MEMÓRIAS
20 CAPÍTULO 19- Boa tarde, esposa
Sarah Clearwater era uma mulher difícil de deixar sem resposta.
Profissionalmente, aquilo era quase um requisito.
Tinha aprendido cedo a organizar pensamentos depressa, identificar fragilidades numa argumentação e responder antes que o interlocutor tivesse oportunidade de transformar segurança em vantagem.
Em audiências, reuniões e negociações, silêncio raramente era falta de resposta.
Era estratégia.
Naquela tarde, porém, Sarah ficou parada no meio do corredor da Cullen & Black, segurando o telefone e olhando para duas palavras na tela.
Boa tarde, esposa.
Piscou.
Leu novamente.
Boa tarde, esposa.
O problema não era a palavra.
Ela mesma começara aquilo.
Tinha entrado na sala de Jacob naquela manhã dizendo:
Bom dia, marido.
Tinha repetido.
Provocado.
Apontado para o dedo anelar.
Mandado mensagens.
Era uma brincadeira.
Uma história absurda sobre duas crianças de quatro e seis anos, uma toalha transformada em véu, uma arruela transformada em aliança, Emmett celebrando uma cerimônia com um livro de cabeça para baixo e Edward servindo como testemunha.
Então por que aquilo parecia diferente quando vinha dele?
Sarah olhou para a tela.
Talvez porque Jacob não tivesse entrado na brincadeira até aquele momento.
Ela atacava.
Ele reclamava.
Ela chamava de marido.
Ele mandava parar.
Esse era o acordo silencioso.
Agora ele quebrara as regras.
Sarah começou a digitar.
Finalmente aceitou a verdade.
Apagou.
Tentou outra.
Vou providenciar a cobrança retroativa da pensão.
Apagou também.
— Meu Deus.
— Problema?
Sarah quase deixou o telefone cair.
Virou-se.
Edward estava atrás dela.
— Não.
Ele estreitou os olhos.
— Você está parada no corredor olhando para o celular há quase um minuto.
— Estou trabalhando.
— No corredor?
— Direito contemporâneo.
Edward aproximou-se.
Sarah imediatamente bloqueou a tela.
O movimento foi rápido demais.
Edward percebeu.
— O que é isso?
— Nada.
— Sarah.
— Edward.
— Você escondeu o telefone.
— Privacidade existe.
Ele sorriu.
— Quem mandou mensagem?
— Ninguém.
— Então por que está vermelha?
Sarah arregalou os olhos.
— Eu não estou vermelha.
— Está.
— É calor.
Edward olhou ao redor.
— O ar-condicionado está em vinte e um graus.
— Eu odeio gêmeos.
— Você é uma.
Sarah apontou para ele.
— Exatamente por isso tenho autoridade para dizer.
Edward começou a rir.
Sarah saiu andando.
— Sarah.
— Tenho trabalho.
— Quem mandou mensagem?
— Vai trabalhar, Edward.
Ele ficou parado observando-a.
Então olhou através do corredor.
Para a sala de Jacob.
Jacob estava sentado atrás da mesa.
Com o telefone na mão.
Sorrindo.
Edward ergueu uma sobrancelha.
— Ah.
Sarah ouviu.
Parou.
Virou lentamente.
— “Ah” o quê?
Edward olhou para ela.
Depois para Jacob.
Depois para ela novamente.
— Nada.
— Edward.
— Absolutamente nada.
O sorriso dele dizia exatamente o contrário.
Sarah voltou e segurou o braço do irmão.
— Você não vai contar para Emmett.
— Contar o quê?
— Isso que você acha que descobriu.
— Eu não descobri nada.
— Ótimo.
— Mas agora estou muito interessado.
Sarah soltou-o.
— Eu preferia quando não tinha irmãos.
Edward riu.
— Mentira.
Ela começou a andar.
— Neste exato momento, não.
Jacob ainda estava olhando para o celular.
Nenhuma resposta.
Passaram dois minutos.
Cinco.
Sete.
Nada.
E aquilo era extraordinariamente divertido.
Sarah sempre tinha resposta.
Para tudo.
Principalmente para ele.
Jacob abriu a conversa.
Leu novamente.
Boa tarde, esposa.
Talvez tivesse ido longe demais.
Pensou por alguns segundos.
Então lembrou-se dela apontando para o dedo anelar através do vidro.
Não.
Ela merecera.
Dez minutos.
Nada.
Jacob sorriu.
Finalmente encontrara uma maneira de fazê-la ficar quieta.
Guardou o telefone.
Trinta segundos depois, pegou novamente.
Ainda nada.
— Patético — murmurou.
Deixou sobre a mesa.
A porta abriu.
Edward entrou.
Jacob olhou.
O sorriso do irmão o deixou imediatamente desconfiado.
— O quê?
— Nada.
— Essa família precisa aprender que essa palavra tem significado.
Edward sentou-se.
— Você mandou alguma mensagem para Sarah?
Jacob manteve o rosto neutro.
— Assunto profissional.
— Interessante.
— Por quê?
— Ela estava parada no corredor olhando para o telefone.
Jacob sentiu vontade de sorrir.
Não sorriu.
— E?
— Vermelha.
Agora foi impossível.
O canto de sua boca subiu.
Edward viu.
— Ah.
— Para.
— Eu não falei nada.
— Mas vai.
Edward recostou-se.
— O que você mandou?
— Não interessa.
— Então foi você.
Jacob percebeu o erro.
— Edward.
— Jacob.
— Você está passando tempo demais com ela.
— Ela é minha irmã.
Jacob olhou para ele.
Edward ficou sério.
— E você é meu irmão.
A frase diminuiu a brincadeira.
— Então vou dizer uma coisa só uma vez.
— Isso parece ameaça.
— Não é.
Edward hesitou.
— Eu vi você olhando para ela hoje.
Jacob ficou imóvel.
— Edward...
— Não estou dizendo que existe alguma coisa.
— Porque não existe.
Edward assentiu.
— Certo.
— O que significa esse “certo”?
— Significa certo.
— Você não acredita.
— Eu acredito que você acredita.
Jacob passou a mão pelo rosto.
— Meu Deus.
Edward quase sorriu.
— Só tenha cuidado.
Jacob ficou sério.
— Com ela?
— Com vocês dois. Sarah acabou de descobrir que teve outra vida antes dos oito anos. Ela precisa descobrir quem é com tudo isso antes de qualquer outra coisa.
— Eu sei.
— Eu sei que sabe.
Jacob respirou fundo.
— Não vou colocar nada sobre ela.
Edward assentiu.
Era exatamente o que queria ouvir.
O telefone vibrou pouco depois.
Sarah.
Isso foi golpe baixo.
Jacob sorriu.
O quê?
Você sabe.
Não faço ideia.
“Esposa”.
Jacob recostou-se.
Você pode me chamar de marido, mas eu não posso chamar você de esposa?
Demorou.
Eu comecei primeiro.
Isso normalmente dá prioridade?
Sim.
Base legal?
Sarah demorou alguns segundos.
Não preciso fornecer minha estratégia jurídica à parte contrária.
Jacob riu.
Então somos partes contrárias agora?
Depende.
De quê?
Os três pontos apareceram.
Sumiram.
Voltaram.
Finalmente:
De você parar de usar minhas próprias piadas contra mim.
Jacob respondeu:
Não.
Idiota.
Boa tarde, esposa.
EU TE ODEIO.
Jacob começou a rir.
E Emmett entrou exatamente naquele momento.
Parou.
Olhou para Jacob.
Depois para o telefone.
— É ela.
Jacob colocou o celular virado para baixo.
— Tenho trabalho.
— Você está rindo para o telefone.
— Pessoas fazem isso.
— Você não.
Jacob levantou-se.
— Agora faço.
Emmett ficou quieto por um instante.
A frase tinha mais peso do que Jacob pretendera.
Então o sorriso voltou.
— O que você mandou?
— Nada.
— Chamou ela de marido?
Jacob o encarou.
— Como exatamente eu chamaria Sarah de marido?
Emmett pensou.
— Justo. Então...
Os olhos dele se arregalaram.
— Você chamou ela de esposa.
Jacob ficou em silêncio.
Emmett levou as duas mãos à cabeça.
— Você chamou minha irmã de esposa!
— Fala baixo.
— Meu Deus.
— Emmett.
— Preciso contar para Edward.
— Ele já sabe.
Silêncio.
Jacob percebeu o erro tarde demais.
O sorriso de Emmett tornou-se gigantesco.
— Isso está ficando cada vez melhor.
No dia seguinte, Sarah escolheu um restaurante discreto.
Rosalie percebeu que havia algo errado antes mesmo de sentar.
Sarah estava séria demais.
Edward também.
Emmett, por sua vez, estava fazendo piadas demais, o que para Rosalie era um sinal ainda mais evidente de nervosismo.
Isabella percebeu a mesma coisa.
Quando todos estavam acomodados, Rosalie olhou para Sarah.
— O que aconteceu?
Sarah respirou fundo.
Não sabia por onde começar.
Estranhamente, contar para Irina tinha sido mais fácil.
Talvez porque Irina não importasse da mesma forma.
Rosalie importava.
Rosalie conhecia Sarah Clearwater.
Conhecia sua faculdade, seus primeiros casos importantes, seus defeitos, seus hábitos, suas manias.
Fora Rosalie quem dissera:
Você precisa conhecer Emmett. A empresa está procurando alguém exatamente como você.
Sarah olhou para a amiga.
— Antes de eu contar qualquer coisa, preciso pedir que isso fique entre nós.
Rosalie imediatamente ficou séria.
— Claro.
Isabella assentiu.
— Claro.
Sarah olhou para Edward e Emmett.
Pela primeira vez, sentiu dificuldade para dizer.
Emmett percebeu.
— Quer que eu fale?
Sarah balançou a cabeça.
— Não.
Precisava ser ela.
— Há alguns dias eu descobri que Harry e Sue não são meus pais biológicos.
Rosalie ficou imóvel.
— O quê?
Sarah viu o choque surgir.
— Eles me adotaram quando eu tinha oito anos.
— Sarah...
Rosalie estendeu a mão sobre a mesa.
Sarah segurou.
— Eu não sabia.
— Como você não sabia?
— Porque eu não lembrava de nada anterior.
Isabella franziu a testa.
— Nada?
— Nada.
Sarah contou sobre a amnésia.
Sobre Harry encontrá-la.
Sobre o rio.
Sobre as semanas no hospital.
Sobre o fato de ela saber apenas o próprio primeiro nome.
Rosalie já tinha lágrimas nos olhos.
— Meu Deus, Sarah.
— Harry e Sue tentaram descobrir quem eu era. Não conseguiram.
— E você cresceu achando...
— Que eles eram meus pais biológicos.
Rosalie apertou sua mão.
— Você está bem?
Sarah soltou uma pequena risada.
— Todo mundo pergunta isso.
— Porque eu preciso saber.
Sarah ficou alguns segundos em silêncio.
— Às vezes.
A honestidade fez Rosalie apertar ainda mais sua mão.
— Às vezes eu estou bem. Às vezes parece que alguém pegou minha vida inteira e colocou outra vida embaixo dela. E eu ainda estou tentando entender como as duas cabem na mesma pessoa.
Ninguém falou.
Então Sarah continuou:
— Quando comecei a trabalhar na Cullen & Black, algumas coisas começaram a acontecer.
Isabella olhou discretamente para Edward.
Sarah percebeu.
— Edward começou a agir como se precisasse cuidar de mim sem entender por quê.
Edward assentiu.
— Emmett começou a me tratar com uma intimidade que não fazia sentido.
— Eu sou naturalmente encantador — Emmett murmurou.
Rosalie deu-lhe um olhar.
— Agora não.
— Certo.
Sarah quase sorriu.
— Billy olhou para mim e disse que eu tinha o sorriso e os olhos de Esme.
Rosalie franziu a testa.
Conhecia o nome.
Todo mundo próximo de Emmett conhecia.
A mãe que ele perdera.
Sarah continuou:
— E Jacob...
Parou.
Por um instante, a mão sobre o penhasco atravessou sua mente.
— Jacob reconheceu alguma coisa nos meus olhos antes mesmo de saber o que estava reconhecendo.
Isabella começou a ficar pálida.
Sarah percebeu.
— Quinze anos atrás, uma menina de oito anos desapareceu depois de um ataque contra a família Cullen.
Rosalie olhou para Emmett.
Ele não desviou.
— A irmã de vocês — ela murmurou.
Emmett assentiu.
Os olhos dele ficaram marejados.
— Nossa irmã.
Rosalie voltou lentamente para Sarah.
O entendimento começou.
Sarah sentiu sua própria garganta apertar.
— O nome dela era Sarah Cullen.
Rosalie parou de respirar por um segundo.
Isabella levou a mão à boca.
Sarah continuou, apesar da voz começar a falhar.
— Filha de Carlisle Cullen e Esme Cullen.
Olhou para Edward.
Depois para Emmett.
— Irmã mais nova de Emmett.
Emmett engoliu em seco.
Sarah então olhou diretamente para Edward.
— Irmã gêmea de Edward.
Isabella virou imediatamente para ele.
Edward tinha os olhos cheios de lágrimas.
Sarah respirou.
— Eu.
Silêncio.
Rosalie simplesmente a encarou.
Sarah sentiu necessidade de dizer claramente.
— Eu sou Sarah Cullen.
Rosalie balançou a cabeça devagar, como se precisasse reorganizar tudo que sabia.
— Não...
Não era negação.
Era espanto.
— Fizemos DNA — Edward disse baixinho.
Rosalie olhou para ele.
— DNA?
— Eu e Emmett.
Edward engoliu em seco.
— É ela.
A voz falhou na última palavra.
E aquilo mudou tudo.
Até então, Sarah estava contando uma história.
Quando Edward disse é ela, deixou de ser história.
Era família.
Rosalie levantou-se tão rápido que a cadeira arrastou no chão.
Contornou a mesa.
Sarah também se levantou.
Rosalie a abraçou.
Forte.
Sarah fechou os olhos.
— Meu Deus — Rosalie sussurrou. — Meu Deus, Sarah.
Sarah apertou os braços ao redor dela.
Rosalie chorava.
— Você estava aqui.
Sarah sentiu o corpo ficar tenso.
— O quê?
Rosalie se afastou apenas o suficiente para olhar para ela.
— Você estava aqui o tempo todo.
Sarah franziu a testa.
Rosalie virou para Emmett.
— Eu apresentei vocês.
Emmett assentiu.
Rosalie olhou novamente para Sarah.
— Fui eu.
A compreensão atingiu as duas ao mesmo tempo.
— Rosie...
— Eu coloquei você naquela empresa.
Sarah sentiu os olhos arderem.
Rosalie começou a rir entre lágrimas.
— Eu passei semanas dizendo que você era perfeita para aquela vaga.
Emmett levantou-se.
— Você estava certa.
Rosalie virou para ele.
— Eu levei sua irmã até você.
Emmett perdeu o sorriso.
A frase o atingiu.
Rosalie continuou:
— Sem saber.
Emmett atravessou o espaço e abraçou as duas.
Sarah ficou presa entre eles.
— Isso é culpa sua — Emmett murmurou para Rosalie.
Ela começou a chorar ainda mais.
— Não fala assim.
— É uma coisa boa.
Ele beijou sua testa.
— Você trouxe ela para casa.
Sarah fechou os olhos.
A frase doeu e confortou ao mesmo tempo.
— Não — disse baixinho.
Emmett se afastou, preocupado.
Sarah segurou a mão de Rosalie.
— Você me levou até eles.
Olhou para os irmãos.
Depois completou:
— Minha casa ainda é com Harry e Sue.
Rosalie assentiu imediatamente.
— Claro.
Emmett também.
— Claro.
Sarah respirou.
— Eu só preciso que as duas coisas possam existir.
Edward respondeu:
— Podem.
Simples.
Sem hesitação.
— Você não precisa trocar uma família pela outra.
Sarah olhou para ele.
E sorriu.
Isabella ainda não tinha falado.
Quando Sarah se sentou novamente, percebeu que ela estava chorando silenciosamente.
— Isabella?
Ela balançou a cabeça.
— Eu sou uma idiota.
Edward imediatamente:
— Não.
— Sou.
— Bella...
Ela olhou para Sarah.
— Eu tive ciúmes de você.
Sarah quase sorriu.
— Eu sei.
— Não, você não entende.
Isabella limpou uma lágrima, constrangida.
— Eu achei que ele estivesse se apaixonando por você.
Edward fechou os olhos.
Emmett mordeu o lábio para não rir.
Rosalie lançou-lhe um olhar mortal.
Sarah permaneceu quieta.
Isabella continuou:
— Ele olhava para você de um jeito diferente. Prestava atenção em tudo. Se você estava cansada, se tinha comido, se alguém falava alguma coisa que ele não gostava...
Edward olhou para Sarah.
Agora tudo parecia tão óbvio.
— E quando eu perguntava — Isabella continuou — ele dizia que não sabia explicar. Que você parecia...
Ela olhou para Edward.
Ele completou:
— Minha irmã.
Isabella riu, chorando.
— Exatamente.
Sarah sentiu um arrepio.
Edward também.
Isabella cobriu a boca.
— Você dizia literalmente isso.
Edward assentiu.
— Eu sei.
— Antes de saber.
— Eu sei.
Sarah olhou para o irmão.
Ele estava olhando para ela.
Aquele mesmo olhar protetor que a confundira desde o primeiro encontro.
Agora tinha nome.
Gêmeo.
Sarah estendeu a mão.
Edward segurou.
Isabella observou.
E toda a insegurança que sentira nas últimas semanas pareceu mudar de forma.
Não desapareceu porque alguém dissesse que fora absurda.
Desapareceu porque finalmente havia uma explicação.
— Eu sinto muito — Isabella disse.
Sarah balançou a cabeça.
— Não precisa.
— Preciso.
— Isabella, olha para mim.
Ela olhou.
— Você não sabia.
— Mas eu fui fria com você algumas vezes.
— Foi.
Edward olhou para Sarah.
— Ajuda bastante.
— Estou sendo honesta.
Isabella soltou uma pequena risada.
Sarah apertou sua mão.
— Você viu seu namorado agir de uma maneira completamente diferente com uma mulher que apareceu do nada. Nem ele conseguia explicar. Eu provavelmente também teria estranhado.
Isabella respirou fundo.
— Mesmo?
— Sou advogada. Desconfiança é praticamente requisito profissional.
Isso arrancou um sorriso.
Então Isabella olhou para Edward.
— Você sentia que ela era sua irmã.
Ele demorou a responder.
— Eu não sabia.
— Mas sentia.
Edward olhou para Sarah.
— Alguma parte de mim, talvez.
Sarah apertou a mão dele.
Nenhum dos dois precisava transformar aquilo em algo inexplicável.
Tinham crescido juntos durante oito anos.
Vozes, expressões, gestos, maneiras de olhar.
O cérebro podia guardar coisas que a memória consciente não sabia nomear.
Talvez fosse apenas isso.
Mas era suficiente.
Rosalie ainda parecia estar montando as peças.
— Espera.
Todos olharam.
— Jacob.
Sarah congelou por uma fração de segundo.
Emmett percebeu.
Edward também.
Rosalie não.
— Jacob estava lá quando ela desapareceu.
Emmett assentiu.
— Estava.
Rosalie olhou para Sarah.
— Foi ele?
Sarah entendeu.
— A voz.
Rosalie franziu a testa.
Sarah já lhe contara sobre os sonhos algumas vezes ao longo dos anos.
Não todos os detalhes.
Mas o suficiente.
— O menino que pedia desculpas — Rosalie disse.
Sarah assentiu.
— Jacob.
Rosalie levou a mão à boca novamente.
— Meu Deus.
Sarah respirou fundo.
— Nós caímos... quer dizer, eu caí de um penhasco acima do rio. Jacob segurou minha mão.
A voz ficou menor.
— Ele tentou me puxar.
Emmett desviou o rosto.
Edward apertou a mandíbula.
— Minha mão escapou.
Rosalie já chorava novamente.
— E ele passou quinze anos achando...
— Que tinha me deixado morrer.
Silêncio.
Rosalie fechou os olhos.
— Sarah.
— O quê?
— Agora eu entendo.
— O quê?
— O jeito que ele olhava para você quando você chegou.
Sarah ficou quieta.
Emmett interveio imediatamente:
— Naquela época ele não sabia quem ela era.
Rosalie assentiu.
— Eu sei. Não estou falando de romance.
Sarah sentiu algo estranho com a necessidade de esclarecimento.
Rosalie continuou:
— Estou falando de reconhecimento. Como se alguma coisa nele entrasse em alerta sempre que você estava perto.
Sarah lembrou.
Do primeiro aperto de mão.
Dos olhos de Jacob.
Do desconforto.
Da proteção inexplicável.
— Ele reconheceu meus olhos — disse.
— E você reconheceu a voz dele.
Sarah tocou inconscientemente o peito.
Rosalie viu o gesto.
Sarah percebeu e baixou a mão.
— Aos poucos.
Rosalie ficou alguns segundos em silêncio.
— E ele está bem?
A pergunta surpreendeu Sarah.
— Melhor.
Emmett respondeu antes dela:
— Muito melhor.
Sarah olhou para ele.
Emmett sorriu.
— Você não viu Jacob antes.
— Vi.
— Não esse.
Sarah pensou no sorriso.
E, contra a própria vontade, lembrou da mensagem.
Boa tarde, esposa.
Rosalie estreitou os olhos.
Sarah percebeu tarde demais.
— O quê?
— Nada.
Sarah conhecia aquele “nada”.
— Rosalie.
— Depois.
— Não existe depois.
— Existe, sim.
Emmett olhou entre as duas.
— O que eu perdi?
— Nada — responderam juntas.
Edward começou a rir.
Quando o almoço terminou, Rosalie abraçou Sarah novamente do lado de fora do restaurante.
Dessa vez demorou mais.
— Você continua sendo você — disse.
Sarah fechou os olhos.
Precisava ouvir aquilo.
— Obrigada.
— Sarah Cullen não apaga Sarah Clearwater.
Sarah assentiu.
— Eu sei.
— E você não precisa resolver tudo agora.
— Eu sei.
Rosalie se afastou.
— Mas tem uma coisa.
— O quê?
Rosalie sorriu.
— Eu sempre soube que apresentar você ao Emmett seria uma boa ideia.
Sarah começou a rir.
— Você não tinha exatamente isso em mente.
— Detalhes.
Emmett aproximou-se.
— Tecnicamente, ela reuniu uma família perdida.
Rosalie olhou para ele.
— Você está tentando evitar a discussão sobre ter escondido isso de mim?
— Está funcionando?
— Não.
— Droga.
Sarah riu.
Isabella aproximou-se depois.
Parecia hesitante.
Sarah abriu os braços.
Isabella sorriu e a abraçou.
— Desculpa — sussurrou.
Sarah apertou-a.
— Acabou.
Quando se afastaram, Isabella olhou para Edward.
Depois para Sarah.
— Vocês têm alguma coisa parecida.
Sarah franziu a testa.
— O quê?
— Não sei ainda.
Edward respondeu:
— Ela é mais baixa.
Sarah virou-se.
— Eu acabei de aceitar você como irmão e já estou reconsiderando.
Edward sorriu.
Isabella começou a rir.
E talvez fosse aquilo.
Não os olhos.
Não o rosto.
O jeito de responder.
Quando Sarah voltou para a empresa, estava emocionalmente exausta.
Mas também mais leve.
Duas pessoas que faziam parte de sua vida atual agora conheciam sua vida anterior.
E nada tinha desmoronado.
Rosalie continuava sendo Rosalie.
Isabella continuava sendo Isabella.
Ela continuava sendo Sarah.
Entrou no elevador.
Antes que as portas fechassem, uma mão apareceu.
Abriram novamente.
Jacob entrou.
Sarah olhou para ele.
E imediatamente lembrou:
Boa tarde, esposa.
Ótimo.
Jacob apertou o botão.
— Boa tarde.
— Boa tarde.
Sarah olhou fixamente para os números.
Sentiu o olhar dele.
— Como foi?
A pergunta não veio brincando.
Sarah virou-se.
— Intenso.
Jacob esperou.
— Rosalie chorou.
— Imaginei.
— Emmett também quase chorou.
— Ele vai negar.
— Já negou.
Jacob sorriu.
— Isabella?
Sarah respirou fundo.
— Pediu desculpas.
— Pelo ciúme?
— Você sabia?
— Emmett não consegue guardar informação inútil.
Sarah riu.
— Ela achava que Edward estava interessado em mim.
— Eu sei.
— No próprio gêmeo.
— Tecnicamente, ele não sabia.
— Você está defendendo Edward?
— Momento raro. Aproveite.
Sarah ficou quieta.
Então disse:
— Foi estranho.
Jacob percebeu a mudança.
— O quê?
— Contar.
As portas ainda subiam.
— Até agora, parecia que a verdade existia só dentro de um círculo fechado. Eu, Harry, Sue, vocês, Billy.
Jacob assentiu.
— Hoje eu disse em voz alta para pessoas que conheciam Sarah Clearwater que eu sou Sarah Cullen.
— E?
Sarah pensou.
— Continuaram olhando para mim do mesmo jeito.
Jacob entendeu.
— Você estava com medo de que não olhassem.
Ela soltou o ar.
— Talvez.
Jacob ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu também tive medo disso.
Sarah olhou para ele.
— De quê?
— Que, quando o DNA confirmasse, eu parasse de enxergar você.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
Jacob escolheu as palavras.
— Que eu começasse a procurar só a menina de oito anos.
Sarah não disse nada.
— Mas não aconteceu — ele continuou.
— Não?
Jacob olhou para ela.
— Não.
Sarah sentiu aquela coisa pequena novamente.
— O que você vê?
A pergunta saiu antes que pudesse impedir.
Jacob ficou imóvel.
O elevador pareceu pequeno demais.
— Sarah.
— Isso não responde.
Ele sustentou os olhos dela.
Por alguns segundos, pensou em dizer alguma coisa leve.
Uma piada.
Qualquer coisa.
Mas não quis.
— Você.
Sarah não respirou.
Jacob continuou:
— Às vezes eu lembro da criança. Claro que lembro. Mas quando olho para você agora...
Pausa.
— Eu vejo você.
As portas abriram.
Nenhum dos dois se moveu imediatamente.
Então Sarah saiu.
Deu alguns passos.
Precisava de distância.
Jacob permaneceu no elevador.
Ela virou-se.
Ele segurou a porta.
E então aquele sorriso apareceu.
O sorriso que começava a se tornar um problema.
— Boa tarde, esposa.
Sarah arregalou os olhos.
O momento emocional desapareceu.
— Você está gostando disso!
O sorriso aumentou.
— Muito.
— Jacob Black!
As portas começaram a fechar.
— Trabalha, Sarah.
— Covarde!
— Até depois.
— Marido insuportável!
As portas fecharam.
Sarah ficou olhando para elas.
Depois começou a rir.
Dentro do elevador, Jacob fez o mesmo.
Mas, por baixo da brincadeira, uma frase permaneceu com Sarah pelo resto da tarde.
Eu vejo você.
Não a menina que ele perdera.
Não Sarah Cullen aos oito anos.
Ela.
E talvez aquela fosse a primeira vez, desde que descobrira possuir duas histórias, que Sarah não sentira necessidade de escolher entre elas.
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