Luzes de Neon
13 Gelatina.
Dentro do carro, voltando pra casa depois de um dos melhores sexos da minha vida — que, modéstia à parte, foi bem agitada nesse quesito — pela primeira vez em 26 anos, eu me odiei.
Meus amigos tendem a dizer que eu sou Benjacentrista. Aparentemente, egocêntrico não é o suficiente: me coloco num pedestal tão alto que coloquei meu nome num próprio universo. Não quer dizer que eu seja má pessoa, eu acho, só que desde sempre, minha mãe me ensinou que, farinha pouca, meu pirão primeiro. Levei isso meio a sério demais, e quando vi tinha me tornado um filho da puta.
E de repente, como quem não quer nada, Lívia entra na minha vida chutando a porta. Faço cagada com ela, às suas costas, e ela me retribui com amor. Com carinho, com máscara facial, café da manhã na cama e com beijos no peito.
Aquele pensamento de “eu sou um merda” me rondou por tanto tempo que quase bati o carro. O motorista da frente, puto comigo e gritando que aquele carro era uma arma na minha mão, foi o sacode que eu precisei pra acordar.
Quando cheguei em casa, Art estava em sua posição de inércia: jogado no sofá, enrolando um beck e com Charles Bronson deitado em seus pés como se fosse um tapetinho que ele acarinhava.
— E aí, viado, deu certo?
— Tô com cara de quem deu certo, Arthur?
— Tá não — respondeu, olhando pro nada — Tá afim de unzinho?
Quando sentei no sofá, Charles se agitou e se jogou no meu colo quando sentei. Art fez a gentileza de enrolar um pra mim e traguei devagar, revirando o baseado de um dedo pro outro.
— Fiz cagada.
— Ah eu tô ligado. Fez cagada mas agora tem o Tesla pelo menos.
— Bela merda.
— Porra, Bennie, mas é uma bela merda mesmo — riu — Aquilo não é um carro, aquilo é a Miss Universo dos transformers.
— Mas a Lívia era a miss universo das pessoas, Arthur.
— Não era não. A última miss universo eleita foi a Toni-Ann Singh — respondeu, como se fosse óbvio. Fiz careta, tentando entender como ele sabia aquilo — Que foi? Eu gosto de assistir Miss Universo, elas fazem discursos bonitos.
Lembrete mental: pesquisar quem foi a última miss universo eleita pra confirmar se ele só não estava metendo o louco mesmo.
— Ela não é a oficial, mas se concorre, acho que ela ganha.
— Não sei se ela tem as medidas.
— Vai-te foder, Arthur.
— Que é? Desde quando você se importa com o que a gente fala de mulher que tu pega, Benjamin?
— Desde a Lívia.
— Essa mina te estragou, sabia disso?
Ri por educação, ligando a televisão em qualquer série de animação tosca pra preencher o silêncio e manter Arthur ocupado criando teorias sem sentido sobre elas, pra que eu pudesse me chafurdar na própria fossa.
Não acho que Liv tenha me estragado, inclusive, muito pelo contrário. Eu nunca estive tão bem com outra pessoa quanto estive com ela. Nunca ri tanto, fiz tanto por outra pessoa, quanto fiz por ela. E não sentia como se ela fosse um estorvo por isso, muito pelo contrário. Eu me sentia bem pra caralho quando fazia qualquer coisa que a fizesse sorrir.
— E se ela voltar com o ex?
— A mãe do Morty? Impossível, Benj, você não tá prestando atenção no desenho!
Pensei em argumentar, mas não é como se fosse chegar a algum lugar, então soltei um “é, viajei”, e optei por não cortar a onda do menino. Arthur continuou teorizando por horas a fio enquanto eu olhava pra tela e o filme da minha relação com Lívia se passava na minha cabeça.
Passamos horas demais ali. Na verdade, começamos na sexta e foi só no domingo, durante a tarde, que Caíque chegou em casa com Amália, sua namorada. Nós a chamávamos de Amélia, porque ela meio que era bem a definição da esposa virtuosa e perfeita. Caíque metia chifre nela até dizer chega, às vezes a gente sumia por uma semana com ele, e quando ele voltava, a única preocupação da Mamá era se ele estava bem, alimentado e feliz.
— Ei, fofuxo — ela se sentou ao meu lado e me deu um beijo na testa, e em seguida, tossiu — Credo, essa casa tá parecendo um episódio de Scooby Doo. Vocês precisam parar de fumar tanto.
— Ainda bem que o Caíque nem fuma né — soltou Arthur, irônico, e ela o encarou abismada. Pra ela, realmente, seu namorado perfeito só fumava narguilé, socialmente, e olhe lá — Que é?
— Não fuma mesmo. Né, amor?
— Só nargas, paixão — soltou Caíque, enquanto ela estava de costas pra ele, apagando os nossos becks e fazendo carinho na cabeça de Charles Bronson, debruçada por cima de mim — Vamos? Quero pegar um cinema ainda depois da janta.
— Querem vir com a gente? — perguntou ela, animada, pra mim e Arthur.
— E onde vocês vão?
— Paris 6! — ela soltou praticamente um gritinho, tamanha a animação — Tem um prato novo da Doutora Deolane.
— Me parece um passeio imperdível! — gritei, tão animado quanto ela. Olhei para Caíque e ele estava possesso com a ideia de irmos junto, provavelmente porque isso anularia qualquer chance daquela noite terminar num motel — Eu vou.
— Ah, se tu vai eu vou também.
— Juram? Vamos nós 4 no Paris 6?
— E por que não? — desafiei, e Caíque deve ter desejado com tanta convicção minha morte que até senti uma tontura. Talvez seja a maconha — Vou me trocar.
— Toma um banho, Bê, cê tá com cheiro de festa da Usp.
Dei risada e balancei positivamente a cabeça, pegando uma toalha e seguindo pro banheiro.
Acho que eu precisava daquilo. Sair com gente, incluindo uma mina com quem eu não tivesse nenhuma pretensão de dar uns beijos. Precisava ver casais bregas, isso de alguma forma devia fazer parte do meu processo de luto, em vez de fazer como Liv e seguir direto pra uma festa e beijar na boca, já que esta, na verdade, é a minha zona de conforto.
Sair, sóbrio, com meu melhor amigo, sua namorada perfeita e o nosso maconheiro de estimação não era exatamente o que estava nos meus planos, e talvez por isso mesmo devesse ser o certo a se fazer.
Tratei aquilo como um date, para deixar Amélia orgulhosa de mim: vesti minha melhor roupa, arrumei o cabelo, passei perfume e hidratante nas tatuagens para que brilhassem como se tivessem acabado de serem feitas. Quando saí do banho, Arthur já havia passado um lenço umedecido — em algum lugar ele leu que bebês eram limpos com isso e, toda vez que não queria tomar banho, fazia a sua higiene a seco como se fosse um gato. Ele era a pessoa mais nojenta que eu já havia tido o desprazer de conviver — e vestido uma camisa limpa.
— Estão prontos, crianças? — perguntou Caíque, ainda puto com a gente.
— Sinhê! — respondeu Art, muito animado — Não é demais? Parece que a gente tá saindo com os nossos pais.
— Vamos sair pra passear, comer, e depois eles vão nos trazer pra casa em segurança. É o passeio dos sonhos — ri enquanto entrávamos os dois no banco de trás do carro, e Amália fazia carinho em nossas cabeças como se fôssemos um parzinho de chihuahuas.
— Eu adoro sair com vocês.
— Tá se preparando pra ser mãe, Ams? — perguntei, fazendo carinho no cabelo dela.
— Nem brinca com uma coisa dessas, viado.
— Eu posso sonhar em ser o tio legal, não posso?
O assunto rendeu.
Caíque claramente não pensava em casar e ter filhos com a Amália, apesar de pra mim ser muito óbvio que isso aconteceria. Era confortável pra ele estar com ela: era permissiva, boa com os amigos dele, linda, boazinha, cozinhava pra caralho, a esposa perfeita.
Enquanto passei os melhores meses da minha vida com Lívia, a gente assistiu a um filme da Julia Roberts — e eu prestei muita atenção, porque ela se emocionava demais com todos os filmes da Julia Roberts, tendo até uma citação de um dos filmes dela tatuado em seu braço -. A Cameron Diaz era um creme brulèe. Chique, lindo e caro. Essa era a Amália. Trazendo para o contexto atual, ela era, sei lá, a sobremesa da Bruna Marquezine no cardápio do Paris 6.
Ainda segundo o filme, a Julia Roberts era gelatina. Quer dizer, se comparada ao creme brulèe — ou ao mil folhas da Bruna Marquezine -, parece simples demais, sem graça demais, mas às vezes, é o que a gente — no caso do filme, o Michael — precisa. Da simplicidade, conforto e alento de uma sobremesa que a gente saiba comer e não se sinta pobre demais pra pedir.
Não que a Liv tenha qualquer coisa de sem graça. Ela é simples, confortável, acessível, estaria de pijamas me esperando em casa com uma panela fumegante de brigadeiro — meio duro, confesso, e provavelmente com um gosto sutil de queimado se parássemos para degustar com atenção — no colo, com um capítulo de O Cravo e a Rosa me esperando na televisão. Isso se eu não tivesse fudido com tudo.
Não há nada no mundo que eu quisesse mais naquele momento do que a minha gelatina. Ou a minha panela fumegante de brigadeiro queimado.
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