MEMÓRIAS
22 CAPÍTULO 21 -Eu conheço este lugar
Sarah sonhou com a mangueira.
Não com o rio.
Não com o penhasco.
Não com uma mão escapando da outra.
Com a mangueira.
Acordou no meio da noite sorrindo.
Por alguns segundos, permaneceu deitada no escuro, olhando para o teto do quarto na casa dos Clearwater, tentando entender aquela sensação estranha que tomava seu peito.
Leveza.
Era novidade.
Desde que descobrira quem era, toda aproximação com o passado vinha acompanhada de alguma dor.
Fotografias de pais mortos.
Histórias de uma infância interrompida.
A voz de Jacob pedindo desculpas.
O ataque.
Carlisle morrendo.
O rio.
Quinze anos desaparecidos.
Mas naquela noite sua cabeça lhe devolvera alguma coisa que não exigia luto.
Emmett correndo.
Edward lendo.
Billy rindo.
Carlisle tentando parecer bravo.
Jacob segurando sua mão.
Corre, Sarah!
Ela fechou os olhos.
Conseguia ver.
Não perfeitamente.
Alguns detalhes já começavam a perder nitidez, como acontece com qualquer lembrança antiga.
Mas estava lá.
Dela.
Não era uma história contada por outra pessoa.
Não era uma fotografia.
Não era Billy dizendo o que acontecera.
Ela estivera naquele jardim.
Ela ouvira a voz de Carlisle.
Ela conhecia a gargalhada de Jacob aos dez anos.
Sarah levou a mão ao peito.
Encontrou a lua sob a camiseta.
E, pela primeira vez, pensou:
Eu tive uma infância antes do rio.
Não apenas uma tragédia.
Uma infância.
Na manhã seguinte, Harry a encontrou na cozinha às seis e vinte.
Sarah estava tomando café e olhando para lugar nenhum.
— Não dormiu?
— Dormi.
— Essa resposta normalmente significa não.
Ela sorriu.
— Sonhei.
Harry ficou imediatamente atento.
Sarah percebeu.
— Foi bom.
Ele relaxou.
— Com o quê?
— Ontem.
— A mangueira?
Ela assentiu.
Harry puxou uma cadeira.
Sarah ficou mexendo o café.
— Pai...
Harry esperou.
— Eu quero ir à casa.
Ele entendeu imediatamente qual.
— Tem certeza?
Sarah soltou uma pequena risada.
— Vocês precisam parar de perguntar isso toda vez que eu decido alguma coisa.
— Sou seu pai. É meu trabalho perguntar.
— Um dos meus pais.
Harry sorriu.
— Estou me acostumando.
Sarah segurou a mão dele.
— Você nunca vai perder o cargo.
— Bom saber.
Ela respirou.
— Quero ver onde eu morava.
Harry assentiu.
— Então vá.
— Achei que fosse tentar me impedir.
— Sarah, eu tirei você de um rio. Não de uma vida.
Os olhos dela se encheram.
Harry apertou sua mão.
— Se existe uma parte sua esperando naquela casa, vá encontrá-la.
Jacob recebeu a mensagem às sete e onze.
Quero conhecer minha casa.
Ficou olhando para a tela.
O coração bateu uma vez mais forte.
Não precisou perguntar qual casa.
Durante quinze anos, Jacob evitara aquele lugar sempre que podia.
Depois da morte de Carlisle e do desaparecimento de Sarah, a casa deixara de parecer uma casa.
Era uma coleção de ausências.
Esme já não estava ali havia anos.
Carlisle desaparecera dos corredores.
Sarah não corria pelas escadas.
Emmett e Edward tinham ido morar com Billy.
E cada cômodo guardava uma versão de todos eles que não existia mais.
Jacob raramente voltava.
Quando voltava, não ficava.
Agora Sarah queria entrar.
Viva.
A primeira reação dele foi pensar em tudo que poderia dar errado.
Uma lembrança ruim.
Uma crise.
O ataque.
O penhasco.
O choque de entrar no próprio quarto e não reconhecer nada.
Então se obrigou a parar.
Sarah tinha vinte e três anos.
Era escolha dela.
Ligou.
— Bom dia.
— Tem certeza?
Silêncio.
Jacob fechou os olhos.
— Você também? — ela perguntou.
— Desculpa.
— Não peça desculpa.
Ele quase riu.
— Isso está ficando complicado.
— Quero ir.
— Hoje?
— Hoje.
Jacob respirou.
— Certo.
— Só isso?
— Você disse que quer ir.
Houve um pequeno silêncio.
— Esperava resistência.
— Estou evoluindo.
— Milagre.
Ele sorriu.
— Vou avisar os outros.
— Não.
Jacob imediatamente ficou atento.
— Não?
— Quero pouca gente.
— Quem?
— Edward e Emmett precisam estar.
Jacob esperou.
Não queria presumir.
Então ela disse:
— E você.
Duas palavras.
Simples.
Mas Jacob ficou olhando para a parede à frente.
E você.
Claro que iria.
Teria ido mesmo que ela não pedisse.
Talvez esse fosse exatamente o problema.
— Certo.
— Às dez?
— Passo para buscar você.
— Eu tenho carro.
— Eu sei.
— Então por que...
— Sarah.
— Jacob.
— Às dez.
Ela suspirou.
— Está bem.
Jacob sorriu.
— Até depois, esposa.
Silêncio.
Ele começou a rir.
— Isso já perdeu a graça.
— Mentira.
— Tchau.
Ela desligou.
Jacob continuou com o telefone na mão.
E percebeu que estava nervoso.
Não pela casa.
Por vê-la dentro dela.
A antiga casa dos Cullen ficava a pouco mais de quarenta minutos da cidade.
Durante o caminho, Sarah falou sobre trabalho.
Jacob percebeu.
Deixou.
Contratos.
Uma reunião.
Um problema societário.
Qualquer coisa que não fosse o destino.
Quando chegaram, Emmett e Edward já esperavam.
Sarah desceu.
E parou.
Jacob ficou ao lado dela.
Não tocou.
Não perguntou nada.
Apenas ficou.
— É maior do que imaginei — ela disse.
Emmett sorriu.
— Você dizia que era pequena.
— Sério?
— Porque a casa do pai tinha uma garagem maior.
Jacob corrigiu:
— Você achava que qualquer casa sem quatro cavalos era pequena.
— Três.
Todos pararam.
Sarah também.
— O quê? — Emmett perguntou.
Ela franziu a testa.
— Três cavalos.
Jacob sentiu o coração acelerar.
Então Sarah percebeu.
— Isso vocês me contaram.
A tensão diminuiu.
Jacob gostou que ela tivesse feito a distinção.
Memória não precisava virar espetáculo.
Entraram.
Quando Sarah soube onde ficava a cozinha sem que ninguém dissesse, Jacob sentiu alguma coisa apertar dentro dele.
Não falou.
Apenas observou.
Ela abriu gavetas.
Parou diante de uma.
— Doces.
Emmett começou a sorrir.
— Não.
Sarah descobriu sobre o chocolate.
Depois veio a frase:
— Ele falava meu nome inteiro quando estava bravo.
Jacob parou.
Não pela memória em si.
Pela expressão dela ao dizer.
Carlisle.
O pai.
Voltando em uma coisa tão banal quanto uma repreensão por chocolate.
Jacob viu os olhos dela se iluminarem.
E pensou que era assim que deveria ser.
Não apenas morte.
Não apenas sangue.
Não apenas o homem mandando os filhos correrem.
Carlisle dizendo:
Sarah Cullen, desce dessa cadeira.
Jacob precisou desviar o rosto.
— Eu roubava chocolate — Sarah concluiu.
Ele aproveitou.
— Finalmente uma memória que explica sua personalidade criminosa.
Sarah olhou para ele.
— Você me ajudava.
Jacob perdeu o sorriso.
— Como sabe?
Ela fechou os olhos por um instante.
— Porque você segurava a cadeira.
A imagem voltou para ele também.
Sarah pequena em cima de uma cadeira.
Jacob segurando o encosto.
— Mais para esquerda — ela ordenava.
— Você vai cair.
— Não vou.
— Seu pai vai matar nós dois.
— Então segura direito.
Jacob quase riu.
Claro.
Até roubando chocolate ela mandava.
E ele obedecia.
O quarto de Sarah foi difícil.
Jacob soube no instante em que ela entrou.
Viu a expectativa.
Depois a frustração.
A cama não significou nada.
A boneca não significou nada.
As paredes não significaram nada.
Ele quis dizer alguma coisa.
Quis tirar aquilo dela.
Não podia.
Então Emmett fez o que talvez fosse melhor.
— Você não precisa lembrar.
Jacob olhou para ele.
Emmett tinha razão.
Sarah assentiu.
Depois encontrou a caixa.
A peça do carrinho.
E finalmente a arruela.
Jacob ficou imóvel.
De todos os objetos possíveis.
Aquilo.
Sarah levantou.
— Minha aliança?
Jacob passou a mão pelo rosto.
— Meu Deus.
Emmett praticamente vibrou.
— ELA GUARDOU!
Sarah olhou para Jacob.
— Eu guardei.
Ele não sabia por que aquilo o atingiu.
Era ridículo.
Uma arruela.
Duas crianças.
Sarah tinha quatro anos.
Ele seis.
Não significava romance.
Não significava destino.
Não significava absolutamente nada sobre os adultos que eram agora.
Jacob sabia.
Precisava saber.
Mas Sarah segurava aquela pequena peça de metal na palma da mão como uma prova física de que aquela menina realmente existira.
E de que alguma coisa que os dois haviam vivido continuara ali enquanto ela desaparecera.
— Você tinha quatro anos — ele disse.
— Eu era comprometida.
Jacob sorriu.
— Você era maluca.
— Respeita sua esposa.
Ele riu.
Era mais seguro rir.
Muito mais seguro.
Aproveitaram e também foram para a antiga casa dos Black que era praticamente em frente.
Então Sarah parou diante do quarto dele.
Jacob soube antes mesmo de ela perguntar.
O corpo inteiro ficou alerta.
— Esse era o seu.
— Era.
Ela sabia.
Jacob não gostou do quanto aquilo importou.
Sarah entrou.
Ele ficou na porta inicialmente.
Durante quinze anos, aquele quarto fora apenas um cômodo antigo.
Agora ela estava ali.
Aos vinte e três.
Passando a mão pela parede.
Olhando para a janela.
Tentando encontrar uma menina de oito anos que costumava entrar sem bater.
Jacob lembrou.
Sarah entrando com travesseiro.
Sarah reclamando de Emmett.
Sarah roubando brinquedos.
Sarah sentada no chão enquanto ele desmontava carrinhos.
Sarah falando enquanto ele tentava dormir.
Sarah perguntando coisas sem parar.
Sarah aparecendo simplesmente porque queria ficar perto.
E então ela sentou na cama.
— Eu dormia aqui.
O ar saiu dos pulmões de Jacob.
— Algumas vezes.
Sarah olhou para ele.
— Não.
Fechou os olhos.
Jacob não se mexeu.
Reconheceu aquela expressão.
Ela estava indo para algum lugar dentro da própria cabeça.
E ele teve medo.
Medo de que encontrasse o ataque.
Medo de que encontrasse a queda.
Medo de que aquele quarto abrisse uma porta para alguma coisa terrível.
— Sarah?
Ela não respondeu.
Jacob deu um passo.
Parou.
Não tocaria nela sem necessidade.
Então Sarah abriu os olhos.
Havia lágrimas.
Mas não terror.
— Tinha uma tempestade.
Jacob congelou.
A memória veio inteira para ele.
Trovão.
Uma Sarah de oito anos entrando no quarto com um travesseiro.
Estou com medo.
Jacob engoliu em seco.
— Você veio dormir aqui.
— Eu roubei seu travesseiro.
Uma risada escapou dele.
— Roubou.
— Eu disse que tinha medo.
— Disse.
Ela olhou diretamente para ele.
— E perguntei se você ficaria.
Jacob sentiu o peito doer.
Não pela lembrança.
Pelo fato de ela estar dizendo.
Ela lembrava.
Não alguém contando.
Não uma fotografia.
Sarah.
— Você respondeu que o quarto era seu.
Ele riu, com os olhos queimando.
— Eu era um idiota.
— Continua sendo.
A resposta automática.
Presente misturado ao passado.
Jacob quase perdeu o controle ali.
Sarah continuou:
— Depois eu perguntei se podia ficar perto.
Ele não conseguiu responder.
— E você disse “vem”.
Jacob assentiu.
— Disse.
A voz saiu rouca.
Sarah tocou o peito.
— Você perguntou do segredo.
Jacob olhou para o lugar onde sabia que a lua estava escondida.
Durante anos lembrara daquele gesto.
A pequena mão no peito.
O segredo que nunca descobrira.
Agora sabia.
— A lua.
Sarah tirou o pingente.
— Era isso.
Jacob aproximou-se.
Não do corpo dela.
Do objeto.
Olhou para a lua.
— Eu nunca vi.
— Porque eu escondia.
— Sempre.
Sarah sorriu.
— E eu disse que talvez contasse quando casasse com você de verdade.
Jacob riu.
— Meu Deus.
— Eu era insistente.
— Você tinha um planejamento matrimonial assustadoramente detalhado.
— Três cavalos.
— Cinco filhos.
— Eu era ambiciosa.
— Você tinha quatro anos quando começou.
Sarah riu.
E Jacob olhou para ela.
Para a mulher.
Não para a criança da lembrança.
Sarah adulta estava sentada na antiga cama dele, rindo de alguma coisa que viveram dezenove anos antes.
E aquilo fez uma fronteira dentro dele ficar perigosamente clara.
A menina era passado.
A mulher era presente.
O carinho que sentia pela menina pertencia à infância.
O que acontecia com seu corpo quando Sarah adulta ria daquele jeito não pertencia.
Jacob desviou os olhos.
Precisava lembrar disso.
Não misturar.
Nunca misturar.
Então Sarah disse:
— E você continuava deixando eu dormir aqui.
— Porque você tinha medo.
— Não.
Jacob olhou.
— Não?
Ela parecia surpresa com a própria certeza.
— Porque eu sempre vinha para você.
Jacob não respondeu.
Sarah levantou-se.
— Quando eu tinha medo.
Um passo.
— Quando queria alguma coisa.
Outro.
— Quando Emmett me irritava.
Mais um.
— Quando eu queria sua comida.
Jacob conseguiu sorrir.
— Principalmente isso.
Sarah parou diante dele.
— Eu confiava em você.
Jacob perdeu o sorriso.
A frase entrou exatamente onde não deveria.
Eu confiava em você.
Por quinze anos, Jacob carregara outra.
Você prometeu.
Na cabeça dele, as duas frases sempre tinham significado a mesma coisa.
Ela confiara.
Ele prometera.
Ela caíra.
Ele falhara.
Simples.
Cruel.
Definitivo.
Mas agora Sarah estava devolvendo a história inteira.
Ela confiava nele antes do penhasco.
Quando havia trovão.
Quando Emmett a irritava.
Quando queria chocolate.
Quando queria dormir perto.
Quando queria fugir de alguma travessura.
Quando simplesmente não queria ficar sozinha.
A confiança dela não nascera no penhasco.
E talvez, finalmente, o penhasco não tivesse poder para destruí-la retroativamente.
Jacob respirou com dificuldade.
— Sim — respondeu.
Sarah franziu a testa.
Ele precisou olhar para o chão.
— Você confiava.
A voz falhou.
Sarah percebeu.
— Jacob?
Ele soltou uma risada sem humor.
— Eu passei quinze anos achando que tinha destruído isso.
Ela ficou imóvel.
— O quê?
Jacob levantou os olhos.
— Sua confiança.
Sarah não falou.
— Aquela frase...
Ele não precisava dizer.
Mas disse.
— “Você prometeu.”
O rosto dela mudou.
Jacob continuou:
— Eu ouvi isso toda noite durante anos.
Sarah se aproximou.
— Eu sei.
— Não.
Ele balançou a cabeça.
— Acho que eu nunca tinha entendido o que aquilo significava para mim.
Ela esperou.
— Eu achava que aquele momento tinha apagado tudo que veio antes.
Sarah franziu a testa.
— Não apagou.
— Para mim, apagou.
A honestidade doeu.
— Quando eu lembrava de você entrando aqui porque tinha medo de trovão, eu pensava no penhasco. Quando lembrava de você pedindo para eu segurar alguma coisa, eu pensava na sua mão. Quando lembrava de você dizendo que eu sempre te protegia...
A voz morreu.
Sarah segurou o braço dele.
Jacob fechou os olhos.
— Tudo terminava naquele dia.
— Jacob.
— Eu transformei oito anos inteiros em alguns segundos.
Silêncio.
Então Sarah disse:
— Então para.
Ele abriu os olhos.
A voz dela era firme.
— Sarah...
— Para.
— Não é tão simples.
— Eu sei.
Ela se aproximou mais.
— Mas agora você tem outras lembranças.
Jacob ficou olhando.
Sarah começou a enumerar.
— A mangueira.
Ele respirou.
— Chocolate.
Um pequeno sorriso.
— Eu roubando seu travesseiro.
Outro.
— A arruela.
Jacob riu.
— Isso definitivamente deveria ser esquecido.
— Nunca.
Ela apertou o braço dele.
— E eu dizendo que confiava em você.
O sorriso desapareceu.
Sarah sustentou seu olhar.
— Você não perdeu isso.
Jacob sentiu os olhos arderem.
— Sarah...
— Você não perdeu.
A voz dela ficou mais baixa.
— Porque eu confio em você agora também.
Aquilo foi pior.
Ou melhor.
Jacob não soube.
Porque não vinha da menina de oito anos.
Vinha dela.
Sarah Clearwater.
Sarah Cullen.
Vinte e três anos.
Advogada.
Teimosa.
Mandona.
Inteligente.
Insuportável.
A mulher que conhecia tudo que ele acreditara ter feito.
Que ouvira a história do penhasco.
Que vira a culpa.
Que poderia escolher distância.
E não escolhera.
Eu confio em você agora também.
Jacob desviou o rosto.
Precisava de um segundo.
Sarah percebeu.
— Ei.
Ele respirou fundo.
— Você não pode falar coisas assim e esperar que eu fique normal.
Ela sorriu.
— Você nunca foi normal.
Jacob soltou uma risada.
— Obrigado.
— Disponha.
Silêncio.
Então Sarah falou:
— Talvez seja por isso que foi sua voz que ficou.
Jacob parou.
— O quê?
— Nos sonhos.
Ela tocou a própria cabeça.
— Eu esqueci rostos. Nomes. A casa. Meus irmãos. Meu pai.
Os olhos se encheram.
— Mas alguma parte de mim guardou você.
Jacob sentiu o mundo ficar pequeno demais.
Queria dizer que era apenas trauma.
Que a voz dele ficara porque estava presente no momento da queda.
Era possível.
Provável até.
A explicação humana fazia sentido.
Mas aquilo não diminuía o impacto.
Durante quinze anos, ele acreditara que seu último presente para Sarah tinha sido uma promessa quebrada e um pedido de desculpas.
Agora descobria que, em algum lugar fragmentado da memória dela, sua voz sobrevivera.
Sarah continuou:
— Mesmo que tenha guardado a pior frase.
Desculpa.
Jacob assentiu.
— Agora não é mais a única.
Ela sorriu.
— Agora eu tenho “corre, Sarah”.
O peito dele apertou.
— E “vem”.
Jacob fechou os olhos.
Ela continuou:
— E “dorme, Sarah”.
Ele abriu.
Sarah estava sorrindo.
— Estou construindo um repertório melhor.
Jacob riu.
— Ainda bem.
— Então colabora.
— Como?
— Fala coisas menos traumáticas.
— Posso tentar.
Sarah inclinou a cabeça.
— Ótimo.
Jacob percebeu que estava olhando para ela havia tempo demais.
E Sarah percebeu também.
O silêncio mudou.
Não era memória.
Não era infância.
Não era culpa.
Era exatamente aquilo que Jacob vinha tentando tratar com cuidado havia semanas.
A atração.
Agora já impossível de negar.
O rosto dela estava perto.
Os olhos verdes presos aos seus.
A corrente da lua entre os dedos.
A boca ainda curvada num sorriso pequeno.
Jacob quis tocar o rosto dela.
O impulso foi tão claro que o assustou.
Não tocou.
Não porque fosse errado sentir.
Mas porque Sarah acabara de recuperar uma lembrança íntima da infância.
Aquele momento não seria misturado com outra coisa.
Não por ele.
Deu um pequeno passo para trás.
Sarah percebeu.
Algo passou pelo rosto dela.
Talvez compreensão.
Talvez decepção.
Talvez apenas curiosidade.
Jacob não presumiria.
— Vamos descer — disse.
Sarah ficou olhando para ele.
Depois assentiu.
— Vamos.
Quando passou por ele, seus braços se tocaram.
Um contato mínimo.
Ainda assim, Jacob precisou respirar fundo antes de segui-la.
Emmett estava esperando no andar de baixo.
— E então?
Sarah passou.
— Nada.
Emmett olhou para Jacob.
— O que aconteceu?
— Nada.
Edward ergueu os olhos.
— Os dois estão mentindo.
Sarah continuou andando.
— Família de intrometidos.
Emmett foi atrás.
— Você lembrou de alguma coisa?
Ela virou.
— Talvez.
— O quê?
— Que você era irritante.
— Isso não é memória. É conhecimento universal.
Todos riram.
Jacob também.
Mas Edward olhou para ele por um segundo a mais.
Jacob desviou.
Edward não comentou.
Ainda.
Naquela noite, Jacob não conseguiu dormir.
À uma e vinte e três, desistiu.
Foi até a cozinha da casa de Billy.
Pegou água.
Sentou-se.
A casa estava silenciosa.
E, inevitavelmente, a memória veio.
Mas não a que normalmente vinha.
Não o penhasco.
O quarto.
Sarah pequena:
Se eu dormir, você fica aqui?
Ele:
O quarto é meu.
Depois:
Posso ficar perto?
Vem.
Jacob fechou os olhos.
Durante quinze anos, aquela lembrança sempre acabara contaminada.
Porque ele sabia o que aconteceria anos depois.
Sabia que um dia ela pediria:
Não me deixa cair.
E ele prometeria.
Agora, pela primeira vez, deixou a lembrança da tempestade terminar onde realmente terminara.
Sarah dormindo.
Segura.
Nada acontecendo.
Nenhuma tragédia depois.
Apenas uma noite.
Jacob abriu os olhos.
E chorou.
Silenciosamente.
Não como no dia do DNA.
Não era desespero.
Era luto por tudo que transformara em culpa.
Oito anos de amizade.
Oito anos de risadas.
Oito anos em que Sarah o procurara.
Ele reduzira tudo a uma falha de segundos.
Talvez tivesse sido a única forma de sobreviver.
Mas não precisava mais.
Sarah estava viva.
E lembrava.
Não de tudo.
Talvez nunca de tudo.
Mas lembrava que confiava nele.
E, mais importante:
confiava agora.
Jacob passou as mãos pelo rosto.
Então outra lembrança apareceu.
Não antiga.
Sarah naquela tarde.
Vinte e três anos.
Diante dele.
Eu confio em você agora também.
O peito apertou de outra maneira.
Essa não pertencia à culpa.
Não pertencia ao menino de dez anos.
Era dele.
Do homem de vinte e cinco.
Jacob já admitira para si mesmo que se sentia atraído por Sarah.
Agora começava a perceber que atração talvez fosse apenas a parte mais fácil de nomear.
Gostava de conversar com ela.
Gostava de discutir com ela.
Gostava quando ela entrava em sua sala sem bater.
Gostava de vê-la com Billy.
Com Edward.
Com Emmett.
Gostava de vê-la com Harry e Sue porque aquilo lhe lembrava que, apesar de tudo, ela tivera amor nos quinze anos em que eles não puderam amá-la de perto.
Gostava de fazê-la rir.
Gostava quando ela roubava sua comida.
Gostava absurdamente quando ela o chamava de marido.
Gostava até de obedecer às ordens ridículas dela.
E aquilo era perigoso.
Não porque fosse proibido.
Mas porque era real.
Jacob apoiou os braços na mesa.
Não estava apaixonado.
Ainda não daria aquele nome.
Mas também já não podia fingir que aquilo era uma curiosidade passageira.
Sarah ocupava espaço nele.
Espaço novo.
Não o espaço da menina que perdera.
Outro.
E ele teria cuidado com isso.
Por ela.
Por si mesmo.
Pelo momento em que estavam vivendo.
Não faria de uma lembrança infantil uma justificativa para um sentimento adulto.
Se algum dia atravessassem aquela linha, seria porque Sarah adulta escolhera.
E porque ele escolhera também.
Sem promessa de infância.
Sem arruela.
Sem destino.
Sem dívida.
Apenas eles.
No carro, mais cedo, Sarah ainda segurava a arruela.
Jacob dirigia.
Ela olhava pela janela.
Depois para o pequeno círculo de metal.
— Jacob.
— Hum?
— Você ficou estranho lá em cima.
As mãos dele apertaram levemente o volante.
— Fiquei?
— Ficou.
— Você é observadora.
— Sou paga para isso.
Silêncio.
— Foi porque eu lembrei?
Jacob pensou antes de responder.
— Em parte.
Sarah virou o corpo na direção dele.
— E a outra parte?
Ele olhou rapidamente para ela.
Depois para a estrada.
— Sarah.
— Isso não é resposta.
— Eu sei.
— Então?
Jacob respirou fundo.
Não mentiria.
Mas também não colocaria sobre ela algo que ela não pedira para carregar.
— Ouvir você dizer que confia em mim agora foi importante.
Sarah ficou quieta.
— Muito?
— Muito.
Ela observou o perfil dele.
— Por causa do penhasco?
— Também.
— Também.
Jacob percebeu.
Sarah era boa demais.
— Não interroga seu motorista.
— Você é presidente de uma multinacional. Aguenta pressão.
— Não essa.
Ela sorriu.
— Interessante.
— Não começa.
— Eu não fiz nada.
— Conheço essa frase.
Sarah riu.
Depois abriu a mão.
A arruela.
— Você acha que cabe?
Jacob olhou.
— Sarah.
— Pergunta séria.
— Você tinha quatro anos.
— Meus dedos cresceram.
— Exatamente.
Ela tentou colocar no mindinho.
Não passou.
— Que decepção.
Jacob riu.
Sarah olhou para ele.
— Vou mandar colocar numa corrente.
Ele virou rapidamente.
— Você vai o quê?
— Numa corrente.
— Por quê?
Ela deu de ombros.
— Porque é minha.
Jacob voltou a olhar para a estrada.
— Certo.
— Algum problema?
— Nenhum.
Sarah sorriu.
— Ciúme porque eu tenho aliança e você não?
Jacob soltou uma risada.
— Você quer que eu procure minha arruela de dezenove anos atrás?
— Você perdeu?
— Eu tinha seis anos!
Sarah fez uma expressão escandalizada.
— Então você perdeu nossa aliança.
— Não era uma aliança.
— Nosso casamento está em crise.
— Há dezenove anos, aparentemente.
Ela riu.
Jacob também.
Então Sarah ficou olhando para ele.
— Jacob.
— O quê?
— Eu gostei de lembrar de você.
O sorriso dele desapareceu devagar.
Sarah continuou:
— Assim.
— Assim como?
— Feliz.
Jacob não soube responder.
Ela olhou para frente.
— Quero lembrar de mais.
— Vai acontecer quando acontecer.
— Eu sei.
— Não força.
Sarah virou.
— Isso foi ordem?
Jacob percebeu tarde demais.
— Conselho.
— Melhor.
— Mandona.
— Obediente.
Ele sorriu.
Sarah viu.
E também pensou no quarto.
No instante em que ele estivera perto demais.
No modo como os olhos dele tinham descido por um segundo para sua boca antes de ele recuar.
Ela não tinha certeza.
Ainda.
Mas havia percebido.
E, pela primeira vez, Sarah se perguntou se a brincadeira de “marido” e “esposa” continuava sendo apenas uma brincadeira para algum dos dois.
Não encontrou resposta.
Talvez não quisesse encontrar ainda.
Então apenas encostou a cabeça no banco e disse:
— Boa tarde, marido.
Jacob olhou rapidamente para ela.
Dessa vez não respondeu de imediato.
Sarah sorriu.
— Perdeu a fala?
Ele voltou os olhos para a estrada.
— Não.
— Parece.
Jacob deixou alguns segundos passarem.
Então respondeu:
— Boa tarde, esposa.
Sarah olhou pela janela para esconder o sorriso.
Jacob percebeu mesmo assim.
E sorriu também.
Naquele dia, Sarah tinha recuperado uma lembrança antiga de confiança.
Jacob, por sua vez, começava a compreender uma coisa muito mais difícil.
O passado explicava por que Sarah sempre tivera um lugar dentro dele.
Mas já não explicava por que, agora, ele queria tanto descobrir que lugar ela poderia ocupar no futuro.
Fale com o autor