MEIA-NOITE E UM

4 O Gosto do Próximo Ano




Faltavam nove minutos. No mundo dos Mitchell, nove minutos era tempo suficiente para renegociar um contrato de fusão ou destruir a autoestima de um herdeiro. O salão, que antes parecia uma galeria de arte intocável, agora exalava aquele cheiro característico de festa que está prestes a transbordar: uma mistura de perfume evaporando, suor discreto sob algodão egípcio e o aroma ácido de trezentas taças de champanhe erguidas ao mesmo tempo.

— Se prepare — Atlas murmurou, inclinando-se para o ouvido de Éden enquanto um garçom passava equilibrando uma pirâmide precária de cristal. — Agora começa a fase do entusiasmo obrigatório. Minha mãe vai tentar nos posicionar como se fôssemos estátuas de um jardim.

Dito e feito. A Sra. Mitchell surgiu do meio da fumaça de gelo seco, segurando o braço de um Julian visivelmente exausto e de uma Kimberly que parecia ter esquecido como se pisca os olhos.

— Atlas! Éden! — A matriarca não usava nomes; ela usava comandos. — Para o lado direito do arco de flores. Agora. Jean-Luc precisa registrar o 'Círculo de Ouro' da família quando os fogos começarem. Éden, querida, tente esconder essa alça do vestido, ela está dando um ar despojado demais para o registro histórico.

Éden olhou para a alça de seda, depois para Atlas, e depois para a mulher que tratava o Ano Novo como uma coroação.

— Sra. Mitchell — Éden proferiu, e Atlas sentiu o perigo na voz dela, um tom que ele estava começando a adorar — minha alça e eu decidimos que o arco de flores é um pouco bucólico demais para o nosso perfil. Acho que vamos assistir aos fogos de um ângulo mais realista.

Houve um silêncio microscópico. Julian arregalou os olhos. Kimberly finalmente piscou.

— Realista? — A Sra. Mitchell repetiu, como se a palavra fosse um palavrão em outra língua.

— É, mãe — Atlas interveio, passando o braço pelos ombros de Éden com uma insolência que faria o consultor financeiro ter um infarto. — Éden tem uma teoria sobre simetria: ela atrai raios. E eu não quero ser atingido por um raio de smoking. Vamos para a varanda dos fundos. Divirtam-se na moldura.

Antes que a mãe pudesse formular uma sentença que envolvesse "deserção" ou "desonra", Atlas puxou Éden pelo corredor de serviço. Eles passaram pela cozinha, onde uma equipe de vinte pessoas gritava ordens sobre camarões empanados e suflês que não podiam murchar. O contraste era absoluto: do lado de fora, o luxo desconcertante; ali dentro, o caos humano, o calor dos fogões e o cheiro de comida de verdade.

— Você acabou de dizer não para a foto do 'Círculo de Ouro'? — Éden perguntou, rindo enquanto eles saíam por uma porta lateral que dava para um jardim de ervas arborizado, longe dos convidados.

— Eu disse não para a vida em preto e branco — Atlas respondeu, parando perto de um canteiro de alecrim que cheirava a chuva e tempero. — Além disso, eu precisava de um lugar onde pudesse te perguntar uma coisa sem ninguém me atrapalhar.

Faltavam quatro minutos. O som abafado da contagem regressiva começou a ecoar de dentro da mansão. "Dez! Nove!..." Não, ainda não era a oficial, eram apenas os convidados bêbados testando os pulmões.

Atlas encostou Éden contra a parede de pedra da mansão. O ar ali fora era mais denso, carregado com a umidade da madrugada.

— Breeland, eu passei a noite inteira fingindo que você era minha acompanhante apenas para salvar as fotos — ele começou, a voz perdendo todo o sarcasmo e assumindo uma gravidade que fez o estômago dela dar um nó. — Mas o problema é que eu sou um péssimo ator. Eu não estava rindo das suas piadas porque era o 'combinado'. Eu estava rindo porque, pela primeira vez em trinta anos, eu não me senti um estranho dentro da minha própria casa.

Éden olhou para ele, observando como o nó da gravata dele estava finalmente frouxo e como o cabelo continuava perfeitamente penteado. E mesmo assim, ele parecia tão autêntico.

— Mitchell, a gente se conhece há menos de cinco horas — ela ponderou, embora sua mão estivesse subindo para o peito dele, sentindo a batida acelerada do seu coração através do tecido da camisa. — Daqui alguns minutos será janeiro. As pessoas acordam

de ressaca em janeiro e percebem que o que aconteceu na virada foi só o efeito das luzes de fada.

— Eu não bebi tanto assim — ele retrucou, aproximando o rosto do dela. — E eu detesto luzes de fada. Prefiro a luz da geladeira às três da manhã. O que eu estou tentando dizer, de um jeito muito pouco Mitchell e muito 'desastre diplomático', é que eu não quero que você seja uma anedota de Réveillon. Eu quero saber se o seu humor é realmente horrível pela manhã e se você vai me deixar assistir a esses documentários de crime sem tentar adivinhar quem é o assassino nos primeiros dez minutos.

Éden sentiu um sorriso se formar, mas era um sorriso maduro, sem a ironia defensiva de antes.

— Eu sempre adivinho quem é o assassino, Atlas. É um dom. Você vai odiar.

— Eu conto com isso.

"SESSENTA SEGUNDOS!" — O grito veio de dentro, uníssono, um rugido de centenas de pessoas que acreditavam que o tempo ia mudar magicamente em um minuto.

— Éden — Atlas sussurrou, a mão dele agora segurando o rosto dela com uma delicadeza que contrastava com a força da sua personalidade. — Dez dólares.

— O quê?

— Eu aposto dez dólares que, quando os fogos começarem, você não vai estar pensando na simetria da foto.

— Você é muito convencido, Mitchell.

— É o meu único charme.

"DEZ! NOVE! OITO!..."

O mundo parecia estar prendendo a respiração. Éden olhou para Atlas e viu, atrás dele, o brilho das luzes da cidade. Ela percebeu que não queria estar em casa. Não queria o silêncio. Queria aquele caos específico que ele trouxe — o caos de alguém que a via de verdade, mesmo através de um vestido champagne que ela nem queria usar.

"TRÊS! DOIS! UM!"

O céu explodiu. Não foi um barulho apenas auditivo; foi uma vibração que sacudiu o chão sob seus pés. Luzes verdes, douradas e vermelhas pintaram o rosto de Atlas, transformando-o em um mosaico de cores vibrantes. Mas ele não olhou para o céu. Ele continuou olhando para ela.

Quando ele a beijou, não teve nada de cinematográfico ou coreografado por Jean-Luc. Teve gosto de champanhe, de alecrim do jardim e de uma promessa real que não precisava de acordo. Foi um beijo que cheirava a amizade transformada em cumplicidade, uma conexão que ignorava o fato de que eles eram estranhos até o pôr do sol.

Eles se separaram enquanto os fogos ainda estouravam, criando nuvens de fumaça colorida acima da mansão.

— Feliz Janeiro, Éden Breeland — ele a desejou, com a respiração curta.

Éden sorriu, ajeitando a alça do vestido que a Sra. Mitchell tanto odiou.

— Feliz Janeiro, Atlas. Mas só para constar... — ela o puxou pelo colarinho para outro beijo rápido — ...você ainda me deve os dez dólares. Eu estava pensando na simetria.

Ele riu, uma gargalhada solta que ecoou pelo jardim vazio, enquanto, lá dentro, a orquestra começava a tocar a primeira música do ano novo.

— Sabe o que é o melhor de tudo? — Atlas perguntou, entrelaçando os dedos nos dela e começando a caminhar de volta, mas não para o salão, e sim para o portão da frente.

— O quê?

— Amanhã não tem casamento. Não tem paleta de cores. E eu conheço um lugar que serve o melhor hambúrguer da cidade às duas da manhã. Vamos?

Éden olhou para os sapatos de salto, depois para o homem ao seu lado. Ela chutou os sapatos para longe, deixando-os no gramado impecável dos Mitchell.

— Vamos. Mas se tiver picles, eu quero os seus.

Atlas sorriu, puxando-a para a liberdade do asfalto quente. A noite estava apenas começando, e o acordo de uma noite acabava de ser renovado por tempo indeterminado.