Lágrima Escarlate
5 Mumbai
***
A viagem foi tranquila, com poucas turbulências. Nada que Dylan não tivesse acostumado. O fone de ouvidos ajudou a passar as horas.
Uma pequena parada em Frankfurt e no outro dia, pelo meado da manhã, avistou enfim, Mumbai.
A exótica cidade entendia sob seus pés, com seus arranha-céus luxuosos e favelas de palafitas. Olhou com certo descaso pela janela e novamente voltou sua concentração ao livro que vinha lendo, sequer a bela praia chamou sua atenção. Se pelo menos fosse Bahamas…
Ao pouso do avião viu seu coração acelerar um pouco. Sentiu estranho estar com uma tia que não conhecia, ainda que a curiosidade por preencher algumas lacunas o deixasse inclinado a conhecê-la. Na primeira oportunidade descobriria o que Marine escondia dele.
Sem problemas, e atado a seus pensamentos, desembarcou e pegou a única mala que trouxera na viagem. Foi para o saguão do aeroporto onde encontraria sua tia. Alícia deveria o estar esperando.
Há de se dizer que impressionou com o aeroporto. Talvez tivesse esperando algo pobre e arcaico, mas deparou com uma construção exuberante. Muito mais grandioso, imponente e luxuoso que o aeroporto de Marselha ou os demais da Europa ou da América. A decoração o remeteu a um palácio. Não pode conter em observar o requinte dos lustres e os confortáveis sofás dignos de aconchegarem um rei.
Caminhou distraído por meio à milhares de pessoas que transitavam por ali, totalmente desconexo da realidade. Até que foi interpelado.
— Dylan… é você?
Ele saiu de seu distraimento e voltou os olhos à mulher que proferiu a fala.
Ela tinha cabelos negros não muito longos, um pouco abaixo dos ombros. Deixava à mostra os brincos de esmeraldas verdes. Olhos negros como os de Marine e um semblante que também o remeteu à mãe. Sobrancelhas finas bem definidas e um pingente vermelho ao centro da testa, completavam a expressão daquele belo rosto
Um grande colar de pedras e metais reluzentes lhe enfeitava o pescoço, descendo nada discreto até o início dos seios.
Usava um camisete branca sob um blazer azul marinho e uma calça de cetim florido. Um lenço colorido, no bom estilo indiano, lhe seguia do pescoço até o centro das costas.
No semblante, um riso trazendo certa curiosidade e um pouco de desconcerto.
— Alícia? — Trouxe leve riso um tanto forçado pelo ímpeto da surpresa.
— Sim… Marine me ligou hoje de manhã e te descreveu… disse com que roupa estaria. — Percorreu com os olhos o rosto do menino, observando suas expressões. — Mas nem precisaria, você é a cara de Wallace. Eu o reconheceria de qualquer maneira.
Dylan apenas sorriu enquanto observava a tia o examinando profundamente.
Alícia tentou disfarçar o encantamento pela beleza do rapaz, tão parecido com Wallace. Mas não conseguiu manter seus pensamentos no presente, remetendo-os a um passado distante. Lembranças que ela preferia esquecer.
Mas nem um nem outro podiam negar um clima estranho entre eles. Dylan não gostaria de estar ali. Marine também não gostaria plenamente de o estar recebendo. Ademais, eram praticamente estranhos um para o ouro, o que deixaria a convivência não muito agradável.
— Bom, me dê aqui um braço. — Ela sorriu quebrando o gelo. — Ainda não nos conhecemos, mas somos parentes, sangue do mesmo sangue.
Um abraço um tanto frio, muito pouco além de um mero cumprimento formal.
— Bem, vamos indo. Me deixe ajudá-lo com sua mala. — Deixou de lado a presença do passado e tentou ajudar o sobrinho.
— Não precisa… é leve. — Retorquiu. Cavalheiro, não iria permitir que Alícia carregasse mala tão pesada.
— Mas e aí, como foi a viagem? — Tentou desenvolver um assunto qualquer.
Ele respondeu qualquer coisa e seguiram para o estacionamento com assuntos desconexos. Ela, na tentativa de o agradar e deixar a convivência o mais agradável possível. Ele, esperando o momento e a oportunidade para abordar o motivo que levou Marine a afastar Alícia do convívio da família.
No caminho, Alícia ia apresentando a cidade à seu hóspede.
Ele, é claro, inicialmente se espantou com o trânsito. A seu julgo pareceu de todo caótico, com carros transitando em meio a um contingente enorme de pessoas. Não havia qualquer sinalização a ser respeitada.
Buzinas ecoavam por todos os lados. Alícia também não economizava em usar a sua.
Ela insistia que era tudo organizado e o caos era apenas aparente, coisa de visitante que não conhece bem o trânsito indiano.
De acordo com que se aproximavam de Colaba, bairro ao sul de Mumbai onde Alícia morava, o transito parecia complicar ainda mais, pois na medida que distanciavam do centro da cidade, além de pessoas transitando em meio aos carros, apareceram também vacas e camelos. Dylan estava deveras espantado e cada vez mais desejando estar nas Bahamas. Ela dizia que era assim mesmo, que tudo estava dentro de uma ordem muito bem estabelecida e que todos os indianos respeitavam.
Alícia falava frenética, mostrando a Dylan cada característica da cidade na tentativa de trazer um clima agradável entre os dois. Ele ouvia se mostrando interessado.
Notou a cidade enfeitada, com guirlanda de luzes que possivelmente acenderiam à noite. Pelos edifícios, via grandes cascatas de luzes que desciam desde o alto até o chão. Vez ou outra, balões coloridos se sustentavam em algumas janelas. Dylan imaginou que durante a note aqueles ornamentos promoveriam um belo espetáculo. Porém, não teve oportunidade de perguntar à tia de que se tratava. Também não deu muita importância, achou que seria um costume local, já que tinha a Índia por um lugar estranho. Talvez, o mais horroroso do mundo.
Depois de horas naquele trânsito infernal em meio a um calor desértico, chegaram ao edifício onde Alícia morava. O apartamento no terceiro andar permitia uma ótima vista dos arredores.
Dylan desejou um banho. Depois, pretendia conversar algo mais contundente com a tia. Ele sentia que ela não estava à vontade com ele. Por certo não apenas por serem quase estranhos, mas também pelo motivo que levou ele a nunca ter ouvido falar dela.
“Depois do banho”, ele pensou.
***
Fale com o autor