MEIA-NOITE E UM
3 Fotógrafo Francês

O fotógrafo não era apenas um fotógrafo. Ele era "Jean-Luc", um homem que usava uma boina de couro em pleno verão tropical e que parecia acreditar que a família Mitchell era o último bastião da monarquia europeia. Ele gesticulava com as mãos como se estivesse regendo uma ópera e falava com um sotaque que Éden tinha certeza de que era forçado — ninguém que nasceu em Paris diria "magnifique" tantas vezes em um minuto sem sofrer um derrame.
— Non, non, non! — Jean-Luc gritou, apontando um dedo trêmulo para Atlas. — Monsieur Atlas, você está com olhar de quem está planejando um assassinato. Eu quero amour! Eu quero a promessa de um janeiro ensolarado! E você, mademoiselle... — ele olhou para Éden — ...tente não parecer que está calculando o preço dos meus equipamentos. S’il vous plaît!
Éden sentiu a mão grande de Atlas apertar um pouco mais sua cintura sob as luzes ofuscantes dos refletores.
— Se ele disser "magnifique" mais uma vez, eu vou dar a ele um motivo real para usar o seguro da câmera — Atlas sussurrou, o sorriso congelado na direção da lente.
— Pelo menos ele não comentou sobre a "dissonância" do meu vestido — Éden devolveu, entre dentes, mantendo a postura de quem não estava prestes a cair de um salto doze. — Sorria, Atlas. Pelo amor de Deus, pense que estamos em Zurique.
— Estou pensando na cara do meu irmão se eu puxar o tapete dele agora. Seria uma foto e tanto para o álbum.
Eles sobreviveram à sessão de fotos apenas porque a noiva, Kimberly, teve uma crise de ansiedade porque um dos lírios do arranjo central estava "olhando para o lado errado". Jean-Luc correu para fotografar o colapso dramático da noiva (o que ele chamou de "a vulnerabilidade da seda"), dando a Atlas e Éden a chance de fugir para o buffet.
Havia coisas em cima de colheres de prata que Éden não conseguia identificar.
— O que é isso? — ela perguntou, apontando para uma esfera verde-limão que parecia pulsar levemente.
— Isso é era pra ser guacamole com coentro — Atlas explicou, pegando dois pratinhos. — Basicamente, custa cinquenta dólares e desaparece antes de chegar à sua língua. É como comer uma decepção temperada.
— Eu daria um dos meus rins por uma coxinha de posto de gasolina agora — Éden confessou, pegando a esfera verde e sentindo-a dissolver instantaneamente. — Nossa. Realmente. É como se eu tivesse acabado de lamber uma horta, mas sem a satisfação de ter mastigado nada.
— Bem-vinda ao mundo dos Mitchell, Éden.
Eles foram interrompidos pela Tia Beatrice. Ela cambaleava levemente, mas mantinha a bolsa de grife presa ao braço como se fosse um escudo. Seus olhos estavam fixos no paletó de Atlas.
— Atlas, querido! — ela exclamou, com a voz um pouco alta demais para o ambiente. — Quem é essa jovem encantadora? Ela tem um rosto de... de... — ela hesitou, procurando a palavra — ...de quem sabe onde estão as chaves do carro! Você viu o meu motorista? Ele desapareceu!
Atlas deu um passo à frente, protegendo Éden do hálito de gim de Beatrice.
— Tia, o motorista provavelmente está esperando o ano novo no estacionamento. Por que a senhora não senta um pouco? O consultor financeiro do Julian está ali, ele adoraria ouvir sobre suas ideias de investimento em arte contemporânea.
— Aquele homem? — Beatrice fez uma careta de desgosto. — Ele tem o carisma de um palmito. Eu quero dançar!
Ela deu uma pirueta desajeitada, seu quadril passando perigosamente perto de uma pirâmide de taças de champanhe. Éden e Atlas agiram de forma sincronizada, como se tivessem treinado para aquele desastre iminente: Éden segurou a base da mesa e Atlas estabilizou o braço da tia.
— Magnifique! — Éden imitou o fotógrafo, fazendo Atlas explodir em uma risada curta.
— Você é muito rápida, Breeland — ele comentou, enquanto Beatrice se afastava em direção ao bar, possivelmente para reabastecer seu estoque de gim "medicinal".
— Anos de prática evitando que minha falecida gata derrubasse as coisas das prateleiras — ela respondeu, limpando a mão no guardanapo. — Mas, sério, como você sobreviveu a isso todos esses anos?
Atlas pegou duas taças de uma bandeja que passava e entregou uma a ela. Ele a conduziu até uma varanda lateral, longe do som da orquestra que agora tentava, sem sucesso, tocar um hit moderno em ritmo de valsa.
— Eu não sobrevivo. Eu apenas espero o relógio bater meia-noite para poder fugir para algum lugar que venda hambúrguer gorduroso. Mas este ano... — ele se encostou no parapeito de mármore, olhando para ela com uma intensidade que fez o barulho da festa desaparecer ao fundo — ...este ano está sendo diferente. Eu costumo passar a noite inteira cronometrando quanto tempo levo para ser insultado pela minha mãe ou ignorado pelo meu pai. Mas hoje, eu só consigo pensar na sorte que tive da acompanhante oficial ter tido uma intoxicação por camarão.
— Isso é terrivelmente cruel da sua parte — Éden falou, mas não conseguiu evitar o sorriso. — A pobre mulher está no hospital e você está aqui celebrando a falta de simetria da mesa.
— Eu sou um homem de prioridades, Éden. E, no momento, minha prioridade é descobrir se você dança tão bem quanto desvia de tias bêbadas.
— Eu não danço "bem" no sentido Mitchell da palavra. E certamente não faço nada que envolva mãos dadas e passos contados.
— Ótimo — Atlas estendeu a mão. — Porque a orquestra acabou de dar uma pausa e o DJ contratado pelo Julian está prestes a tocar "September" do Earth, Wind & Fire, porque meu irmão caçula acha que essa é a música mais "ousada" que um casamento pode ter. Vamos lá.
Eles voltaram para o salão bem no momento em que as luzes diminuíram e o ritmo disco começou a ecoar. A pista de dança estava cheia de pessoas de terno tentando parecer descontraídas, o que resultava em uma visão cômica de movimentos rígidos e ombros travados.
Atlas e Éden se infiltraram no meio da massa "pêssego e champagne".
— Observe — Atlas sussurrou enquanto começavam a se mexer. — O primo Richard está tentando fazer o "moonwalk" com sapato de verniz. Ele vai cair em três... dois... um...
Ricardo não caiu, mas deu um encontrão na Sra. Mitchell, que apenas o olhou com o desdém de quem observava um inseto rastejante.
— Ele sobreviveu — Éden riu, deixando-se levar pelo ritmo. Ela descobriu que Atlas tinha um balanço natural, nada ensaiado, algo que parecia vir de uma vida inteira tentando se desvencilhar da rigidez da família.
Eles dançaram por três músicas seguidas, rindo dos comentários ácidos de Atlas sobre os convidados e da forma como Éden imitava perfeitamente o jeito de andar da noiva. Por um momento, não havia casamento, não havia alta classe, não havia Willow vigiando-os do canto da sala com os polegares para cima. Havia apenas o calor do salão, o cheiro de suor e perfume caro, e o fato de que suas mãos se encontravam cada vez com mais frequência.
Quando a música desacelerou para um jazz suave, a atmosfera mudou. Atlas puxou-a para mais perto. A diferença de altura obrigava Éden a inclinar um pouco a cabeça para trás.
— Éden — ele chamou, a voz quase sumindo na melodia do saxofone. — O que acontece às 00:01?
Ela sentiu o coração falhar uma batida. O humor ácido tinha dado lugar a uma eletricidade palpável.
— Às 00:01, eu presumo que o nosso acordo expire — ela respondeu, tentando manter o tom leve, embora sua garganta estivesse seca. — E você volta a ser a ovelha negra e eu volto para os meus documentários.
— E se eu não quiser que expire? — ele perguntou, e sua mão subiu da cintura dela para a nuca, os dedos brincando com os fios soltos
do seu penteado. — E se eu decidir que Janeiro precisa de um pouco mais de "dissonância"?
Éden olhou para ele, e por um segundo, ela esqueceu todas as piadas internas. Ela viu o homem que se sentia sozinho em salas cheias de gente, o homem que preferia ouvir verdades dolorosas do que mentiras douradas.
— Então — ela sussurrou próximo ao pescoço dele — você teria que me convencer de que sabe fazer um jantar melhor que o da Willow.
Atlas estava prestes a responder, seus rostos a centímetros de distância, quando um som estridente interrompeu o momento.
— ATENÇÃO, TODOS! — Era o noivo, Julian, no palco, segurando um microfone. — FALTAM DEZ MINUTOS PARA A CONTAGEM REGRESSIVA! PREPAREM SEUS CHAMPANHES!
A multidão rugiu. A bolha de privacidade deles estourou. Atlas suspirou, encostando a testa na dela por um breve segundo.
— Dez minutos, Breeland. Prepare-se. O ritual Mitchell da meia-noite envolve muitos fogos, muitos abraços falsos e... — ele fez uma pausa, voltando a sorrir — uma chance muito real de eu te beijar na frente de todos aqui.
Éden riu, sentindo um frio na barriga que era melhor do que qualquer canapé de luxo.
— Eu acho que dez dólares não cobrem o risco de vida que eu estou correndo aqui, Atlas.
— Considere como um bônus de Ano Novo.
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