Mágica - Livro I

7 Um bilhete. E deve ser pra você.


Era sábado, e o combinado das caronas foi que Cassandra iria cedo para a casa de Laulau e o irmão de Lucas passaria com o garoto para buscar as garotas e levá-las ao Coliseu. Thomas disse que iria sozinho e André conseguiu uma carona da própria mãe, que era enfermeira e estaria a caminho do plantão. Apesar de esse ser o combinado, o plano deu todo errado. O irmão de Lucas não estaria mais com o carro, então ele iria para a casa de André pegar uma carona com o amigo e, às 20h do sábado, quando Cícero já colocava os pés para cima no sofá de sua pequena casa, Cass entrou no cômodo falando ao celular.

— Eu vou ver, não sei, espera aí. – a adolescente se apoiou no batente da porta, olhando o pai – Pai, você tá ocupado?

O pai olhou para ela, do sofá, juntando as sobrancelhas enquanto pensava que teria que levantar.

— O que foi?

— Eu e minha amiga precisamos de uma carona para conseguirmos ir ao Coliseu.

Ele olhou para a filha dos pés a cabeça, já arrumada para sair, com uma mini saia que qualquer outro pai reprovaria e parte da barriga de fora.

— É muito longe?

— Laulau, é muito longe? – a menina perguntava ao telefone, esperava a resposta – Do outro lado do lago, ela disse.

O pai suspirou e fez que sim com a cabeça, mesmo girando os olhos.

Trinta minutos depois, Cícero levava Cass e Laulau para o Coliseu em um Palio vermelho. As duas adolescentes iam no banco de trás, já que Agda, curiosa com o lugar que a irmã frequentaria, pediu para ir junto e foi na frente.

— O lugar é meio afastado, mas é bem tranquilo, viu, seu Cícero? – Laulau se precavia em explicar para o pai da amiga.

— Tudo bem, eu confio na Cassandra. – Cícero respondia mantendo uma expressão despreocupada.

Enquanto Laulau contava sobre a história do lugar, um antigo e pequeno teatro de arena que ficou abandonado nos anos 90, uma conversa maior acontecia nas mentes da família de bruxos.

Observe bem. É uma parte alta do bairro, muita natureza preservada ao redor, as únicas construções são antigas. Seria o lugar certo para um portal nessa cidade. – o pai alertava as filhas.

Pai, quais as chances? – Cass não queria ter a noite destruída por medos infundados.

Ínfimas, eu sei. Mas se sentir algo estranho, cheirar algo estranho, ver três estrelas cadentes seguidas… já sabe.

Eu me transporto pra longe e depois para casa.

Isso.

Vai ser difícil ver estrelas cadentes, o céu está encoberto. – Agda pensou, mantinha os olhos fixos ao lado de fora, observando o bairro que agora era apenas uma área turística, histórica e um tanto abandonada da cidade.

Obrigada pelo pensamento positivo aí pra me ajudar. – a irmã mais velha resmungou em pensamento.

Eu não posso controlar o que eu penso.

Não vai ter nenhuma ocorrência estranha. – Cass voltou a afirmar em pensamento – É um bar cheio de gente, nenhum bruxo faria algo para correr o risco de ser pego dessa forma.

Sim, filha, as chances são ínfimas, sabemos. – Cícero repetia – Apenas fique alerta, está bem?

Fico, fico sim.

Laulau terminava sua explicação bem quando o carro parava em frente a um portão aberto, o terreno era cercado por um muro de pedras, uma tenda de lona estava para o lado de dentro do portão, com pessoas cobrando e controlando a entrada.

— Divirtam-se – Cícero olhava para trás vendo as duas saindo do carro –, se precisarem de qualquer coisa, me liguem.

— Obrigada, seu Cícero! – Laulau escorregava pra fora do carro.

— Valeu, pai! Você busca a gente?

— Busco, né? Me liga pra me acordar, eu estarei dormindo.

Saíram do carro e caminharam para o portão, Cass vestia a camisa de flanela que carregava consigo, agradecendo mentalmente ter pego o agasalho já que a noite era úmida e fria.

— Luquinhas disse que já chegaram. – Laulau checava o celular.

— Todos eles?

— Sim, disseram que estão procurando uma mesa.

Passando o portão, caminharam por uma rua de paralelepípedos até verem os degraus para baixo. O teatro era construído na encosta de um morro, não era tão alto, era como uma arquibancada em meia lua com oito níveis. Lá embaixo, no centro do semicírculo, havia um pátio que deveria ser o palco original, bem amplo, mas agoraera um espaço dividido entre um pequeno palco onde as bandas tocavam, mesas, e uma pequena construção onde abrigava a cozinha e o bar. Essa última adição era a responsável por prejudicar o potencial arquitetônico do espaço. Mesmo assim, Cassandra ficou um tanto impressionada.

— Isso é animal. – comentou observando o lugar, as pessoas em pequenos grupos sentadas na arquibancada e a fila para o bar. Olhando para além da estrutura, havia grama e mata preservada em volta de todo o terreno. – Sozinha eu teria um pouco de medo.

Laulau deu risada, começou a descer os degraus chamando a amiga com a mão.

— É meio isolado, né? Mas é nunca acontece nada perigoso. Eu acho que tô vendo o Thomas e o Luquinhas ali.

Cassandra observou o lugar apontado, identificou os dois amigos.

— Estranho, e o André?

— Deve estar por ali… Por falar nisso, pra quem tinha tantos pés atrás em sair com meu amigo, né? Você acabou mudando de opinião bem rápido.

— Ah, nem começa, Laulau! – Cassandra segurava uma risada nervosa.

— Tudo bem, eu sei que ele te ganhou com o jeitinho dele. Eu sabia que ia acontecer.

— Se você acha ele tão incrível, por que você não saiu com ele?

— Eu gosto é de menina. Por que você acha que eu ando com uma banda de emo? Eles são boas iscas.

Cassandra parou de andar, desacreditada. A menina de cabelo rosa notou passos depois, olhando para trás a procura da loira.

— Laulau! – Cassandra a repreendia, mas ainda sem acreditar.

— Que foi? Vai dizer que você não anda com sapatão?

— Não é isso, mas achava que você valia alguma coisa! – Cass deu risada, voltando a caminhar ao lado da amiga – “Boas iscas”?

— Pois é, eu não presto. Às vezes fico com as que não querem ficar com o Diogo mesmo. Por falar nisso, é capaz de acharmos ele por aqui.

Elas se aproximaram de Lucas e Thomas, que tinham acabado de se acomodar em uma mesa.

— Boa noite, senhores. – Laulau os cumprimentou puxando uma cadeira. – Milady Cassandra quer saber onde seu prometido se encontra!

Cassandra estreitou os olhos encarando Laulau enquanto se sentava.

— Milord André foi providenciar bebidas revigorantes para nossa noite! – Lucas explicava entrando na brincadeira, como sempre – Em breve ele nos dará a graça de sua companhia.

— Se prepara. – Thomas olhava para Cass enquanto falava.

— Para o que? – ela perguntou levantando uma sobrancelha.

— Eu imagino que você saiba pra quê.

— Milady Cassandra – Lucas entrava na conversa –, não deves fazer nada que seu coração já não anseie, mas temo pela saúde de Milord se ele deixar este recinto sem um beijo de vossa graça essa noite.

Laulau dava risada e batia palmas, Cassandra corou o suficiente para ser possível notar, e preparava uma resposta, mas Thomas falou primeiro:

­— Não é ele ali?

Se viraram para ver. Era André e ele falava com uma garota de cabelos pretos e lisos, batom vermelho, usando um shorts rasgado por cima de uma meia arrastão. Ele parecia desconfortável, olhando para os lados como se analisasse uma rota de fuga enquanto a garota falava.

— Ah não. – quem resmungava era Lucas.

— Quem é? – Cassandra perguntou.

— Tati. A ex dele. – Laulau explicou, Cassandra olhou para a amiga – Sim, aquela mesma que eu te falei.

Lucas começou a comentar que não esperava encontrá-la por ali hoje. Enquanto conversavam, Cassandra se concentrou nos dois. Havia algo na postura de Tati que ativava sua intuição. Havia praticado na última semana e, ainda com alguma dificuldade, conseguia distinguir intenções de algumas pessoas mesmo de longe. Era uma questão de se concentrar. Demorou alguns segundos até conseguir ampliar sua percepção, mas não foi difícil identificar as intenções de Tati. Eram fortes, expansivas, e buscavam certa humilhação. Sentiu também André, claramente desconfortável, até se sentindo um pouco ameaçado.

Cass se levantou.

— Onde você vai? – Laulau quis saber.

Ela não respondeu, começou a andar na direção de André, mas pôde ouvir Thomas dizer:

— Ela vai resgatar o príncipe dela.

*

André estava entre o palco e as mesas, pensando em como poderia conseguir se livrar da ex sem que ela fizesse uma cena. Era sempre assim com Tatiane, ela podia falar as maldades que quisesse, mas ao ouvir a primeira resposta atravessada faria um drama. Logo se tornaria a vítima da situação.

— Não esperava que você viesse me ver cantar hoje! – os lábios vermelhos diziam esbanjando um sorrisinho satisfeito e debochado. E pensar que ele já havia beijado aquela boca.

— Você vai tocar aqui? – para André, era inacreditável.

— Sabe como é, com as minhas novas conexões, eu tenho conseguido várias vantagens. A banda que ia tocar teve um problema, o dono do bar lembrou da gente e nos convidou. Já pensou se você tivesse ficado na banda igual eu te falei? Estaria tocando aqui hoje, eu sei que você queria tanto isso...

Ele se perguntava quando ela acabaria de humilhá-lo e o deixaria em paz, mas uma visão o surpreendeu. Se aproximando por trás de Tati, a cabeleira loira e volumosa que ele havia aprendido a reconhecer e apreciar se aproximava.

— Oi, meu bem! – Cass se aproximava dele, mais do que geralmente se aproximava.

— Oi! – ele respondeu ainda sem compreender o que estava acontecendo. Desde quando ele era “meu bem”?

O desentendimento durou apenas até quando ela abraçou as costas dele pela cintura, parando ao seu lado e se apoiando ao seu tronco. Instintivamente, ele a abraçou pousando a mão em suas costas. Cass olhava para ele em uma perfeita pose de namorada, algo que ele gostaria que acontecesse com mais frequência.

— Desculpa interromper. – Cass olhou para Tati e para ele de novo – É que o pessoal tá te esperando pra pedir.

— Ah, foi mal! – ele estava imensamente agradecido – Deixa eu só te apresentar. Tati, essa é a Cass.

Cass sentia que era medida da cabeça aos pés, mas sorriu se fazendo de confusa.

— Tati…? – fingia não saber.

— Eu sou a ex dele. – Tatiane parecia procurar uma brecha para provocar – E você…?

— Ah, ele não tinha me falado que tinha uma ex. Muito prazer!

André se segurava para não sorrir demais. Mudou o abraço, passando a mão pela cintura de Cass, que entendendo a mudança passou a mão por trás do ombro dele e agora acariciava os cabelos de sua nuca.

— Eu não lembro de você. – Tatiane os analisava, a força de sua intenção diminuindo, e Cass sentia.

— É que eu sou nova na cidade. Desculpa mesmo, mas eu preciso roubar ele. – a loira se virou para André de novo, com o sorriso e pose de namorada que ele esperava que continuasse existindo depois daquela interação – Vamos lá?

— Claro, vamos. – ele se ajeitava para continuar caminhando agarrado em Cass – Depois a gente se fala, Tati!

— Até mais! – Cass acenou se despedindo ainda simpática.

Os dois começaram a se afastar ainda sorrindo, deixando uma Tatiane ofendida por ter sido substituída para trás.

— Você foi só pra me salvar? – ele perguntou no ouvido de Cassandra, que sorriu o olhando com o canto dos olhos.

— Você parecia precisar de ajuda. – ela respondeu se mantendo abraçada com ele enquanto caminhavam em direção a mesa.

— Vou me colocar nessas situações mais vezes.

As palavras no pé do ouvido a causaram um breve arrepio. Os dois chegavam a mesa, onde os três amigos observavam com sorrisos no rosto.

— Milord! Estás a salvo! – Lucas se fazia de aliviado.

— Milady Cassandra derrotou a fera! – Laulau ria – Os bardos cantarão sobre sua coragem!

— Que papo é esse? – André já estava acostumado com os dois, mas ainda se surpreendia.

— Sou a dama de companhia de Milady Cassandra. – Laulau respondeu simulando uma reverência.

— Ai, corta isso, por favor. – Cassandra dava risada, mas se assustou com André puxando uma cadeira e a oferecendo – Você vai entrar na deles?

— Não vejo mal, nobre dama. Além disso, seremos vigiados! E por olhos ardilosos e maléficos. – ele esperou Cassandra se sentar para se abaixar ao lado dela, falando perto de seu ouvido, mas alto o suficiente para os amigos ouvirem – Logo, tenho de parecer seu namorado a noite toda.

Ela virou a cabeça para o olhar nos olhos, ele mantinha um sorriso vitorioso e satisfeito nos lábios.

— Nesse caso – Thomas se levantou – pode deixar que eu pego a bebida.

— Eu vou com você pra te ajudar, os donos me conhecem. – André o respondeu, ainda olhando Cassandra de perto.

Laulau, que sempre tem tanto a dizer, estava muda; e Lucas segurava uma risada nervosa de quem torce pelo beijo. Enquanto os dois se entreolhavam, Cass sentiu a intenção obvia e clara de André. Ele queria beijá-la. Mais do que já quis no colégio, e ela não se mexia para impedir, quase como se não houvesse mais conflito agora. Ele se aproximou e beijou seu rosto, o que a garota estranhou, já que ele poderia ter beijado sua boca.

— O primeiro não poderia ser assim. – ele explicou sem precisar que ela perguntasse.

Cass corou, mas André não viu porque se levantou para acompanhar Thomas.

— Meu Deus! – Laulau colocava as mãos no rosto, se jogando na cadeira – Eu não aguento mais!

— A gente tá atrapalhando, Laulau! – Lucas se remexia na cadeira.

— Parem! – Cass segurava a risada, olhou para trás vendo André e Thomas se distanciarem em direção ao bar.

*

O dono do bar jurava que André tinha 18 anos, então foi fácil conseguirem cerveja e copos de plástico. A banda de Tati fazia cover de Hole e The Distillers, ela era uma vocalista decente, mas a não ser por Thomas nos primeiros minutos, que era muito curioso, a mesa agiu como se não houvesse ninguém tocando. Falavam mais alto, porque era necessário para se ouvirem, mas havia um trato silencioso para que ninguém se importasse com o que era tocado.

O vento parecia mudar de direção às vezes, o que era estranho, mas não parecia digno de nota.Thomas sentiu o cheiro de castanhas caramelizadas, mas não viu ninguém comendo nada parecido. Era provavelmente o perfume forte de alguém, conclusão que Cass também chegou sem esforço quando sentiu o mesmo aroma, mesmo que nenhum dos dois tenha comentado a respeito.

A banda de Tati foi aplaudida quando terminaram. Ela desceu do palco brigando com o guitarrista, o baterista ficou sozinho desmontando pratos e pedestais.

— Sempre um coitado. – Cass observava de longe, se compadecendo do músico sozinho.

André se virava para ver o palco, mas não parecia ter simpatia por ninguém daquele grupo.

— Quer subir e ouvir a próxima lá de cima? – ele a convidou apontando a arquibancada.

Se levantaram e deixaram o grupo. Os outros três sabiam que em algum momento isso aconteceria, então nem questionaram. Eles foram subindo os degraus e dando risada, se acomodaram na arquibancada feita de pedra, observando o teatro.

— Você tem razão, esse lugar é incrível.

— Eu sabia que você ia curtir. – ele apoiou as costas no degrau de trás, seus olhos estavam involuntariamente fixos nas pernas cruzadas de Cassandra.

— Eu ainda estou impressionada com a falta de fiscalização!

Ele riu, mas seus olhos deixaram as pernas dela quando notou que ela se encolhia um pouco.

— Está com frio?

— Um pouco, aqui venta bastante.

— É, você me ajudou muito hoje desse jeito.

— Não necessariamente!

Ele a abraçou, a puxando para perto, ela pensou em resistir, mas se aconchegou deixando os corpos colados lado a lado. Quando se olharam perceberam que poderia ser agora o tal momento do primeiro beijo, mas uma breve microfonia vinda do palco fez Cass se encolher um pouco e desviar o rosto. Eles olharam para frente, uma banda se preparava para tocar. Ficaram em silêncio em seguida, enquanto a música voltava e a próxima banda se preparava.

— Você sempre me ajuda. – ele falou a olhando de novo.

— Como assim?

— Faz pouco tempo que a gente se conhece e você já tocou com a minha banda, me ouviu, me salvou da minha ex. – eles riram.

— Acontece que te ajudar é algo que está alinhado com meus interesses! – ela tentava fingir que não era nada demais.

— Ah é?

— Uhum!

— Como?

— Bom, eu toquei com a banda porque o Diogo é um insuportável! E eu sou muito orgulhosa pra deixar alguém que não me conhece duvidar da minha habilidade na bateria.

— Agora vou ter que agradecer a ele também!

— Aham! E eu te ouvi… Quando que eu te ouvi?

— Nessa semana? Algumas vezes. – ele desabafava mesmo às vezes, era sempre muito breve, muito superficial, mas fazia.

— As questões da sua família?

— Sim. Você me deixa à vontade pra falar.

— Hum… Bom, eu te ouvi porque queria te conhecer. Uma motivação totalmente egoísta e autocentrada.

— Ah, olha só, foi apenas conveniente!

— Aham!

— Tá, e hoje? Qual foi sua motivação egoísta e autocentrada?

— Bom… obviamente, eu esteva com sede e alguém precisava buscar as bebidas. – ela mentia, segurando uma risada.

— Eu não acho que isso seja verdade.

— E por que eu mentiria?

— Eu acho – ele se ajeitava se aproximando dela, passando o cabelo dela para trás da orelha – que você mentiria pra não ser a primeira a admitir que tá esperando nosso beijo já faz tempo. Como você é bem orgulhosa, eu acho que faz sentido.

— É uma hipótese muito boa. – ele não estava exatamente certo, mas não havia errado por muito.

— E se for esse o caso, eu posso ser o primeiro a admitir que já não aguento mais esperar.

Os olhos castanhos de Cass não desviavam do escuro profundo que eram os olhos de André. Ela sentia sua respiração e sua mão quente tocando seu rosto de forma carinhosa. Estavam muito próximos, ela fechou os olhos assim que sentiu os lábios dele tocarem os dela.

Começou desajeitado, a novidade de beijar alguém, a descoberta de como os sentidos ficam, mas logo também a compreensão do que era bom. Um puxou os lábios do outro, a língua entrou em cena tornando tudo melhor, um arrepio percorria o corpo de Cass enquanto ela avançava tocando a nuca de André. Ele tocava a perna nua da garota aproveitando pra matar a vontade guardada há dias.

Já estavam se soltando quando, de longe, ouviram Laulau e Lucas comemorando:

— É GOOOOOOOOL!

Os dois deram risada eficaram ali se namorando até decidirem que o vento estava forte demais.

*

Já era tarde da noite, a última banda a tocar tinha um repertório eclético e era composta por pessoas mais velhas. Os cinco adolescentes já haviam abandonado a mesa e estavam sentados e enfileirados no nível mais baixo da arquibancada. Thomas, que nunca se manifestava nas conversas sobre música, estava se soltando e cantando várias do repertório da última banda. Em algum momento, André foi comprar o que seria a última cerveja. Ele estava na fila quando a banda começou a tocar o famoso riff de Wish You Were Here do Pink Floyd. Thomas, Cass, Laulau e Lucas se balançavam de um lado para o outro, sentados.

Boa parte dos frequentadores do bar estava em pé, de frente para o palco, e o vocalista tinha a voz rouca perfeita para a música. Quando ele começou a cantar o primeiro verso, Thomas se levantou, cantando junto.

— Essa não dá pra ouvir só daqui. — ele se explicou antes de caminhar até perto do palco e continuar cantando com a banda e mais os frequentadores do bar.

Cass o observou se afastar, enquanto ela mesma cantava mais um verso da música e se levantou.

— Ele tá certo.

Ela caminhou até Thomas, que sorriu ao percebê-la se aproximar, mas era um sorriso triste. Ela compreendeu, já havia compreendido assim que ele se levantou. Havia um vazio compartilhado no peito dos dois, e de alguma forma aquela música mundana traduzia este sentimento.

Ao fundo, o bar todo cantava junto:

Did they get you to trade your heroes for ghosts?

Pessoas levantavam os braços e balançavam de um lado para o outro, gesto que os dois repetiamenquanto continuavam cantando. Cass sentiu a aura de Tom. Dessa vez tão solta, se expandindo, tocando a dela. Talvez fosse por causa da bebida, talvez fosse porque sofrer junto era mais confortável. Definitivamente era, ela concordava.

O refrão vinha implacável, lembrando Cassandra do quanto ela parecia com sua mãe. O bar continuava cantando junto:

How I wish, how I wish you were here.

Mas os jovens bruxos quase gritavam:

We’re just two lost souls swimming in a fishbowl, year after year.

Eles passaram a se encarar cantando, o vento mudava de direção de novo, o cheiro de castanha caramelizada voltava, mas parecia só fazer parte do momento dessa vez.

Running over the same old ground/ What have we found?/ The same old fears/ Wish you were here.

Ambos sabiam que a letra despertava em cada um deles memórias e significados diferentes, mas tinham certeza que compartilhavam a mesma falta e o mesmo pesar.

O guitarrista se empolgava com um solo de guitarra, algumas pessoas se abraçavam enquanto outras se protegiam do vento forte, que carregava folhas e flores. Em meio a rajada repentina, enquanto os jovens bruxos se encaravam, ambos notaram que havia algo diferente no ar. Olharam ao redor buscando o que estava estranho, e para Thomas isso se confirmou quando uma folha dourada se enroscou nos cabelos de Cassandra.

— O que é isso?

— Não se mexa. — ele pediu e tirou a folha dourada do cabelo dela com delicadeza.

Tirando o fato de ser dourada, parecia uma folha de árvore comum, que ele girou entre os dedos para analisar melhor. O rosto de ambos atingiu a sobriedade quando reconheceram o alfabeto que não viam desde sua infância.

— Isso é…? — Cass não teve tempo de terminar de falar.

— Um bilhete. — ele a entregou – E deve ser pra você.

— Como você sabe?

— Se fosse para mim, teria ficado preso em mim.

O vento parou tão logo Cass segurou a folha em mãos. Estava escuro, era difícil ler, mas ela reconhecia aquela assinatura.

— Esse lugar tem potencial. — ela parecia pensar em várias possibilidades.

— Você vai em casa amanhã? — ele perguntou apressado, vendo André se aproximar.

— Vou.

— Leva isso se quiser, mas agora esconde.

Ela colocou a folha no bolso a tempo, André se aproximava com dois copos, entregando um para Cass.

— Desculpa, cara, eu só tenho duas mãos. — André sorriu para Thomas.

— Tudo bem, eu acho que já tô meio passado hoje. — Tom riu e deu um tapinha amigável no braço de André enquanto se afastava do casal, voltando para encontrar Laulau e Lucas.

*

Cass chegou tarde com o pai em casa. Agda estava dormindo.

— Se divertiu? — o pai perguntava.

— Sim. Mas eu tô exausta, vou pro meu quarto. — ela queria ficar sozinha e ler seu bilhete logo.

— Sério? Quando você vai me contar do seu namorado? — o pai parecia decepcionado.

Cass olhou para trás encarando o pai, preocupado e curioso.

— Ah, pai…

— Eu tô feliz que você esteja feliz, eu quero saber!

Ela sorriu e se aproximou do pai, o abraçando apertado e o soltando em seguida.

— Amanhã eu te conto no café, hoje eu tô destruída.

— Amanhã então. Boa noite, filha.

— Boa noite, pai. E obrigada pela carona!

Ela se enfiou no quarto, trancou a porta e tirou a folha do bolso. Ainda estava ali, um pouco menos dourada, mas a caligrafia ainda era legível. Precisou se esforçar para lembrar o idioma, mas confirmou que realmente conhecia a assinatura. Seu coração acelerava, a boca estava seca, não sabia o que dizer ou pensar. Apenas lia e relia a folha no que conseguiria traduzir como:

Eufórica em te ver bem.

— Mami.

Notas finais
Sinto que eu enrolei demais para chegar nessa parte. Me desculpem por isso. Daqui pra frente o estilo vai ser mais esse.