Luzes de Neon
12 Revanche
A verdade é que eu não imaginei que isso chegaria tão longe.
Quer dizer, não é que eu não tivesse fé, ou não quisesse que Lívia atendesse a porta, me colocasse pra dentro e me desse a oportunidade de me explicar. É que, lá no fundo, acho que nem eu mesmo acreditava que merecia.
Uma boa metáfora para ilustrar minha atual situação são os pobres coitados que andam atrás de nós nas lojas de departamento, perguntando se já temos o cartão da loja e se queremos fazê-lo. Tenho a mais absoluta convicção de que nenhum deles foi treinado para um “Sim”. Isso não significa que eles não desejem um, só não sabem o que vem a seguir.
Sendo assim, a pergunta de Lívia, apesar de óbvia, me atingiu como um chute no saco. Suspirei, olhando para os meus pés.
— Não sei.
— Como é?
Se não estivesse tão puta, diria que ela está se divertindo com a situação. Porém, parecia prestes a me meter a mão na cara a qualquer momento, mas eu não podia mentir pra ela. Eu realmente não sabia.
Moscow Mule roçou em minhas pernas e se deitou embaixo de mim, e de alguma maneira saber que o gato dela, guardião daquele lar, ainda não me odiava, me deu forças pra continuar.
— Eu vim aqui pra consertar as coisas, Liv, mas eu não faço ideia de como fazer isso.
— Que pena. Eu também não faço ideia.
— Eu sei.
Ela matou a cerveja em três goles e colocou a garrafa no chão. Soltou um risinho — acho que de incredulidade pelo fato de eu ser um completo babaca e ela não ter percebido isso antes — e se sentou do meu lado.
— Eu não queria me apaixonar quando te conheci, Benjamin.
— Liv, me deixa…
— Não, é minha vez de falar agora.
Não é que ela fosse uma mulher frouxa, longe disso. Mas ela nunca havia se imposto daquele jeito. Apenas balancei positivamente a cabeça, incentivando-a a continuar.
— Eu não planejei nada disso. Não invadi seu espaço quando você saiu da minha vida depois daquele primeiro date, e não insisti nisso. Quando eu vi, você tava dentro da minha casa, assistindo novela comigo, e fazendo skincare. Você tem a menor noção do quanto dói lembrar de tudo e pensar que foi de caso pensado, pra você ganhar a porra de um carro?
— Liv…
— Eu não acabei. Foi uma pergunta retórica — assenti e ela coçou a nuca — Eu não quis que você aparecesse na minha vida, mas eu te acolhi. Eu fui sincera com você desde o começo, e isso me aterrorizava porque eu, como você sabe, acabei de sair de uma relação de dez anos, Benjamin! E eu ainda assim te deixei entrar! Eu achei que esse tempo sem sexo fosse só seu jeito de dizer “ei, eu sou mais do que isso”, mas você é podre!
Àquela altura, ela já tinha deixado de lado a marra de “é minha vez de falar”, e os olhos estavam cheios d’água. Tive que me segurar muito pra não abraçá-la, já que imaginei que era a última coisa que ela queria de mim, e apenas esperei.
Parte de mim também não sabia o que dizer. Eu sei, as coisas mudaram desde o começo da aposta e desde o dia em que eu cheguei em casa e disse pro pessoal que, pela primeira vez em muito tempo, eu havia saído de um encontro sem consumá-lo. E eu sei também, que devia ter contado tudo pra ela no momento em que as coisas, de fato, mudaram.
Depois do dia da patinação, eu sabia. Aquilo tinha dado errado, o tiro saiu pela culatra, e o baladeiro tinha virado homem de família. O pacote completo. Isso sem sequer ter levado uma chave de coxa. Aquela mulher havia me mudado, e não sei se ela tinha dimensão do quanto isso era um feito histórico.
— Eu sei que isso não muda muito — sussurrei, e ela me fuzilou com os olhos — Mas eu realmente sinto muito. E desde o dia da patinação, eu…
— No bar com o pessoal do trabalho você ainda tava com esse plano ridículo? — arregalou os olhos, e eu nunca senti tanta vergonha na minha vida. Foi exatamente no dia em que meus amigos tiveram a ideia da aposta.
— Aquilo foi um acaso, eu não te persegui nem nada. Mas sim, naquela época eu ainda não te conhecia.
— Eu vou repetir, Benjamin. Você é podre.
— Eu sei.
Ela me encarou, assustada.
Eu sei que eu sou podre. Isso é um fato.
Tive uma namorada na vida, tinha 16 anos e se chover argola, não cai uma no chão pelo tanto de chifre que eu coloquei na coitada. Eu poderia justificar com o casamento fracassado dos meus pais, meus amigos que vivem nessa mesma vibe que eu ou ainda pelo machismo estrutural, mas a verdade é: a culpa é minha.
Nunca fiz nada pra mudar, nem quis ser diferente. Passei quase dois meses enganando a única mulher que me fez, de fato, apreciar a companhia de uma sem intenções sexuais, e agora a vida cobra.
— Sou mesmo. E eu não mereço você, Liv.
— Ótimo, e tá fazendo o quê então?
— Tentando merecer.
— Você não fez nada pra mudar isso, Benjamin.
— O que você quer que eu faça? Quer que eu devolva o Tesla, saia de casa, te peça em casamento em praça pública? Me diz o que você quer de mim e eu faço, Liv.
— Transa comigo.
Tá, aquilo sim me acertou como um chute no saco.
Encarei-a confuso, esperando que ela me explicasse, dissesse que era uma brincadeira ou só imaginando que eu tinha ouvido errado mesmo. Não fazia sentido nenhum.
— Você quer que eu…?
— Eu quero que você transe comigo.
— Você vai me dizer o motivo disso?
— Eu preciso de um motivo pra querer transar? — respondeu, óbvia, e ela realmente tinha um bom ponto — Eu estou com raiva, não transo há meses e alguma coisa boa a sua vinda aqui tem que me trazer, Benjamin. Então, por favor, não me faça pedir de novo.
— As coisas não funcionam desse jeito, Lívia, eu não tô no clima, não trouxe camisinha, e…
Ela riu. Na minha cara, assim.
Levantou, foi pro quarto e me deixou na sala, com Moscow Mule me encarando como se estivesse tão confuso quanto eu. Quando voltou, balançou na mão uma embalagem de camisinha e se agachou na minha frente.
— Lívia, o que você tá fazend…
— Fica quieto.
De repente, lá estava ela, fazendo o trabalho todo sozinha. Abriu o zíper da minha calça, abaixou-a o suficiente para que conseguisse tirar meu pau pra fora e, quando fui ajudá-la a tirar minha própria roupa, me empurrou para que eu encostasse novamente no sofá.
Ela tinha pleno controle da situação, e era exatamente o que ela queria. Diante da sequência torrencial de cagadas provocadas por mim, o mais prudente era obedecer.
Prendeu os cabelos num rabo de cavalo alto e, quando olhei pra baixo, ela me encarava sorrindinho. Agradeci aos meus muitos anos como um macho escroto, porque a simples menção ao que estaria por vir já foi o suficiente pra me excitar.
Durante o tempo da aposta, não permiti que ela me fizesse oral, porque eu sabia onde aquilo levaria. Quer dizer, não é como se eu fosse conseguir parar ali e ficar tudo bem. Quando ela me pedia pra retribuir tudo o que eu fazia nela, eu educadamente dizia que estava interessado apenas no seu prazer, e de certa forma, satisfazê-la com dedos e língua me bastou por muito tempo mesmo. Mas no momento em que senti sua boca tão próxima de mim, e ela começou o boquete, me arrependi de ter passado as últimas semanas nos privando disso.
Foda-se o Tesla.
Lívia habilmente alternava entre passar a língua entre o cumprimento e colocar meu pau praticamente todo em sua boca, sem nenhuma dificuldade. Quando enrosquei as mãos entre seus cabelos, ela gemeu baixinho e segurou minha mão, me incentivando a puxá-los.
— Caralho, Liv…
Quando estava quase gozando, ela levantou a cabeça e sorriu maliciosa.
— Ainda não.
— Isso é um novo método de tortura pra me punir pelo que fiz?
— Isso parece uma punição?
Piscou e abriu a embalagem da camisinha, colocando-a com a própria boca. Antes que eu pudesse demonstrar qualquer reação àquela habilidade, Lívia apoiou a mão no meu ombro, deu um sorrisinho delicioso e puxou meu cabelo, me fazendo olhar pra ela.
Ainda sozinha — acredito que ela estava curtindo aquela emancipação toda, então me limitei a nem encostar sem um pedido oficial -, ela colocou a calcinha de lado, se posicionou em cima de mim e, tão lentamente que era uma tortura, rebolou para me acomodar dentro de si.
Suprimi um gemido, mas ela segurou meu rosto.
— Eu gosto quando você geme — sussurrou.
— É recíproco, gatinha.
Mordi seu queixo e coloquei a mão por dentro de sua calcinha, acariciando seu clitóris. Senti-la molhada em meus dedos era sempre uma sensação que me aproximava do paraíso. Quando coloquei os dedos, na boca, Liv me beijou e mordeu meu lábio com força. Depois gemeu muito alto quando deslizei a mão pelas suas costas, e jogou a cabeça pra trás, cavalgando mais rápido.
Não demorou muito para que suas pernas estremecessem e ela precisasse enfiar a cabeça no meu ombro pra reprimir um gritinho. Muito que bem, ela havia gozado.
— Sua sorte é que seu pau compensa sua índole — riu baixinho, tirando minha mão de sua calcinha e segurando-a sobre minha cabeça.
— Você pode parar se quiser — sussurrei de volta — Acho que eu mereço ficar sem gozar depois do que eu te fiz.
— Não entrei nessa pra parar pela metade, Benj.
Continuou rebolando devagarzinho enquanto beijava meu pescoço e arranhava minhas costas, então não durei muito também. Quando gozei, Lívia sozinha se limpou, jogou o preservativo no lixo e me puxou para um banho.
Não houve conversa. Apenas ficamos ali debaixo d’água, tomamos banho — e ela nem sequer me deixou lavar seus cabelos — e saímos.
— Você pode ir embora agora.
— Como…?
— Nós não nos acertamos, Benjamin. Eu só queria ver se você valia o tesla.
— E qual o seu veredito?
— É um bom sexo.
— Obrigado.
— Nota 7.
— Ah vai se fuder, Livia, isso foi mais do que um 7!
— Eu continuo com raiva, então é um 7 — ela secava os cabelos na toalha enquanto catava minhas coisas pela casa — Boa noite, Benjamin.
— Tá me mandando embora pra sempre?
— Talvez seja.
Me arrastou até a porta e me colocou pra fora, com cara de idiota.
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