MEIA-NOITE E UM

1 Desastre Diplomático




O dia 31 de dezembro sempre chegava para Éden Breeland como uma conta que ela não queria pagar. O mundo lá fora parecia ter entrado em um acordo coletivo de euforia compulsória, mas dentro do seu apartamento, o único som era o da geladeira trabalhando para manter o silêncio. Ela observava o asfalto lá embaixo, onde o mormaço da tarde de verão ainda tremeluzia, sentindo aquela melancolia específica de quem planejou passar a virada do ano assistindo seus amados documentários de assassinos em série e está prestes a ter esse plano arruinado.

O telefone vibrou pela quinta vez seguida. Era Willow. E Willow não parava até ser atendida ou denunciada por assédio.

Éden esperou até o terceiro toque, suspirou e atendeu.

— Se alguém morreu, eu sinto muito. Se for convite para algo, eu sinto muito por você — Éden se adiantou, sem tirar os olhos da rua.

Éden, escuta. Respira e não desliga. Eu estou no salão, meu cabelo está metade pronto e a minha sanidade está por um fio — a voz de Willow estava carregada daquela urgência que só pessoas envolvidas em casamentos de alta sociedade conseguem ter. — Lembra que vou com o Blake ao casamento, né? Então, a acompanhante do Atlas Mitchell foi parar no pronto-socorro. Alguma coisa sobre um camarão que não deveria ter sido comido. A noiva está tendo um ataque de nervos porque a quarta mesa principal agora tem um "buraco visual".

Éden fechou os olhos. Ela conhecia bem a fama dos Mitchell — afinal, era colunista de um jornal conceituado e escrever sobre cada escândalo dessa família era uma de suas muitas funções. O noivo, Julian Mitchell, era o primo "perfeito" de Blake Mitchell, o namorado de Willow. A família era um bastião de tradições vazias e fotos editadas para que todo mundo pareça extremamente feliz. Tudo fachada.

Muita aparência, muito dinheiro e uma rigidez que beirava o desconforto.

— Sinto muito pela moça. Mas o que a intoxicação dela tem a ver comigo?

Tudo! Você vai ser a acompanhante do Atlas. É simples! Você só precisa colocar um vestido, sorrir para o fotógrafo, fingir que é a pessoa mais sociável do mundo por algumas horas e evitar que o Atlas fique com aquela cara de 'eu odeio casamentos' em todas as fotos. Por favor, Den!

— Willow, não. Eu já decidi meu roteiro. Envolve resolução de assassinatos e nenhuma interação humana. Eu não sou um anteparo para preencher buraco visual de ninguém.

Pelo amor de Deus!É só um jantar e algumas fotos, Éden. O Atlas é... bem, você sabe. Ele é o Mitchell que não deu certo no molde da família, um desastre diplomático. Ele só precisa de alguém que não seja uma debutante desesperada por um sobrenome. Alguém que saiba conversar sobre qualquer coisa que não seja o mercado imobiliário. A mãe dele já está ameaçando chamar uma das filhas dos sócios, o que

significa que o Atlas vai passar o Réveillon de cara amarrada e estragar todas as fotos que a noiva planejou por dezoito meses.

— E o que mais eu preciso fazer além de ser uma figurante de luxo?

Bem, você é a única pessoa que eu conheço que tem intelecto suficiente para não ser uma "debutante" e paciência para lidar com um Mitchell sem querer cometer um crime. Por favor. Me ajuda. O Blake também confia em você. Vai, Den, é só um jantar. O Atlas só precisa de uma barreira humana. Alguém que pareça interessante o suficiente para a mãe dele parar de caçá-lo.

Éden olhou para o próprio reflexo no vidro da janela. Queria muito matar sua melhor amiga naquele momento, mas não podia negar esse favor, pois Willow já tinha salvado sua pele algumas vezes também.

Houve um silêncio pesado. Ela respirou fundo.

— Que cor eu tenho que usar para não ser expulsa pelos seguranças?

Pêssego, Rose Gold ou Champanhe. Qualquer coisa que pareça cara e discreta. O motorista da família vai te buscar às sete e meia. Den... eu te devo um rim. Ou pelo menos um final de semana em um spa onde ninguém fala "networking".

— Eu espero que o buffet desse casamento seja lendário, Willow. Porque eu estou sacrificando meu documentário sobre o Assassino do Zodíaco por isso.

O Atlas é o garçom oficial das situações constrangedoras, você vai ficar bem. Te vejo no casarão! Te amo! Tchau!

Éden desligou sem prometer nada, mas já caminhava em direção ao quarto. Ela se sentia como um soldado sendo convocado para uma guerra que não era sua. No fundo do armário, ela puxou um cabide de madeira onde um vestido de seda — de um tom que ela costumava chamar de “bege melancólico”, mas que alguns Mitchell chamariam de Nude Champagne — descansava esquecido. Após um banho, ela o vestiu.

O tecido caía pelo seu corpo como se tivesse sido feito para uma ocasião muito mais simples do que servir de babá de um herdeiro rebelde, mas honestamente, se ela ia servir de decoração para suas fotos, ele teria que aceitar a simplicidade dela como bônus.

Às 19:35, o interfone tocou. Um sedan preto impecável, com vidros tão escuros que pareciam absorver a luz da rua, aguardava na porta. Éden desceu as escadas devagar, sentindo o desconforto dos saltos altos, ajeitando a alça do vestido que insistia em escorregar por seu ombro.

O motorista já estava fora do carro. Ele usava um smoking escuro, bem cortado, mas sem a gravata borboleta formal que ela esperava. Ele tinha o cabelo levemente bagunçado, o que era estranho para um funcionário dos Mitchell, e óculos de sol, apesar de o sol já ter se posto. Ele abriu a porta traseira com uma reverência exageradamente formal, quase debochada.

— Boa noite. Senhorita Breeland? — a voz dele era grave, com um rastro de diversão que ela não conseguiu identificar.

— A própria. Podemos ir? Quanto mais cedo isso começar, mais cedo eu volto para o meu pijama — ela disse irritada, entrando no banco de trás e soltando um suspiro pesado.

O homem fechou a porta, deu a volta e assumiu o volante. Assim que o carro ganhou a avenida, Éden não conseguiu segurar a língua. A tensão de ter sido arrancada do seu isolamento precisava de uma válvula de escape.

— Você trabalha para eles há muito tempo? — ela perguntou, olhando para a nuca bem marcada do motorista pelo retrovisor.

— Algum tempo. O suficiente para conhecer os hábitos da fauna local — ele respondeu, mantendo os olhos na estrada, mas sua voz tinha um tom de divertimento.

— Então você sabe o nível de absurdo disso aqui. Eu estou sendo literalmente convocada para ser o "apoio de braço" do Atlas Mitchell. Você o conhece? Willow diz que ele é um "desastre diplomático". Eu imagino que seja o típico cara que cresceu com tudo na mão e agora acha que ser ranzinza é uma personalidade.

O motorista pigarrou, ajustando o retrovisor.

— Ouvi dizer que ele pode ser um pouco... difícil.

— Um pouco difícil? É patético, se você parar para pensar — Éden continuou, cruzando as pernas e gesticulando com uma das mãos. —

Uma noiva que entra em colapso por causa da simetria de uma mesa? Uma família que precisa de uma estranha para que o próprio filho não se comporte como um adolescente revoltado? Eu sinto pena desse Atlas, de verdade. Deve ser exaustivo viver em um teatro onde até o seu encontro de Ano Novo é roteirizado para não ofender a paleta de cores da decoração.

— Você acha que ele está seguindo o roteiro também? — o homem perguntou, entrando em uma rua arborizada que levava à mansão dos Mitchell.

— Ah, com certeza. — Afirmou, convicta. — Ele provavelmente está lá agora, bebendo algo caro, odiando a gravata e esperando a "garota da Willow" chegar para que ele possa ignorá-la a noite toda. Mas tudo bem, eu também não estou aqui para fazer amizade. Eu só preciso que as fotos fiquem boas e que a comida seja de verdade. Se ele for um completo idiota, eu passo a noite conversando com as samambaias. Elas costumam ter mais conteúdo que esses herdeiros.

O motorista soltou uma risada curta, seca.

— As samambaias dos Mitchell são bem nutridas. É uma escolha sólida.

— Não me leve a mal, eu sei que você trabalha para eles. Mas me diga, como alguém aguenta essa gente? É tudo tão calculado. Eu aposto dez dólares que o Atlas tem aquele sotaque arrastado de quem nunca teve que pedir um desconto na vida e vai me perguntar em que área meu pai investe nos primeiros cinco minutos.

O carro parou suavemente em frente à imponente escadaria de acesso a mansão. Luzes de fada decoravam as árvores e os arbustos do jardim da frente, e o som sofisticado de uma orquestra de câmara flutuava pelo ar. O motorista desligou o motor, mas não saiu imediatamente para abrir a porta dela. Ele se virou no banco, retirando os óculos de sol. Seus olhos eram cor de avelã, astutos, e brilhavam com uma ironia cortante.

— Bem, senhorita Breeland... — ele começou, estendendo a mão forte para trás, para destravar a porta daquela forma de propósito. — Eu tenho três notícias para você. A primeira é que o sotaque dele não é tão arrastado assim. A segunda é que o pai dele investe em tecnologia de segurança, o que é um tédio absoluto para conversar no jantar.

Éden sentiu um frio súbito na espinha. Ela olhou para o rosto dele, agora iluminado pelas luzes da entrada. Ele era jovem demais para ser o motorista da família, e o paletó do smoking, de perto, parecia custar mais do que o aluguel do seu apartamento por um ano.

— E a terceira? — ela perguntou, a voz subitamente pequena, murcha.

Ele deu um sorriso de lado, um que não tinha nada de robótico ou ensaiado. Era o sorriso de quem estava se divertindo mais do que deveria.

— A terceira é que eu detesto samambaias. Elas são péssimas ouvintes. E acho que acabei de perder dez dólares, porque eu realmente não dou a mínima para o que o seu pai faz da vida.

Éden ficou paralisada, com a mão na maçaneta da porta. O silêncio no carro tornou-se denso, preenchido apenas pelo tique-tique do motor esfriando. Ela o encarou, sentindo o sangue subir pelo pescoço, mas, em vez de pedir desculpas ou desmoronar de vergonha, ela soltou um suspiro longo e deixou um sorriso involuntário escapar.

— Pelo menos a parte do "desastre diplomático" era verdade.

Atlas soltou uma gargalhada genuína, máscula, saindo do carro para finalmente abrir a porta para ela.

— Senhorita Breeland, temos um teatro para encenar e, pelo que percebi, você também é péssima em seguir o roteiro. Isso vai ser bem mais divertido do que eu imaginei.