MEMÓRIAS

21 CAPÍTULO 20 - Eu me lembro


Um mês.

Sarah teria jurado que era impossível reorganizar uma família em apenas um mês.

Estava errada.

Não porque os quinze anos tivessem desaparecido.

Não desapareceram.

Havia perguntas sem respostas, fotografias de momentos que Sarah ainda não conseguia recordar, documentos que continuava analisando e uma investigação sobre o passado que avançava devagar demais para o gosto de todos.

Havia Carlisle.

Esme.

A mãe e o pai que Sarah aprendera a amar depois de perdê-los.

Havia Harry e Sue, que continuavam sendo pai e mãe em todos os sentidos construídos durante quinze anos.

Havia duas casas.

Duas histórias.

Dois sobrenomes.

Mas, curiosamente, Sarah já não sentia que precisava escolher.

Porque, depois de um mês, algumas coisas simplesmente tinham encontrado lugar.

Edward ligava quase todas as noites.

Às vezes para perguntar alguma coisa importante.

Na maioria das vezes, não.

— Você comeu?

— Por que todo homem dessa família pergunta se eu comi?

— Não respondeu.

— Sim.

— O quê?

— Comida, Edward.

— Sarah.

— Boa noite.

— Sarah!

Ela desligava.

Dois minutos depois chegava mensagem.

Você é insuportável.

Sarah respondia:

Genética.

Emmett era pior.

Muito pior.

Descobrira que quinze anos de ausência lhe davam, segundo ele próprio, “crédito retroativo de irmão mais velho”.

Sarah discordava juridicamente.

Emmett ignorava juridicamente.

Aparecia na casa dos Clearwater sem avisar.

Abrira uma gaveta da cozinha e decretara que era “a gaveta dele”.

Harry gostara imediatamente daquilo.

Sue mais ainda.

Na terceira visita, Emmett já abria a geladeira sem pedir.

Na quinta, Harry perguntou se ele pretendia contribuir com as compras.

Na sexta, Emmett apareceu com três sacolas de supermercado e declarou:

— Agora tenho direitos adquiridos.

Sarah respondeu:

— Não funciona assim.

— Funcionou com a gaveta.

Edward também começara a frequentar a casa.

Mais discreto.

Mais cuidadoso.

No começo, perguntava antes de tudo.

Se podia entrar.

Se podia ficar.

Se Sarah queria conversar.

Até que Sue perdeu a paciência.

— Edward, você é irmão da minha filha. Pare de se comportar como visita.

Ele ficou imóvel.

Sarah viu os olhos dele mudarem.

— Certo.

Na semana seguinte, entrou sem cerimônia.

Sue sorriu.

Sarah percebeu.

Era assim que acontecia.

Sem anúncio.

Sem decisão formal.

A família simplesmente começara a existir.

Com Jacob, fora diferente.

E talvez exatamente por isso tivesse sido ainda mais natural.

Sarah não saberia dizer quando começaram a agir daquela maneira.

Não houve um momento.

Nenhuma conversa.

Nenhum acordo.

Simplesmente aconteceu.

Na empresa, Jacob continuava sendo presidente.

Sarah respeitava isso.

Na maior parte do tempo.

— Não.

Jacob levantou os olhos do contrato.

— O quê?

— Essa cláusula não passa.

— O conselho aprovou.

— O conselho não vai responder pela contingência jurídica.

— Sarah...

— Jacob.

Ele respirou fundo.

— Eu sou seu chefe.

— E eu sou a advogada que vai evitar que meu chefe seja processado.

— Meu chefe?

Sarah apontou para ele.

— Você entendeu.

Emmett, sentado no canto da sala, levantou a mão.

— Posso opinar?

Os dois responderam:

— Não.

Edward, ao lado dele, comentou:

— Impressionante.

— O quê? — Emmett perguntou.

— Ela voltou há um mês e já manda nele profissionalmente também.

Jacob apontou para a porta.

— Os dois.

— Autoritário — Sarah murmurou.

Jacob olhou.

— O quê?

— Nada, chefe.

O sorriso dela deixava claro que era qualquer coisa menos respeito hierárquico.

Mas fora da empresa...

Fora da empresa era pior.

Ou melhor.

Jacob ainda não tinha decidido.

— Me dá.

Jacob olhou para o próprio prato.

Depois para Sarah.

— Não.

Ela estendeu a mão.

— Jacob.

— Tem batata no seu prato.

— Eu quero essa.

— É exatamente a mesma batata.

— Não é.

— Sarah, elas saíram da mesma travessa.

— Essa parece melhor.

Jacob olhou para Emmett.

— Por quê?

Emmett estava quase chorando de rir.

— Não olha para mim.

Edward continuou comendo.

— Você sabe como isso termina.

Jacob apontou para o prato de Sarah.

— Você tem quatro.

— Quero essa.

— Não.

Sarah ficou olhando.

Jacob sustentou.

Cinco segundos.

Dez.

Então empurrou a batata para o prato dela.

Emmett bateu na mesa.

— VINTE E CINCO ANOS!

Jacob fechou os olhos.

— Cala a boca.

— Nada mudou!

Sarah começou a comer a batata.

— Não sei por que vocês fazem tanto drama.

Edward olhou para ela.

— Porque havia quatro batatas no seu prato.

— Agora há cinco.

Jacob olhou.

— Você nem precisava dela.

Sarah sorriu.

— Não.

Ele arregalou os olhos.

— Então por que pediu?

— Queria saber se você daria.

Emmett quase caiu da cadeira.

Jacob ficou encarando Sarah.

Ela mastigava tranquilamente.

— Você é uma pessoa terrível.

— E você me deu.

Edward apontou o garfo para Jacob.

— Argumento irrefutável.

Em outros momentos, era Sarah quem mandava sem perceber.

— Segura.

Jacob pegava a bolsa.

— Leva isso.

Jacob levava.

— Espera aqui.

Jacob esperava.

Até que certa tarde Emmett observou a sequência inteira.

Sarah entregou a bolsa a Jacob, depois o celular, depois um copo enquanto procurava alguma coisa dentro do carro.

Jacob segurou tudo.

Emmett ficou olhando.

— Cara.

Jacob virou.

— O quê?

— Você percebe o que está acontecendo?

— Não.

Sarah apareceu.

— Jacob, segura isso também.

Entregou-lhe uma pasta.

Ele pegou.

Emmett abriu os braços.

— ISSO!

Sarah olhou.

— O quê?

Edward saiu do carro.

— Ele está constatando que Jacob continua obedecendo você.

Jacob devolveu a bolsa.

— Eu não obedeço.

Sarah entregou novamente.

— Segura um minuto.

Ele pegou automaticamente.

Silêncio.

Emmett dobrou-se de tanto rir.

Jacob olhou para a bolsa na própria mão.

Depois para Sarah.

Ela estava sorrindo.

— Não fala nada.

— Eu não falei.

— Seu rosto falou.

Edward passou por eles.

— Casados.

Jacob respondeu:

— Edward.

— Estou indo.

Mas havia coisas que não eram engraçadas.

Jacob sempre sabia onde Sarah estava.

Não porque a controlasse.

Ele aprendera.

Sarah deixara muito claro no primeiro mês que não aceitaria viver cercada de seguranças.

Chegaram a um acordo.

Medidas discretas.

Rotas verificadas quando necessário.

Informação compartilhada.

Nenhuma decisão tomada sem ela.

Ainda assim, o instinto permanecia.

Ao atravessar uma rua, Jacob naturalmente ficava do lado dos carros.

Em lugares cheios, procurava Sarah com os olhos.

Quando alguém se aproximava rápido demais, seu corpo reagia antes do pensamento.

Sarah percebia.

No início, discutia.

Depois compreendeu.

Não precisava permitir excessos.

Mas também não precisava transformar cada gesto em batalha.

Certa noite, saindo de um restaurante, uma motocicleta passou depressa junto à calçada.

Jacob segurou Sarah pela cintura e puxou-a para trás.

Ela bateu contra seu peito.

— Jacob!

— Desculpa.

Sarah olhou para a moto já distante.

Depois para a mão dele ainda em sua cintura.

Jacob percebeu e soltou imediatamente.

— Foi reflexo.

— Eu sei.

— Está bem?

— Estou.

Ele assentiu.

Sarah começou a caminhar.

Depois de dois passos, voltou.

— Jacob.

— O quê?

— Obrigada.

Ele ficou parado por um instante.

— Sempre.

A palavra saiu antes que pudesse impedir.

Sarah também percebeu.

Mas nenhum dos dois comentou.

E havia os sorrisos.

Esse era o problema.

Sarah começara a colecioná-los.

Não conscientemente.

Pelo menos era o que dizia a si mesma.

Mas descobrira rapidamente quais coisas faziam Jacob sorrir.

Emmett sendo humilhado por Rosalie.

Edward perdendo uma discussão.

Billy contando alguma história constrangedora.

E ela.

Principalmente quando o provocava.

O “marido” continuava.

E o “esposa” também.

Só que agora já não era sempre.

Talvez exatamente por isso tivesse ficado mais perigoso.

Às vezes passavam dias sem usar.

Então Sarah entrava na sala dele.

— Preciso que assine.

— Deixa aí.

— Obrigada, marido.

Jacob nem levantava os olhos.

— Disponha, esposa.

E Sarah precisava continuar andando como se aquilo não produzisse nada.

Emmett produzia por eles.

— EU OUVI!

Jacob fechava a porta.

Um mês depois da confirmação do DNA, estavam todos na casa de Billy num domingo.

Harry e Sue também.

Rosalie.

Isabella.

Era uma daquelas tardes que pareciam ter existido sempre.

Billy cuidava da churrasqueira.

Harry discutia com ele sobre alguma técnica que ambos afirmavam dominar melhor.

Sue e Rosalie conversavam.

Isabella estava sentada ao lado de Edward, que lia alguma coisa no celular enquanto ouvia metade das conversas ao redor.

Emmett atrapalhava todos.

Sarah estava sentada no degrau da varanda.

Jacob apareceu com dois copos.

Entregou um.

— Seu.

Sarah pegou.

Provou.

— Pouco gelo.

Jacob olhou para ela.

— Tem quatro pedras.

— Eu gosto de cinco.

— Então levanta e pega outra.

Sarah apenas estendeu o copo.

Jacob ficou olhando.

Ela balançou.

— Jacob.

Ele pegou.

Emmett viu de longe.

— NÃO!

Jacob fechou os olhos.

— Não começa.

Emmett apontava.

— Ela nem levantou!

Sarah sorriu.

— Ele é gentil.

— Ele é domesticado!

Jacob pegou uma pedra de gelo e voltou.

— Aqui.

Sarah recebeu.

— Obrigada.

Emmett colocou a mão no coração.

— Billy! Você está vendo isso?

Billy nem virou.

— Vejo há vinte e cinco anos.

Jacob apontou para Sarah.

— A culpa é dela.

— Claro.

— Você me acostumou mal.

Sarah ergueu as sobrancelhas.

— Eu tinha quatro anos.

— Exatamente. Começou cedo.

Ela riu.

Jacob também.

E talvez fosse por isso que ninguém percebeu o instante em que a tarde mudou.

Emmett apareceu segurando uma mangueira.

Edward ergueu os olhos.

— Não.

Emmett abriu um sorriso.

— Eu não fiz nada.

— Você está segurando uma mangueira.

— Coincidência.

Sarah levantou-se.

— Emmett.

— O quê?

— Nem pensa.

— Eu não estou pensando.

Rosalie começou a se afastar.

— Quando ele diz isso, corram.

Emmett abriu a água.

Sarah gritou quando o jato atingiu suas pernas.

— EMMETT!

Ela avançou.

Emmett fugiu rindo.

— Você falou para eu não pensar! Não pensei!

— Me dá isso!

— Não!

Sarah conseguiu agarrar a mangueira.

Os dois começaram a disputar.

Jacob estava encostado na varanda, assistindo.

— Jacob! — Sarah gritou. — Ajuda!

Ele cruzou os braços.

— Problema seu.

Sarah conseguiu arrancar a mangueira de Emmett.

O irmão ergueu as mãos.

— Trégua.

Sarah sorriu.

— Claro.

E abriu a água diretamente nele.

— TRAIDORA!

Emmett avançou.

Sarah fugiu rindo.

Jacob cometeu o erro de rir também.

Ela ouviu.

Virou.

— Está rindo?

Jacob percebeu imediatamente.

— Sarah.

Ela apontou a mangueira.

— O quê?

— Nem pensa.

Sarah sorriu.

— Eu não estou pensando.

Jacob deu um passo para trás.

— Sarah.

Ela abriu a água.

Jacob desviou.

— ERROU!

— Volta aqui!

Ele correu.

Sarah foi atrás.

Emmett recuperou a mangueira por alguns segundos e atingiu os dois.

— EMMETT!

— Guerra não tem aliados!

Sarah conseguiu pegar novamente.

Jacob tentou arrancá-la.

Ela puxou.

Ele puxou de volta.

Água para todos os lados.

Os três riam.

Emmett tentou alcançar o registro.

Sarah o impediu.

Jacob pegou a mangueira.

Sarah segurou a outra ponta.

— Solta!

— Não!

— Jacob!

— Sarah!

Emmett tentou entrar no meio.

A água atingiu os três.

E então...

Sarah parou.

Água.

Sol.

Grama.

Uma mangueira verde.

Risadas.

Sarah piscou.

Por um segundo, Jacob adulto desapareceu.

Emmett adulto desapareceu.

O jardim mudou.

Não completamente.

Mas o suficiente.

As árvores eram menores.

A varanda parecia maior.

As vozes eram diferentes.

Mais agudas.

Mais jovens.

E ela estava ali.

Pequena.

Oito anos.

Segurando uma mangueira.

— Emmett!

Sua própria voz.

Infantil.

Sarah sentiu o coração disparar.

Emmett tinha dez anos e corria pelo gramado.

Molhado.

Rindo.

— CORRE, SARAH!

A gargalhada de Jacob Black atravessou o jardim segundos antes de um jato de água passar exatamente onde Sarah Cullen estivera.

— EMMETT!

— Eu não fiz nada!

— Você está segurando a mangueira!

— Isso não prova nada!

Sarah correu em direção à varanda, os cabelos escuros grudados no rosto, o vestido completamente molhado e os pés descalços escorregando sobre a grama.

Atrás dela, Emmett Cullen ria tanto que mal conseguia controlar a mangueira.

— Jacob! Faz alguma coisa!

Jacob estava encostado em uma árvore, segurando a barriga de tanto rir.

— Você queria brincar!

— Não disso!

— Você disse que queria!

— Eu queria jogar bola!

— Você perdeu.

— Porque vocês roubaram!

— Estratégia — Emmett corrigiu.

— Trapaça!

— Estratégia avançada.

Sarah apontou para o irmão.

— Eu vou contar para o papai.

Emmett fechou a torneira.

— Isso é golpe baixo.

— Você molhou meu vestido!

— O vestido seca.

— Meu cabelo!

— Também seca.

Sarah estreitou os olhos.

Jacob conhecia aquela expressão.

— Emmett...

— O quê?

— Corre.

Emmett olhou para a irmã.

Sarah sorriu.

— Por quê?

Ela pegou um balde cheio de água que estava próximo à varanda.

Os olhos de Emmett se arregalaram.

— Sarah, vamos conversar.

— Agora quer conversar?

— Somos irmãos. Pessoas civilizadas resolvem seus problemas através do diálogo.

Sarah avançou.

Emmett correu.

— JACOB, SEGURA ELA!

Jacob imediatamente saiu da frente.

— Problema seu.

— TRAIDOR!

Sarah correu atrás do irmão.

Edward Cullen estava sentado sob uma árvore, lendo.

Principalmente quando envolviam água.

Emmett passou por ele.

Sarah veio logo atrás.

— Edward, ajuda!

Edward virou uma página.

— Não.

— Eu sou seu irmão!

— Ela também.

— Mas eu sou o seu irmão preferido!

Edward finalmente levantou os olhos.

— Quem disse?

Sarah começou a rir.

Foi o suficiente para Emmett conseguir escapar.

— Ah!

Ela tentou mudar de direção rapidamente.

O pé escorregou na grama molhada.

Jacob parou de rir.

— Sarah!

Ele correu.

Conseguiu segurá-la pelo braço antes que caísse.

Por um segundo, Sarah ficou inclinada para trás, presa pela mão dele.

Jacob a puxou.

— Eu falei para você não correr aqui!

Sarah recuperou o equilíbrio.

— Você estava correndo também.

— Eu sei correr.

— Eu também sei.

— Acabou de provar que não.

— Foi culpa do Emmett.

— Tudo é culpa do Emmett — Edward comentou sem tirar os olhos do livro.

— Ei!

Jacob segurou Sarah pelos ombros.

— Machucou?

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

Ele olhou para os joelhos dela.

Depois para os braços.

— Jacob.

— O quê?

— Eu estou bem.

— Você quase caiu.

— Mas não caí.

Ela abriu um sorriso.

— Você me segurou.

Jacob soltou um suspiro.

— Alguém precisa.

Sarah sorriu ainda mais.

— Você sempre me segura.

Ele bagunçou os cabelos molhados dela.

— Porque você vive caindo.

— Não vivo.

— Semana passada caiu da bicicleta.

— Tinha uma pedra.

— Antes disso caiu da árvore.

— O galho quebrou.

— E caiu da escada.

Sarah pensou.

— Aquilo foi culpa do Edward.

Edward levantou os olhos.

— Como exatamente você cair porque tentou descer três degraus de uma vez foi culpa minha?

— Você estava olhando.

— Isso não faz nenhum sentido.

— Para ela faz — Emmett disse.

Jacob olhou para Sarah.

— Promete que vai tomar cuidado?

Ela fez uma careta.

— Prometo.

— Você está mentindo.

— Um pouquinho.

Jacob riu.

— Eu quero entender uma coisa.

Billy Black estava parado na porta da varanda.

As quatro crianças congelaram.

Carlisle apareceu atrás dele.

— Eu também.

Emmett discretamente colocou a mangueira no chão.

Billy apontou para o jardim.

— Por que existe água até na janela do segundo andar?

Os três congelaram.

Edward levantou os olhos do livro.


— Sarah.

A voz adulta de Jacob atravessou a lembrança.

Ela piscou.

O jardim voltou.

Presente.

A mangueira estava no chão.

Jacob estava diante dela.

Emmett ao lado.

Molhados.

Exatamente como na lembrança.

Edward estava alguns metros atrás.

Seco.

Sarah olhou para ele.

E aquilo quase a fez perder o ar novamente.

— Você estava lendo.

Edward franziu a testa.

— O quê?

Sarah olhou para suas próprias mãos.

Depois para Emmett.

Depois para Jacob.

— Nós três.

Sua voz tremia.

— Era nós três.

Jacob ficou imóvel.

— Sarah...

Ela apontou para Edward.

— Você não participou.

Os olhos dele se arregalaram.

Sarah começou a chorar.

— Você estava sentado na varanda lendo.

Edward empalideceu.

Emmett parou de sorrir.

Sarah continuou:

— Nós três estávamos brincando com a mangueira.

Olhou para Jacob.

— Eu, você e Emmett.

Jacob mal respirava.

— E depois?

Sarah riu entre lágrimas.

— Carlisle e Billy chegaram.

Billy, perto da churrasqueira, virou-se completamente.

Sarah olhou para ele.

— Vocês encontraram o jardim destruído.

Billy levou a mão à boca.

— Sarah...

— Nós três ficamos parados.

Ela começou a rir.

— Porque estávamos ensopados e sabíamos que estávamos encrencados.

Emmett já tinha lágrimas nos olhos.

— Você lembra?

Sarah olhou para ele.

— Você disse que podia explicar.

Emmett soltou uma risada quebrada.

— Eu sempre dizia isso.

— Billy respondeu “naturalmente”.

Billy fechou os olhos.

Sarah virou para Edward.

— E então Carlisle perguntou para você.

Edward deu um passo em sua direção.

— O quê?

— O que tinha acontecido.

Sarah chorava abertamente agora.

— Porque você era o único limpo.

Edward ficou imóvel.

— E o que eu disse?

Sarah começou a rir.

— Você perguntou se ele queria a versão curta ou a verdadeira.

Edward levou a mão à boca.

Emmett soltou uma gargalhada entre lágrimas.

Billy abaixou a cabeça.

— Meu Deus.

Sarah apontou para Edward.

— E você o Emmett!

Edward começou a rir e chorar ao mesmo tempo.

— Eu?

— Disse que ele começou!

Ele abriu os braços.

— Provavelmente era verdade.

— Traidor! — Emmett repetiu a palavra exatamente com a mesma indignação do menino da lembrança.

Edward perdeu qualquer controle.

Foi até ela e a abraçou.

Sarah o segurou.

— Eu lembro de você.

Edward fechou os olhos.

— Sarah...

— Eu lembro de você sentado com o livro.

A voz dela falhou.

— Eu lembro do seu jeito de falar.

Emmett aproximou-se.

— E de mim?

Sarah soltou Edward.

Virou-se para ele.

— Você pegou a mangueira depois que eu molhei você.

— Claro.

— E disse que eu não sabia mirar.

Emmett sorriu através das lágrimas.

— Isso também parece comigo.

Sarah assentiu.

Então procurou Jacob.

Ele estava parado.

Quieto.

Como se tivesse medo de perguntar.

Sarah foi até ele.

— E você.

Jacob engoliu em seco.

— O que eu fiz?

Sarah olhou para seu rosto.

A lembrança voltou.

Não o penhasco.

Não a mão escapando.

Não o grito.

Jacob correndo pelo jardim.

Molhado.

Rindo.

Corre, Sarah!

Ela sorriu.

— Você segurou minha mão.

Jacob perdeu o ar.

— Quando eu escorreguei.

Sarah riu.

— Você falou me segurou e me puxou.

Uma lágrima desceu pelo rosto dele.

Sarah aproximou-se.

— Eu lembro.

Jacob fechou os olhos.

— Eu lembro da sua mão — ela continuou.

Ele abriu novamente.

Sarah estendeu a própria mão entre eles.

Jacob olhou para a mão dela.

Sarah chorava.

Mas sorria.

— Minha primeira lembrança inteira de você não é o penhasco.

Aquilo o atingiu com força.

— Sarah...

— É você rindo.

Jacob deixou escapar um som entre riso e choro.

Sarah segurou sua mão.

— Eu lembro do seu sorriso.

Ele apertou os dedos dela.

— Tem certeza?

— Tenho.

Sarah olhou para Emmett.

Depois para Edward.

Billy.

Todos.

— Eu lembro de nós.

E dessa vez ninguém conseguiu conter as lágrimas.

Mais tarde, quando o jardim já estava tranquilo, Sarah voltou sozinha para o gramado.

Jacob apareceu alguns minutos depois.

Parou ao lado dela.

— Como está?

Sarah respirou fundo.

— Bem.

— Mesmo?

— Mesmo.

Olhou para o lugar onde estiveram brincando.

— Foi diferente.

— Das outras lembranças?

— Muito.

Ela tocou a própria testa.

— As outras eram pedaços. Água escura. Pedra. Medo. Sua voz. Minha mão.

Jacob abaixou os olhos.

Sarah percebeu.

— Ei.

Ele olhou.

— Não faz isso.

— O quê?

— Voltar para lá.

Jacob respirou.

Sarah continuou:

— Hoje eu lembrei da água sem medo.

Ele ficou quieto.

— Era só uma mangueira.

Um sorriso apareceu.

— E você estava rindo.

Jacob sorriu também.

Sarah apontou.

— Esse.

— O quê?

— O sorriso.

Ela se aproximou.

— É o mesmo.

Jacob não respondeu.

Sarah observou-o por alguns segundos.

— Eu achei que, se algum dia lembrasse de você, seria sempre daquele momento.

— Eu também.

— Não foi.

Jacob sentiu alguma coisa dentro dele ceder.

Sarah sorriu.

— Prefiro essa lembrança.

— Eu também.

Ficaram em silêncio.

Então Sarah inclinou a cabeça.

— Embora eu tenha descoberto que você já era facilmente manipulável aos dez anos.

Jacob arregalou os olhos.

— Como chegou a essa conclusão?

— Eu mandava.

— Você mandava em todo mundo.

— Mas você obedecia.

— Para impedir desastres.

— Continua usando essa desculpa dezenove anos depois.

— Porque você continua provocando desastres.

Sarah sorriu.

— Marido.

Jacob fechou os olhos.

— Estava bonito demais.

Ela começou a rir.

— O quê?

— O momento. Você estragou.

— Não estraguei.

— Estragou.

Sarah começou a caminhar.

— Vamos entrar.

Jacob acompanhou.

Depois de alguns passos, ela parou.

Olhou para ele.

Então estendeu a mão.

Jacob olhou.

Sarah percebeu imediatamente para onde a mente dele poderia ir.

— Não.

— O quê?

— Não pensa no penhasco.

Jacob levantou os olhos.

Ela balançou a mão entre eles.

— Pensa na mangueira.

Silêncio.

— “Corre, Sarah.”

O peito dele apertou.

Sarah sorriu.

— Essa mão.

Jacob segurou.

Sarah entrelaçou os dedos nos dele.

— Melhor?

Ele olhou para as mãos.

Depois para ela.

— Muito.

Começaram a caminhar.

Sarah puxou-o levemente.

— Anda, marido.

Jacob riu.

— Mandona.

— Obediente.

— Insuportável.

— Mas você veio.

Jacob olhou para ela.

— Eu sempre vou.

Sarah ficou em silêncio por um instante.

Depois apertou a mão dele.

E continuaram andando.

Naquele domingo, Sarah recuperara muito mais que uma brincadeira com uma mangueira.

Lembrara de Emmett correndo pelo jardim.

De Edward sentado com seu livro, observando o caos de longe.

De Billy rindo.

Do pai chegando ao jardim e tentando inutilmente manter uma expressão séria.

Lembrara da voz de Carlisle.

Do sorriso de Carlisle.

E de Jacob.

Não ajoelhado diante de um penhasco.

Não gritando seu nome para um rio.

Mas correndo ao seu lado, com a mão presa à dela e o rosto aberto numa gargalhada.

Durante quinze anos, a memória que unia Sarah e Jacob terminava com uma mão escapando.

Agora havia outra.

Uma mão segurando a dela enquanto os dois corriam pelo jardim.

E, dessa vez, ninguém caiu.