Más Companhias

1 Capítulo 1: Presente?


Notas iniciais
Com os comprimentos da Liga Noyer, apresento-lhes Más Companhias Divirtam-se, comentem se achar que devem, e espalhem a palavra

É estranho como um apartamento fica sombrio quando não existe ninguém nele, imagino que seja pelas cortinas balançando com o vento que se esgueira pela janela aberta, ou então pelas paredes brancas e velhas que, com o passar do tempo e das festas que aguentaram, acumulam rugas e histórias... juro que estão cada dia mais cinzentas. Minha alcova me coloca medo, quando vai o ultimo convidado, isso eu admito, e era exatamente nisso em que estava pensando quando se despediu o último dos meus amigos naquele início de noite no dia 18 de junho de 2015.

Veja, leitor, era meu aniversário e no momento eu me encontrava muito longe da minha família e ainda mais longe da minha cidade natal, me encontrava em Pséma e essa cidade é ainda mais fria naquela época do ano. Resolvi, pois, dar uma festa para os poucos amigos em quem confiava o suficiente para apresentar-lhes minha casa, foram quase 20 pessoas que abarrotaram o meu tímido apartamento da rua Suzano Nogueira, nº 202.

Admito que a vida na universidade local me redera uma quantidade surpreendente de pessoas na qual eu confiava, ao deixar meu ninho não imaginei que me afeiçoasse a mais de meia dúzia, mas ainda assim... bem, deixa para lá. Foi uma tarde longa de barulho, álcool e churrasco. Em Pséma não era comum vermos o céu azul radiante com o sol queimando em brasa, o cenário de costume eram nuvens cinzentas e feixes de luz cortando o paredão branco do firmamento, mas nesse dia o sol resolveu dar as caras.

No final da tarde, eu e alguns companheiros que permaneciam sóbrios o suficiente para não voltar para casa subimos para o apartamento, deixando a área de festas do prédio limpa como de manhã. O apartamento, agora que se foram todos, só é iluminado pelo brilho frio da televisão; a partida de futebol que jogávamos estava paralisada nos pênaltis e eu me encontrava esparramado no sofá negro da sala, aguardando o sono chegar. Aquele silencio sombrio me deixava nervoso, como se sempre houvesse alguma coisa nos cantos me esperando... e havia a bebida.

Era mesmo uma vergonha, não eram nem oito horas da noite e a cerveja tirara-me toda a ebriedade que tentara construir ao longo desses anos todos, rio-me como um tolo, é a vida. Tento me levantar apoiando minhas mãos tremulas na cadeira ao lado, minha respiração pesada me faz lembrar do cansaço acumulado, agora revelado pelo excesso de bebida e de coragem. Caminho até a janela para deslumbrar o brilho urbano do meu novo lar, é incrível como esta cidade se transforma para a noite.

Até onde a vista alcança, pontos brancos luminosos começam a despontar como luzes do natal, as lamparinas que circulam o grande lago no centro da cidade piscavam em branco, azul e verde iluminando as águas dançantes da margem. Os altos prédios e as casas noturnas acendiam sua glória nas janelas e vitrines, as ruas enchiam-se de todo o tipo de gente que ia procurar, naquela noite quente de junho, uma bebida gelada para despertar a mente ou um corpo ardente para aquecer a alma.

Eu podia passar horas debruçado no parapeito dessa janela, descrevendo as belezas da polis e admirando as extraordinárias maravilhas que se faziam nas ruas movimentadas abaixo de mim, mas tenho fome, sede e sono, voltei-me para a escuridão do apartamento. Aproximei-me do laptop sobre a mesa de jantar, precisava preencher o silencio desse apartamento de alguma forma, um rap paulista começou a tocar, todo o meu ser agora se inquietava. A batida da música me guiou pelo apartamento sem rumo algum, meu estomago ronca como um animal furioso e o álcool confundia a minha mente; a ansiedade tomou conta das minhas mãos ociosas, a música ligeira dominava a minha alma vazia.

Apanhei o narguilé esquecido sobre a mesa, a porcelana ainda fumegava mesmo sem um carvão que a aquecesse, levei-o até a cozinha e, cuidadosamente comecei a limpa-lo. Indignava-me a facilidade com que as palavras jorravam da boca dos bêbados enquanto intimidavam-se nas bocas dos ébrios, de fato poemas e canções só ficavam bem-feitas se compostas por mentes enevoadas, dessa forma as palavras não se esconderiam do julgo da consciência, esta devia ser a maior culpada. Minha indignação só se tornou maior com a dor lancinante no meu polegar quando o usei para segurar a porcelana, ela ainda fumegava e queimou-me a carne.

A dor despertou-me para a mais pura realidade, eu não estava em condições de refletir plenamente sobre nada. Terminei de lavar meu objeto e pousei-o novamente sobre a mesa para secar, encarei meu próprio reflexo no espelho da cozinha, sou um animal grande, com o cabelo longo, desgrenhado, uma barba castanha malfeita, os olhos vermelhos e feições irritadas, desviei o olhar. Procurei por água na cozinha, satisfeito, vasculhei as gavetas, prateleiras e a geladeira, não havia nada para comer.

Procurei uma camiseta, calcei um par de chinelos e procurei a chave da porta, passando de novo pelo espelho notei o quanto estava magro... a vida de solteiro é cruel. Achei minhas chaves, apanhei o celular no chão, desliguei a televisão, o videogame, o laptop e voltei à janela. O sol a muito se fora e a lua brilhava no céu estrelado, a cidade rugia em euforia embaixo de mim, as buzinas e conversas preencheram a minha alma cansada, virei-me, cruzei a sala, abri a porta e saí. As escadas escuras do prédio rangeram quando passei por elas apressado, morava no décimo terceiro andar mas fazia questão de usar as escadas, não confio em elevadores.

Cheguei no térreo quase ofegante, a bebida não ajudava em nada o meu pobre vigor, saudei o porteiro ao passar pelo homem, ele estava varrendo o chão de pedra negra cantarolando uma melodia animada.

— Salve Jeremias, como é que vai meu irmão? Cumprimentei o negro velho e alto com um abraço, era um homem musculoso e muito bem-apessoado, o Jeremias.

— Salve Seu Rodrigo, vou levando né não? He he, chegou correspondência aí que eu acho que é pra você, não olhei ainda mas o sobrenome ali parece o seu. Saudou o homem, sorrindo; a barba cinza e mal feita do homem lembrava-me sempre de que ele tinha muito mais idade do que aparentava a sua disposição, sorri para o velho.

— É Noyer, Jeremias, quer que eu traga comida para o senhor da rua? Eu disse rindo, me encaminhando para a portaria do prédio.

— Eu não sei falar um nome desses não senhor, parece nome estrangeiro ora – Jeremias riu-se, e completou – E não quero não Seu Rodrigo, Marina chegou aí com um pacote cheio de bolo já, agradecido!

— Tá certo, até mais tarde então. Me despedi, saindo para a rua.

O efeito do álcool estava se dissipando aos poucos e consegui pensar com mais clareza. O melhor a se fazer seria ir ao mercado mais próximo, comprar algumas pizzas congeladas, refrigerante e voltar para casa, tinha que comprar essência para o narguilé e uma escova de dentes nova também... um suspiro de cansado me escapou por entre os dentes, continuei meu caminho. Virei a primeira esquina à direita e me vi na Alfredo De Bulhões, uma das largas avenidas da cidade.

Caminhei pensativo por algum tempo, demoraria dois anos para terminar seu curso na universidade e meu irmão já tinha falado que se mudaria para Pséma, talvez até minha irmã viesse também... os dois já tinham filhos adolescentes e com certeza não viam para Pséma procurando a mesma coisa que eu, distancia da família e aventura em uma cidade desconhecida e repleta de segredos, viriam pelo crescimento econômico que a cidade vinha apresentando os últimos anos, era um prato cheio para empresários gananciosos e jovens destemidos.

Cheguei em um cruzamento, as ruas estão extraordinariamente cheias essa noite, imagino o porquê... o sinal verde brilhou para os pedestres , atravesso com uma multidão a larga avenida. Eu amo essa cidade quase como se fosse minha terra natal, em suas ruas e becos descobri a verdadeira liberdade, algo que eu não teria em casa, a independência é inebriante, meus caros leitores. Continuo por uma das ruas que desembocam na avenida, acredito que está se chama Antônio Calazans, o cheiro da comida japonesa em um dos restaurantes faz meu estômago rugir novamente e minha boca salivar, continuo meu caminho, mas agora a passos largos para afastar-me da tentação.

Alcanço, finalmente, o mercado. Dentro do lugar fileiras enormes de comida e bebida se estendem a minha frente, fazendo me quase vibrar de alegria, em silêncio... a bebida anda deve estar fazendo efeito. Apanhei uma das cestas ao lado do caixa e comecei a enchê-la de comida, coloquei duas garrafas de refrigerante e ainda uma caixa de doces, paguei tudo e sai do lugar com duas sacolas cheias nos braços. Suspirei de preguiça, o caminho para casa seria ainda mais cansativo com aquele peso extra, e eu ainda tinha de passar na tabacaria... é, o narguilé vai ter que esperar, segui para casa.

Resgatei meu celular do bolso, ele vibrava com uma ligação que eu não queria atender, esperei a ligação cair na caixa de mensagem e olhei as horas, 20: 50, já estava tarde. Meu polegar queimou em brasa, eu havia tocado a parte que encostou na porcelana no celular, me xinguei em silêncio enquanto esperava o sinal abrir. Novamente o celular tocou e eu não atendi, guardei ele no bolso e atravessei a rua, na minha direção vinha a multidão e eu me afastei para não trombar com algum eventual desavisado. Ao chegar no outro lado da rua comecei a discernir um som diferentes das buzinas automotivas, meu coração bateu mais forte, ouvia ao longe o som estridente de uma guitarra.

Procurei de onde vinha a melodia, até finalmente visualizar uma dupla de guitarristas tocando mais à frente na rua, um baterista atrás do trio golpeava os tambores do instrumento com paixão enquanto seus companheiros arrancavam das cordas sons de pura glória. Mesmo sem que eu percebesse, me aproximei e sentei-me ao lado de dois homens que também admirava a banda a nossa frente, um sorriso de euforia começou a crescer em meus lábios. Devo ter ficado sentado quase quinze minutos, mas para mim pareceram segundos; foram quatro músicas apenas antes do grupo anunciar um intervalo, no qual eu aproveitei para respirar normalmente e olhar em volta.

A banda reunira uma grande quantidade de espectadores, gente de todos os tipos e idades enchiam a calçada enquanto admiravam aquela demonstração de talento, é uma das partes que eu amo dessa cidade, a sua cultura de arte na rua... isso não se encontra em qualquer lugar. Muitas pessoas aproveitaram o intervalo para conseguir partir sem agregar um peso muito grande na consciência, tornando a calçada minimamente transponível.

Meu celular vibrou novamente, agarrei-o em meio as comprar amontoadas no meu colo e atendi com impaciência.

— Que foi mano?

— Calma cara, por que que tu não me atendeu antes? A voz que vinha do meu celular arrastava-se, e não era por sono.

— Tava ocupado, oque que foi? Minha impaciência crescia.

— Mano, tô na merda aqui, se eu não pagar um maluco pelo corre de hoje eu tô ferrado, me fortalece ai mano? A demora para completar as frases roía o resto da minha tolerância.

— Tu não cansa de se foder não meu irmão? Porra, terceira vez que te tiro dessas, cadê teu irmão?

— Ta em casa eu acho, e aí, vai ajudar?

—Passa lá em casa mais tarde, é a última vez. Desliguei sem esperar por resposta, enfiei o celular nos bolsos e tentei me controlar.

Aquele era o irmão de um grande amigo meu, Raul, e eu não esperava que ele vivesse nem mais um ano, do jeito que as coisas iam. A família já o havia abandonado depois da terceira vez que foi preso, pouco antes do seu aniversário de 27 anos, o próprio Raul por pouco não desistira do irmão, mas ele não conseguia, um irmão sempre luta pelo outro, mesmo o outro sendo um ser patético como o Felipe; eu o ajudo sempre que posso pela pessoa que era antes de cair, pois depois disso... nem ele mesmo sabia quem era.

Me levantei, agarrei minhas compras e estralei o pescoço, em breve Felipe devia estar na porta do prédio e eu não o queria rondando por ali por mais tempo que o necessário. Foi exatamente quando ia me virar pra ir embora que meus olhos vislumbraram algo que tive que voltar meu rosto para ver melhor, uma garota de cabelos negros, lábios levemente avermelhados e um sorriso lindo, devo ter me virado para ela muito bruscamente pois ela desviou o olhar da amiga que lhe contava algo para mim.

Acho que minha cabeça nunca se virou tão rápido quanto naquele momento, tinha certeza que meu rosto começava a corar e então comecei a caminhar a passos largos, tentando me afastar o máximo possível daquele momento de profundo embaraço. Eu devia estar bêbado ainda, encarar uma garota daquele jeito? Virei a esquina da minha rua e só então voltei a andar nos meus passos curtos e costumeiros, Felipe não estava em lugar nenhum à vista, o que era muito bom, o bar na esquina oposta começava a encher-se de gente.

Toquei a campainha do prédio com a testa, tendo as mãos ocupadas com as compras, e Jeremias abriu-a para mim.

— Que tanto de comida Seu Rodrigo, isso tudo é fome? Disse o homem, rindo ao fechar a porta.

— É necessidade, meu caro, mais tarde eu desço e pego o pacote, beleza? Pode deixar aí encima da mesa pra mim. Pedi, enquanto ele pedia o elevador para mim.

— Deixo sim, boa noite. Desejou, quando entrei na capsula de metal.

— Boa noite, Jeremias. A porta se fechou, apertei o número treze e esperei.

Cheguei em casa e corri para colocar tudo na geladeira, com certeza alguma coisa já devia ter descongelado mas imagino que não seja um problema tão sério assim. Abri uma das pizzas e coloquei-a no forno, liguei a TV e a conectei com meu celular, colocando uma música para tocar enquanto fui tomar banho, o silêncio precisa ser preenchido. A parte boa de morar sozinho em um apartamento de quatro cômodos, a cozinha, a sala, meu quarto e o banheiro, é que o cheiro de pizza pronta na cozinha rapidamente chegou ao meu banho, atiçando o monstro faminto que eu criava dentro de mim.

Sai vestindo apenas uma bermuda para desfrutar do meu banquete, a pizza parecia muito mais bonita com a fome que eu sentia, devorei-a rapidamente e em quinze minutos eu já estava no sofá, imaginado quais essências compraria no dia seguinte e me amaldiçoando por ter queimado meu dedo, que agora doía como nunca. No dia seguinte era aniversário da cidade, e as festas seriam espetaculares como todo ano, a greve dos professores na universidade me renderia alguns dias de descanso da rotina da vida acadêmica, e por isso eu agradecia.

Meu celular tocou, era Felipe, apanhei um maço de notas na carteira e desci, eram quase nove e meia já e a portaria estava deserta, Jeremias havia deixado o pacote encima do balcão na portaria como eu pedira, passei por ele, era um pacote relativamente grande, abri a porta e sai para a noite. Felipe estava me esperando do outro lado da rua e parecia ansioso, fui até ele.

— Eai mano. Cumprimentei-o, suas mãos estavam tremulas e seus olhos assustados.

— Ou, valeu aí cara, sério, o fiel lá me falou que me passava e passava meu irmão se não pagasse. Ele recebeu as notas com satisfação, não olhou para mim enquanto falava.

— Tu tens que parar com isso cara, coloca o nome do seu irmão no meio não, tu vai acabar ferrando cm ele também. Eu o repreendi, tentando-o olhar nos olhos.

— Eu sei mano, foi mal. Se desculpou.


Eu olhei bem para o Felipe, era um rapaz alto, tinha a mesma idade que a minha e que seu irmão, 22 anos, e parecia-se demais com o meu amigo para deixa-lo passar necessidades. O cabelo tinha cor de palha e a barba crescia no pescoço até o queixo, mas não passava dali, ele parecia um porco extremamente grande e só de olhar para ele me dava raiva pela quantidade enorme de erros que ele cometeu, pelas pessoas que ele feriu, mas não cabe a mim julgar, lhe dei um tapa no braço e me despedi.

De volta ao prédio, peguei o pacote no meu nome e tentei abri-lo enquanto subia as escadas, estava muito bem lacrado e desisti da tentativa no meio do caminho, uma tesoura facilitaria muito o serviço. Chegando no apartamento, abandonei o pacote encima da mesa e apaguei as luzes, deliguei a TV e levei o laptop para o quarto, o sono me dominava e fazia pesadas as minhas pálpebras. Abandonei o computador na escrivaninha e deitei-me cama, apaguei a luz. O céu estava bastante escuro naquela noite e as estrelas recheavam o firmamento, eram brilhantes como os olhos da garota da rua, eram muito bonitos mesmo. Lá fora, aquela banda tocava e enchiam a alma da garota de alegria assim como enchera a minha.

— Parabéns para mim. Murmurei, e adormeci.