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– Que isso! Eu não sou tão mal assim… não puxei tanto a Marine. — Disse sorrindo ao pai.

Puxou a cadeira e sentou frente à Wallace enquanto este punha de lado alguns papéis que estava lendo e deu atenção ao filho.

– E então, o que está achando da viagem que irá fazer? Marine me disse que aceitou bem. — Trouxe um riso forçado enquanto descansava os cotovelos por sobre a mesa entrelaçando os dedos abaixo do queixo.

– Ela sempre faz as pessoas aceitarem bem as coisas que ela propõe… ou impõe, melhor dizendo.

– Ela só faz o que é melhor para você e no momento o melhor é mesmo ficar com sua tia. — Continuou sorrindo doce.

– Isso já é assunto velho, não vou mesmo convencer minha mãe a me enviar para as Bahamas, então, vamos à Índia ver as mulheres de burca. — Deixou que o desânimo fizesse companhia à fala, com um riso chocho.

– Diz “enviar” como se fosse um objeto. — Gesticulou aspas com os dedos — Não é assim. Ela só quer o melhor para você, quer que fique bem.

A voz soou doce como um anjo enviado por um demônio. Mas Dylan sabia que não seria de outra maneira, afinal, sabia que Marine molda bem os anjos que ela envia como emissários.

– Deixe isso para lá, como já disse é assunto ultrapassado. — Debruçou os cotovelos sobre a mesa, aproximou bem do pai e seguiu: — O que quero mesmo saber é dessa minha tia que apareceu do nada. Minha mãe não tem nada a me dizer dela, pensei que talvez você tivesse… — Falou pausado e tranquilo, olhando fundo nos olhos cor de mel do pai. Uma tentativa de o fazer desistisse de mentir. Talvez.

– Bem… — Esticou na cadeira, ajeitou o corpo sobre ela e desviou os olhos do olhar de Dylan por alguns segundos. — Elas tiveram alguns problemas ao dividir a herança da família. Parece que as joias da mãe foi a causa principal. — A fala soou como a reprodução de uma gravação posta a rodar pela mãe. — Você conhece sua mãe, quando alguém pisa no calo dela ela exclui totalmente. Ela tem esse poder, coisa que talvez eu e você não tenhamos. — Sorriu amarelo.

Dylan não se deu nada por convencido e arqueou as sobrancelhas. Continuou imóvel, com os cotovelos por sobre a mesa tentando encontrar os olhos de pai que faziam por desviar dos seus.

Wallace sentia-se um tanto desconfortado com a situação. O silêncio lhe pesava.

Depois de um tempo torturando o pai com o olhar, ele seguiu:

– E por umas joias minha mãe excluiu uma irmã que eu nunca ouvi falar? Nem uma foto dela há nesta casa, é praticamente um fantasma. Não pode me acrescentar nada?

– Um pequeno desentendimento, nada tão grave assim, mas tua mãe… você sabe. Além do mais, não convém ficar remexendo o passado, não acha? — Tentou passar o máximo de verdade possível, clamando mentalmente pelo fim daquele assunto.

Dylan ajeitou-se na cadeira e coçou a bochecha.

– Queria ter o poder que minha mãe tem de fazer lavagem cerebral, poderia fazer isso com algumas meninas que vivem no meu pé para ver se elas me esquecem. — Sorriu. Depois suspirou fundo: — Mas tudo bem, eu desisto. Pelo jeito você não vai mesmo contrariar a senhora Lefevre e acrescentar mais algumas coisas ao que ela já me disse. Eu me iludo às vezes.

– Foi como eu lhe disse, não há o que acrescentar. — Gesticulou os braços para dar ênfase ao que dizia e talvez passar alguma credibilidade.

– Minha mãe é muita boa em muitas coisas, mas é uma péssima professora. Em todos esses anos que estão casados não conseguiu te ensinar a mentir como ela. — Sorriu um tanto sarcástico.

– Essa é a verdade, porque não acredita? — Trouxe um olhar terno e suplicioso.

Dylan pensou por um tempo, fitando os olhos do pai como a desafiá-lo. Ele sabia que aquele olhar deixava o pai desconcertado e fazia questão de mantê-lo tentando desnudar a mentira. Além disso, torturar o pai lhe parecia bom. Sua mãe era fria e invulnerável a qualquer espécie de pressão, mas o pai ele sempre conseguia capitar quando mentia.

– Tem mais algo a acrescentar a esta história? — Por fim perguntou.

– É isso mesmo, foi uma briga familiar por conta das joias… herança. — Insistiu, mantendo à face algo parecido com um sorriso.

Dylan se ajeitou na dadeira, suspirou fundo e desistiu, sem se dar por convencido.

– Tudo bem, mas eu admiro muito a minha mãe, cada dia mais. — Disse com um leve sorriso.

– Você tem muitos dela. A maturidade é uma delas.

– O que eu admiro nela é o poder, a manipulação, o controle, não essas superficialidades. — Concluiu com um sorriso sínico e um tanto desapontado, já levantando da cadeira e deixando o escritório.

A curiosidade sobre a tia permeava mais o pensamento de Dylan que o próprio desgosto por viajar para a Índia. Soava estranho seus pais nunca terem dito nada sobre ela.

Os dois tios e os avós por parte do pai sempre estavam por ali, vez ou outra uma pequena reunião familiar para jogarem conversa fora com o humor ácido de Marine alegrando a todos. Mas a mãe ele tinha como filha única de pais falecidos, jamais imaginaria uma tia. O motivo desse isolamento é certo que não seriam joias de família.

Talvez passar uns dias na Índia não seria tão mal assim. Ele poderia descobrir muitas coisas. A ideia passou a lhe soar agradável

Com seus pensamentos, ele permaneceu um tanto isolado naquela noite. Jantou quieto e não mais questionou a mãe ou o pai sobre a viagem ou a tia, sabia que não iria colher nada. Mas logo estaria na Índia e quem sabe a tia misteriosa não esclarecesse as coisas.

Quase nem notou o humor de Marine que naquela noite estava especialmente sarcástico. Mas às vezes ele ria, já que era impossível deixar totalmente de ater à agradável fala daquela mulher.

Wallace ria aos montes. Como é belo o amor.

Depois recolheu-se ao quarto e meio que a contragosto, saiu com alguns amigos, os mais íntimos. Se divertiram como puderam pelas boticas de Marselha entre um refrigerante e outro. E alguns cigarros escondidos.

No outro dia, nem à escola foi, se preparando para a viagem que seria no meado da noite.

Se despediu de Marine na porta do apartamento. Ela achou por bem não ir ao aeroporto dizendo que choraria sozinha e em casa.

Dez horas chegaram ao aeroporto. Dez e trinta, chamada para o embarque.

Wallace foi o levar ao aeroporto como um soldado cumprindo determinação. Dylan o tinha como um anjo emissário do demônio. “Há demônios adoráveis”, ele pensava.

– Ainda há tempo de falar algo mais sobre minha tia. — Disse ao pai tentando ainda conseguir alguma informação. Quem sabe não estaria sensibilizado com a partida do filho e lhe desse a dádiva de uma resposta verdadeira.

Ledo engano.

– Você vai adorá-la. — Desconversou.

Se despediram em abraços e ele dirigiu ao avião.

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