IV

Aiolia não estava errado. Aiolos chegou cerca de uma hora depois que Aiolia saíra de casa, e imediatamente se pôs a cuidá-lo.

Isso foi uma constante nos dias que se seguiram — o que acabou atrasando-o bastante.

Aiolos conseguia se fazer quase onipresente, deixando-o com pouco tempo livre para buscar respostas. Em um mundo civil como o daquela projeção, ele deveria estar em horário de trabalho; mas parecia ter ajustado suas atividades para tomar conta do primo. Sempre por perto, sempre educado, carinhoso e solícito; sempre preocupado em saber se ele estava bem, se estava tudo correndo a contento.

Para Saga, era difícil assimilar esse comportamento vindo de Aiolos.

Não que ele não fosse assim, mas era certo que Aiolos não era assim com ele durante o período em que treinaram juntos no Santuário.

Nunca foram exatamente próximos; eram cordiais um com o outro, mas só. E, durante um certo tempo, se sentira sim enciumado pela atenção que o cavaleiro de Sagitário angariava – logo ele, que lhe era inferior em técnica e poder de cosmo, todos sabiam. Menos Aiolos, que insistia em não reconhecer sua superioridade. Ideias que Kanon soube fomentar à perfeição, mas que começaram a eclodir quando Shion indicou o guardião da oitava casa zodiacal como seu sucessor na posição de Grande Mestre do Santuário de Atena.

Hoje ele sabia o quanto tivera ciúmes do sucesso de Aiolos, e o quanto esse ciúme se transformou em inveja – por mais feia que essa palavra fosse. Por anos relutou em aceitar que ele fosse capaz de sentir coisas tão baixas. Ele, Saga de Gêmeos, o melhor dentre todos os santos de ouro, tendo seu coração cheio de coisas tão mesquinhas quanto inveja, raiva, despeito? Por muito tempo ele acreditou que isso não fosse possível. Foi um dos piores erros que cometeu. Agora, depois de tudo que aconteceu ele não tinha mais como negar. E como deixar de se arrepender.

Por isso que lhe era tão difícil lidar com uma projeção ilusória de Aiolos, dentre todas as pessoas – porque o forçava a encarar o que havia de mais negro em si.

E Aiolos não facilitava as coisas: mesmo em meio a toda sua boa intenção, se grudara nele como um carrapato, afundando-o cada vez mais à ilusão.

Era terrível, mas não podia sequer dizer que não contava com isso.

Decidiu, então, que seria mais proveitoso tentar extrair alguma inconsistência de Aiolos, já que era o que tinha em mãos. Começou a conversar com ele, e sob o pretexto de lacunas em sua memória começou a perguntar coisas sobre o passado de ambos. E ele, que antes parecia tão interessado em ajudá-lo, foi ficando cada vez mais evasivo.

Aiolos confirmou que foram criados pela mãe dele, que ficou viúva do pai pouco depois que Aiolia nasceu. Acrescentou ainda que ela morrera quando Saga tinha treze anos, e ficaram sozinhos aos cuidados remotos de Shion. Mas toda vez que Saga tentava chegar ao assunto de sua verdadeira mãe, Aiolos dava um jeito de mudar de assunto – mesmo confirmando que sua mãe morrera logo que ele nasceu.

Atitude suspeita, que podia demonstrar ou uma clara inconsistência na teia de ilusões e mentiras, ou mesmo o envolvimento direto de Aiolos. Ou da pessoa que se fazia passar por ele, porque também poderia ser um metamorfo, como não? Sabia que um dos generais marinas de Poseidon sob o comando de Kanon era um metamorfo que podia manipular mentes.

Aiolos acabou mudando o assunto para o âmbito profissional, falando algumas generalidades sobre a tal fundação Santuário. Falou e falou, enquanto Saga assentia como se estivesse entendendo do assunto.

— Se lembra dela, Saga? – Aiolos acabou perguntando.

— ...Eu vi uma foto na sala, onde recebíamos um prêmio. – Ele achou melhor não mentir, em parte porque queria ver até onde a ilusão se detalharia.

Os olhos de Aiolos se entristeceram um pouco, e Saga não pôde evitar o incômodo de perceber que em alguns momentos tudo aquilo começava a parecer muito real.

— A premiação foi há uns dois anos, mais ou menos quando a Fundação fechou a parceria com a Fundação Graad e levantar fundos para novos sítios de pesquisa arqueológica na penínsua Ática. Foi você quem costurou a parceria, Saga. Um trabalho e tanto...

— Há... há quanto tempo eu estou...

— Afastado? – Aiolos o interrompeu. – Um ano e meio, mais ou menos.

— Eu... – Pela expressão de Aiolos, Saga entendeu que aquele era um tema espinhoso para ele. – Eu sinto muito, Aiolos.

— Não, Saga! – Ele imediatamente se pôs a consolá-lo. – Eu sei que você vai ficar bem. Cedo ou tarde... Você acaba melhorando.

Saga sabia que aquela era mais uma das mentiras empilhadas em cima de outras mentiras que compunham toda aquela ilusão. Mas bater-se com Aiolos, ali, seria contraproducente.

— Eu estou um pouco cansado. – Ele disse, e imediatamente o outro se levantou para levá-lo a seu quarto. Chegando lá, sentou-se na cama e Aiolos veio com um comprimido e um copo de água.

— Toma, vai te ajudar a dormir.

— Eu não quero remédios. – Ele disse, categórico. Mas isso não intimidou Aiolos; na verdade era como se ele já esperasse pela sua negativa.

— Saga... – Ele se sentou na cama, copo e comprimido na mão. – Você precisa dormir. Você sabe disso, então por favor...

Saga entendeu o que ele não dizia. Caso ele não tomasse o comprimido, eles o drogariam de novo.

Pegou o comprimido com as mãos, reticente, e colocou-o na boca para então tomar um gole de água.

— Abra a boca para eu ver. – Aiolos disse, ele abriu. O outro constatou que ele tinha realmente engolido o remédio, e se levantou para ir dormir também. O torpor logo veio, mas Saga não quis resistir contra ele. Sentia-se realmente cansado, e não teria como resistir se Aiolos o obrigasse a tomar o remédio, ou o imobilizasse para lhe dar outra injeção.

Aceitou o sono, temeroso de que ele também fosse uma armadilha.

OOO

— Saga! Saga!

— Aiolia? O que é que você tá fazendo no meu quarto?

— Eu quero que você me conte uma história.

— Mas agora, a uma hora dessa? Vai dormir! A dinda vai brigar com a gente!

— Mas eu só vou dormir se você contar uma história.

— ...Tá, vá. Sobe aqui na cama, que eu vou te contar uma história.

— Oba!

— Bom, lá vai. Era uma vez três porquinhos que...

— Ah não, Saga. Três porquinhos não! Essa história é muito chata!

— E qual história que você quer?

— Eu quero a dos cavaleiros, aquela que o Kanon conta dos cavaleiros que lutam pela deusa da justiça.

— Mas Olia, eu não sei contar essa história não! Essa história é muito complicada, o Kanon conta história melhor que eu...

— Ele já dormiu, só você tá acordado. E você já ouviu ele contando! Você sabe!

— Olia...

— Por favor?

— Promete então que quando eu terminar essa história você vai dormir?

— Prometo!

— Tá, tá. Deita aqui comigo. Isso. Era uma vez uma deusa que lutava pela bondade e pela justiça, junto com seus cavaleiros...

— Eles não lutavam com armas, né?

— É, eles não lutavam com armas. Mas eles tinham umas armaduras, algumas eram feitas de bronze, outras de prata, outras de ouro.

— E eu sou qual cavaleiro?

— Hã?

— Eu sou qual cavaleiro?

— Não sei... Qual você quer ser?

— Eu quero ser o cavaleiro de... Leão! Com uma armadura de ouro, toda brilhante e... Pára de rir, Saga!

— Ahhh... Desculpa, Olia... Foi o Kanon que te falou que você era o cavaleiro de Leão, era?

— Foi sim!

— Tudo bem, tudo bem... Então que esses cavaleiros, e você é o de Leão, lutavam junto com sua Deusa em nome da Bondade e da Justiça...

...

Saga acordou num pulo, com o coração batendo descompassado em seu peito.

As imagens, antes borradas, agora tomavam forma e voz.

Não eram simples sonhos, eram memórias – memórias que deveriam pertencer a ele naquela realidade, memórias fabricadas para fazê-lo acreditar que toda sua vida era uma mentira.

Foi um erro aceitar o remédio, ceder à ilusão e dormir. Agora eles queriam invadir sua mente.

Respirou fundo, assim que notou que o nervosismo queria tomar o melhor de si. Repassou o sonho, à procura de inconsistências – nada. Era uma tarefa árdua, porque nada batia com o que conhecia de sua vida como cavaleiro no Santuário.

Kanon não vivia oculto, Aiolia o conhecia. Mais que isso, o considerava tão seu primo-irmão quanto ele: Eles, Aiolos e Aiolia formavam uma família. Feliz, ainda por cima. E isso fazia sua garganta fechar pelo bolo de lágrimas a cada vez que as imagens voltavam à sua mente.

Essa felicidade era algo que ele nunca tivera.

Olhou para o relógio no criado mudo, ainda eram quatro da manhã. Seu ímpeto de buscar uma saída o levou a sentar-se na cama e tentar levantar, mas a tontura o fez desistir da ideia assim que se colocou em posição ereta.

Ainda percebia os efeitos da droga que Aiolos lhe dera.

Seus olhos ardiam, a mistura de raiva, nervosismo e medo mantendo-o num estado de alerta contra o qual os restos do remédio continuavam a brigar. O pior, porém, era a sensação de impotência: Ser tratado como um enfermo, cuidado como uma criatura incapaz quando ele era um dos mais poderosos cavaleiros de ouro, se não o mais poderoso... Doía.

Não que não tivesse seus problemas, as atrocidades que cometera sob o jugo de seu lado sombrio eram provas disso. E uma parte dele tinha pena de si mesmo pelo quão fundo ele fora capaz de mergulhar na sua loucura... Mas jamais deixou que os outros o tratassem assim, ele mesmo preferira a morte a ser tratado feito um doente, um estorvo. Nem mesmo chegaria ao extremo de dizer que não era louco, mas jamais se permitiria ser tratado assim. Nunca, jamais, mas era exatamente como estava sendo tratado ali. Como um louco, instável, depressivo, suicida. Pajeado por Aiolos e Aiolia, dentre todas as pessoas. Cuidado por um Aiolos bondoso e compassivo, e por um irmão que não o perdeu na infância...

Uma sucessão de piadas de péssimo gosto.

Típicas de Kanon.

Sentiu a garganta se fechar, dividido entre a raiva e a vergonha de ter sido, uma vez mais, enganado pela esperança de ver seu irmão recuperado. Sentiu a raiva se misturar ao medo, e decidiu que não cederia mais um milímetro àquela ilusão maldita. E ele desmascararia seu algoz, e o faria pagar.

Jamais perdoaria Kanon por isso, jamais. Porque ele sabia, tinha certeza que era Kanon. Quem mais teria tanto gosto em atacar seus pontos fracos assim? Em seduzi-lo com mentiras, ilusões de tudo que ele gostaria que tivesse sido e não foi? Em usar de escárnio para lhe mostrar o quanto ele era falível, fraco, instável; o quanto ele era uma mentira?

Respirou fundo, tentando pelo menos fazer com que sua mente relaxasse para seguir o torpor de seu corpo. Se seu oponente naquela ilusão era Kanon, ele teria que pesar e medir cada um de seus movimentos. Porque Saga sabia o quanto seu irmão, com a motivação necessária, poderia se transformar em um adversário encarniçado. E Kanon também sempre, sempre teve o dom de lhe expor cruamente suas maiores fraquezas.

Ele precisaria de toda a força que pudesse conseguir, e teria de ter paciência. Mais do que nunca, dançar conforme a música, até que ele conseguisse achar uma brecha.

OOO