Lwu
5 Capítulo 5 Beijos roubados
Notas iniciais
Eu encostei-me contra a porta e me perguntei se Kisshu ainda estaria lá fora. Provavelmente não. A essa altura já devia estar no quarto de Ryou.
Eu andei até o meio do quarto e fiquei parada lá, pisando com meus pés descalços sobre o tapete cor de rosa felpudo e macio que tinha ganho de presente de aniversário no ano passado. Ryou tinha me dado ele.
"Como isso entre eu e o Ryou começou?" Pensei comigo mesma, mas quanto mais me esforçava a lembrar mais desapontada eu ficava.
Parecia que tinha passado uma eternidade desde que o conhecera e não um simples ano.
"Mas mesmo assim... Por que eu me apaixonei por ele?" Essa era outra pergunta que eu não conseguia responder.
Eu realmente não lembrava. Só algumas poucas lembranças que passavam correndo na minha mente como um flash fotográfico. Eu lembrava que... Ah, sim! O seu sorriso! Eu gostava muito de seu sorriso, mas... Quando fora a última vez que eu o vira sorrindo?
Eu também... Eu também gostava de seu jeito protetor. Isso era tão lindo... O jeito como ele queria sempre me proteger. Entretanto esses eram outros tempos, porque agora ele simplesmente protegia a todos. E não com se fosse meu noivo e sim como se fosse meu pai.
Eu suspirei cansada. Queria que todos esses problemas idiotas acabassem, mas sabia que isso ia durar mais algum tempo.
Eu olhei ao lado da minha cama o porta-retratos e peguei-o. Tinha uma foto minha e de Ryou. Nossa! Como parecia outra pessoa. Parecia livre, animado, cheio de vida e... Sobretudo... Parecia feliz.
Lembrava-me muito bem daquela foto. Nós tiramos logo depois de cantar uma música romântica para ele ouvir. Bem no dia em que ele disse que queria que eu fosse sua noiva.
Naqueles tempos eu não podia cantar uma linda música romântica sem que sua imagem grudasse em minha mente, mas agora? Aquilo nem mesmo me tocava o meu coração.
"Meu coração..." Murmurei involuntariamente. Ele parecia completamente vazio e sem vida. Não tinha mais um bom motivo para continuar batendo.
Coloquei então, o porta retrato de volta no lugar. Era melhor eu ir logo tomar um banho.
Andei em direção a porta da minha suite, mas algo me surpreendeu. A porta do meu quarto abriu e fechou muito rápido, e pude ver Kisshu entrando correndo.
"Kisshu?" Perguntei surpresa.
"Sim... Ah... Desculpe, mas... Posso usar o seu armário?" Perguntou ele. Parecia nervoso.
"Mas porque você...?" Como que em resposta alguém bateu na porta.
"Ichigo. Você está aí?" Chamou Ryou do lado de fora.
Olhei nervosamente para Kisshu.
"Si-Sim!" Falei. "Mas só um minuto!"
Virei-me para Kisshu apressadamente.
"Entra logo no armário!" Falei baixinho e ele correu para lá. Eu fechei a porta do armário ao mesmo tempo que Ryou abriu a do meu quarto.
"Você está bem, Ichigo?" Perguntou ele.
"Sim. Claro que sim." Falei. "Por que não estaria?"
"Não sei..." Suspirou ele. "Eu não sei mais de nada..."
"Ryou... Você não precisa ficar tão sobrecarregado." Tentei acalma-lo.
"Você não sabe de nada." Discordou ele. passando a mão na testa.
"Fique calmo." Falei.
"Não me mande ficar calmo!" Exclamou ele.
Eu me encolhi. Podia não me lembrar de tudo entre nós mais, mas eu tinha certeza que ele nunca gritara comigo antes.
"Ichigo..." Murmurou ele. "Sinto muito por isso, eu..."
"Ryou, eu estava prestes a tomar banho, por isso..." Andei até a porta do banheiro. "Agradeceria se você me desse licença."
"Você está chateada comigo, não é?" Disse ele. "Eu já disse que sinto muito, é só que... Eu tenho que me preocupar com muitas pessoas... E o Keiichiro..."
"Claro! Keiichiro! Você sempre se importou com ele acima de tudo, não é mesmo?!" Exclamei. Aquilo tinha escapado de mim. Eu estava sim incomodada com tudo aquilo, mas nunca intencionava reclamar com ele.
"Ichigo..." Falou ele. Ele tinha ficado mudo por alguns segundos.
"Sinto muito... É difícil para todo mundo... Agora, por favor. Me dá licença." Pedi.
"Vamos fazer os seguinte." Sugeriu. "Eu vou escolher uma de suas melhores roupas para você vestir depois de seu banho. E depois... Nós podemos descer e jantar juntos."
"Não!!" Corri até e agarrei seu braço antes que abrisse o armário e visse Kisshu.
"O que...?" Ele não entendeu.
"Deixe... Deixe que eu escolho uma roupa. Assim pode ser uma surpresa." Sugeri.
"Certo..." Concordou ele hesitante. "Espero por você."
Ele me puxou para perto e me beijou. Não durou muito tempo, talvez uns 5 segundos no máximo. Depois ele me soltou e foi até a porta, tentou sorrir, mas não deu certo. Depois foi embora.
Me lembrei de outra coisa. Quando ele me beijava antes, eu me derretia inteira. Era um beijo sempre mais doce que o outro. E eu sempre achava que, se ficasse um dia sem um beijo dele, morreria. Mas agora... Parecia que uma parede tinha me beijado.
"Ufa..." Suspirei eu aliviada. Se ele tivesse visto Kisshu, isso ia causar muitos problemas.
Eu abri a porta do armário e Kisshu caiu em cima de mim.
"De-Desculpe..." Disse ele ainda em cima de mim.
Eu não aguentei e comecei a rir, o que fez com que ele risse também.
"Não tem problema, mas você deveria tomar mais cuidado." Avisei ainda rindo. Não sabia quanto tempo tinha passado desde que eu dei uma risada tão boa.
"Certo. Vou lembrar disso da próxima vez." Concordou ele.
Foi aí que eu tive uma idéia estranha. Antes dele sair de cima de mim eu segurei seu braço.
"Posso testar uma coisa?" Perguntei.
Ele olhou-me. Seu rosto estava bem perto do meu.
"Ah... Sim." Concordou ele.
Eu assenti e cheguei mais perto dele. Eu o beijei levemente, e ele retribuiu o beijo. Ficamos parados daquele jeito por uns 2 minutos e depis nos afastamos.
"Certo..." Falei.
"Maravilhoso..." Murmurou ele, mas depois que olhou para mim novamente seu rosto ficou inteiramente vermelho. "E-Eu! Ah... Você..."
"Esquece isso..." Murmurei. Me sentia muito quente. Aquele foi o melhor beijo que eu já recebi. Era muito mais doce que o de Ryou e muito mais vivo também. Era tão... Apaixonante.
"Escuta... Kisshu." Disse.
"O que?" Perguntou ele esperando mais algum pedido como esse.
"Pode me dar licença para eu tomar um banho?" Pedi. Eu ainda estava meio distraída.
"Ah!! Claro! Claro que sim." Ele hesitou ao sair do uarto, mas logo o fez.
E eu estava lá, sozinha de novo. Deitada sobre o meu lindo e macio tapete cor de rosa.
Tinha acabado de sair do hall. Estava novamente na frente da escadaria do Palace. Olhei para as pessoas entretidas com a música que estava sendo tocada pela pianista e imaginei se algum cúmplice do Deep Blue poderia estar entre elas. Provavelmente não. Eles deviam estar esperan que Keiichiro revelasse a localização exata do diamante dentro do lugar, para só depois agir.
Atrás daquela porta não tinha muita coisa. Na verdade, aquilo parecia mais um largo escritório. Tinha uma bancada comprida que tomava a parede inteira e uma cadeira aparentemente muito confortável. Ao lado direito dela, tinha uma estante de livros que ia do chão ao teto, com todas as suas prateleiras lotadas de vários livros.
Um tapete cor de vinho cobria o chão para tornar o ambiente mais agradável. Do lado oposto da estante uma elegante lareira iluminava e aquecia o cômodo durante os dias frios que estávamos passando. Fora isso, nada de especial. Esperava achar o cofre, mas não encontrei nada.
Sentei-me então á mesa que estava antes com Kisshu. Não demorou muito para Lettuce aparecer ao meu lado.
"Você vai querer alguma coisa?" Perguntou ela com uma expressão doce.
"Ahm, bem..." Estava em dúvida, mas logo depois respondi. "Sim. Claro. O que você me sugeri?"
"Eu?" Ela parecia feliz de ouvir a minha pergunta. "Ah! Nós temos um ótimo cardápio de massas."
"Massas, é?" Falei. "Até que eu gosto da ideia."
"Que tipo de massa você vai querer?" Perguntou ela.
"Gosto de... Talharim." Respondi.
"Posso sugerir o molho branco?" Falou ela. Sempre muito educada.
"Claro que sim. Para falar a verdade, é o meu favorito." Respondi e sorri para ela.
"Certo." Ela sorriu de volta. "Já, já eu trago para você."
"Estarei esperando ansiosamente." Concordei.
Ela foi em direção a porta de trás do bar, onde provavelmente deveria se localizar a cozinha.
"Deixe-me lembrar... O Palace tem aquela famosa chefe de cozinha... Qual é o nome mesmo?" Pensava eu, tentando lembrar seu nome. "Ah, sim! Lola!"
Ela era uma chefe gourmet vinda direto da Itália. Tinha lido uma reportagem sobre ela em alguma revista gastronômica, mas no momento não conseguia lembrar o nome da revista. Dizia que ela tinha ido para o Palace depois de receber uma ótima oferta de trabalho, o que para mim era maravilhoso. Ia poder comer um prato com o melhor da culinária italiana.
Eu olhei então para a frente. A pianista também tinha sido alvo de uma matéria. Essa saiu no jornal matinal. Ele era formada em teoria musical em alguma faculdade da Inglaterra. Seus dedos deslizavam pelo piano de um jeito fantástico. Diziam até que ela era um novo tipo de Mozart. Uma garota chamada Mandy, eu creio...
Talvez fosse por esse motivo que Ryou estava com problemas. Toda essa propaganda excessiva provoca pelos jornais faziam com que eles chamassem mais atenção do que realmente gostariam ou deveriam.
Olhando ela tocar piano me fez lembrar de Ichigo. Ela era mais impressionante do que 10 Mandys juntas. Aquela música última música que ela cantou fez o meu coração parar por completo. Depois dela sair do palco tive que obrigar a mim mesmo a continuar o serviço que estava lá para fazer. O que não foi nada fácil... Ela era tão... Perfeita. Depois daquela música fiquei me perguntando como não tinha notado isso antes. Como?
Talvez estivesse sendo apenas um idiota... Do mesmo jeito que Kisshu. Não podia me dar a mordomia de ma apaixonar assim... Afinal, eu tinha muito no que trabalhar. Tinha muito no que pensar. Tinha muito o que resolver. Mas mesmo assim... Mesmo que eu soubesse disso, porque não podia simplesmente deixar ela de lado.
"Aqui está o seu prato." Falou Lettuce pondo, delicadamente, o meu pedido na mesa.
"Meu Deus...!" Exclamei ao sentir o cheiro. Era a coisa mais deliciosa que eu já tinha cheirado. Só o cheiro foi suficiente para encher a minha boca de água e Lettuce notou isso. Ela deu uma leve risada.
"É a primeira vez que você come um prato da Lola, não é?" Perguntou ela e eu assenti. "Essa é a reação de todo mundo. Coma e depois me diga o que achou."
Eu assenti de novo e ela correu de volta para a cozinha.
Eu enrolei o macarrão e levei o garfo até a boca. Mastiguei e depois engoli. Eu não sei o que ela fazia... Não sei como conseguia, mas aquele era simplesmente um prato digno de um Rei. Era a comida mais saborosa que tive a felicidade de provar. Involuntariamente eu abri um sorriso sem mostrar os dentes.
"Hummm..." Fiz eu após acabar a primeira garfada.
"O que foi?" Perguntou Kisshu e eu me assustei. Quase cai da cadeira, mas por sorte consegui me equilibrar. "Ah, legal. Pede comida e nem mesmo me espera."
"Para a sua informação eu fiquei sentado aqui um bom tempo esperando você. Onde estava?!" Reclamei. Era impressionante como ele conseguia sempre me incomodar, nem que fosse com a questão do horário.
"Ah..." Ele olhou desviou o olhar. "Olhando... Por aí."
"Ah, claro. E por acaso encontrou alguma coisa interessante?" Perguntei.
Ele abriu um sorriso torto.
"É..." Concordou ele.
"E por acaso a 'coisa interessante' se chama Ichigo?" Perguntei.
Notei que suas bochechas ficaram vermelhas e ele desviou o olhar novamente. A minha pergunta pareceu ter incomodado ele, mas pelo menos eu tinha acertado o meu palpite.
"Eu sabia!" Falei. "Não deveria ter ido falar com ela, seu otário! Era para se concentrar."
"Eu não fui falar com ela!" Defendeu-se. "Eu fui, na verdade... Uma vítima do acaso."
"Vítima do acaso?!" Aquilo tinha sido ridículo. "O que foi que aconteceu para você virar assim, tão rápido, uma vítima do acaso?"
O rosto inteiro dele ficou vermelho, e estava mais do que claro o que tinha acontecido. Coloquei a mão sobre a testa.
"Foi a mesma coisa com aquela outra garota do caso Single." Resmunguei. "Lembra dela, ou já esqueceu? Aquela que tinha uma ferrari vermelha."
"Olha, isso foi totalmente diferente..." Tentou explicar ele.
"E quanto aquele outro caso? O caso Amber." Lembrei-lhe. "Aquela loira de olho azuis."
"Essa também foi diferente...!" Tentou dizer ele.
"Diferente como?!" Reclamei. "Você se apaixonou por todas elas. E agora foi a vez da Ichigo!"
"Foi diferente, sim!" Retrucou ele. "Dessa vez eu não fiz nada."
Naquele momento o meu coração se apertou. Senti uma pontada forte de ciúmes. Como assim ele não fez nada?! Então...
"Não me diga que a..." Eu não conseguia mais falar.
"A senhorita Momomiya me beijou vestindo só um roupão de banho." Contou ele.
"Por que... Você estava com um roupão de banho?!" Perguntei sem entender.
"Ela que estava! Não eu." Falou ele. "E, dessa vez, eu não tive que fazer nada."
"Ela tem um noivo, idiota!" Lembrei-o.
"Bem que eu queria que não tivesse..." Suspirou ele com um ar de sonhador.
"Cala essa boca." Revirei os olhos.
"Quer saber os detalhes?" Perguntou ele achando engraçado.
"Não." Respondi.
"Certo. Mas não vai acreditar...!" Eu o interrompi antes que vomitasse o macarrão delicioso que estava comendo, ou antes que estrangulasse ele.
"Já falei que não!" Reclamei.
"Mas não é sobre isso!" Falou. "É sobre o quarto de Ryou."
"Foi ao quarto de Ryou?" Perguntei agora um pouco menos enojado.
"Sim." Falou ele. "Mas antes..."
"O que?"
"Posso comer um pouco do seu macarrão?" Perguntou ele.
"Nem pensar." Falei dando mais uma garfada na minha refeição.
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