Éden sentiu o peso do olhar de Atlas enquanto ele segurava a porta do carro. Não era um olhar de julgamento — o que seria justo, considerando que ela passou os últimos vinte minutos chamando-o de "patético" e "adolescente revoltado" —, mas sim de uma curiosidade verídica, quase magnética.

— Então... — ela começou, saindo do carro e sentindo a brisa quente da noite de Réveillon agitar a seda do vestido. — O "garçom oficial de situações constrangedoras", hein? Willow tem um dom para definições precisas.

Atlas riu novamente, um som baixo que pareceu vibrar no peito dele antes de chegar aos ouvidos dela. Ele não deu a volta para entregar as chaves a ninguém; simplesmente as guardou no bolso do paletó de corte impecável.

Ele sabia que Willow dizia coisas terríveis sobre si, mas não se importava, visto que eram bem amigos e ela adorava apelidá-lo com a ajuda do primo.

— Ela esqueceu de mencionar que eu também sou o bode expiatório oficial para qualquer coisa que saia do tom nesta família — ele estendeu o braço, oferecendo o anteparo que ela tanto criticou. — Preparada para o covil? Se você sobreviver à minha mãe nos primeiros cinco minutos, eu te garanto acesso ilimitado à cozinha da mansão. É lá que a magia acontece.

Éden hesitou por meio segundo antes de enganchar o braço no dele. O tecido do smoking dele era frio e macio, um contraste com a pele quente do braço dela.

— Por favor, me diga que a gente não precisa de uma história de como nos conhecemos. Eu sou péssima mentirosa quando tem muita gente olhando para mim.

— Oh, nós temos uma história — Atlas disse, enquanto subiam os degraus de mármore. — Você é uma jornalista, o que não é mentira. Nos conhecemos em uma conferência em Zurique. Você me salvou de um tédio mortal e eu te convenci que o fondue era superestimado. Discreto, intelectual e impossível de verificar no Google em uma noite de festa.

— Zurique? — ela sussurrou, enquanto passavam pelos enormes batentes de carvalho da entrada. — Eu nem tenho passaporte em dia, Atlas.

— Agora você tem. Bem-vinda à Suíça, Éden Breeland.

O salão de festas dos Mitchell era o tipo de lugar que fazia o minimalismo parecer uma ofensa pessoal. Havia tanto cristal, ouro e flores pálidas que Éden sentiu que precisava de óculos escuros. O cheiro de lírios e perfumes caros era quase sufocante. No centro de tudo, uma mulher que parecia ter sido esculpida em gesso e revestida de seda-pérola flutuava em direção a eles.

Era a matriarca, Sra. Mitchell.

— Atlas — a voz dela era uma nota única, perfeitamente afinada e sem calor. — Você está atrasado. E Julian já está perguntando por você para as fotos do brinde.

Ela virou o rosto milimetricamente para Éden, os olhos castanhos esquadrinhando o vestido "bege melancólico" com a precisão de um scanner de segurança de aeroporto.

— E esta deve ser a substituta... amiga de Willow.

— Éden — Atlas apresentou, a voz subitamente mais firme, perdendo o tom brincalhão de segundos atrás. — E ela não é apenas a 'amiga da Willow'. Éden é a razão pela qual eu não vou passar a noite discutindo a bolsa de valores com o tio Arthur.

A Sra. Mitchell soltou um som que poderia ser um suspiro ou um julgamento final.

— O tom do seu vestido está ligeiramente fora da paleta imposta, querida — ela falou para Éden, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Mas suponho que, sob as luzes da pista, ninguém notará a... dissonância. Atlas, leve-a para a mesa quatro. E, por favor, tente manter a gravata no lugar.

Assim que a mulher se afastou, Éden soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.

— "Dissonância"? — ela sibilou para Atlas. — Ela acabou de me chamar de erro de coloração?

— Isso foi o equivalente a um "seja bem-vinda" — Atlas murmurou, inclinando-se para o ouvido dela. O hálito dele tinha um toque de hortelã e algo amadeirado. — Da última vez que trouxe alguém, há uns seis anos, ela perguntou se o vestido era um empréstimo de caridade. Você está ganhando, acredite.

Eles se esquivaram de um grupo de homens de meia-idade que falavam alto sobre iates e Rolex; chegaram à mesa quatro. Willow estava com o namorado na mesa dois, parecendo uma visão em tule pêssego, os olhos arregalados ao ver os dois chegando em sintonia.

— Vocês... — Willow começou, mas Atlas a cortou com um olhar.

— Willow, sua amiga é fascinante. Ela acha que eu tenho um sotaque arrastado e que meu pai investe em coisas patéticas. O que, para ser justo, é a coisa mais honesta que ouvi nesta casa desde 2012.

Éden sentiu o rosto esquentar novamente, mas a adrenalina da festa estava começando a fazer efeito. Atlas puxou a cadeira para que ela sentasse e ocupou a cadeira ao lado dela, ignorando completamente um dos primos que tentava chamar sua atenção.

A mesa quatro era onde os Mitchell colocavam as pessoas que não queriam que aparecessem no fundo dos vídeos oficiais. Havia um primo que não parava de limpar o suor da testa com o guardanapo e uma mulher que estava tentando, sem sucesso, comer uma lagosta com um garfo de sobremesa.

Éden o encarou com um pouco de dó.

— Por que ele está olhando para a lagosta como se ela fosse um enigma da Esfinge?

— O primo Richard tem fobia de crustáceos, mas a noiva disse que quem não comesse a entrada não ganharia o bem-casado de lembrança. Ele está lutando pela vida por causa de um doce.

Nesse momento, um garçom passou equilibrando uma bandeja de canapés que pareciam pequenas esculturas de vidro. Éden pegou um que parecia promissor.

— Não coma isso — Atlas avisou tarde demais.

Éden mordeu. Era uma explosão de algo que parecia terra molhada com perfume de flores.

— O que é isso?! — ela perguntou, tentando engolir sem fazer careta.

— Mousse de trufas negras com essência de orquídea — Atlas disse, entregando uma taça de champanhe para ela com urgência. — É a comida favorita da noiva. Ela acha que tem gosto de riqueza.

— Tem gosto de quando eu caí de cara num canteiro de flores aos oito anos — Éden bebeu metade da taça de uma vez. — Meu filho, se eu sobreviver a essa noite, eu quero uma medalha de honra.

— Eu te dou o que quiser, mas você tem que me ajudar em uma coisa — ele se inclinou para perto, e pela primeira vez o humor dele tinha um toque de "vamos tocar o terror". — Está vendo aquele homem de óculos retangulares perto do bolo?

— O que parece que nunca viu o sol na vida?

— Exato. É o advogado do meu pai. Ele tem os papéis de um contrato que eu me recuso a assinar. Se ele me vir sozinho, ele vai me encurralar no banheiro. Eu preciso que você finja que estamos tendo uma discussão acalorada sobre... sei lá... o destino das baleias na Islândia. Sempre que ele chegar perto, comece a falar histérica.

— Deixa comigo, eu sou ótima nisso.

Alguns momentos da noite seguiram nesse ritmo. Sempre que o advogado se aproximava, Éden começava a gesticular freneticamente sobre "os direitos dos mamíferos marinhos", enquanto Atlas fazia cara de quem estava prestes a chorar. O homem de óculos fugia como se eles fossem um casal radioativo.

— Você é assustadoramente boa nisso — Atlas comentou, enquanto eles se escondiam atrás de uma palmeira decorativa para rir.

— É o meu talento oculto — ela se gabou, sentindo a adrenalina da situação. — Eu também sei imitar o som de um golfinho sofrendo, se você precisar de reforço.

Ela deu uma palhinha de como seria, Atlas soltou uma gargalhada muito boa de ouvir.

Eles voltaram para a mesa dos excluídos, sempre comentando acidamente sobre a roupa ou os exageros de alguém. Da mesa dois, Willow esticava o pescoço sempre que podia para ver como a amiga estava se saindo, Atlas percebeu e fez apenas o sinal de “ok” para ela.

Ele encarou o perfil de Éden por um instante, um tanto animada conversando com a garota da lagosta e se inclinou na direção dela.

— Olha só — ele sussurrou, aproximando a cadeira da dela até que seus joelhos se tocassem sob a toalha de linho da mesa. — A terceira pessoa à esquerda na mesa da Willow. A de chapéu que parece um prato de satélite.

Éden olhou discretamente.

— O que tem ela?

— É a tia Beatrice. Ela esconde miniaturas de gim dentro daquela bolsa de grife. Em trinta minutos, ela vai começar a confundir os garçons com os antigos namorados dela da faculdade de artes. Se ela se levantar para dançar, saia de perto. Ela é faixa preta em derrubar pessoas com o quadril.

Éden abafou uma risada com o guardanapo.

— E aquele homem ali? O que parece que engoliu um cabide?

— Aquele é o consultor financeiro do meu irmão. Ele não ri desde o colapso imobiliário de 2008. Ele acredita que a alegria é um gasto desnecessário.

A conexão entre eles começou a se solidificar ali, em meio aos brindes vazios e conversas ensaiadas. Éden percebeu que Atlas não

era o herdeiro mimado que ela imaginou, mas alguém que usava do sarcasmo como uma armadura para não ser esmagado pela expectativa alheia. E Atlas, por sua vez, parecia hipnotizado pela forma como Éden observava o mundo — sem o deslumbramento de quem quer pertencer àquela elite, mas com a acidez de quem vê as rachaduras nas porcelanas.



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O jantar estava progredindo para aquele estágio perigoso em que o espumante de oitocentos dólares a garrafa começava a fazer efeito nas pessoas que, normalmente, só bebiam suco de clorofila. A música da orquestra tinha subido três decibéis, e o primo Richard finalmente tinha desistido da lagosta, optando por engolir os pãezinhos de entrada.

— Olha a postura, Richard — Atlas sibilou, sem mover os lábios, enquanto cortava um pedaço de aspargo com a precisão de um cirurgião entediado. — Se a minha mãe vir você estocando carboidratos desse jeito, ela vai te mandar para um retiro espiritual em Vermont amanhã cedo.

— Eu estou com fome, Atlas! — Richard sussurrou de volta, os olhos esbugalhados. — Kimberly decidiu que "mastigar faz muito barulho nas filmagens", então tudo o que serviram até agora tem a consistência de nuvem. Eu sinto que meu estômago está digerindo a si mesmo.

Éden, que estava tentando equilibrar uma pequena escultura de purê de mandioquinha no garfo, olhou para os dois.

— Vocês Mitchell são fascinantes. É como assistir a um documentário do National Geographic sobre predadores que usam roupa. Richard, pega aqui — ela deslizou seu prato de pãezinhos intocados para ele por baixo da toalha de mesa, como se estivesse passando contrabando na fronteira. — Eu compenso com o suco. É mais eficiente.

Atlas olhou para ela, um brilho de aprovação nos olhos. Ele inclinou-se novamente.

— Você disse que o seu plano para a virada era pijama e crimes reais, certo? — ele perguntou, brincando com a haste da taça de vinho. — Qual era o documentário?

— O Assassino do Zodíaco. Eu estava na metade da teoria sobre as cartas criptografadas — ela respondeu orgulhosa, sentindo-se estranhamente à vontade para confessar seus hábitos nerds.

— Sabe o que é engraçado? — Atlas olhou para a mesa principal, onde o irmão sorria para uma câmera. — Julian está se casando com uma mulher que ele conheceu em um aplicativo de matchmaking de elite. Eles têm 98% de compatibilidade em termos de ativos e visão de mundo. Mas eu duvido que ele saiba qual é o sabor de pizza

favorito dela ou se ela prefere documentários de crime à comédias românticas.

Ele voltou os olhos cor de avelã para Éden. O brilho irônico tinha sumido por um momento, dando lugar a uma vulnerabilidade que a pegou desprevenida.

— Eu prefiro passar o Réveillon discutindo criptografia com uma estranha que me odeia do que ter 98% de compatibilidade com um robô.

Éden sentiu um frio na barriga que não tinha nada a ver com o ar-condicionado.

— Eu não te odeio mais — ela admitiu, a voz suave. — Só acho que você precisa de óculos novos. Aqueles de motorista eram horríveis.

Atlas deu aquele sorriso de lado que já estava começando a se tornar perigoso para a sanidade de Éden.

— Eram do motorista de verdade. Eu tive que suborná-lo com um ingresso para o jogo de amanhã pra ele me deixar assumir o volante. Eu queria ver quem seria a pessoa corajosa o suficiente para aceitar o "resgate humanitário" da Willow.

— E então? — ela desafiou. — Qual é o veredito do "motorista"?

Atlas se aproximou um pouco mais. A música da orquestra tinha mudado para algo mais lento, um jazz que preenchia os espaços vazios entre as conversas.

— O veredito é que o equilíbrio visual da mesa quatro está perfeito. Mas a simetria... — ele olhou para os olhos azuis dela, e o tempo pareceu desacelerar enquanto a contagem regressiva para a meia-noite ainda estava a horas de distância. — A simetria é superestimada. Eu gosto muito mais do caos que você trouxe.

Antes que Éden pudesse responder, a Sra. Mitchell reapareceu, batendo levemente com uma colher de prata em uma taça de cristal.

— É hora das fotos da família Mitchell com seus pares. Atlas, por favor, tente não parecer que está em um interrogatório policial.

Atlas levantou-se, mas não soltou a mão de Éden. Ele a ajudou a levantar, seus dedos se entrelaçando com uma naturalidade que assustou a ambos.

— Sorria, Éden — ele sussurrou enquanto caminhavam para o centro das atenções. — Se as fotos ficarem boas, talvez minha mãe te perdoe pela "dissonância" do pêssego. E se ficarem ruins... bem, a gente sempre pode dizer que foi um erro de Zurique.

Éden sorriu. Mas desta vez, não foi para a câmera. Foi para o homem que, em menos de duas horas, tinha transformado o pior Réveillon da vida dela em algo que ela não queria que acabasse.