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2 Capitulo 2: O sabor do entardecer
A vida é injusta, mas as vezes ela pode ser bastante agradável...só se você não estiver com fome, aí a vida é um merda mesmo. Era exatamente nisso que eu pensava enquanto preparava meu almoço na manhã do dia 19, o cheiro delicioso do frango na panela enchia minha alma de uma pura e inocente alegria, e também de fome. Digo manhã pois eu ainda não havia almoçado e qualquer horário antes dessa substancial refeição ainda é manhã; a verdade era que eram quase duas da tarde e por alguma razão eu só conseguira acordar meio dia, mesmo tendo indo dormir cedo na noite anterior.
Me surpreendi por não ter acordado com a solteirona do andar de cima cantando ao preparar o almoço, um hábito verdadeiramente infeliz tendo uma voz daquelas; creio que, como reclama minha família inteira, eu devo mesmo ter o sono pesado... o “o sono de um morto” como sempre acha importantíssimo pontuar. Quase queimei o frango, meu dedo ainda dói o bastante para que eu lembre de não usá-lo para nada, o que era bastante desconfortável na hora de cozinhar, acredite. Peguei a espátula do lado do fogão e movi os pedaços de carne pela panela, o cheiro estava espetacular.
Peguei um prato na prateleira, um vidro de arroz na geladeira, um copo de água e o laptop que ficara abandonado sobre a mesa da sala; desliguei o fogo e pousei alguns pedaços de frango no prato, distribui o arroz e agarrei os talheres na segunda prateleira, distraidamente, comecei a comer. Abri o laptop para ver se algo de interessante valia a pena ser lido nos jornais, mas encontrei o de sempre... escândalos de corrupção, uma curta matéria sobre a situação geopolítica no oriente médio, fofocas sobre alguma das inúmeras novelas aclamadas pelo público, futebol, mais futebol, alguma coisa sobre celebridades no YouTube... o desinteresse me dominou
Me rendo a vagar sem rumo pelas aguas poluídas do Facebook enquanto termino meu almoço, sentia no ar o aroma ácido do tédio... tentei, por fim, lembrar do que havia para fazer hoje. Com parcial certeza me lembrei de algo como uma festa teria lugar na casa de um amigo da faculdade, abri o celular e perguntei em um grupo de amigos se alguém sabia algo sobre, ainda tinha o show de uma banda de amigos mais tarde no parque da cidade, isso eu realmente não poderia faltar.
Resolvi passar o tempo no videogame enquanto nenhuma informação aparece no grupo, ao menos vou usa-lo um pouco, a rotina na faculdade me tomou praticamente todo o tempo livre. Terminada a refeição, abandono meu prato na pia e vou para a sala, anotação mental para lavar a louça mais tarde, precisava de tempo para descansar depois de comer. Com o ar condicionado ligado, o laptop tocando as eletrônicas mais ouvidas do ano e as janelas todas fechadas, inicio meu dia.
Já eram quase seis da tarde quando minha atenção desviou-se do jogo pela primeira vez, mensagens fervilhavam no celular, com certeza algum grupo havia achado alguma razão para existir e debatiam todos bastante animados, prometi a mim mesmo que iria ler tudo mais tarde. Poucos minutos depois um barulho alto veio da rua, era algo como se algo tivesse golpeado o metal um bastante força, logo em seguida várias vozes distantes e um choro de bebê, fiquei tentado a ignorar completamente e continuar minha ocupação, mas a curiosidade pesava na minha consciência, pausei o jogo, levantei-me fui até a janela e a abri.
O que eu vi foi muita gente andando para lá e para cá na rua, discutindo, uma mãe tentando acalmar um bebê que chorava, carros transitavam apenas por uma das duas pistas e uma viatura falava com um senhor de idade na rua que parecia bastante perturbado; parecia que alguma coisa não estava muito certa pois muita gente discutia mas não parecia haver um culpado ou nada que indicasse de onde viera o barulho. Voltei a fechar a janela e sentei-me no sofá, abrindo o celular para ver as mensagens, a confusão na rua aos poucos deixava a minha mente.
Na realidade, dois grupos conversavam bastante naquele momento, primeiro o da família, cujas mensagens beiravam uma centena, e o segundo era o grupo de amigos no qual eu havia feito a minha pergunta, neste já somavam-se algumas dezenas. Parecia que, de fato, ocorreria uma festa na casa de um dos meus amigos e ela iniciaria as 18:30 horas, prometendo durar no mínimo três horas, mas nada muito detalhado fora professado pelo anfitrião... perguntei quem iria e voltei a travar o celular.
Lembrei-me que deveria abastecer o narguilé, a loja fecharia as 19h, e a preguiça guinchou dentro de mim, implorando-me para permanecer no escuro frio da sala ao invés de cair nas ruas abarrotadas de gente e automóveis da cidade. A preguiça de comprar no dia seguinte, porém, foi ainda mais forte e me fez salvar meu progresso e desligar o videogame, levantei-me novamente espreguiçando e fazendo estralar todas as juntas do corpo. Minha cabeça doía pela quantidade de tempo que havia passado frente a tela da televisão, procurei minha carteira, abri as janelas, liguei as luzes do apartamento e fechei o laptop.
No quarto, tratei de tomar banho enquanto tentava decidir se ia ou não na festa do meu amigo antes do show... a propósito, a banda chamava-se School’s Out e um dos meus mais antigos amigos, Lucas Vaz, era o líder e o baterista do grupo. Ao fim do banho, passei a mão no cabelo, estavam quase me passando os ombros, e na barba, esta já me tomava todo o rosto e me deixava com cara de desabrigado, eu tinha que dar um jeito. Resolvi deixar apenas o bigode e um cavanhaque curto, nada que chamasse muita atenção.
Satisfeito, vesti-me e apanhei meu celular e a carteira, passei pela sala, desliguei o ar condicionado, a televisão tomei um copo d’agua, peguei as chaves e saí. Desci lentamente pelas escadas enquanto checava novamente as mensagens no celular, enquanto tagarelavam no grupo da família os meus amigos, pouco a pouco, confirmavam presença na festa que se daria mais tarde, já contava com a presença de quatro companheiros e 2 amigas... era o suficiente, decidi ir.
Estava quase chegando na portaria quando meu celular começou a vibrar, alguém me ligava.
— Oi? Atendi enquanto abria a porta das escadas, chegando ao térreo.
— Oie, e ai? Vai lá na festa do Rafael? Respondeu uma voz quase infantil, eu conhecia aquela voz linda, era Ana Velásquez.
—Bom dia para ti também Ana – uma risada do outro lado da linha e uma saudação – pô, estou achando que eu vou sim, tenho que ver, tu vai?
— Vou sim, vamos eu, a Vitoria e a Carol, bora lá Rodrigo!! Vai ser super massa poxa. Pediu a garota, dei um sorriso.
— Tu falando assim então eu tenho que ir né? Que horas tu chegas lá? Eu ria enquanto atendia os pedidos da moça. Naquele momento eu passei por Jeremias no balcão e o cumprimentei, gesticulando que estava no telefone, ele sorriu e elogiou minha barba em silêncio, abrindo a porta para que eu saísse.
— Eu e as meninas devemos chegar lá pelas sete, posso te pedir uma coisa? Ela perguntou, bati continência para o Jeremias e segui pela rua.
— Depende né? Pergunta aí.
— O Rafael pediu para quem ia na festa levar o que ia beber, mas eu e as meninas estamos de carona com o pai dele e ele implica com essas coisas, tu podes comprar uma Absolut pra gente? Eu te pago lá na hora.
— Putz, vocês vão beber uma Absolut inteira as três? Vai com calma moça. Eu ri enquanto virava a esquina na Alfredo de Bulhões.
— Rodrigo, só leva tá bom? Eu levo uma coisinha pra ti. A malicia na voz da garota chamou a minha atenção enquanto eu divagava pelos rostos nas ruas, ri para o telefone.
— Levo sim, tu lembra quanto que custa uma Absolut ainda né?
— Lembro sim, moço, e outra coisa, a gente vai pro show do Lucas mais tarde, quer ir com a gente?
— Eu ia com o Raul e com o Augusto, mas se tu quiseres eu acompanho vocês... eles tão de carro mesmo...
— Ai, vai com a gente então? A Carol cismou de que quer ir de metrô pra comprar uma coisa no caminho mas eu não animo de entrar naquele metrô sozinha não.
— Eu vou com vocês então, a gente se vê lá então?
— Sim, brigado meu anjo, até lá, beijo. Ela se despediu
—Beijo, até já. Eu me despedi, guardando o celular no bolso em seguida.
Passei a mão no rosto tentando anuviar a dor de cabeça irritante que me atormentava, tentei refletir em qual das duas tabacarias eu deveria ir comprar minhas coisas levando em consideração as distribuidoras mais próximas. Desci pela Alfredo de Bulhões distraído, o ar estava seco e mais ou menos frio, o céu estava cinzento e a cara das pessoas ainda mais cinzenta, era um fim de tarde cansativo para pessoas cansadas, aquela gente toda trabalhava o dia inteiro e essa consciência me fez ter vergonha do que havia feito o dia todo, de fato... a vida não é justa.
Passei por um grupo de gente que se amontoava para ver a arte de uma família hippie na beira da calçada, aquelas pessoas me lembraram da garota que vira na rua ontem, agora que passara o nervosismo que tivera para ir embora eu conseguia lembrar dela claramente. Não era muito baixinha, mas não era alta, eu admito que tinha bastante corpo para a cara de garota de 16 anos que ela tinha, mas nada muito exagerado, tinha o rosto pequeno e angular, um sorriso lindo, olhos cor de âmbar e os cabelos negros como a noite, era branca e tinha as mãos finas, os lábios eram belos e ela tinha um relógio tatuado no ombro direito, um relógio de bolso.
Ri comigo mesmo só de pensar na noite passada, eu provavelmente nunca mais viria a garota na vida e tinha agido que nem uma criança com ela, com certeza ela tinha notado a minha tentativa de quebrar o pescoço para que ela não visse o meu rosto, “muito bem, meu irmão”. Continuei pela rua, conforme ia ficando tarde as pessoas que encontrava mudavam seus rostos, na hora do almoço, quando eu descia para almoçar, eu via pessoas dispostas indo almoçar, de tarde, nas ruas andavam pessoas apressadas, adultos distraídos e crianças ansiosas, as sete horas chegavam e conforme a luz do sol se esvaia no horizonte, as ruas enchiam-se de almas sombrias e inebriadas.
Era aquela uma sexta feira quente para os padrões de Pséma, e ainda assim já despontavam nos cantos da cidade, nos becos e nas esquinas afastadas homens, mulheres e crianças que vendiam ao público alegria, euforia e prazer. Virei a esquina na rua Jacinto Galeão e, com as mãos nos bolsos da calça jeans, desci a rua lentamente desviando dos últimos trabalhadores que chegavam em casa e já de alguns arrumados para a noite urbana. A Tenda ficava dois quarteirões a frente e era lá que compraria as minhas coisas, peguei meu celular e liguei para o Raul.
— Fala meu querido, o que que você manda? Atendeu meu amigo, ele já estava no mínimo uma lata de cerveja na minha frente.
— Já começou a beber, seu porra? Nem espera os amigo, ué? Brinquei, rindo enquanto Raul dava uma sonora gargalhada do outro lado da linha.
— To aquecendo só, moleque, cadê você? Vai pra festa não? Troquei o celular para a mão esquerda para ver as horas no relógio, eram seis e meia e o Raul deveria estar esperando que fossemos juntos.
— Eu vou irmão, mas o lance é o seguinte: não vai dar pra eu encontrar vocês antes não por que eu tenho que comprar umas coisas pro narguilé, daí eu pego um taxi da Tenda pra lá, suave? Voltei o celular para a mão direita, atravessei a rua e agora faltava apenas um quarteirão para chegar na esquina da Tenda.
— Massa, mas você vai levar as essências pra festa?
—Posso deixar no seu carro?
—Pode ué.
—Fechou então, mais uma coisa, irmão.
— Fala.
— A Ana me pediu pra ir com ela pro esquema do Lucas porque ela está com medo de pegar o metrô sozinha a noite. Percebi que dois homens me observavam mais à frente na rua, estávamos a quase a mesma distância da porta da Tenda e agora eles vinham na minha direção, vinham quietos e sem trocar uma palavra.
— A Ana Velásquez, seu safado? Por que não chamou ela pra ir no meu carro? Raul ria enquanto falava, dando pausas para longos goles de cerveja, meu nervosismo aumentava.
— Por que não ia caber ué. Eu respondi rindo, mas comecei a andar mais rápido para entrar na Tenda antes de ser interceptado.
— Sei demais, tu quer é passar um tempo sozinho com ela que eu tô ligado. Os homens estavam cada vez mais perto; da vitrine da loja vinha uma luz amarela, ainda estavam abertos.
— Ela vai estar com as meninas pô. Comecei a andar mais rápido, atravessei a rua quase correndo.
— Meu irmão, vai querer as três pra você só?! ta maluco? Os homens estavam a passos de mim, viam os dois com as mãos enfiadas nas jaquetas.
— Mano, a gente se vê na festa. Me despedi quase guardando o celular, estiquei a mão e agarrei a porta da Tenda
— Até mais tarde então, maninho, abraço.
Eu já havia enfiado o celular nos bolsos e entrado no ambiente frio da tabacaria, cujo próprio ar cheirava menta e avelã; haviam Narguilés de diferentes as cores e tamanhos por todos os cantos da loja, essências das mais diversas origens e sabores enchiam as prateleiras, respirei fundo... essa foi por pouco. Fui até o balcão aonde estava o dono da loja, era um homem chamado Abdul-Majid, porém, ninguém o chamava pelo nome.
— Salve, Turco, tudo certo? Saudei o homem com alivio na voz, ele ergueu os olhos cansados para mim atrás dos óculos de meia lua, sorriu e disse em uma voz grave.
— Eai Rodrigo, tudo bom? Ele estendeu a mão para mim e eu a apertei. Tal como seu dono, a mão era muito maior do que a minha, Abdul era alto e tinha uma barba grande, espessa e negra, tinha um nariz grande e olhinhos espertos, trazia os cabelos presos em um turbante negro e um colar da lua crescente dourada pendia sobre a camisa social que vestia para trabalhar.
— Tudo bem, chegaram a Tangiers de menta que você falou aquele dia?
— Chegaram sim, elas vieram em pacotes de 250 gramas, vai levar quantas?
—Quanto é cada?
— 142 reais.
— Putz, ela é cara mesmo... a Mazaya está quanto?
— 15.
— Me dá três da Mazaya, uma de cada, e uma Tangiers então, tu tens carvão aí?
— Pólvora ou Coco?
Terminei minha conversa com o Turco com uma sacola cheia de coisas, um árabe bastante feliz, e um Rodrigo bastante pobre, pedi para o homem chamar um taxi para mim e abri o celular para checar as novas mensagens.
Ana me perguntara se eu já estava na festa
“Acabei as coisas aqui na Tenda, vou passar pra comprar as bebidas e já vou”
“OK, acabamos de chegar no Rafael, Beijos”
“Beijos”
— O taxi tá ai na porta, Rodrigo. Turco me alertou, de fato um taxi havia estacionado na frente da loja. Acenei em despedida ao meu amigo, que já começara a se preparar para fechar a loja, e sai novamente par rua.
Entrei no taxi, era um Vectra limpo e bastante perfumado para ser um taxi; saudei o motorista.
— Boa noite.
— Boa note. Respondeu o homem me olhando pelo retrovisor, tinha um rosto quadrado e um bigode ralo.
— Para a distribuidora lá na Carlos Lacerda, sabe onde é?
— Sei sim. O motorista então perdeu seu interesse em mim, voltando os olhos para a rua e dando partida no carro.
Já eram mais de sete horas e os últimos raios de sol escondiam-se lentamente atrás dos altos prédios, os postes de iluminação acendiam-se, iluminando as ruas de Pséma com sua luz pálida. As várias casas de festas e bares da cidade começavam a abrir suas portas aos clientes da noite, fazendo a urbanidade, pouco a pouco, ir iluminando-se por lâmpadas coloridas e holofotes potentes, o som aumentava com o falar dos milhares de pessoas que deixavam suas casas, crianças gritavam eufóricas na rua e o ar fresco da noite soprava nos corredores de concreto, o crepúsculo anunciava a vida noturna na cidade.
Deixei a janela para voltar para a tela fria do meu celular, piscavam duas novas mensagens: uma da Ana, uma de um conhecido: Bruno Correia.
“ Estamos todos aqui já, demora não que eu tenho aquela surpresa pra você” Ana
“ Estou quase lá, até já” respondi, cliquei para abrir a outra conversa.
“Eai Rodrigo, tudo bom? Seguinte, tô precisando de alguém pra me ajudar a organizar uma festa no sábado que vem e você é o único que eu sei que quando organiza a festa não mia, posso contar contigo? Os lucros a gente racha”
“Salve meu irmão, pode contar comigo sim, tu vai estar no show do Lucas mais tarde? ” Perguntei
“Vai ter um show? Onde? ”
“No parque, sabe aquele que é rodeado pela Oswaldo Aranha? ”
“ O Vilas Boas? ”
“ Esse mesmo, vai ser no local de shows que tem lá no centro, vai lá que a gente acerta tudo direito, vai ser massa até. ” O taxi havia parado na frente da distribuidora, pedi que ele me esperasse e desci.
“Tá certo então, que horas começa lá? ”
“Deve começar umas dez e meia”. Subi as escadas dá loja, adentrando o espaço frio e vazio da loja.
“A gente se vê lá então, um abraço”.
“ Abraço”. Eu me despedi e voltei os olhos para o balcão da distribuidora, um homem gordo que parecia estar bastante impaciente para um estabelecimento vazio aguardava pelo meu pedido
— Opa, boa noite. Saudei
— Boa, posso ajudar?
— Uma Absolut Vodca e seis Budweisers, por favor. Pedi, puxando a minha carteira para pagar o homem.
— Ta animado hein moleque, isso tudo ai é pra banda de macaco do Lucas? Uma voz disse atrás de mim, um arrepio de raiva percorreu meu antebraço e eu virei a cabeça para quem falava.
— É pra minha noite com a vadia da tua mãe, desgraçado. Respondi olhando-o nos olhos.
Esse aí era o Frazão, dizem algum que era um cara bem bacana... quando ele queria, é claro, a verdade era que ele merecia uma surra bem nada em um beco escuro para voltar correndo pra mamãe, implorando que ela o levasse de volta para casa. Um brasiliense como aquele, todo rico e bem ajeitado, com um sorriso Colgate e dinheiro suficiente para comprar quantos amigos e garotas quisesse, até que não me irritaria muito, não fosse pelo ego...
— Ta querendo brigar aqui mano? Agora que fez a barbinha pra ficar charmoso? Ele riu, passando por mim e indo em direção aos freezers. O rapaz da loja me trouxe as sacolas e eu deixei o dinheiro sobre o balcão.
— Eu não brigo com moleque, chega perto demais de mim ou dos meus que tu vai acabar numa vala, teu otário. E voltei para o carro, deixando-o rindo para si em silêncio enquanto olhava as bebidas no freezer.
Entrando no taxi, dei o endereço da festa para o motorista e recostei-me no banco do carro, pousando as bebidas geladas entre as pernas. Frazão conseguira me irritar, Lucas e seus companheiros eram dois anos mais novos do que eu e do que a maior parte dos meus amigos, e éramos um dos únicos que o apoiávamos desde o começo da banda, parte pelo gosto pela música, parte pela solidariedade... não haviam muitas bandas de rock em Pséma, nem muitos fãs.
Cheguei na festa do Rafael quando esta parecia estar atingindo a sua lotação máxima, mas não perdi muita coisa. Quando paguei o motorista e desci do carro, muita gente estava acabando de chegar, de forma que reconheci vários rostos ainda na entrada da casa, aquela festa não poderia ser uma total perda de tempo. Cumprimentei o segurança que guardava a porta da casa e dei meu nome, uma vez constada minha presença na lista, fui rapidamente revistado e entrei na casa.
Veja, leitor, eu estava com três sacolas na mão e com uma cara de poucos amigos após meu desafortunado encontro com Frazão na distribuidora, só queria achar meus amigos, descarregar meu fardo e abrir uma cerveja gelada para esfriar a cabeça. Fui andando em direção a área de lazer, onde já havia avistado Raul e os outros conversando, quando de repente alguém segura meu braço e me puxa para trás.
Virei o rosto para ver quem me agarrara, Ana sorria um riso lindo para mim, um sorriso cujo brilho eu mal percebi... meus olhos ficaram presos em um ombro no meio do caminho, e tatuado nestes ombros vinha um belo relógio, um relógio de bolso.
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