Línea - Os 10 Anciões
9 O saco de batatas falante

Alice corria como um gatinho assustado sendo perseguido por um cachorro. Não parava nem mesmo para retirar os fios de cabelo que entraram em sua boca. Tropeçava em algumas pedras e respirava rapidamente enquanto sentia o vento que o pedaço de madeira agitava ao passar perto de seu crânio. Sentiu um estalo em seu braço direito e caiu no chão. Era o oitavo galho que Dragan teria quebrado em seu frágil corpo.
— Até que você é bem resistente, pequeno inseto. — Disse Dragan apoiando as mãos em seus joelhos e respirando arduamente. A pobre garotinha teria levado uma surra durante uma hora. Seus braços apresentavam grandes hematomas e um fio de sangue escorria de sua sobrancelha. Estava molhada de suor e com os joelhos ralados.
— Você passou. Agora vamos voltar para a caverna. Você precisa tomar um banho e descansar até meia noite. — Disse Dragan erguendo Alice em seu colo e voltando ao acampamento.
Alice não conseguia abrir a boca para falar, pois estava totalmente esgotada. Chegou a torcer o tornozelo diversas vezes, porem, continuou correndo firmemente sem olhar para trás. Correu por uma hora sendo golpeada varias vezes nas partes mais sensíveis de seu corpo. Os golpes foram tão fortes que chegaram a quebrar alguns galhos. Dragan não estava de brincadeira e correu atrás de Alice como se estivesse querendo mata-la.
Chegando ao acampamento, Dragan coloca cuidadosamente a pequena Alice em uma cama de capim feita por Heskan, que observou atentamente o corpo da criança. O dragão ficou espantado com a resistência de Alice. Os danos que ela suportou teriam matado um Búfalo de médio porte.
— Tem certeza de que não foi muito duro com a garotinha? — Indagou Heskan acariciando o couro cabeludo de Alice que apenas piscava e olhava para o teto.
— Ela tinha que sentir o desespero na pele. Acho que já está preparada para muita coisa que está por vir. — Respondeu Dragan retirando seu sapato e sua cota de malha. Estava completamente molhado.
— A levarei até o riacho e cuidarei de seus ferimentos. — Disse Heskan erguendo Alice cuidadosamente em seus braços.
Caminhou até a entrada da caverna carregando a garotinha. Ao sair da caverna, Alice pode sentir o sol aquecer suas feridas. Olhou para o horizonte, observando o céu laranja intenso e o sol incandescente.
— É lindo, não é? — Perguntou Heskan caminhando lentamente.
Alice assentiu com a cabeça.
— Tenho mais de três décadas de vida e não me cansei nenhuma vez de observar este maravilhoso sol. — Disse Heskan levantando voo e segurando firmemente Alice, que deixou escapar um leve gemido enquanto rangia os dentes.
Chegaram ao riacho em pouco tempo e Heskan colocou vagarosamente Alice no chão. Com somente uma garra, fez um risco nas roupas da garotinha, rasgando as mesmas como se fossem manteiga. Deixou Alice completamente nua, fazendo com que as bochechas da criança se tornassem da cor de suas escamas. Alice Tentou falar algo, no entanto não conseguiu por causa da forte dor muscular e de sua enorme vergonha.
— Não precisa ficar preocupada, isto irá poupar muito trabalho e será menos dolorido para você. — Disse Heskan virando para o riacho e depositando algumas pedras no mesmo a fim de criar uma represa. De repente pode escutar algo resmungar e quando virou de lado percebeu que estava prestes a desmontar a represa de um casal de castores, que gritavam furiosos e olhavam para Heskan como se estivessem dando uma bronca em um filho adolescente.
— Oh, me desculpem pelo incomodo. Obrigado por me pouparem o trabalho de construir uma represa. Aqui está meu agradecimento. — Disse Heskan dando uma baforada escarlate na água. Fazendo com que o riacho entrasse em ponto de ebulição num piscar de olhos.
Os pequenos castores estavam paralisados de medo, mas logo entraram na água quentinha e relaxante. A alta temperatura matou todas as bactérias e protozoários presentes na represa, proporcionando um momento de descanso aos castores que se deliciavam mergulhando na água. Os castores são animais muitos trabalhadores e seu trabalho é muito perigoso. Quando derrubam uma árvore eles podem acabar sendo mortos pela queda da mesma.
Depois de esquentar o riacho, Heskan pediu para Alice segurar sua respiração. Ele afundou a jovem até seu corpo estar completamente submerso. O sangue coagulado em seu rosto foi diluído e a água quente amoleceu seus endurecidos músculos. Alice retornou a superfície renovada. Porém, o corte em sua sobrancelha tinha sido fechado pelo sangue coagulado. O ferimento se abriu e sangue escorria em seu rosto. Os castores observaram Alice pensativos. Saíram do riacho e caminharam desengonçadamente até um amontoado de galhos. O papai castor retirou do pequeno monte uma esquisita flor amarela. Ofereceu com suas tremulas mãozinhas a esquisita flor a Heskan, que exclamou surpreso:
— Vocês derrubaram uma árvore contendo uma orquídea draconiana!
O pequeno Castor passou as mãozinhas na cabeça enquanto olhava para baixo envergonhado. Estava transbordando de felicidade por ter sido prestativo. Recebeu um beijo na bochecha da mamãe castor. O casal sorridente pulou novamente na água, relaxando mais uma vez.
— Se considere sortuda garotinha. Essas orquídeas são chamadas de orquídeas draconianas por possuírem uma propriedade regenerativa avançada, como a de um dragão. Observe atentamente. — Disse Heskan aproximando a flor do rosto de Alice.
Heskan fez um pequeno corte na pétala da orquídea. Alice observava ceticamente a estranha flor enquanto nada acontecia. Estava prestes a retirar o olhar quando de súbito fibras começaram a sair do corte em que Heskan havia feito. Em segundos a pétala se grudou e estava novinha em folha.
— M... Ma... Mágica. — Era tudo o que Alice conseguia dizer, pois ainda estava sem forças. Cobriu seus pequenos mamilos e mergulhou mais uma vez, enquanto Heskan amassava a flor em uma pequena madeira moldada precariamente em forma de pote, fornecida pelos castores. Queimou um pouco as pétalas e as amassou mais uma vez, fazendo com que uma substancia viscosa e amarela grudasse em seu dedo.
Quando Alice retornou a superfície depois de sua série de mergulhos, Heskan passou a substancia em seu corte aberto.
— Aaaaaaaaaaaaai! Que porcaria é esta! — Gritou Alice assustando o casal de castores. A ferida ardia mais que o fogo do inferno e o olho onde a ferida estava próxima começou a lacrimejar instantaneamente. Alice sentiu tanta dor que não conseguia mais sentir as dores dos outros machucados. A dor começou a amenizar e ela pode sentir seu corpo novamente. Tocou cautelosamente a ferida e por sua surpresa, ela tinha se fechado.
— Esta é a dor que eu e Dragan sentimos quando regeneramos algum machucado. Se adquirir um machucado já é o dolorido. Regenerá-lo é ainda mais. Este é o preço a ser pago por este dom. — Explicou Heskan, mostrando algumas escamas negras em seu corpo.
— Por que essas escamas são diferentes? — Perguntou Alice com a mão cobrindo seu olho que ainda doía um bocado.
— Essas são as escamas que eu perdi em batalha. Quando elas caem, novas crescem em seu lugar, porém com uma produção maior de melanina. Uma substancia que protege células de raios ultravioletas.
Alice reparou como as escamas eram mais escuras nas partes vitais de Heskan. Sempre que pensava em como a vida de Heskan foi sofrida e perigosa, Alice acabava se entristecendo. Ficou cabisbaixa por um tempo, porém algo a deixou assustada. Um mosquito vampírico passou em frente ao seu rosto. O sol estava terminando de se por e era hora de voltar para casa.
Heskan ajudou Alice a se secar com as roupas cortadas. A pobre jovem se atrapalhava tentando cobrir sua nudez. Heskan não observava Alice com malícia, pois para ele era como cuidar de uma filha, ele se sentia novamente atado a uma família.
— Amarre isso em sua cintura e cubra seus seios com isto. A volta vai ser um pouco gelada. — Disse Heskan entregando as roupas molhadas para Alice.
Vestiu-se precariamente e se despediu dos castores, que acenaram exaltadamente enquanto Heskan levantava voo. Alice rangia os dentes enquanto tremia nas costas de Heskan. Voar em um vento gelado era como sentir agulhadas em sua pele. Fechou os olhos tentando esquecer-se da dor e quando percebeu já estava na porta da caverna.
— O que aconteceu com ela? — Perguntou Dragan afiando uma faca para o jantar.
— A levei para um daqueles nossos banhos. — Respondeu Heskan se abaixando para não bater a cabeça enquanto entrava na caverna.
— Droga. Eu morreria por aqueles nossos banhos despreocupados depois de um dia de farra. — Afirmou Dragan voltando para preparar o almoço.
Alice correu até a fogueira e tinha vontade de se jogar no fogo. O calor abraçava seu corpo que foi aquecido lentamente.
— Por que suas roupas estão rasgadas e molhadas? — Perguntou Dragan afastando Alice com os pés e colocando um tacho com batatas na fogueira.
— Eu tive que corta-las para ela não sentir muita dor, seu treinamento foi muito além do limite. — Disse Heskan com água na boca observando as batatas. Durante suas aventures ele aprendeu a gostar de diferentes comidas devido a necessidades extremas e escassez de alimento. Sorte de Alice que teria sido devorada de imediato na primeira vez em que se encontraram.
— Vocês não teriam algumas roupas para eu pode vestir? — Perguntou Alice tremendo de frio.
Dragan pensativo olhou ao seu redor. Ele cogitou entregar suas roupas para Alice, porém nem se ela envelhecesse vinte anos as roupas iriam servir. Estava para dizer que não possuía roupa alguma para a garotinha, porem ao olhar para o fundo da caverna acabou tendo uma ideia estranha, no entanto magnifica. Esvaziou um saco de batatas e costurou sua abertura. Com sua faca fez cinco buracos destinados à cabeça, pernas e braços. Criando uma espécie de camisa-vestido. Dragan tinha estilo, ninguém pode negar.
— Você só pode estar brincando. Eu não vou vestir um saco de batatas! — Disse Alice cruzando os braços e fazendo bico.
— Vamos lá, é só por hoje. E você ainda ganha o poder de camuflagem de um saco de batatas. — Disse Dragan inflando as bochechas para não soltar uma gargalhada.
Alice enfebreceu de raiva e agarrou o saco de batatas com tanta raiva que seus dedos doeram um pouco.
— Olhem para trás. Irei me trocar. — Disse Alice retirando as roupas.
Ambos se viraram. Eles esperaram pacientemente a jovem se despir e colocar sua adorável camisa-vestido de batatas.
— Pronto, agora já podem se virar. — Concluiu Alice com uma expressão emburrada.
Viraram novamente para checar o novo look de Alice. Heskan olhou para Dragan. Dragan olhou para Heskan. Os dois riram como se o mundo fosse acabar.
— Se não morrerem hoje eu mato vocês! — Disse Alice indo para a cama, estava irritada e queria descansar.
Dragan e Heskan lacrimejaram de tanto rir da indefesa garotinha. Recuperaram o folego e terminaram de cozinhar as batatas. Estavam deliciosas como sempre.
— Como eu adoro esse clima antes de alguma missão ou batalha quando enchemos o bucho. — Disse Heskan sentando e se apoiando na parede da caverna.
— Comi tanto que fiquei grávido! — Completou Dragan batendo em sua pança e sentando ao lado de seu companheiro.
— Que lindo! Qual o nome dele? — Perguntou Heskan colocando os ouvidos no abdômen de Dragan.
— Que bom que gostou amiga. Chamá-lo-ei de Jorge. Mamãe vai a-do-rar! — Respondeu Dragan dando um sorriso infantil. Heskan soltou um arroto estrondoso clareando a caverna e fazendo Alice gritar irritada:
— Como vocês são infantis! Deixem-me dormir.
— Olha lá Heskan, um saco de batatas falante! Vamos dar uma paulada nele, o líder da guarda real pagaria um bom preço para ter um desses como animal de estimação! — Gritou Dragan apontando para Alice.
— Vem cá bichano! — Assobiou Heskan como se estivesse chamando um cachorro.
— Eu mereço, eu mereço... — Resmungou Alice virando para o outro lado.
Dragan e Heskan eram amigos inseparáveis. O forte laço imortal entre os dois acabava dando aos mesmos uma energia inesgotável.
— Onde será que a filha da bruxa se meteu? — Perguntou Heskan mudando de assunto.
— Seja lá onde ela estiver, tomara que saiba o que esteja fazendo. — Respondeu Dragan olhando fixamente para a fogueira.
Dragan e Heskan caíram no sono como bebês. Alice contava coelhos élficos e dormia feito pedra. Faltavam quatro horas para o começo da missão.
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