Máscaras de Vidro
3 Capítulo 3: Mentiras na Escuridão
Dominic não desviou o olhar. Pelo contrário, deu um passo lento para fora do closet, deixando que a luz fraca do abajur delineasse as marcas verticais e profundas em suas costas. A tensão no quarto era tão palpável que o som da água pingando do cabelo dele no chão parecia um estalo.
— O acidente, Ayla — ele disse. A voz saiu desprovida de qualquer emoção, perfeitamente gélida, imitando o tom que ele passara anos ouvindo nos arquivos secretos que guardava do irmão. — Os estilhaços do vidro traseiro rasgaram minhas costas quando o carro capotou. O médico costurou tudo às pressas na mesma noite.
Ayla deu um passo à frente, a testa franzida. Ela olhou para a gaze na têmpora dele e depois de volta para as costas.
— Mas... o relatório da polícia disse que você foi encontrado vagando hoje de manhã. Essas marcas não são de seis dias atrás, Alexander. Elas estão esbranquiçadas. Parecem... antigas. Anos mais velhas.
Dominic sentiu um estalo de irritação misturado com uma perigosa admiração. A garota não era a boneca alienada que Alexander descrevia em seus diários corporativos. Ela observava detalhes.
Em um movimento rápido que fez Ayla prender a respiração, ele reduziu a distância entre eles. Antes que ela pudesse recuar, Dominic segurou a cintura dela com uma das mãos, puxando-a para perto até que o tecido fino do vestido de seda branca dela colasse contra o seu abdômen nu e quente.
— Você está duvidando de mim? — ele sussurrou, inclinando o rosto até que seus lábios quase tocassem os dela. O hálito dele tinha gosto de hortelã e perigo. — O trauma faz coisas estranhas com a mente, minha linda. Eu passei seis dias no inferno, preso nas ferragens antes de conseguir rastejar para aquela estrada. Minha pele está marcada, meu corpo dói... e a única coisa que me manteve vivo foi a porra da ideia de voltar para esta casa. Para você.
Ayla estremeceu. O toque dele na sua cintura era firme, possessivo. O verdadeiro Alexander nunca a segurava daquele jeito; ele a tocava como quem manipula um objeto caro, sem pressa, sem calor. Mas as mãos deste homem queimavam através da seda.
— Você... você nunca falou comigo assim — ela gaguejou, as mãos espalmadas contra o peito musculoso dele, sentindo o batimento cardíaco dele, lento e ritmado. Um ritmo de quem não tinha medo de nada.
— Eu quase morri — Dominic mentiu, os olhos cinzentos fixos nos lábios trêmulos dela, travando uma batalha interna para não tomá-los ali mesmo. — O homem que saiu daquele carro não é o mesmo que entrou. Se você não consegue lidar com as minhas cicatrizes... pode sair do quarto.
O desafio estava lançado. Leitores de dark romance sabem exatamente o que acontece quando o anti-herói dá um ultimato desses. Ayla olhou para os olhos dele, uma mistura de pavor e uma atração magnética e doentia travando uma guerra em seu peito. Ela deveria correr. Deveria desconfiar. Mas, pela primeira vez em dois anos de um casamento fantasma, ela se sentia desejada.
Antes que ela pudesse responder, um som cortou o silêncio pesado do quarto.
Bzzzz. Bzzzz.
Vindo de dentro do closet, o celular corporativo de Alexander — que Dominic havia resgatado do cofre pessoal do irmão — começou a vibrar sobre a bancada de mármore.
Dominic não soltou a cintura de Ayla imediatamente. Ele esperou, os olhos semicerrados, medindo a reação dela. Quando finalmente a libertou, caminhou até o closet e pegou o aparelho. A tela brilhava com um número restrito.
Ele deslizou o dedo para abrir a mensagem de texto.
"Eu sei que você sobreviveu, Ashford. Mas o verdadeiro preço pelo que aconteceu naquele penhasco ainda não foi pago. Estou de olho na sua linda esposa."
Dominic apertou o aparelho com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Ele olhou pelo espelho do closet e viu Ayla, parada no meio do quarto, abraçando o próprio corpo, parecendo tão indefesa quanto preciosa.
O jogo tinha acabado de começar, e os inimigos de Alexander já estavam batendo à porta. Mas eles não tinham ideia de que, desta vez, não enfrentariam um CEO de terno e gravata. Enfrentariam um monstro do submundo.
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