MEMÓRIAS
24 CAPÍTULO 23 - O que Irina viu
Irina não pretendia vê-los.
Talvez fosse isso que tornasse tudo pior.
Se tivesse procurado.
Se tivesse seguido Sarah.
Se tivesse parado diante da sala de Jacob com a intenção de espioná-los, poderia ter se preparado para o que encontraria.
Mas não.
Foi acaso.
Um corredor.
Uma porta entreaberta.
Uma risada.
E então o passado, enterrado havia décadas, levantou-se diante dela.
Era pouco depois das sete da noite.
O andar executivo estava praticamente vazio.
Irina saíra de uma reunião tardia com dois conselheiros e caminhava em direção aos elevadores quando percebeu luz na sala de Jacob.
Não teria parado.
Jacob trabalhava até tarde com frequência.
Então ouviu Sarah rir.
Irina diminuiu o passo.
Não conscientemente.
Apenas aconteceu.
A porta não estava completamente fechada.
Havia uma fresta.
E por ela Irina viu.
Sarah estava encostada na mesa de Jacob.
Não havia documentos em suas mãos.
Nenhuma pasta.
Nenhuma postura profissional.
Jacob estava diante dela.
Perto.
Muito perto.
Sarah dizia alguma coisa que Irina não conseguiu ouvir.
Jacob sorriu.
E Irina parou.
Porque aquele sorriso...
Por um segundo, não viu Jacob.
Viu Billy.
Décadas antes.
Um jardim.
Uma tarde quente.
Billy Black ainda jovem.
Bonito de uma maneira que irritava Irina porque ele parecia não saber.
Camisa dobrada nos antebraços.
Cabelo bagunçado.
Um sorriso fácil.
Irina tinha vinte e poucos anos e acreditava que algumas coisas simplesmente deveriam acontecer porque faziam sentido para ela.
Billy fazia sentido.
As famílias se conheciam.
Carlisle gostava dele.
Ela gostava dele.
Mais do que gostava.
Muito mais.
Durante anos Irina convencera a si mesma de que Billy apenas precisava perceber.
Que era questão de tempo.
Que ele ainda não estava pronto.
Que eventualmente olharia para ela da maneira como ela olhava para ele.
Até Sarah Black aparecer.
Não.
Essa era a mentira que Irina contara a si mesma durante anos.
Sarah Black não aparecera depois.
Ela já estava ali.
Sempre estivera.
Amiga de Esme desde menina.
Risonha.
Espontânea.
Bonita sem parecer esforçar-se para ser.
Sarah Black entrava nos lugares e as pessoas olhavam.
Não porque exigisse atenção.
Porque parecia carregar vida demais consigo.
Irina odiava isso.
Odiava ainda mais o fato de Billy gostar.
— Você vai quebrar isso.
A voz de Billy.
Irina lembrava.
Sarah Black estava em cima de uma pequena escada tentando alcançar alguma coisa numa árvore.
— Não vou.
— Vai.
— Você é muito pessimista.
— Você é irresponsável.
Sarah olhou para baixo.
— Então segura.
Billy segurou a escada.
Sarah sorriu.
— Viu? Resolvido.
Irina observara de longe.
Aquilo.
Sempre aquilo.
Sarah mandava.
Billy reclamava.
E obedecia.
Irina levara anos para entender que aquilo era amor.
Não as flores.
Não as declarações.
Não as coisas grandiosas.
Era Billy reclamando enquanto segurava a escada.
Era Sarah roubando comida do prato dele.
Era Billy procurando Sarah com os olhos quando entrava num lugar.
Era o modo como ele dizia o nome dela quando estava irritado.
Era o sorriso.
Aquele maldito sorriso.
Irina voltou ao presente.
Jacob estava sorrindo daquele jeito.
Para outra Sarah.
O estômago dela se contraiu.
— Não — murmurou.
Não tinha sentido.
Jacob não era Billy.
Sarah Cullen não era Sarah Black.
Claro que não.
Era absurdo.
Ridículo.
Uma associação emocional.
Nada além disso.
Mas então Sarah estendeu a mão.
Pegou alguma coisa do prato sobre a mesa de Jacob.
Irina ficou imóvel.
Jacob olhou para o prato.
Disse alguma coisa.
Sarah respondeu.
Ele balançou a cabeça.
Ela pegou outra.
Jacob afastou o prato.
Sarah tentou alcançar.
Ele riu.
Irina sentiu frio.
Não.
Outra cozinha.
Outra época.
Sarah Black sentada sobre a bancada da casa de Billy.
Billy comendo.
Sarah estendendo a mão.
— Me dá.
— Tem no prato.
— Quero esse.
— É igual.
— Não é.
— Sarah.
— Billy.
Irina estava na porta.
Lembrava perfeitamente.
Billy reclamara.
Depois entregara.
Sarah comera sorrindo.
Irina perguntara:
— Por que você simplesmente não diz não?
Billy olhara para ela como se a pergunta não fizesse sentido.
— Eu disse.
Sarah começara a rir.
— Ele acha que dizer significa alguma coisa.
Billy empurrara o ombro dela.
Sarah quase derrubara o copo.
Os dois riram.
Irina não.
O presente voltou como uma agressão.
Sarah Cullen roubando comida de Jacob.
Jacob cedendo.
Exatamente como Billy.
Exatamente como ela.
Irina apertou os dedos.
Coincidência.
Precisava ser.
Mas então Jacob disse alguma coisa.
Sarah sorriu.
E Irina viu outro rosto.
Não Sarah Black.
Esme.
O sorriso.
Os olhos.
A inclinação da cabeça.
Por um segundo, a filha de Carlisle pareceu carregar todas as mulheres que Irina passara a vida tentando esquecer.
Esme.
Sarah Black.
E agora Sarah Cullen.
Todas amadas.
Todas escolhidas.
Todas ocupando espaços aos quais Irina acreditara ter direito.
A respiração ficou curta.
Então Jacob se aproximou.
Dentro da sala, Sarah não sabia que era observada.
— Você vai mesmo continuar escondendo meu café?
Jacob ergueu a xícara.
— É meu.
— Você tomou quatro hoje.
— Dois.
— Eu contei.
— Isso é preocupante.
— Sou sua advogada.
— Não inclui fiscalização de cafeína.
Sarah tentou pegar.
Jacob levantou a xícara.
— Jacob.
— Sarah.
— Me dá.
— Não.
Ela se aproximou.
— Você sabe que eu vou conseguir.
— Estou começando a duvidar da sua capacidade profissional.
Sarah estreitou os olhos.
— Repete.
Jacob sorriu.
— Incapaz.
Sarah avançou.
Ele desviou.
Ela segurou a camisa dele.
Jacob riu.
— Isso é agressão ao presidente.
— Denuncie ao jurídico.
— Você é o jurídico.
— Péssima sorte.
Jacob deixou a xícara sobre a mesa.
Sarah percebeu tarde demais que continuava segurando sua camisa.
Os dois pararam.
O humor mudou.
Acontecia rápido agora.
Um segundo estavam brincando.
No outro, lembravam.
O beijo.
Jacob olhou para a mão dela.
Sarah soltou devagar.
— Desculpa.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Achei que essa palavra estivesse proibida.
— Em situações específicas.
— Interessante.
Sarah sorriu.
— Parecer jurídico.
Jacob deu um passo.
— Vinculante?
— Talvez.
Outro.
Sarah não recuou.
— Sarah.
— Hum?
— Posso fazer uma pergunta?
— Depende.
— Você vai responder?
— Depende da pergunta.
Jacob estava sorrindo.
— Ontem...
Sarah imediatamente ficou vermelha.
— Não.
— Nem perguntei.
— Sei onde vai chegar.
— Tem certeza?
— Jacob.
Ele começou a rir.
Sarah empurrou o peito dele.
— Idiota.
Jacob segurou a mão antes que ela afastasse.
Sarah ficou quieta.
Os dedos dele se entrelaçaram aos dela.
— Eu ia perguntar se você se arrependeu.
O rosto dela suavizou.
— Não.
Jacob respirou.
Ainda precisava ouvir.
Sarah percebeu.
— Nem um pouco.
O sorriso veio.
Aquele.
Aberto.
Quase jovem.
Sarah ficou olhando.
— O quê? — ele perguntou.
— Nada.
— Sarah.
Ela aproximou-se.
— Gosto quando você sorri assim.
Jacob perdeu um pouco do sorriso.
Não porque tivesse ficado triste.
Porque sentira.
— Você já disse.
— Estou reforçando.
— Por quê?
Sarah deu de ombros.
— Porque você devia fazer mais.
Jacob olhou para ela.
— Talvez você tenha que me dar motivos.
Sarah sorriu lentamente.
— Isso foi uma cantada, senhor Black?
— Pode ter sido.
— Ruim.
— Funcionou?
Sarah segurou a gravata dele.
— Talvez.
Jacob inclinou-se.
E a beijou.
No corredor, Irina perdeu o ar.
Não foi o beijo.
Foi o modo.
A mão de Jacob foi para a cintura de Sarah.
Sarah segurou a gravata dele.
Natural.
Fácil.
Íntimo.
E Irina deixou de ver os dois.
Por um instante cruel, viu Billy beijando Sarah Black.
Tinha vinte e três anos quando vira pela primeira vez.
Também por acaso.
Uma festa na casa de Carlisle.
Irina procurava Billy.
Encontrara-o no jardim.
Com Sarah.
Não ouvira o início da conversa.
Só vira Sarah rindo.
Billy segurando sua cintura.
Sarah dizendo:
— Você é impossível.
Billy respondendo:
— E você continua aqui.
Então a beijara.
Irina ficara escondida atrás de uma porta.
Exatamente como agora.
O peito apertara.
A garganta fechara.
Não chorara.
Irina raramente chorava.
Ficara olhando.
Esperando Sarah afastá-lo.
Ela não afastara.
Pior.
Tinha segurado o rosto dele e beijado de volta.
Naquela noite Irina compreendera que nunca seria escolhida.
E transformara aquela compreensão em outra coisa.
Primeiro desprezo.
Depois ressentimento.
Depois ódio.
O corredor voltou.
Jacob.
Sarah.
O beijo terminou.
Mas eles permaneceram próximos.
Sarah disse alguma coisa.
Jacob riu.
Irina sentiu as unhas entrarem na palma.
Era absurdo.
Décadas tinham passado.
Sarah Black estava morta.
Billy envelhecera.
Ela própria construíra outra vida.
Casara-se com Aro.
Tivera poder.
Dinheiro.
Participação na empresa.
Respeito.
Não era mais aquela jovem parada atrás de uma porta vendo o homem que queria beijar outra mulher.
Então por que doía exatamente no mesmo lugar?
— Ridículo — murmurou.
Mas não saiu.
Sarah estava dizendo:
— Isso está ficando perigoso.
Jacob ainda segurava sua cintura.
— O quê?
— Beijar no trabalho.
— A porta está fechada.
Sarah olhou.
— Não completamente.
Jacob virou a cabeça.
Irina recuou imediatamente.
O coração disparou.
Não sabia se ele a vira.
Esperou.
Nada.
Dentro da sala, Sarah puxou Jacob pela gravata.
— Presidente.
Ele olhou.
— Advogada.
— Fecha a porta.
Jacob sorriu.
— Sim, senhora.
Sarah começou a rir.
Irina ouviu.
E alguma coisa antiga se abriu dentro dela.
Então segura.
Sarah Black sobre a escada.
Billy segurando.
Me dá.
Billy entregando comida.
Fecha a porta.
Jacob obedecendo.
Irina fechou os olhos.
Não.
Não era igual.
Mas parecia.
E aquilo bastava.
Sarah Cullen não apenas voltara.
Não apenas sobrevivera.
Não apenas retomara o nome Cullen.
Não apenas surgira como herdeira.
Agora estava com Jacob Black.
O filho de Billy.
E, de repente, Irina sentiu uma coisa que não queria admitir nem para si mesma.
Como se a história estivesse rindo dela.
Como se tudo que odiara tivesse encontrado uma maneira de retornar.
Billy e Sarah.
Agora Jacob e Sarah.
Não porque fossem iguais.
Mas porque Irina precisava que fossem.
Porque seu ressentimento precisava de um rosto.
E Sarah tinha acabado de oferecer o rosto perfeito.
Irina caminhou até o elevador.
Apertou o botão.
Uma vez.
Duas.
Três.
— Vamos.
A porta abriu.
Entrou.
Quando se fechou, finalmente permitiu que a expressão mudasse.
Raiva.
Pura.
Bruta.
Muito mais intensa do que deveria.
Irina olhou para o próprio reflexo no metal.
— Você não é ela.
Falava de Sarah.
Ou talvez para si mesma.
— Você não é Sarah Black.
Mas a imagem insistia.
O sorriso.
A comida roubada.
Jacob cedendo.
A mão na cintura.
Billy.
Irina fechou os olhos.
Sarah Black.
O nome ainda provocava alguma coisa.
Não deveria.
Ela estava morta havia quase duas décadas.
Mas Irina lembrava de tudo.
Do dia em que Billy anunciou o casamento.
Do modo como Carlisle abraçara o amigo.
De Esme chorando de felicidade.
Da maneira como Sarah Black mostrara o anel.
— Bonito, não?
Irina olhara.
— Sim.
Mentira.
Odiara aquele anel.
Odiara o casamento.
Odiara o nascimento de Jacob.
Não a criança.
Nunca a criança.
Jacob fora apenas prova.
Prova de que Billy construíra com Sarah uma vida que Irina imaginara para si.
Depois Sarah Black e Esme morreram.
E por algum tempo...
Irina interrompeu o pensamento.
Não.
Algumas lembranças ainda eram perigosas demais.
Mesmo para ela.
O elevador chegou ao estacionamento.
Irina saiu.
Entrou no carro.
Não ligou imediatamente.
Pegou o telefone.
Aro.
O dedo pairou sobre o nome.
Não ligou.
Ainda não.
Porque Aro faria perguntas.
E Irina não queria explicar por que ver Sarah beijando Jacob tinha provocado uma reação tão violenta.
Aquilo não era estratégia.
Não era empresa.
Não era herança.
Não era investigação.
Era pessoal.
Muito pessoal.
E Irina odiava admitir que Sarah Cullen tinha conseguido aquilo simplesmente existindo.
No andar executivo, Jacob finalmente fechou a porta.
Sarah cruzou os braços.
— Melhor.
— Você acabou de me dar ordem na minha própria sala.
— Está surpreso?
— Nem um pouco.
Ela sorriu.
Jacob voltou.
— Onde estávamos?
— Discutindo cafeína.
— Acho que avançamos.
— Talvez.
Ele segurou a cintura dela.
Sarah colocou as mãos nos ombros dele.
— Jacob.
— Hum?
— Você está diferente.
Ele franziu a testa.
— Como?
— Leve.
A palavra o pegou.
— Isso é ruim?
— Não.
Sarah sorriu.
— Gosto.
Jacob aproximou-se.
— Culpa sua.
— Vou assumir responsabilidade limitada.
— Claro.
Ela riu.
Jacob beijou sua testa.
Um gesto simples.
Sarah ficou quieta.
O beijo na testa a afetou de maneira diferente.
Mais do que esperava.
— Isso foi novo — murmurou.
— Ruim?
— Não.
Jacob sorriu.
— Bom.
Sarah encostou o rosto no peito dele por alguns segundos.
Não havia pressa.
E talvez aquilo fosse mais íntimo do que o beijo.
Jacob passou a mão lentamente pelas costas dela.
— Cansada?
— Um pouco.
— Quer ir embora?
— Daqui a pouco.
Ficaram assim.
Nenhum deles sabia que, poucos minutos antes, Irina estivera do outro lado.
Naquela noite, Irina não dormiu.
Às duas e dezessete da manhã estava sentada no escritório de casa.
Uma taça intocada sobre a mesa.
Uma caixa antiga aberta diante dela.
Fotografias.
Não deveria tê-las guardado.
Mas guardara.
Carlisle.
Esme.
Billy.
Sarah Black.
Uma fotografia em especial.
Um almoço.
Billy sentado.
Sarah Black ao lado.
Ela estava roubando alguma coisa do prato dele.
Billy olhava para ela com uma expressão irritada.
Mas sorria.
Irina passou o dedo sobre a fotografia.
Então lembrou de Sarah Cullen naquela tarde.
O mesmo gesto.
Jacob afastando o prato.
Depois cedendo.
— Patético.
Não sabia para quem dizia.
Pegou outra fotografia.
Esme segurando a filha pequena.
Sarah Cullen.
Quatro anos.
Ao lado delas estava Sarah Black.
A menina usava a corrente com a lua.
Irina parou.
O rosto infantil.
Os olhos.
O sorriso.
Tudo estava ali.
Ela fechou a caixa com força.
Mas não adiantou.
Sarah voltara.
E Irina compreendeu, naquela madrugada, que durante semanas tentara convencer a si mesma de que sua preocupação era racional.
A herança.
Os quarenta por cento.
A empresa.
O que Sarah lembrava.
O que poderia descobrir.
Tudo verdade.
Mas não era tudo.
Existia outra coisa.
Muito mais antiga.
Muito mais feia.
Irina odiara Sarah Black porque Billy a amara.
Ressentira-se de Esme porque Esme sempre estivera ao lado dela.
E agora Sarah Cullen carregava traços das duas.
O sorriso de Esme.
Gestos de Sarah Black.
O nome de Sarah Black.
E estava sendo olhada pelo filho de Billy exatamente da maneira como Billy olhara para sua mãe.
Não.
Irina corrigiu mentalmente.
Sarah Black não era mãe de Sarah Cullen.
Esme era.
Sabia disso.
Mas naquele instante a lógica pouco importava.
A menina fora batizada em homenagem a Sarah Black.
Crescera cercada por ela.
Imitara gestos.
Aprendera hábitos.
E agora, adulta, parecia devolver a Irina ecos de tudo que tentara enterrar.
Irina levantou.
Foi até a janela.
— Não vou fazer isso de novo.
A voz saiu baixa.
Não estava claro o que significava.
Não perder?
Não assistir?
Não deixar outra Sarah ocupar o centro daquela família?
Talvez nem Irina soubesse.
Mas, quando voltou para a mesa, a raiva já estava diferente.
Fria.
Controlada.
Perigosa.
Pegou o telefone.
Dessa vez ligou.
Aro atendeu depois de alguns toques.
— Irina?
— Precisamos conversar.
— São duas da manhã.
— Eu sei.
Silêncio.
Aro percebeu.
— O que aconteceu?
Irina olhou para a caixa fechada.
— Sarah.
— O que tem ela?
Irina hesitou.
Não diria tudo.
Não falaria de Billy.
Não falaria da fotografia.
Não confessaria que durante alguns segundos se sentira novamente uma jovem rejeitada.
Escolheu uma verdade mais conveniente.
— Ela e Jacob estão juntos.
Silêncio do outro lado.
— Tem certeza?
— Eu vi.
Aro demorou.
— Isso muda algumas coisas.
Irina olhou para a escuridão.
— Muda.
— Irina.
— O quê?
— Não faça nada.
Ela apertou o telefone.
— Eu não disse que faria.
— Não precisava.
Irina fechou os olhos.
Aro a conhecia demais.
— Você está emocional.
— Não estou.
— Está.
— Não fale comigo como se...
— Então me diga por que um relacionamento entre duas pessoas de vinte e poucos anos fez você me ligar às duas da manhã.
Irina ficou em silêncio.
Aro esperou.
— Não importa.
— Importa se comprometer sua capacidade de pensar.
A mão dela apertou.
— Eu sei pensar.
— Então pense.
Pausa.
— Precisamos saber o que Sarah lembra. Precisamos saber o que encontrou nos documentos. Precisamos saber o que os outros sabem. Jacob beijá-la não é o problema.
Irina olhou para a caixa.
— Você não entende.
— Então explique.
Ela não explicou.
— Boa noite, Aro.
— Irina...
Desligou.
Ficou olhando para o telefone.
Ele estava errado.
Jacob beijar Sarah era um problema.
Talvez não empresarial.
Talvez não jurídico.
Talvez nem racional.
Mas era.
Porque Irina reconhecia aquele olhar.
Passara a juventude inteira observando-o em outro homem.
E sabia onde ele terminava.
Escolha.
Lealdade.
Família.
Billy sempre escolhera Sarah Black.
Agora Jacob começava a escolher Sarah Cullen.
E Irina sentiu o velho ódio, mantido sob camadas de educação, poder, casamento, dinheiro e décadas de distância, abrir os olhos outra vez.
Na manhã seguinte, Sarah entrou no elevador da empresa.
Irina já estava dentro.
As duas se olharam.
Sarah sorriu educadamente.
— Bom dia.
Irina levou um segundo a mais do que deveria.
— Bom dia, Sarah.
Sarah entrou.
As portas fecharam.
Silêncio.
Irina observou-a pelo reflexo.
Sarah mexia no telefone.
Então uma mensagem apareceu.
Sarah sorriu.
Um sorriso pequeno.
Involuntário.
Irina não viu o conteúdo.
Não precisava.
— Jacob? — perguntou.
Sarah levantou os olhos.
Surpresa.
— Desculpe?
Irina sorriu.
Perfeito.
Controlado.
— Você sorriu para o telefone. Imaginei.
Sarah a observou.
A advogada apareceu imediatamente.
— Imaginei que não tivesse interesse na minha vida pessoal.
— Somos família.
A frase soou estranha até para Irina.
Sarah guardou o telefone.
— Biologicamente.
Irina reconheceu a própria frase devolvida.
— Você tem boa memória.
Sarah ficou imóvel por uma fração de segundo.
Irina percebeu.
A escolha das palavras.
Boa memória.
Interessante.
Sarah sorriu novamente.
Mas agora sem calor.
— Para algumas coisas.
Irina sentiu o coração acelerar.
— Algumas?
Sarah virou o rosto para ela.
— Algumas.
A porta do elevador abriu.
Sarah saiu.
Deu dois passos.
Então virou.
— Ah, tia Irina?
Irina odiou a palavra.
— Sim?
Sarah sorriu.
— Tenha um bom dia.
E foi embora.
Irina permaneceu no elevador.
As portas fecharam.
Para algumas coisas.
A frase ficou.
O que Sarah lembrava?
Quanto?
Do quê?
Irina deveria pensar nisso.
Era a pergunta importante.
A pergunta estratégica.
Mas, quando fechou os olhos, não viu documentos.
Não viu Carlisle.
Não viu o ataque.
Viu Jacob sorrindo para Sarah.
Depois viu Billy.
E, pela primeira vez desde que Sarah Cullen voltara dos mortos, Irina percebeu que seu maior perigo talvez não fosse apenas aquilo que Sarah pudesse lembrar.
Era aquilo que a presença dela fazia Irina lembrar.
Porque o ódio que Irina julgara enterrado não tinha desaparecido.
Apenas ficara esperando.
E agora havia outra Sarah diante dela.
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