MEMÓRIAS

19 CAPÍTULO 18 - Você chamou ele de quê?


Emmett Cullen conhecia Jacob Black havia vinte e cinco anos.

Isso lhe dava algumas vantagens.

Sabia exatamente qual expressão Jacob fazia quando estava irritado, qual fazia quando estava prestes a perder a paciência e qual aparecia quando queria expulsar alguém da sala, mas precisava lembrar que era presidente de uma empresa e não podia simplesmente jogar pessoas pela janela.

Sabia também que Jacob sorria pouco.

Depois da morte de Sarah, menos ainda.

Por isso, quando Emmett entrou no corredor e encontrou Sarah parada diante da parede de vidro da sala de Jacob, primeiro não entendeu o que estava acontecendo.

Sarah olhava para dentro.

Jacob olhava para fora.

Ela sorria.

Então Sarah mexeu os lábios.

Emmett não ouviu.

Mas leu perfeitamente.

Marido.

Jacob fechou os olhos.

E sorriu.

Emmett parou.

Olhou para Sarah.

Depois para Jacob.

Depois para Sarah novamente.

Um sorriso nasceu lentamente em seu rosto.

— Não acredito.

Sarah virou-se.

— O quê?

— Você chamou ele de marido.

Ela continuou andando.

— Não sei do que está falando.

Emmett acompanhou.

— Eu vi.

— Precisa consultar um oftalmologista.

— Eu li seus lábios.

— Além de engenheiro, agora é especialista em leitura labial?

— Você disse marido.

Sarah acelerou o passo.

Emmett também.

— Sarah.

— Tenho trabalho.

— Sarah!

Edward saía de uma sala de reuniões quando os viu.

— Por que vocês estão correndo?

Sarah respondeu:

— Não estamos.

Emmett apontou para ela.

— Ela chamou Jacob de marido.

Edward parou.

Sarah fechou os olhos.

— Eu odeio essa família.

Emmett abriu um sorriso.

— Acabou de recuperar e já odeia. Adaptação excelente.

Edward olhou para Sarah.

— Você chamou Jacob de quê?

— Não começa.

— Marido — Emmett respondeu.

— Eu perguntei para ela.

— Eu sou testemunha.

Sarah virou-se para Edward.

— Você é testemunha. Ele é o celebrante.

Emmett colocou a mão sobre o peito.

— Finalmente respeitam minha função.

Edward tentou não rir.

— Então você realmente chamou Jacob de marido?

Sarah cruzou os braços.

— Tecnicamente, considerando os acontecimentos históricos apresentados ontem...

Edward começou a rir.

— Meu Deus.

— Você estava lá!

— Eu tinha quatro anos.

— Mas foi testemunha.

— Contra minha vontade.

Emmett apontou para ele.

— Mentira. Você ganhou dois biscoitos.

Edward ficou sério.

— Retiro o que disse. Houve contraprestação.

Sarah encarou os dois.

— Vocês são ridículos.

Emmett passou um braço pelos ombros dela.

— E você é a senhora Black.

Sarah acertou-lhe o cotovelo.

— Ai!

— Assédio moral.

— Violência familiar!

Edward começou a caminhar.

— Posso sugerir que vocês parem antes que algum funcionário escute?

Emmett acompanhou.

— Não precisa. Posso enviar um comunicado interno.

Sarah parou.

— Faça isso e eu processo você.

— Emmett Cullen, celebrante oficial...

— Emmett.

— ...tem a honra de comunicar...

— Eu estou avisando.

— ...que depois de dezenove anos...

Sarah avançou.

Emmett correu.

Edward balançou a cabeça.

— Vocês têm cinco anos?

Sarah respondeu enquanto perseguia o irmão:

— Eu tinha quatro!


Jacob assistiu a tudo através do vidro.

E percebeu exatamente o instante em que Emmett entendeu.

— Perfeito.

Agora não teria paz.

Mas esse não era o verdadeiro problema.

O verdadeiro problema era que Sarah já havia virado o corredor e Jacob ainda estava olhando para o lugar onde ela estivera.

Marido.

Ele fechou os olhos.

Era uma piada.

Uma brincadeira.

Uma consequência direta das histórias da noite anterior.

Nada além disso.

Então por que tinha sorrido antes mesmo de conseguir impedir?

Jacob apoiou as mãos sobre a mesa.

Talvez porque fazia quinze anos que ninguém conseguia tocar naquela parte de sua infância sem provocar dor.

Sarah conseguia.

Ela pegara uma das lembranças que ele mantivera enterradas junto de tantas outras e a transformara em piada.

A cerimônia.

A toalha.

A arruela.

Durante quinze anos, Jacob mal conseguira pensar na infância sem chegar ao penhasco.

Agora conseguia lembrar de Sarah exigindo uma aliança e sentir vontade de rir.

Era isso.

Precisava ser.

A porta abriu.

Emmett entrou.

Jacob nem levantou os olhos.

— Sai.

— Bom dia.

— Sai.

— Que recepção desagradável para seu cunhado.

Jacob ergueu os olhos.

Emmett sorria.

— Eu vi.

— Não sei do que está falando.

— Claro que sabe.

Jacob voltou ao documento.

— Tenho trabalho.

Emmett sentou-se.

— Ela chamou você de marido.

Silêncio.

— Pela segunda vez hoje, aparentemente.

Jacob continuou lendo.

Ou fingindo.

— Vai embora.

— Você sorriu.

Jacob levantou os olhos.

— Emmett.

— Estou apenas observando.

— Então observa em silêncio.

— Isso seria desperdício de talento.

Jacob respirou fundo.

Emmett sorriu.

— Você gostou.

A frase o incomodou mais do que deveria.

— De quê?

— Dela chamando você de marido.

— Ela está me provocando.

— Não respondeu.

— Porque a pergunta é idiota.

— Isso também não é resposta.

Jacob fechou a pasta.

— O que você quer?

Emmett inclinou-se para a frente.

— Saber se preciso recuperar minha licença de celebrante.

Jacob ficou olhando para ele.

— Você tinha seis anos e segurava um livro de cabeça para baixo.

— Pormenores burocráticos.

— Sai da minha sala.

Emmett não se levantou.

— Jacob.

O tom mudou.

Jacob percebeu imediatamente.

— O quê?

— Estou brincando.

— Eu sei.

— Mas estou falando sério agora.

Jacob esperou.

Emmett o estudou.

— Você está diferente.

— Desde ontem todo mundo decidiu fazer análise psicológica?

— Não precisa ser psicólogo para perceber.

— Perceber o quê?

— Que você está rindo.

Jacob desviou os olhos.

Emmett continuou:

— De verdade.

Silêncio.

— Fazia tempo.

Jacob olhou para a janela.

— Eu sei.

— Ontem, na casa do pai... hoje com Sarah...

— Não transforma isso em alguma coisa que não é.

A resposta veio rápida demais.

Emmett percebeu.

Jacob também.

O irmão adotivo ergueu as sobrancelhas.

— Eu não transformei.

Jacob ficou quieto.

— Você fez isso sozinho.

— Emmett.

— Está bem.

Ele levantou as mãos.

— Não vou mexer nisso.

— Não existe “isso”.

Emmett abriu a boca.

Jacob apontou.

— Nem uma palavra.

Emmett fechou.

Por aproximadamente dois segundos.

— Posso falar outra coisa?

Jacob suspirou.

— Fala.

Emmett ficou sério.

— É bom ver você assim.

A irritação de Jacob diminuiu.

— Assim como?

— Parecendo você.

Aquilo o atingiu.

Emmett levantou-se.

— Não o Jacob presidente. Não o Jacob que precisa resolver tudo. Não o Jacob que fica acordado pensando em como proteger todo mundo.

Parou diante da porta.

— Você.

Jacob não soube responder.

Emmett abriu a porta.

Antes de sair, voltou ao normal.

— Embora eu continue disponível para renovar os votos.

Jacob pegou a caneta.

A porta fechou antes que pudesse atirá-la.

Jacob permaneceu imóvel.

Parecendo você.

O problema era que Jacob já não sabia exatamente quem era sem a culpa.

Durante quinze anos ela fizera parte dele.

Agora Sarah estava viva.

E, de repente, havia espaços vazios onde antes só existia dor.

Talvez fosse por isso que coisas novas estivessem conseguindo entrar.

Ele não sabia ainda o que eram.

E não pretendia dar nome cedo demais.


O humor desapareceu quando Edward entrou dez minutos depois.

Fechou a porta.

Emmett voltou com ele.

Sarah veio por último.

Jacob olhou para ela.

Foi automático.

Primeiro conferiu o rosto.

Depois as mãos.

Depois a postura.

Estava bem.

Só então percebeu o que acabara de fazer.

Sarah sentou.

Jacob voltou a olhar para os três.

— Precisamos conversar sobre Irina.

Emmett perdeu o sorriso.

Edward ficou sério.

Sarah respirou fundo.

— Eu já pedi desculpas.

Jacob olhou imediatamente para ela.

— Não estamos aqui para culpá-la.

E era verdade.

Ele estava preocupado.

Muito.

Mas não estava bravo.

Talvez devesse estar.

Tinham combinado segredo.

Sarah quebrara o acordo.

Irina era exatamente a pessoa que não poderia saber.

Mesmo assim, quando Jacob pensava na cena que presenciara, a irritação simplesmente não conseguia superar outra coisa.

Medo.

Não medo de Sarah.

Por Sarah.

E aquilo precisava ser controlado.

Porque o impulso imediato de Jacob era conhecido.

Colocar segurança.

Controlar acessos.

Verificar carros.

Rever rotas.

Manter Sarah perto.

O menino de dez anos dentro dele conhecia uma única resposta para perigo:

não soltar.

Mas Sarah não tinha dez anos.

E ele não tinha direito de transformar cuidado em controle.

Edward perguntou:

— Conta exatamente o que aconteceu.

Sarah relatou tudo.

A provocação.

A insinuação sobre Jacob.

Jacob ficou mais tenso nessa parte.

— Ela insinuou o quê exatamente?

Sarah olhou para ele.

— Que minha proximidade com a presidência poderia gerar comentários.

Emmett soltou um som irritado.

Edward franziu a testa.

Jacob ficou imóvel.

— Ela falou isso?

Sarah percebeu a mudança.

— Jacob.

— Estou perguntando.

— Falou.

— Com essas palavras?

— Mais ou menos.

Jacob apertou a mandíbula.

Sarah inclinou a cabeça.

— Por que isso te irritou tanto?

— Porque ela estava tentando diminuir você.

— Eu consigo me defender.

— Eu sei.

A resposta foi imediata.

Sarah ficou quieta.

Jacob também.

Ele respirou fundo.

— Eu sei que consegue.

E precisava saber.

Precisava repetir para si mesmo.

Sarah continuou o relato.

A frase de Irina sobre ela agir como se pertencesse àquela família.

Depois sua resposta.

Seu nome.

Carlisle.

Esme.

DNA.

Jacob observava Sarah enquanto ela falava.

Não apenas porque precisava reconstruir a conversa.

Porque ainda era estranho ouvi-la dizer:

Meu pai.

Minha mãe.

Meus irmãos.

Sarah estava começando a ocupar o próprio lugar.

E Irina tentara dizer que aquele lugar não era dela.

Jacob compreendeu por que Sarah reagira.

Provavelmente teria reagido igual.

Quando ela terminou, Edward perguntou:

— Ela disse literalmente que Sarah Cullen morreu?

— Sim.

— E depois?

Sarah pensou.

— Quando eu disse que desapareci, ela falou que não encontraram meu corpo.

Jacob imediatamente olhou para Edward.

Emmett também percebeu.

— Isso é estranho? — Sarah perguntou.

Jacob respondeu:

— Pode não ser.

— Mas?

Ele hesitou.

— Mas não gosto.

— Por quê?

— Porque a reação dela não foi só surpresa.

Sarah ficou séria.

— Você disse que viu medo.

— Vi.

Jacob lembrava perfeitamente.

O rosto de Irina perdendo a cor.

A pausa.

As perguntas.

Quem sabe?

Não “onde você estava?”

Não “como sobreviveu?”

Não “quem encontrou você?”

Quem sabia.

Jacob sentiu o desconforto voltar.

— A primeira preocupação dela foi descobrir quem conhecia a verdade.

Edward apoiou os braços nos joelhos.

— Billy.

— Eu.

— Nós — Emmett completou.

Jacob assentiu.

— Ela estava fazendo inventário de informação.

Sarah olhou para ele.

A advogada apareceu imediatamente.

— Avaliando exposição.

Jacob encontrou seu olhar.

— Foi o que pensei.

Sarah ficou em silêncio.

E naquele instante algo mudou novamente.

Não era a brincadeira da manhã.

Não era atração.

Era outra coisa.

Sintonia.

Sarah chegara à mesma conclusão que ele usando uma linguagem diferente.

Jacob percebeu que gostava de pensar com ela.

Aquilo talvez fosse ainda mais perigoso que o sorriso.


— E não quero segurança me seguindo — Sarah disse alguns minutos depois.

Jacob não respondeu.

Porque tinha pensado exatamente nisso.

Sarah estreitou os olhos.

— Jacob.

— Não falei nada.

— Seu rosto falou.

Emmett começou a sorrir.

Edward olhou para Jacob.

— Ela realmente lê você rápido.

— Cala a boca.

Sarah cruzou os braços.

— Não quero seguranças.

— Eu não falei em seguranças.

— Pensou.

— Pensar ainda é permitido.

— Dependendo do pensamento.

Jacob respirou fundo.

— Sarah.

— Jacob.

— Você acabou de revelar para Irina uma informação que nós deliberadamente escondemos porque não sabemos exatamente qual foi o envolvimento dela nos acontecimentos de quinze anos atrás.

— Eu sei.

— Então alguma precaução é razoável.

— Precaução, sim. Um homem de dois metros me seguindo até o supermercado, não.

— Ninguém falou em dois metros.

Sarah arregalou os olhos.

— Então você realmente já está escolhendo!

Emmett soltou uma gargalhada.

Jacob percebeu o erro.

— Foi hipotético.

— Mentiroso.

— Eu não minto.

— Acabou de mentir.

Edward massageou a testa.

— Isso vai ser cansativo.

Emmett olhou para ele.

— Isso vai ser maravilhoso.

Sarah voltou para Jacob.

— Eu decido sobre minha segurança.

Ele quase respondeu imediatamente.

Quase disse não.

Quase disse que não era tão simples.

Então parou.

Olhou para ela.

Sarah sustentou o olhar.

E Jacob viu não a menina que segurara sua mão.

A mulher.

— Certo.

Sarah pareceu surpresa.

— Certo?

— Você decide.

Ela relaxou.

Jacob continuou:

— Com todas as informações.

O olhar desconfiado voltou.

— O que significa?

— Que eu vou apresentar opções.

— Jacob.

— Opções.

— Quantas?

— Algumas.

— Defina algumas.

— Sarah.

— Jacob.

Emmett olhou para Edward.

— Casados.

Edward murmurou:

— Muito.

Sarah e Jacob viraram ao mesmo tempo.

— CALA A BOCA, EMMETT.

Silêncio.

Emmett abriu um sorriso triunfante.

Jacob fechou os olhos.

Sarah cobriu o rosto.

Edward começou a rir.

E Jacob percebeu, para seu próprio desconforto, que uma parte dele também queria rir.


Billy chegou pouco antes do almoço.

Depois que Sarah contou tudo novamente, a conversa mudou para as consequências jurídicas de sua volta.

Quando Billy disse que Sarah era herdeira de Carlisle, Jacob observou a transformação.

Sarah deixou de ser apenas a filha tentando compreender o passado.

Virou advogada.

— Quero ver o testamento do meu pai.

A voz ficou objetiva.

Segura.

Billy assentiu.

— Claro.

— Estatuto social, alterações contratuais, acordos de acionistas, inventário, documentos sucessórios e tudo que foi feito depois da minha declaração de morte presumida.

Jacob olhou para ela.

E sentiu algo que não esperava.

Admiração.

Não pela criança que fora.

Pela mulher.

Sarah não estava pedindo que resolvessem por ela.

Queria documentos.

Fatos.

Queria compreender.

— E quero entender os dez por cento de Irina.

Jacob respondeu:

— O testamento de Carlisle destinou a ela dez por cento do total da companhia.

Sarah assentiu.

— E os outros quarenta por cento correspondentes ao lado Cullen foram destinados aos filhos.

Billy respondeu:

— Em termos gerais. Precisamos analisar como os atos sucessórios posteriores trataram tudo isso, especialmente considerando que você foi presumida morta.

— Exatamente.

Sarah já parecia mentalmente organizando uma lista.

Jacob quase sorriu.

Emmett percebeu.

Claro que percebeu.

— O quê? — Sarah perguntou.

Jacob desviou os olhos.

— Nada.

— Você estava sorrindo.

— Não estava.

— Estava.

Emmett apontou.

— Estava.

Jacob olhou para ele.

— Você não tem trabalho?

— Tenho. Isso aqui está melhor.

Sarah continuou encarando Jacob.

— Por que estava sorrindo?

Ele poderia inventar alguma coisa.

Não quis.

— Porque você descobriu ontem que é herdeira de um grupo empresarial e sua primeira reação foi pedir documentos.

Sarah arqueou uma sobrancelha.

— Sou advogada.

— Eu sei.

— Isso foi elogio?

Jacob sustentou o olhar dela.

— Foi.

Sarah ficou quieta.

O sorriso que apareceu foi menor.

Diferente.

E Jacob sentiu novamente aquela pequena alteração no peito.

Emmett olhou para Edward.

Edward percebeu.

Os dois permaneceram milagrosamente calados.

Billy, porém, sorriu.

Jacob viu.

— Nem começa, pai.

Billy levantou as mãos.

— Não falei nada.

— Conheço essa cara.

— Eu só estou feliz.

E aquilo desmontou qualquer resposta.

Porque Billy realmente estava.

Todos estavam.


Quando Sarah recebeu a mensagem de Rosalie e o assunto mudou, a sala voltou a ficar barulhenta.

— Temos outro problema — ela anunciou.

Emmett ficou alarmado.

— Qual?

— Rosalie.

Jacob quase riu antes mesmo de ouvir o resto.

Emmett empalideceu.

— Ela sabe?

— Não.

— Então não temos problema.

Sarah mostrou o telefone.

— Ela percebeu que você está estranho.

Edward comentou:

— Isso não reduz muito as possibilidades.

Sarah leu:

— “Você anda estranha e Emmett está ainda mais estranho que o normal. Isso é preocupante.”

Jacob soltou uma risada.

Emmett apontou para ele.

— Não ajuda.

— É uma descrição precisa.

Sarah sorriu.

— Ela vai descobrir.

Emmett passou a mão pelo rosto.

— Vai me matar.

— Provavelmente.

Edward parecia satisfeito demais.

Sarah olhou para ele.

— E Isabella?

Edward perdeu o sorriso.

Emmett recuperou o dele.

— Ah.

— Não — Edward avisou.

Sarah franziu a testa.

— O quê?

Emmett abriu a boca.

Edward apontou.

— Não.

— Ela merece saber.

— Saber o quê? — Sarah perguntou.

Jacob percebeu antes.

E começou a sorrir.

Edward olhou para ele.

— Nem você.

Jacob levantou as mãos.

— Eu não falei nada.

Emmett falou:

— Isabella tinha ciúmes de você.

Sarah ficou imóvel.

— De mim?

— Muito.

Sarah virou-se lentamente para Edward.

— Da sua irmã gêmea?

Jacob começou a rir.

Não conseguiu impedir.

Edward lançou-lhe um olhar irritado.

— Ninguém sabia!

Sarah estava indignada e divertida ao mesmo tempo.

— Mas você literalmente dizia que me via como irmã!

— Porque aparentemente meu cérebro sabia antes de mim!

Sarah começou a rir.

Jacob olhou para ela.

E foi naquele momento.

Não quando ela o chamou de marido.

Não quando discutiram segurança.

Não quando pediu os documentos de Carlisle.

Ali.

Sarah estava rindo com a cabeça levemente inclinada para trás, uma mão sobre o estômago enquanto Edward tentava se defender e Emmett tornava tudo pior.

Jacob simplesmente olhou.

O som atingiu alguma coisa dentro dele.

Durante quinze anos, quando pensava em Sarah, ouvia água.

Agora ouvia aquilo.

A risada dela.

E percebeu que queria continuar ouvindo.

A constatação veio tão silenciosa que ninguém percebeu.

Nem mesmo Sarah.

Mas Jacob sentiu.

E dessa vez não conseguiu atribuir ao passado.

Não queria ouvir a risada da menina de oito anos.

Queria ouvir aquela.

Da mulher diante dele.

Aquilo o assustou um pouco.

Não porque fosse errado.

Porque era novo.

E Jacob havia passado tanto tempo vivendo entre coisas antigas que quase esquecera como era sentir alguma coisa sem já conhecer sua origem.

Sarah virou-se.

Pegou-o olhando.

O riso diminuiu.

Os olhos se encontraram.

Jacob deveria desviar.

Não desviou.

Sarah também não.

Por um instante, o barulho de Emmett e Edward parececeu ficar distante.

Então Sarah sorriu para ele.

Não a provocação do “marido”.

Não o sorriso da advogada.

Um sorriso pequeno.

Só para ele.

Jacob sentiu o peito apertar.

Dessa vez não de culpa.

E essa diferença foi impossível ignorar.

Ele sorriu de volta.


Mais tarde, quando todos saíram e Jacob ficou sozinho, a preocupação retornou.

Irina sabia.

Aro provavelmente saberia em poucas horas.

Aquilo era concreto.

Perigoso.

Exigia atenção.

Jacob pegou o telefone.

Ligou para Billy.

Conversaram sobre documentos, segurança e sobre a necessidade de revisitar tudo que sabiam a respeito do ataque.

Depois desligou.

Ficou sentado.

A sala estava silenciosa.

Então olhou através do vidro.

Sarah apareceu no corredor.

Sozinha.

Ela caminhava lendo alguma coisa.

Parou.

Sentiu o olhar.

Levantou a cabeça.

Encontrou Jacob.

Sarah sorriu.

Então levantou a mão esquerda.

Apontou para o dedo anelar vazio.

A arruela.

Jacob soltou uma risada.

Balançou a cabeça.

Sarah fez uma expressão indignada, como se exigisse reparação por dezenove anos de abandono matrimonial.

Jacob apontou para ela e articulou lentamente:

Trabalha.

Sarah respondeu, também sem som:

Marido ruim.

Jacob riu outra vez.

Sarah seguiu pelo corredor.

Ele acompanhou-a com os olhos.

E, quando ela desapareceu, a verdade continuou ali.

Jacob se preocupava com Irina.

Preocupava-se com Aro.

Preocupava-se com o que a volta de Sarah significaria.

Preocupava-se com os documentos.

Com o passado.

Com a segurança.

Mas agora havia outra coisa ocupando um espaço pequeno entre todas aquelas preocupações.

Sarah.

Não Sarah Cullen aos oito anos.

Não a menina que ele não conseguira segurar.

Sarah aos vinte e três.

A advogada que discutia com ele.

Que não aceitava ordens.

Que ria alto.

Que o chamava de marido só para vê-lo perder a paciência.

Que o fazia sorrir sem esforço.

Jacob passou a mão pelo rosto.

Não estava apaixonado.

Sabia disso.

Aquilo seria uma palavra grande demais, precoce demais e injusta com os dois.

Mas estava atraído por ela.

Essa verdade, pequena e incômoda, ele já não conseguia negar.

E era justamente por reconhecer isso que precisava ter cuidado.

Sarah merecia descobrir quem era sem encontrar mais uma pessoa tentando dizer quem deveria ser.

Se algum dia houvesse alguma coisa entre eles, não poderia nascer de uma promessa feita por duas crianças.

Precisaria ser uma escolha.

Dela.

Dele.

Dos adultos que haviam se tornado.

Jacob respirou fundo.

Então seu telefone vibrou.

Mensagem de Sarah.

Preciso da documentação societária que pedi. E não tente esconder nada de mim, marido.

Jacob ficou olhando para a tela.

Sorriu.

Digitou:

Pare de me chamar assim.

A resposta chegou imediatamente.

Não.

Jacob:

Isso é assédio ao presidente.

Sarah:

Denuncie ao jurídico.

Ele riu.

Digitou:

Você é o jurídico.

Três pontinhos apareceram.

Que situação difícil para você.

Jacob encostou-se na cadeira.

Olhou para a mensagem.

E percebeu que estava esperando a próxima.

O telefone vibrou.

Boa tarde, marido.

Jacob fechou os olhos.

Sorriu.

E respondeu antes de pensar demais:

Boa tarde, esposa.

Enviou.

Ficou imóvel.

— Droga.

Do outro lado do andar, Sarah Clearwater parou no meio do corredor olhando para o celular.

E, pela primeira vez desde que aquela brincadeira começara, foi ela quem não soube o que responder.