Ele engoliu em seco.
Sarah estava perto demais.
Jacob olhou para os olhos.
Tentou ficar ali.
Falhou.
Os olhos desceram.
A boca.
Um segundo.
Voltou imediatamente.
Sarah viu.
— Ah.
Jacob fechou os olhos.
— Não.
— Você olhou para minha boca.
— Sarah.
— Olhou.
Ele começou a rir, nervoso.
— Você é inacreditável.
— E você está fugindo.
O sorriso desapareceu.
— Estou tentando fazer a coisa certa.
— E qual é?
Jacob não sabia mais.
Talvez tivesse sabido um mês antes.
Agora não.
Porque Sarah estava diante dele dizendo claramente que queria alguma coisa.
E Jacob precisava decidir se respeitar Sarah significava afastar-se por ela...
...ou acreditar nela quando dizia saber o que queria.
— Eu tenho medo de errar com você — confessou.
A expressão dela mudou.
— Jacob...
— Não por causa do que aconteceu.
Ele respirou.
— Não só por causa disso.
Sarah ficou quieta.
— Você voltou.
A palavra ainda parecia impossível.
— E eu passei quinze anos querendo uma coisa que não podia ter.
— O quê?
Jacob olhou para ela.
— Você viva.
Os olhos de Sarah se encheram.
— Agora você está aqui.
Ele riu baixinho.
— E aparentemente meu cérebro não recebeu instruções sobre o que fazer depois.
Sarah sorriu entre a emoção.
— Parece um problema administrativo.
Jacob riu.
— Provavelmente.
— Posso emitir um parecer.
— Tenho medo.
Ela aproximou-se.
— Eu não sou a menina de oito anos.
— Eu sei.
— Não estou tentando recuperar alguma coisa.
— Eu sei.
— Você não me deve nada.
— Eu sei.
Sarah tocou seu peito.
Jacob sentiu a mão.
Quente.
Real.
Presente.
— Então para de pensar.
— Isso é difícil para mim.
— Eu percebi.
Jacob levantou a mão.
Queria tocá-la.
Parou.
Não porque tivesse dúvida do que sentia.
Aquilo já não existia.
Queria.
Muito.
Mas ainda precisava saber.
Sarah viu sua mão suspensa.
Viu a pergunta.
E respondeu sem palavras.
Aproximou o rosto.
Encostou a bochecha na palma dele.
Jacob parou de respirar.
A pele dela sob seus dedos.
Quente.
Sarah fechou os olhos.
E naquele instante Jacob teve uma percepção tão simples que quase doeu.
Durante quinze anos, quando imaginava tocar Sarah, a memória devolvia uma mão escorregando.
Fria.
Molhada.
Desaparecendo.
Agora sua mão estava no rosto dela.
E Sarah estava inclinando-se contra o toque.
Por vontade própria.
Jacob deslizou o polegar devagar pela bochecha.
Sarah abriu os olhos.
— Isso não é uma lembrança — disse.
Não.
Não era.
Jacob sentiu a frase inteira dentro dele.
Aquilo não existira antes.
Nenhuma fotografia registrava.
Billy não poderia contar.
Emmett não poderia transformar em piada antiga.
Edward não lembraria.
Era novo.
Deles.
Agora.
Sarah aproximou-se, então o beijou.
O primeiro toque dos lábios dela foi tão leve que Jacob ficou completamente imóvel.
Não por rejeição.
Por choque.
Sarah.
Beijando ele.
A mente simplesmente falhou por um segundo.
Ela se afastou poucos centímetros.
Jacob continuou de olhos fechados.
O coração batia tão forte que parecia ridículo.
Abriu os olhos.
Sarah estava ali.
Tão perto que ele sentia a respiração dela.
Ela parecia nervosa.
Isso o atingiu também.
Sarah, que enfrentava conselhos de administração e Irina sem baixar os olhos.
Nervosa.
Com ele.
Jacob percebeu então que precisava responder.
Não como protetor.
Não como menino.
Não como alguém tentando compensar uma promessa.
Como homem.
— Isso foi...
— Não termina essa frase.
— Eu ia perguntar se você tem certeza.
Sarah fechou os olhos.
— Jacob.
— Eu preciso saber.
E precisava mesmo.
Porque se cruzasse aquela linha, não queria voltar depois e descobrir que Sarah confundira reconhecimento com desejo.
Ela abriu os olhos.
— Eu beijei você.
— Eu percebi.
— Voluntariamente.
— Sarah...
— Consciente.
Um sorriso começou.
— Certo.
— Orientada no tempo e espaço.
Ele riu.
A tensão que quase o esmagava cedeu um pouco.
— Para.
— Capaz civilmente.
— Sarah.
— Sem coação.
Jacob balançou a cabeça.
— Você acabou de transformar nosso primeiro beijo num termo de consentimento.
Ela sorriu.
— Defeito profissional.
Nosso primeiro beijo.
Jacob ouviu.
Sarah percebeu também.
Silêncio.
Então ele perguntou:
— Posso?
Dessa vez ela não brincou.
— Pode.
E Jacob a beijou.
A primeira coisa que sentiu foi alívio.
Estranhamente, inesperadamente, alívio.
Porque no instante em que sua boca encontrou a dela, nenhuma memória apareceu.
Nenhuma.
Não viu Sarah criança.
Não viu o rio.
Não viu o penhasco.
Não ouviu “você prometeu”.
Não ouviu o próprio grito.
Nada.
Só Sarah.
A mulher diante dele.
A mão dela segurando sua camisa.
O cheiro do cabelo.
A respiração.
A boca respondendo à sua.
Jacob segurou seu rosto com uma mão.
A outra encontrou a cintura.
Devagar.
Cuidadoso.
Ainda esperando algum sinal de hesitação.
Não veio.
Sarah aproximou-se.
O corpo dela encostou no dele.
E alguma coisa dentro de Jacob finalmente soltou.
O beijo aprofundou-se.
Não havia culpa.
A descoberta quase o fez interromper.
Não havia culpa.
Pela primeira vez, estar perto de Sarah não vinha acompanhado daquela voz subterrânea dizendo que ele não tinha direito de querer nada dela.
Ela estava viva.
Era adulta.
Sabia a história inteira.
E estava beijando-o.
Porque queria.
Jacob apertou a cintura dela.
Sarah soltou um pequeno suspiro contra sua boca.
Aquilo quase acabou com o resto do autocontrole dele.
O desejo veio claro.
Forte.
Novo.
Completamente separado de tudo que existira antes.
E Jacob quase ficou grato por isso.
Porque aquela reação não podia ser confundida com infância.
Não havia nada infantil no modo como sentia Sarah contra si.
Nada antigo.
Nada herdado.
Era agora.
Ele.
Ela.
Quando Sarah passou os braços ao redor de seu pescoço, Jacob sentiu um arrepio percorrer as costas.
Beijou-a novamente.
Mais devagar.
Depois outra vez.
Como se precisasse convencer o próprio cérebro de que aquilo estava realmente acontecendo.
Sarah sorriu contra sua boca.
Jacob sentiu.
E sorriu também.
Era absurdo.
Ele tinha vinte e cinco anos.
Já beijara outras mulheres.
Já tivera encontros.
Já conhecia desejo.
Mas nunca assim.
Porque sempre existira uma parte dele fora da situação.
Controlando.
Mantendo distância.
Nunca oferecendo demais.
Nunca permitindo que alguém chegasse perto de lugares que ele próprio evitava.
Com Sarah não havia distância.
Talvez porque ela já tivesse entrado em todos aqueles lugares antes mesmo que ele percebesse.
Quando finalmente se afastaram, Jacob estava respirando rápido.
Sarah também.
Ele encostou a testa na dela.
Fechou os olhos.
Precisava de alguns segundos.
Sarah permaneceu ali.
Sem falar.
Jacob percebeu a própria mão ainda na cintura dela.
Não soltou.
A outra continuava no rosto.
Também não soltou.
— Jacob?
A voz saiu baixa.
— Hum?
— Você está bem?
Ele abriu os olhos.
Quase riu da inversão.
— Você está perguntando se eu estou bem?
— Você ficou quieto.
— Estou tentando processar.
— Demora muito?
Jacob olhou para ela.
— Considerando os últimos quinze anos? Talvez.
Sarah sorriu.
Ele passou o polegar pela bochecha dela.
Então ficou sério.
— Eu não pensei no penhasco.
Ela não respondeu imediatamente.
Jacob sentiu os olhos arderem.
— Nem uma vez.
Sarah compreendeu.
A mão que estava no pescoço dele subiu até o cabelo.
— Jacob...
Ele soltou uma pequena risada emocionada.
— Eu achei que fosse.
— Durante o beijo?
— Em algum momento.
Sarah observou.
— E não pensou.
Ele balançou a cabeça.
— Não.
A voz ficou rouca.
— Só em você.
Sarah perdeu o sorriso por um instante.
Não porque tivesse ficado triste.
Porque sentiu.
Jacob aproximou a testa novamente.
— Você não faz ideia do que isso significa.
Sarah respondeu baixinho:
— Talvez faça.
Ele abriu os olhos.
— Durante quinze anos, tudo que envolvia você terminava naquele penhasco.
Ela assentiu.
— Hoje não.
Jacob olhou para a boca dela.
Depois para os olhos.
— Hoje terminou aqui.
Sarah sorriu.
— Ainda não terminou.
Ele riu.
— Não?
— Não.
Ela o beijou novamente.
O segundo beijo foi diferente.
Jacob já não precisava provar nada a si mesmo.
Sarah estava ali.
E queria estar.
Dessa vez foi ele quem a puxou para mais perto.
Sarah riu contra sua boca.
Jacob afastou alguns centímetros.
— Está rindo?
— Talvez.
— Por quê?
— Porque você demorou.
— Eu estava tentando ser responsável.
— Superestimado.
— Você me chamou de marido durante semanas como piada.
— Talvez tenha deixado de ser piada antes de eu perceber.
Jacob ficou imóvel.
Sarah também pareceu surpresa por ter dito.
— Quando? — ele perguntou.
— Não sei.
Honesta.
— Talvez quando você começou a responder “esposa”.
Jacob sorriu.
— Então a culpa é minha.
— Finalmente uma conclusão correta.
Ele beijou-a de novo.
Curto.
Depois outro.
Sarah segurou seu rosto.
— Você está sorrindo.
Jacob percebeu.
Estava.
— Culpa sua.
— Vou aceitar.
Ele ficou olhando para ela.
E então a emoção mudou.
Mais profunda.
Não amor.
Ainda não.
Jacob não precisava correr para aquela palavra.
Mas aquilo já era muito maior do que a atração que admitira semanas antes.
Porque agora sabia como era beijá-la.
E queria fazer de novo.
Queria saber como Sarah ficava depois de um beijo.
Queria saber se ela sempre fazia piada quando estava nervosa.
Queria saber se continuaria roubando comida dele depois disso.
Queria saber como seria sair com ela sem Emmett por perto.
Queria descobrir como ela gostava de ser beijada.
Queria coisas pequenas.
Cotidianas.
Futuras.
E essa última constatação o assustou mais que o beijo.
Futuro.
Jacob passara quinze anos preso ao passado.
Agora olhava para Sarah e pensava em amanhã.
Foi nesse exato momento que a porta abriu.
— Jacob, você viu o...
Emmett parou.
Sarah e Jacob se afastaram.
Não muito.
Não rápido o suficiente.
A mão de Jacob continuou na cintura dela.
Ele percebeu.
Não retirou imediatamente.
Emmett olhou.
Sarah.
Jacob.
A mão.
O cabelo dela.
A expressão dele.
A boca de ambos.
Emmett abriu a boca.
Nada.
Jacob fechou os olhos.
— Emmett.
O irmão levantou um dedo.
— Não.
— Emmett...
— NÃO.
Sarah mordeu o lábio.
Jacob viu.
Ela estava tentando não rir.
Aquilo quase o fez rir também.
— Eu...
— NÃO FALA.
Emmett virou.
— EDWARD!
Jacob finalmente soltou Sarah.
— Não.
— EDWARD!
Sarah começou a rir.
Jacob olhou.
— Isso não tem graça.
— Tem muita.
Passos.
Edward apareceu.
— O que aconteceu?
Emmett apontou.
— Eles.
Edward olhou.
Depois para Jacob.
E, para irritação de Jacob, sorriu.
— Ah.
Emmett quase explodiu.
— “AH”?!
— Eu imaginava.
Jacob arregalou os olhos.
— Você imaginava?
— Vocês não são sutis.
Sarah pareceu ofendida.
— Eu sou extremamente sutil.
Três homens olharam.
— Está bem. Talvez não.
Emmett entrou.
— Vocês se beijaram?
Jacob respondeu:
— Isso não é da sua conta.
Sarah respondeu simultaneamente:
— Sim.
Jacob virou.
— Sarah!
— O quê?
Emmett levou as mãos à cabeça.
— MINHA IRMÃ BEIJOU MEU IRMÃO!
Edward corrigiu:
— Tecnicamente Jacob não é nosso irmão.
— NÃO AJUDA!
Sarah ria.
— Você celebrou nosso casamento. Devia estar feliz.
Emmett ficou imóvel.
Então apontou para ela.
— Eu sabia que aquela cerimônia era juridicamente perigosa.
Edward sentou.
— Você tinha seis anos e o livro estava de cabeça para baixo.
— Detalhes formais.
Sarah olhou para Jacob.
Ele encontrou os olhos dela.
E aconteceu novamente.
Aquele pequeno silêncio.
Só que agora era diferente.
Porque Jacob sabia como era beijá-la.
Sarah também.
Emmett percebeu.
— Não façam isso.
Sarah piscou.
— O quê?
— Essa coisa de olhar um para o outro!
Edward começou a rir.
— Vai piorar.
Jacob deveria ter ficado constrangido.
Deveria mandar os dois embora.
Em vez disso, olhou novamente para Sarah.
Ela sorria.
E Jacob sentiu uma vontade completamente irracional de beijá-la outra vez só para irritar Emmett.
Não fez.
Mas o pensamento existiu.
E isso já dizia muito.
Mais tarde, quando finalmente ficaram sozinhos outra vez, Sarah se encostou na mesa.
Jacob fechou a porta.
Virou.
Ficaram se olhando.
— O quê? — ela perguntou.
Jacob aproximou-se.
— Nada.
— Seu rosto está falando.
Ele parou diante dela.
— Você está bem?
— Estou.
— Não se arrependeu?
Sarah estreitou os olhos.
— Já começou de novo?
— Última vez.
— Promete?
Jacob ficou imóvel.
A palavra.
Sarah percebeu imediatamente.
— Não.
Ela se aproximou.
— Retiro.
Jacob respirou.
Sarah segurou sua mão.
— Não precisamos de promessa.
Ele olhou para os dedos entrelaçados.
Depois para ela.
— Certo.
— E não me arrependi.
Jacob relaxou.
Sarah percebeu.
— Você estava realmente preocupado.
— Estou tentando não errar com você.
A brincadeira desapareceu do rosto dela.
— Você vai errar.
— Obrigado.
— Eu também.
Ela sorriu.
— Vamos brigar.
— Com certeza.
— Vou querer matar você algumas vezes.
— Algumas?
— Não abusa.
Jacob riu.
Sarah tocou seu rosto.
— Você não precisa acertar tudo para compensar o que aconteceu quando tinha dez anos.
Ele fechou os olhos.
— Principalmente comigo.
Quando abriu, Sarah continuava ali.
— Estou tentando aprender.
— Então aprende isso primeiro.
— O quê?
Ela se aproximou.
— Você pode me beijar sem pedir desculpa depois.
Jacob sorriu lentamente.
— Essa regra eu consigo aprender rápido.
— Ótimo.
Ele colocou a mão na cintura dela.
Dessa vez sem hesitar.
— Sarah?
— Hum?
— Só para registro.
— Sim?
Jacob aproximou a boca da dela.
— Eu queria fazer isso desde antes da casa.
Sarah sorriu.
— Eu sei.
Ele parou.
— Como?
— Você olha muito para minha boca.
Jacob fechou os olhos.
— Meu Deus.
Ela riu.
— Péssima testemunha.
— Cala a boca.
— Faz eu calar.
Jacob abriu os olhos.
Sarah percebeu imediatamente o que tinha dito.
Ficou vermelha.
Jacob começou a sorrir.
— Interessante.
— Não fala nada.
— Você acabou de...
— Jacob.
— Estou apenas registrando.
— Se você...
Ele a beijou.
Sarah riu contra sua boca.
Funcionou.
Quando se afastaram, Jacob estava sorrindo de uma maneira que Sarah raramente vira.
Aberta.
Fácil.
Quase a do menino da mangueira.
Mas não igual.
Aquela pertencia ao homem.
Sarah tocou seu rosto.
— Esse sorriso.
— O quê?
— Gosto dele.
Jacob ficou quieto.
— Então talvez eu tenha que usar mais.
— Recomendo.
— Parecer jurídico?
— Vinculante.
Ele riu.
Naquela noite, Jacob deitou e ficou olhando para o teto.
Esperou.
Quase por hábito.
Esperou a lembrança.
A queda.
A mão.
O grito.
Ela não veio.
Veio Sarah dizendo:
Eu quero você.
Jacob fechou os olhos.
Depois:
A boca dela tocando a sua.
A mão em sua camisa.
O sorriso contra seus lábios.
Isso não é uma lembrança.
Não.
Não era.
Jacob tocou a própria boca e soltou uma risada baixa, incrédula.
Tinha vinte e cinco anos e estava deitado pensando em um beijo como um adolescente.
Não se importou.
Porque, durante quinze anos, fechar os olhos e pensar em Sarah significava perder Sarah.
Naquela noite, pela primeira vez, significava beijá-la.
E Jacob percebeu que alguma coisa fundamental tinha mudado.
O passado continuava existindo.
A culpa não desapareceria em uma noite.
As perguntas continuavam.
Irina continuava sendo um problema.
Aro continuava sendo uma sombra.
Sarah continuava reconstruindo uma vida que ninguém tinha direito de apressar.
Mas agora existia uma coisa que não pertencia a nenhuma dessas histórias.
Um primeiro beijo.
Novo.
Escolhido.
Presente.
Jacob sorriu no escuro.
E pensou no que mais o assustara naquela noite.
Não fora beijar Sarah.
Não fora perceber o quanto a desejava.
Não fora nem descobrir o quanto gostara de tê-la nos braços.
Tinha sido perceber, enquanto olhava para ela depois do beijo, que queria mais do que outro beijo.
Queria o dia seguinte.
E o outro.
Queria vê-la entrando em sua sala.
Queria discutir contratos.
Queria reclamar quando ela roubasse sua comida.
Queria receber mensagens absurdas.
Queria ouvir “marido” e responder “esposa”.
Queria descobrir quem eles poderiam ser sem uma tragédia definindo cada passo.
Pela primeira vez em quinze anos, quando Jacob pensou em Sarah, não pensou no último dia que tiveram juntos.
Pensou no próximo.
E sorriu.
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