Lúcifer - a Casa da Rua Philgert
13 Capítulo treze
Saímos daquele lugar. Eu não queria falar, não queria pensar. Na verdade, eu tentava formar em minha mente uma forma de dizer pra minha mãe o que aconteceu.
Phillipi estava calmo. Entramos em seu carro, mas ele não seguiu a direção da minha casa. Na verdade, eu não sabia onde estávamos indo.
- Onde estamos indo, Phillipi? — Perguntei.
Phillipi se virou para mim, segurou delicadamente meus cabelos, e sussurrou em meu ouvido.
- A um lugar que você vai adorar.
Senti medo. Comecei a ficar enjoada. Phillipi dirigia muito rápido, e não sei se estava abafado demais dentro do carro, mas eu desmaiei.
Acordei numa cama, claro. Os lençóis eram brancos, mas estavam sujos de sangue. Olhei ao redor. Tudo estava sujo de sangue, sangue velho. As cortinas estavam rasgadas, e as janelas abertas, soprando um vento gelado para dentro do quarto desconhecido. Havia luz, muita luz.
- Boa noite, minha querida. — Phillipi chegou, trazendo nas mãos um copo com alguma coisa rosa dentro.
- Onde estamos? — Perguntei, aflita.
- Londres. — Ele disse, calmamente.
- LONDRES? — Perguntei novamente.
- É. — Ele respondeu, sem nenhuma emoção.
- Phillipi, você quer que eu acredite que estamos em Londres? — Disse.
- Sim, porque estamos.
- Phillipi... quanto tempo eu fiquei desacordada? — Perguntei, tentando achar um relógio pelo quarto. Em vão, claro.
- Dois dias. — Ele disse.
- DOIS DIAS? — Recusei-me a acreditar nele.
- Marie — ele segurou meu rosto delicadamente, se aproximando — Você ficou desacordada por dois dias. Logo que você desmaiou, peguei um avião, e agora estamos em Londres.
- Como que deixaram eu entrar num avião desacordada? Perguntei, extremamente nervosa.
- Eu disse que você estava doente, e precisava de um médico, ao qual só se encontrava em Londres. Foi fácil. — Ele disse.
- Eu não acredito! Não posso acreditar nessa sua história idiota! — Levantei bruscamente. Abri as cortinas e olhei para a janela. Sim, estávamos em Londres. Aquele lugar era mesmo Londres. O telefone toca.
- É para você. — Disse Phillipi, sem mesmo atender o telefone.
Andei na direção do aparelho e o atendi.
- MARIE? É VOCÊ. FILHA? — Minha mãe dizia do outro lado da linha.
- Mãe? — Perguntei, achando aquilo uma loucura.
- MARIE! MARIE, ONDE VOCÊ ESTÁ? MARIE, ME DIGA ONDE VOCÊ ESTÁ! — Ela gritava.
- Mãe, calma! Estou bem , eu juro. — Disse, tentando acalma-la.
- Marie, onde você está? Eu cheguei em casa, e esse número de telefone estava escrito num papel em cima da sua cama. Me diga, onde você está, filha? — Ela estava mais calma.
- Londres. — Respondi, com a voz trêmula.
- O QUE? VOCÊ ESTÁ EM LONDRES? COM QUEM? — Ela berrava.
- Com Phi... — A ligação caiu.
Olhei para Phillipi. Estava com raiva, ódio. Ele estava sentado na cama, e eu me aproximei. Cheguei bem perto, e dei o maior tapa em sua face.
Ele riu. Riu de uma forma gostosa, quase agradavel. Me fez esquecer o que estava acontecendo.
- Meu amor, calma! Você está bem, e eu vou te explicar tudo, mas agora, relaxe. — Ele disse.
- Relaxar? Como? Estamos em Londres, Phillipi. Meu pai está morto, e minha mãe preocupada comigo. Coisas horríveis estão acontecendo, e foi depois que eu comecei a usar essa droga de colar! — Arranquei o colar de meu pescoço, e o atirei no chão. Coloquei as mãos nos cabelos. Eu estava tonta, cansada. O que diabos estava havendo comigo?
- Você irá entender. Beba isso, por favor. — Ele disse, vindo em minha direção e me dando o liquido rosa para beber.
- O que é isso? — Perguntei, segurando o copo.
- Uma bebida fortificante. Você deve estar fraca, não come nada há dois dias. Beba. — Ele disse, pegando o copo de minhas mãos trêmulas e o colocando delicadamente em minha boca, erguendo meu queixo com a outra mão.
A bebida tinha um gosto doce. Bebi todo o conteúdo do copo, e Phillipi beijou minha testa.
- Marie, quero que saiba, que não importa o que acontecer, eu amo você. Jamais faria algo pra te machucar. Prometa-me que nunca irá me abandonar. — Ele disse.
- Phillipi... — Comecei, mas fui interrompida por seu dedo em meus lábios.
- Prometa-me? — Ele repetiu, tirando o dedo de meus lábios.
- Eu prometo. — Disse, o abraçando.
Ele cheirou meus cabelos, e afagou minhas costas.
- Nunca se esqueça que sou o único em que pode confiar.
Ficamos abraçados por um tempo indeterminado. O telefone tocou, mas não atendemos. Estavamos curtindo esse momento, esse contato fisico, e essa sensação que nossos corpos proporcionavam no outro.
Eu estava esquecendo do que aconteceu. Phillipi, apesar de estranho, me trazia segurança, e eu sabia que podia confiar nele. Eu o amava, e ele também me amava, e isso bastava. Pelo menos, por enquanto.
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