MEMÓRIAS
12 CAPÍTULO 11 -A menina do rio
Sarah não dormiu.
Tentou.
Apagou as luzes pouco depois da meia-noite, virou-se para um lado, depois para o outro, puxou o travesseiro, afastou o travesseiro, fechou os olhos e contou mentalmente até cem.
Nada funcionou.
A frase de Harry continuava voltando.
Algumas coisas merecem ser contadas com calma.
Sarah conhecia o pai.
Harry Clearwater podia ser muitas coisas, mas não era dramático. Se dissesse que uma história era complicada, era porque havia alguma coisa verdadeiramente difícil por trás dela.
Às duas da manhã, Sarah desistiu.
Levantou-se, foi até a cozinha, tomou água e voltou para o quarto.
Parou diante do espelho.
Afastou o cabelo.
A cicatriz estava ali.
Pequena.
Discreta.
Durante quinze anos fora apenas uma marca em seu rosto.
Agora parecia uma pergunta.
Passou o dedo sobre ela.
Fechou os olhos.
E, por um segundo, alguma coisa surgiu.
Água.
Frio.
Muito frio.
Sarah abriu os olhos.
Seu coração disparou.
— Foi um sonho.
Disse para o próprio reflexo.
— Só isso.
Mas levou a mão ao peito.
Seus dedos encontraram a corrente escondida sob o pijama.
Puxou-a.
A pequena lua surgiu.
Sarah ficou olhando.
Desde que conseguia lembrar, aquele colar estava com ela.
Nunca soubera exatamente por que era tão importante.
Apenas era.
Naquela noite, pela primeira vez, perguntou:
— De onde você veio?
Às sete da manhã, Harry já estava acordado.
Sue também.
Sarah encontrou os dois na cozinha.
E soube imediatamente que a conversa que Harry prometera não seria apenas entre pai e filha.
Sue estava nervosa.
Muito.
Sarah parou na porta.
— Por que vocês dois estão com essa cara?
Sue tentou sorrir.
— Bom dia, querida.
— Não.
Sarah entrou.
— Nada de “bom dia, querida”.
Harry suspirou.
— Sarah...
— Passei a noite inteira acordada.
Sentou-se.
— Então vamos conversar.
Sue olhou para Harry.
Sarah viu.
— Isso está ficando assustador.
— Não precisa ficar — Harry disse.
— Quando alguém começa uma conversa dizendo que não precisa ficar assustador, geralmente é porque vai ficar.
Harry sentou-se diante dela.
Sue permaneceu ao lado.
Sarah olhou para os dois.
— O que aconteceu comigo quando eu tinha oito anos?
Silêncio.
Harry apoiou as mãos sobre a mesa.
— Antes de contar, quero que entenda uma coisa.
Sarah respirou fundo.
— Pai.
— Preciso dizer.
Ela assentiu.
Harry olhou para Sue.
Depois voltou para Sarah.
— Nada do que eu disser muda quem somos.
Sarah sentiu um frio percorrer a coluna.
— O que isso significa?
Sue sentou-se.
Pegou a mão dela.
— Significa que nós amamos você.
Sarah olhou para a mãe.
— Eu sei.
Sue apertou seus dedos.
— Desde antes de você saber nossos nomes.
Sarah franziu a testa.
Harry respirou fundo.
— Sarah, eu não sei onde você nasceu.
Silêncio.
Ela piscou.
— O quê?
— Eu não sei quem eram seus pais biológicos.
Sarah ficou completamente imóvel.
A palavra demorou a fazer sentido.
— Meus... pais biológicos?
Sue começou a chorar.
Sarah puxou lentamente a mão.
— O que vocês estão dizendo?
Harry tentou se aproximar.
— Sarah...
Ela se levantou.
— Não.
Olhou para os dois.
— O que vocês estão dizendo?
Harry levantou-se também.
— Nós não somos seus pais biológicos.
O mundo pareceu parar.
Sarah não falou.
Não respirou.
Apenas olhou.
Sue levou a mão à boca.
— Meu amor...
— Não.
Sarah deu um passo para trás.
— Não.
Harry permaneceu onde estava.
— Sinto muito.
— Não.
Ela riu.
Um som pequeno, nervoso, incrédulo.
— Isso não tem graça.
— Eu sei.
— Então para.
— Sarah...
— Para!
O grito ecoou pela cozinha.
Sue chorou.
Sarah olhou para ela.
— Você é minha mãe.
— Sou.
— Então o que ele está falando?
Sue levantou-se.
— Eu sou sua mãe.
A voz saiu quebrada.
— Sou sua mãe desde o primeiro dia em que você abriu os olhos e olhou para mim.
Sarah balançou a cabeça.
— Não estou entendendo.
Harry falou com cuidado:
— Você foi adotada.
Sarah ficou imóvel.
— Não.
— Foi.
— Não.
Ela olhou para Sue.
— Você me teve.
Sue chorou ainda mais.
— Não, meu amor.
Sarah recuou.
— Vocês mentiram para mim.
Harry fechou os olhos.
— Sim.
A resposta direta pareceu machucar mais.
— A vida inteira?
— Sim.
— Por quê?
— Porque tivemos medo.
— Medo de quê?
Sue respondeu:
— De perder você.
Sarah riu, mas lágrimas já surgiam.
— Para quem?
Harry olhou para ela.
— Para um passado que nunca conseguimos encontrar.
Sarah sentou-se novamente porque suas pernas não pareciam mais confiáveis.
Ficou em silêncio por muito tempo.
Harry e Sue não a pressionaram.
Finalmente, ela perguntou:
— Então me conta.
Harry aproximou a cadeira.
— Tudo?
Sarah olhou para ele.
— Tudo.
Ele assentiu.
— Quinze anos atrás, eu estava viajando.
Sarah sentiu o coração acelerar.
— Onde?
Harry respirou fundo.
— Eu tinha desviado da estrada principal por causa de um acidente que tinha bloqueado parte do caminho. Parei perto de uma ponte antiga porque precisava fazer uma ligação.
Sarah ouviu sem piscar.
— O rio estava muito cheio. Tinha chovido.
A mão dela foi lentamente até a cicatriz.
Harry percebeu.
— Eu vi alguma coisa entre os galhos perto da margem.
Sarah ficou imóvel.
— O quê?
Harry olhou diretamente para ela.
— Você.
Silêncio.
Sarah empalideceu.
— Eu?
— Você estava na água.
A cozinha desapareceu.
Por um segundo, Sarah ouviu um ruído.
Água.
— Sarah?
Sue tocou seu braço.
Ela piscou.
— Continua.
Harry engoliu em seco.
— Você estava presa entre alguns galhos. Inconsciente.
— No rio?
— Sim.
— Você me encontrou num rio?
— Encontrei.
Sarah olhou para o homem que chamara de pai a vida inteira.
— Foi você?
Harry assentiu.
— Eu entrei na água e tirei você de lá.
Sarah levou a mão à boca.
— Meu Deus.
— Você quase não respirava.
Sue chorava em silêncio.
— Eu achei que tinha chegado tarde demais — Harry continuou. — Mas senti seu pulso.
Sarah não conseguia falar.
— Levei você para o hospital. Os médicos disseram que tinha traumatismo craniano, hipotermia, vários ferimentos.
Sarah tocou a cicatriz.
— Isso...
— Provavelmente aconteceu antes ou durante a queda.
— Queda?
Harry assentiu.
— Os médicos acreditavam que você tinha caído de algum lugar e depois sido carregada pela corrente.
Sarah fechou os olhos.
Uma mão.
Escuridão.
Segura.
Abriu-os rapidamente.
— E meus pais?
Harry baixou os olhos.
— Procuramos.
— Como?
— Polícia. Hospitais. Comunicados. Autoridades das cidades próximas. Você não tinha documentos.
Sarah ficou em silêncio.
— Nada?
— Nada.
— Ninguém procurou por mim?
A pergunta destruiu Sue.
— Procuraram, Sarah.
Ela se aproximou.
— Nós não sabemos quem. Não sabemos onde. O fato de não termos encontrado não significa que ninguém estivesse procurando.
Harry assentiu.
— O rio podia ter carregado você por quilômetros. Havia jurisdições diferentes, informações desencontradas. Você não tinha sobrenome.
Sarah franziu a testa.
— Mas vocês sabiam meu nome.
Harry assentiu.
— Porque você contou.
— Eu?
— Quando acordou.
Sarah prendeu a respiração.
— O que eu disse?
— Só uma palavra.
Harry sorriu tristemente.
— Sarah.
Ela sentiu um arrepio.
— Só isso?
— Só.
— Não disse sobrenome?
— Não.
— Nome dos meus pais?
— Não.
— Onde morava?
— Não.
— Nada?
— Nada.
Sarah passou as mãos pelo rosto.
— Então Sarah é realmente meu nome.
— Sempre acreditamos que sim.
Ela soltou uma risada sem humor.
— Isso é praticamente a única coisa sobre mim que vocês sabem que veio de antes.
Harry olhou para ela.
— Não.
Sarah ergueu os olhos.
— Tem outra coisa.
Ele olhou para seu peito.
Sarah acompanhou o olhar.
A corrente.
Seu coração acelerou.
— O colar?
Sue assentiu.
— Você já estava com ele quando Harry encontrou você.
Sarah puxou imediatamente a corrente.
A pequena lua surgiu sobre a blusa.
— Isso estava comigo?
— Sim — Harry respondeu.
Sarah segurou o pingente.
— Quando eu estava no rio?
— Sim.
Ela ficou olhando para a lua.
Quinze anos.
Sempre estivera ali.
Uma pequena peça de metal que atravessara a fronteira entre duas vidas.
— Por que nunca me contaram?
Sue respondeu:
— Porque, quando você começou a melhorar, você nos chamava de mãe e pai.
Sarah olhou para ela.
— Isso não responde.
Sue chorou.
— Eu sei.
Harry assumiu.
— Nós erramos.
Sarah ficou em silêncio.
— Não vou tentar justificar.
Ele respirou fundo.
— No início, achamos que sua memória voltaria. Depois os médicos disseram que talvez nunca voltasse. A adoção foi possível depois de buscas, avaliações e procedimentos. Nós deveríamos ter contado quando você cresceu.
— Mas não contaram.
— Não.
— Por medo.
— Sim.
Sarah olhou para os dois.
— Vocês acharam que eu iria embora?
Sue respondeu:
— Eu tinha medo de que você descobrisse outra família e achasse que precisava escolher.
Sarah sentiu as lágrimas caírem.
— Eu nunca escolheria.
Sue chorou.
— Eu sei disso agora.
Sarah levantou-se.
Sue também.
— Sarah...
Ela recuou.
— Eu preciso pensar.
— Claro.
— Sozinha.
Harry assentiu.
— Claro.
Sarah caminhou até a porta.
Parou.
Olhou para os dois.
— Vocês são meus pais.
Sue começou a chorar mais.
Sarah continuou:
— Isso não mudou.
Harry fechou os olhos.
— Mas vocês mentiram para mim.
Ninguém respondeu.
— E isso mudou alguma coisa.
Saiu.
Sarah dirigiu sem destino durante quase uma hora.
Não foi trabalhar.
Mandou uma mensagem dizendo que não se sentia bem.
Depois desligou o celular.
Parou o carro num lugar qualquer.
Ficou olhando para frente.
Adotada.
Encontrada num rio.
Sem documentos.
Sem memória.
Aos oito anos.
Sua mão tremia quando tocou a cicatriz.
Então puxou o colar.
A lua.
— Quem me deu você?
Nenhuma resposta.
Fechou os olhos.
E a voz apareceu.
Desculpa.
Sarah abriu os olhos.
Jacob.
Pensou nele imediatamente.
No modo como ficara quando soubera do acidente.
No choque ao ouvir “oito anos”.
Na maneira como Edward e Emmett começaram a observá-la.
São assuntos antigos.
Sarah sentiu o coração acelerar.
Não.
Era absurdo.
Mas alguma coisa havia acontecido com eles quinze anos atrás.
E alguma coisa havia acontecido com ela quinze anos atrás.
— O que vocês sabem?
Às nove e quinze, Jacob perguntou pela terceira vez:
— Ela não chegou?
A assistente respondeu:
— Não.
— Ligou?
— Informou ao jurídico que não viria. Disse que não estava se sentindo bem.
Jacob ficou imóvel.
— Quando?
— Cedo.
— Quem falou com ela?
— Mandou mensagem.
— Só isso?
A assistente começou a sorrir.
— Só.
Jacob percebeu.
— O quê?
— Nada.
— Então pare de sorrir.
— Sim, senhor.
Jacob voltou para a sala.
Pegou o telefone.
Parou.
Não era da conta dele.
Sentou.
Abriu um e-mail.
Leu duas linhas.
Pegou o telefone novamente.
Ligou.
Desligado.
Seu peito apertou.
Ligou outra vez.
Desligado.
— Droga.
Cinco minutos depois, Emmett entrou.
— Você ligou para Sarah?
Jacob levantou os olhos.
— Como sabe?
— Porque eu liguei.
Jacob ficou irritado.
— Por quê?
Emmett arregalou os olhos.
— Porque ela faltou!
— Pessoas faltam.
— Exatamente. E eu sou amigo dela.
— Eu também...
Jacob parou.
Emmett abriu um sorriso lento.
— Você também o quê?
— Nada.
— Não, não. Volta.
— Sai da minha sala.
Emmett riu.
— Você também é amigo dela?
— Emmett.
— Que evolução!
— Sai.
— Nosso menino está crescendo.
Jacob pegou uma caneta.
— Vou jogar isso em você.
Emmett fechou a porta ainda rindo.
— Ele é amigo dela — anunciou no corredor.
— Idiota.
Mas Jacob olhou novamente para o celular.
E a preocupação permaneceu.
No mesmo dia, Billy compareceu a um almoço da fundação empresarial.
Harry Clearwater estava lá.
Billy o reconheceu imediatamente.
Cumprimentaram-se.
— Harry.
— Billy Black.
— Faz tempo.
— Bastante.
Conversaram sobre negócios.
Economia.
A fundação.
Projetos sociais.
Nada sobre Sarah.
Billy esperou.
Não queria parecer interessado demais.
Foi Harry quem acabou mencionando.
— Minha filha começou a trabalhar na empresa de vocês.
Billy sentiu o coração acelerar.
— Sarah.
Harry sorriu.
— Conheceu?
— Jantou na minha casa.
Harry pareceu surpreso.
— Já?
Billy sorriu.
— Rosalie a levou.
— Claro.
— Gostei muito dela.
O sorriso de Harry mudou.
Orgulho.
— Difícil não gostar.
Billy observou.
Harry amava Sarah.
Isso era evidente.
— Ela é uma excelente advogada.
— Sempre foi brilhante.
Billy hesitou.
— Ela faltou hoje.
O sorriso de Harry desapareceu.
— Eu sei.
Billy percebeu.
— Está tudo bem?
Harry olhou para ele.
— Está.
Resposta cuidadosa.
Billy conhecia respostas cuidadosas.
— Algum problema?
Harry pensou antes de responder.
— Conversa de família.
Billy assentiu.
Não pressionou.
— Entendo.
Harry olhou para ele por alguns segundos.
— Curioso.
— O quê?
— Ela perguntou sobre você ontem.
Billy ficou atento.
— Sobre mim?
— Sobre a família de vocês.
O coração de Billy bateu mais forte.
— Por quê?
— Não sei.
Harry tomou um gole de água.
— Desde que entrou naquela empresa, parece curiosa.
Billy permaneceu quieto.
Harry continuou:
— Principalmente sobre Jacob.
Billy quase sorriu.
— Principalmente?
Harry estreitou os olhos.
— Não faça essa cara.
— Que cara?
— Cara de pai de homem solteiro.
Billy riu.
— Não disse nada.
— Não precisa.
Por alguns minutos, a conversa ficou leve.
Até Harry perguntar:
— Billy, posso fazer uma pergunta?
— Claro.
— Aconteceu alguma coisa com sua família quinze anos atrás?
Billy congelou.
O ruído do restaurante pareceu desaparecer.
— Por que pergunta?
Harry percebeu a reação.
— Sarah mencionou que Jacob ficou estranho quando soube a idade em que ela sofreu um acidente.
Billy não respondeu.
Harry continuou:
— E aparentemente Edward e Emmett também começaram a agir diferente.
Billy escolheu cada palavra.
— Perdemos pessoas naquele período.
Harry assentiu.
— Entendo.
— Por que Sarah perguntou sobre isso?
Harry desviou os olhos.
— Porque hoje contamos a ela algumas coisas sobre o passado.
Billy sentiu um arrepio.
— Que coisas?
Harry olhou diretamente para ele.
Por um instante, pareceu considerar quanto deveria dizer.
— Coisas que pertencem a ela.
Billy ficou quieto.
Harry mudou de assunto.
E Billy não insistiu.
Mas saiu daquele almoço com uma certeza.
Alguma coisa acabara de mudar.
Sarah voltou para casa no fim da tarde.
Sue estava na sala.
Levantou-se assim que a viu.
Nenhuma das duas falou.
Sarah ficou parada.
Depois caminhou até ela.
Sue começou a chorar antes mesmo que Sarah a abraçasse.
Sarah fechou os braços ao redor da mãe.
— Eu estou brava.
— Eu sei.
— Muito.
— Eu sei.
— Vocês deveriam ter contado.
— Deveríamos.
Sarah fechou os olhos.
— Mas você é minha mãe.
Sue soluçou.
— E você é minha filha.
— Sempre.
Ficaram abraçadas por muito tempo.
Harry apareceu no corredor.
Sarah olhou para ele.
— Você também.
Harry sorriu emocionado.
Ela abriu um braço.
— Vem.
Ele foi.
Os três se abraçaram.
Não apagava a mentira.
Mas também não apagava quinze anos de amor.
Mais tarde, Sarah entrou no escritório de Harry.
— Quero saber tudo.
Ele assentiu.
— Tudo o que soubermos.
— Hospital.
— Sim.
— Cidade.
— Sim.
— Polícia.
— Sim.
— Relatórios.
Harry ficou surpreso.
— Relatórios?
— Sou advogada.
Ele quase sorriu.
— Claro.
— Quero os documentos da época.
— Sarah...
— Preciso saber quem eu era.
Harry ficou sério.
— Entendo.
— Não quero substituir vocês.
— Eu sei.
— Não estou procurando outra mãe ou outro pai.
— Eu sei.
Sarah segurou o pingente.
— Mas alguém me deu isso.
Harry olhou para a lua.
— Sim.
— Alguém me chamou de Sarah antes de vocês.
— Sim.
— E alguém pode ter me procurado.
Harry ficou em silêncio.
— Sim.
Sarah respirou fundo.
— Então quero descobrir.
Harry assentiu.
— Eu vou ajudar.
Naquela noite, Billy reuniu os três novamente.
Emmett entrou reclamando:
— Se continuarmos fazendo reuniões familiares todos os dias, vou começar a cobrar hora extra.
Edward ignorou.
Jacob foi direto:
— O que aconteceu?
Billy contou sobre o almoço.
Quando terminou, Jacob estava pálido.
— Harry disse que contou coisas do passado para ela?
— Sim.
— O quê?
— Não disse.
Jacob levantou-se.
— Ela não foi trabalhar.
— Eu sei.
— O celular estava desligado.
Emmett olhou.
— Você tentou ligar mais de uma vez?
Jacob ignorou.
Billy continuou:
— Harry perguntou se alguma coisa aconteceu conosco quinze anos atrás.
Edward ficou alerta.
— Por quê?
— Porque Sarah percebeu a reação de vocês.
Jacob fechou os olhos.
— Droga.
— Ela está juntando as coisas — Emmett disse.
— Ela não tem o que juntar — Jacob respondeu.
Billy olhou para ele.
— Talvez agora tenha.
Jacob abriu os olhos.
— O que quer dizer?
— Harry disse que contou a ela coisas sobre o passado.
Edward pensou.
— Talvez tenha contado sobre o acidente.
— Ela já sabia — Jacob respondeu.
Billy balançou a cabeça.
— Talvez não soubesse tudo.
Silêncio.
Emmett olhou para Jacob.
— Você acha que ela sabe que foi adotada?
Jacob ficou imóvel.
— Adotada?
Edward olhou para Billy.
Billy respirou fundo.
— Não sabemos se foi.
Jacob imediatamente:
— Mas se foi encontrada sem memória...
Ninguém terminou.
Na manhã seguinte, Sarah chegou à Cullen & Black às oito e cinco.
Jacob soube às oito e seis.
Não porque tivesse perguntado.
Segundo ele.
Às oito e oito, ela bateu à porta.
— Entre.
Sarah entrou.
Jacob levantou-se imediatamente.
— Você está bem?
Ela parou.
— Bom dia para você também.
— Sarah.
Ela fechou a porta.
— Estou.
Jacob observou seu rosto.
Parecia cansada.
— Ontem...
— Eu precisava resolver uma coisa.
— Está resolvida?
Sarah pensou.
— Não.
Ele se aproximou.
— Posso ajudar?
A pergunta a surpreendeu.
— Talvez.
Jacob ficou imóvel.
Sarah caminhou até a mesa.
— Quero fazer uma pergunta.
— Faz.
Ela olhou diretamente para ele.
— O que aconteceu com você quinze anos atrás?
O sangue desapareceu do rosto de Jacob.
Sarah viu.
— Então aconteceu alguma coisa.
Ele não respondeu.
— Jacob.
— Por que está perguntando?
— Porque você quase saiu correndo quando eu disse que meu acidente aconteceu há quinze anos.
— Isso não significa...
— Edward ficou estranho.
Silêncio.
— Emmett ficou estranho.
Mais silêncio.
— Billy me olhou como se conhecesse meu rosto.
Jacob sentiu o coração bater violentamente.
Sarah continuou:
— E ontem eu descobri uma coisa.
Ele não queria perguntar.
Precisava.
— O quê?
Sarah levou a mão ao peito.
— Harry e Sue não são meus pais biológicos.
Jacob ficou completamente imóvel.
O mundo parou.
— O quê?
— Eu fui adotada.
Jacob segurou a borda da mesa.
Sarah percebeu.
— Jacob?
Ele não conseguia falar.
— Eu fui encontrada aos oito anos.
O coração dele pareceu parar.
— Onde?
A palavra saiu quase sem voz.
Sarah olhou para ele.
— Num rio.
Jacob recuou.
Um passo.
Depois outro.
Sarah ficou assustada.
— Jacob?
Ele bateu contra a cadeira.
— Num...
Não conseguiu terminar.
— Meu pai me encontrou inconsciente na água.
Jacob perdeu a cor.
Sarah se aproximou.
— Jacob, você está bem?
Ele levantou a mão.
— Não.
Ela parou.
— O quê?
Jacob respirava com dificuldade.
— Não chega perto.
Sarah ficou imóvel.
A frase a machucou.
Jacob percebeu tarde demais.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Então o que quis dizer?
Ele passou as mãos pelo rosto.
— Eu preciso...
Parou.
Não podia fugir de novo.
Não daquela vez.
Sarah estava olhando para ele.
Confusa.
Assustada.
— Jacob, o que você sabe?
Ele ergueu os olhos.
Quinze anos.
Oito anos.
Rio.
Sem memória.
Sarah.
A cicatriz.
Os olhos.
O sorriso de Esme.
A mão sobre o peito.
A batata.
Não.
Aquilo já não era uma coincidência.
Era impossível continuar chamando de coincidência.
Sarah se aproximou um passo.
— Jacob.
Ele falou quase num sussurro:
— Eu perdi alguém num rio.
Sarah congelou.
O silêncio se tornou absoluto.
— Quando?
Jacob fechou os olhos.
— Quinze anos atrás.
Sarah perdeu a cor.
— Quantos anos ela tinha?
Ele abriu os olhos.
— Oito.
Sarah levou a mão à boca.
Nenhum dos dois falou.
Ela respirou com dificuldade.
— Qual era o nome dela?
Jacob não conseguiu responder.
Sarah baixou lentamente a mão.
— Jacob.
Os olhos dele estavam cheios de lágrimas.
Ela nunca o vira assim.
— Qual era o nome dela?
Jacob tentou falar.
A voz falhou.
Tentou novamente.
— Sarah.
Ela parou de respirar.
Jacob continuou olhando para ela.
— O nome dela era Sarah Cullen.
O mundo de Sarah Clearwater se partiu em dois.
Antes daquela frase.
E depois dela.
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