Sim, ele era cego. Percebi pela superficie cinza e leitosa de seus olhos. O mais curioso, é que ele não usava bengala ou nada do tipo para se guiar. Não consegui sustentar seu olhar por mais de cinco segundos. Desviei meus olhos dos dele, ficando completamente intrigada. Que merda! O cara, super lindo, era cego, e ainda olhou para mim daquele jeito! Me senti completamente idiota, mas com muito, muito medo. Tentei não olhar para nada que não fosse meu caderno sobre minha carteira. Foi, então, que o professor começou a falar.

- Bom dia. Me chamo Phillipi, e serei o novo professor de história de vocês.

Okay, eu continuei fixando meu olhar em meu caderno, e ele, continuou a falar.

- Muitos de vocês devem ter percebido que sou cego. Sim, cego desde nascença. Enfim, isso jamais me atrapalhou, então não terei problemas em dar aula para vocês.

Ele finalmentente se sentou, e eu pude erguer meu olhar. Ele estava olhando uns papéis na mesa, e começou com o pior deles: a lista de chamada.

- Beatrice Corman? — Começou ele.

- Aqui! — Respondeu uma garota meio nerd, sentada na primeira carteira da primiera fileira.

Ele foi fazendo a chamada até chegar ao meu nome.

- Marie Munni? — Ele disse, e, desta vez, ergueu seu olhar, alcançando o meu,

- Aqui, professor. — Respondi, meio envergonhada por encará-lo tanto.

Ele finalizou com sua chamada, e começou a escrever umas coisas no quadro negro. Passou uma atividade sobre os Romanos, que era pra entregar ao término da aula.

Claro que eu fiz a atividade em três minutos, mas aguardei até todos os alunos sairem (não se sabe porque) para entregar a atividade.

Levantei-me de minha carteira e arrumei meu material lentamente. Jenny disse que iria me esperar lá fora, pois todos os alunos teriam que pegar um papel da secretaria, e logo depois, seria o primeiro intervalo (de quinze minutos, uau).

Fui em direção a sua mesa, e deixei meu papel. Virei-me para ir embora, e foi quando ouvi sua voz dizer meu nome.

- Marie?

- Sim, professor? — Como ele sabia que era eu?

- Percebi que você ficou meio inquieta quando entrei na sala. Posso saber o motivo? — Ele perguntou.

- Como assim, professor? Inquieta? — Perguntei, dando uma de retardada.

- Você ficou meio ansiosa, não sei ao certo, mas sei que não estava confortável. — Ele disse, olhando para mim. Desviei o olhar, mais uma vez.

- Ah, não foi nada, professor, eu juro. — Menti.

- Marie, o fato de eu ter nascido cego me ajudou a conseguir fazer coisas inacreditaveis, como, por exemplo, conseguir sentir a energia de uma determinada pessoa. Sou muito bom nisso, e percebi que você estava bastante agitada. — Ele disse, ainda me encarando, pelo que eu percebera.

- Professor, não foi nada, eu já disse. — Falei, passando a mão em meus cabelos e colocando-os atras das orelhas. Ele suspirou fundo, e disse:

- Tudo bem, Marie. A gente se vê amanhã, e espero que não esteja assim, tão nervosa. — Ele sorriu.

- Tchau, profesor. — Eu disse, fazendo uma pequena careta ao me virar, e seguir em direção a porta.

Não sei porque, mas eu virei, para poder observar uma última vez, a sala que eu havia deixado. Quando virei pra trás, percebi que o professor estava olhando atentamente para uma atividade, como se pudesse realmente ler.

Aquele professor tinha algo de misterioso. E restava a mim descobrir tudo sobre ele.

Continua...