Línea - Os 10 Anciões

10 O ladrão aposentado


As nuvens estavam sendo empurradas de forma violenta pelo vento. Adelheid sobrevoava uma floresta de pinheiros enquanto era banhada pela luz do luar. O clima estava frio e uma névoa densa cobria o horizonte. Avistou de longe algumas pequenas tochas acesas, finalmente tinha encontrado o nostálgico local. Acelerou a vassoura e realizou uma manobra brusca, pousando esplendidamente sobre a terra humedecida. Olhou ao seu redor e percebeu que a espelunca continuava a mesma. Andou alguns metros e ficou de frente a uma porta de ferro enferrujada. Limpou o barro de suas botas esfregando os pés no chão e vestiu seu capuz negro, pois mulheres eram visitas muito raras neste tipo de lugar. Deu três batidas firmes na porta. Esperou alguns segundos e escutou o barulho da fechadura se abrindo. A porta não se abriu totalmente, pois estava conectada a uma corrente. Em seguida ela escutou uma voz roca e lenta ecoar no ambiente.

— Senha. — Perguntou a voz desconhecida.

Adelheid ergueu as mangas de seu manto preto mostrando uma pequena tatuagem de um diamante brilhante, localizada em seu pulso direito. Era o símbolo oficial do clã dos gatunos.

— Entre. Bem vindo ao ‘‘Pantera Negra’’ — Disse o sujeito enquanto destravava a corrente, abrindo a porta. Um rabugento goblin observava a jovem encapuzada com uma expressão séria. Goblins eram criaturas pequenas, de narizes longos e orelhas pontiagudas. Possuíam dentes pontudos e afiados sendo os caninos superiores mais desenvolvidos. Eram criaturas que almejavam a riqueza a qualquer custo.

Adel entrou na espelunca e automaticamente se dirigiu ao bar. O cheiro de álcool estava tão forte que chegou a embebedar a jovem por uma fração de segundos. O local tinha varias tabulas redondas e diversas criaturas assustadoras. Lobos-humanóides, goblins, reptilianos, todo o tipo de escória reunida em um só lugar para beber e festejar. Sentia-se novamente em casa.

— O que deseja beber? — Perguntou um globin subindo em um banco enquanto secava uma taça. O globin era vermelho, de pele grossa e enrugada. Usava um tapa olho preto no olho esquerdo. Seu rosto era marcado por diversas cicatrizes, enquanto suas unhas eram compridas e pontiagudas.

— Uma taça de diabo vermelho. Com uma cereja no fundo. — Respondeu Adelheid empurrando uma moeda de prata na mesa e olhando o goblin veterano nos olhos. O goblin sorriu mostrando seus afiados dentes. O goblin sorridentemente encheu a taça de Adel com uma boa dose do melhor licor de cereja da região.

— Por onde andou este tempo todo, pequena bruxinha? — Perguntou o goblin se ajeitando no banco, enquanto guardava a moeda em um saquinho amarrado por um cinto em sua cintura.

— Tive uns problemas para resolver. — Respondeu Adel enquanto molhava o dedo indicador no doce licor, lambendo-o sensualmente.

— Percebo que não conseguiu resolve-los completamente. — Completou o veterano goblin fechando a garrafa de diabo vermelho e colocando-a de volta na prateleira.

— Preciso de seus serviços mais uma vez, Razzor. — Disse Adel lubrificando o fígado com um belo gole de licor.

— Você sabe que eu me aposentei Aldelheid. — Explicou Razzor passando um pano em sua testa para retirar o suor.

— Não sabia que o maior ladrão de todos os tempos recusaria uma perigosa aventura com recompensas gigantescas. — Ironizou Adelheid.

— Pare com isso. Eu só não preciso mais me arriscar por grana e eu não estou aos pés desta nova geração. — Esclareceu o goblin colocando um pouco de uísque em um copo sem gelo.

— Minha mãe sempre me contava histórias sobre você. O grande Razzor. Capaz de se infiltrar na fortaleza dos anões, roubando boa parte das jóias reais. O goblin capaz de cortar as asas de um mosquito em pleno voo sem lhe tirar a vida. O mais audacioso ladrão de todos os tempos. Sua vida já foi mais do que passar o dia servindo bebidas enquanto se embriaga de uísque barato. — Retrucou Adelheid bebendo o licor restante no copo.

— Me siga, vamos até um lugar mais quieto. — Disse Razzor completando o copo da jovem com uísque.

Razzor levou Adelheid até o fundo da taverna onde se sentaram em um banco de madeira com vista para os pinheiros. O clima estava gelado e o chão lamacento refletia a luz da lua.

— Aceita um cigarro? — Disse Razzor retirando do bolso dois cigarros de palha.

— Sim, por favor. — Respondeu Adel pegando o cigarro.

— Deixe-me acender. Pronto. — Disse o goblin acendendo o cigarro de Adel com uma vela que ele tinha retirado da parede.

— Esse fumo foi saqueado da reserva da guarda imperial. Os filhos da mãe têm algumas paradas boas lá dentro. — Completou Razzor acendendo o seu cigarro e dando uma tragada.

Adel deu um trago e exalou arcos de fumaça, que logo foram seguidos por outros arcos feitos por Razzor.

— Eu e sua mãe costumávamos conversar aqui neste banco. No dia que ela te trouxe até mim, você parecia uma ratazana de tão pequena. A filha de uma bruxa criada por um goblin. Irônico.

— Não entendo porque ela fez isso comigo, ela nunca me procura, sempre aparece depois de anos, acho que ela deveria ter me deixado para ser devorada pelas feras. — Disse Adelheid começando a lacrimejar enquanto dava mais um gole na bebida.

— Muitas pessoas querem a cabeça de sua mãe em uma bandeja. Ela fez isso para te proteger, somente por isso. O amor que ela sente por você é algo muito profundo e verdadeiro. — Explicou o goblin dando mais um trago no cigarro.

— Não sei o que eu seria sem você. Obrigado por tudo! — Disse Adel abraçando Razzor.

— Não se preocupe, sua mãe te ama muito. Confiar você a mim foi a prova viva desse amor. — Disse Razzor acariciando os cabelos de Adelheid.

— Ela vai ser incinerada amanhã à noite... Ela está perecendo em cativeiro... — Disse Adel desabando em lágrimas.

— Filhos de uma puta! — Gritou o goblin quebrando o copo no chão.

Adelheid terminou a bebida com um grande gole e deu um ultimo trago no cigarro. Jogou a bituca na lama e enxugou as lágrimas, tentando não imaginar o pior.

— Não se preocupe! Razzor “o sorrateiro” está de volta à ativa. Pode contar comigo nessa! — Disse o goblin retirando um canivete de seu cinto e o arremessando ao ar livre.

A lamina cortou as asas de um mosquito que caiu vivo no chão lamacento.

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