Luzes de Neon
14 Bistrot de Paris.
Tudo naquele lugar era muito brega.
Mas brega brega mesmo, de um jeito que eu nunca tinha visto antes. E, ainda assim, olhos de Amália brilhavam como se estivéssemos levando-a pra jantar na torre Eiffel, era até bonitinho. Foi toda animada reservar uma mesa pra nós quatro enquanto eu e Art fumávamos do lado de fora.
— Vocês vão entrar com cheiro de cigarro? — resmungou, fazendo beicinho.
— Prefere que o Arthur entre com cheiro de lenços umedecidos huggies?
— Na próxima eu vou pra casa de vocês mais cedo pra garantir que os dois tomem banho. Você veio tão cheirosinho, Bennie!
E voltou pra dentro pra buscar uma mesa. Pior que o lugar estava lotado, e eu tinha certeza que ela havia feito uma reserva pra estarmos ali. Caíque foi pra fora junto da gente enquanto ela negociava com a hostess.
— Ela já tava contando com a nossa vinda? — perguntei, soprando a fumaça na cara dele.
— Pior que eu acho que sim.
— Te avisou?
— Óbvio que não, senão eu não vinha preparado pra vir pra porra de motel nenhum.
— A gente volta pra casa de Uber e você termina sua noite de agrados pra Mamá, relaxa.
— É o mínimo que eu espero.
— Você já apreciou mais a nossa companhia, sabia disso?
— Eu amo vocês, mas Amália é Amália e rolê de brother é rolê de brother.
— E tem mais rolê de brother que jantar um prato especial do Rafael Zulu? — perguntou Arthur, empolgadíssimo — O maluco tem o próprio risoto, irmão!
— Temos uma mesa! — gritou Amália, puxando Caíque pelo colarinho pra dentro — Vamos que eu tive que subornar o garçom pra descolar uma mesa com mais dois lugares então corram.
Entramos no restaurante como se fosse uma estratégia de guerra: Amália nos guiava como se fôssemos nos perder numa trilha, e não estivéssemos num salão de, sei lá, 40 metros.
Amália se sentou numa poltrona vermelha comprida, e de frente pra Caíque, e me sentei ao seu lado, na frente de Arthur. Ela não deixou que nenhum de nós sequer pegasse um cardápio, já que escolheria o prato por todos nós. Era o ambiente e a noite dela, e ninguém tiraria esse prazer da única amiga que tínhamos.
Ela até dançava na cadeira, tamanha sua animação. Ficamos ali, ouvindo-a falar sobre todos os famosos que já tinham sentado a bunda naquela mesma poltrona vermelha na Haddock Lobo, sobre todos os nomes no cardápio — a maioria, não fazíamos ideia de quem fosse, mas balançávamos positivamente a cabeça e fazíamos expressão de surpresa quando dava muita ênfase em alguém — enquanto esperávamos o prato. E, em determinado momento, a porta se abriu e meu coração parou.
— Tá zoando comigo — soltei, estático.
Arthur, sutil como um elefante na loja de cristais, virou o corpo inteiro para encarar a porta de entrada. E, quando viu Lívia, Bárbara e dois playboys engomadinhos, soltou uma gargalhada.
— Porra mas o morto nem esfriou e ela já tá com o ensacadinho? Tá mal na fita hein Benjor!
— Cala a porra da boca, Arthur — sussurrei, chutando a canela dele por debaixo da mesa.
— Tá de brincadeira! — sussurrou Ams — É ela?
— A de vestido florido.
— Ela é linda, Benj!
— Mas ela não é a Toni-Ann Singh.
— E quem é…
— Miss Universo 2019 — respondemos em uníssono.
— Não vou perguntar como ele sabe disso, só pesquisar se é verdade — depois de alguns segundos, ela me encarou boquiaberta — Ele tá certo!
— Eu avisei! — ele gritou — Posso chamar a Liv pra…
— Arthur eu nunca te implorei por nada nessa vida — sussurrei — Mas por favor, cala essa porra dessa boc…
— BENNIE!
Barb.
Por algum motivo, a castradora de homens, melhor amiga da mulher da minha vida, ainda não me odiava, mesmo depois de tudo de merda que eu havia feito. Ainda acho que é pelo soco no Aperol, o que até justificaria. Talvez seja só pra contrariar a Lívia, o que também faria sentido.
Acenei pra ela, que achou que isso era um sinal de que podia vir até minha mesa. Se sentou do meu lado e me deu um beijo na bochecha, e o almofadinha 1 que tava com ela me encarou.
— Vou ter que socar aquele ali também? — sussurrei e ela riu — Tá bem?
— Não vai ter que socar ninguém, mas se eu precisar me livrar dele eu te aviso — riu, apertando a mão de Amália — Eu sou a melhor amiga da menina da aposta.
— A famosa aposta — Am apertou a mão dela — Saiba que eu fui contra desde que descobri.
— Nenhuma mulher de bem seria a favor — Barb sorriu — E aquela gostosa ali com cara de que vai me matar é o alvo.
— Creio que ela não vai vir aqui nos cumprimentar né? — perguntou Caíque, bebendo meia taça de vinho em seguida — Ninguém pode culpá-la.
— Não mesmo — Barb esboçou um sorriso — E agora que eu já a irritei o bastante, vou pro meu encontro duplo — se aproximou pra beijar minha bochecha, e em seguida sussurrou: — Fica tranquilo, ela tá aqui obrigada. Tá puta comigo e provavelmente vai bloquear o Renan assim que sairmos daqui
— Assim espero.
Piscou e se levantou, seguindo em direção ao seu encontro. Felizmente, a mesa delas era do outro lado do salão, e Liv se sentou de costas pra gente. Não que aquilo fosse o bastante para que eu parasse de olhar pra mesa dela o jantar inteiro, ou de pensar nela e sentir um refluxo de imaginá-la beijando aquele cara.
— Relaxa, viado, você é muito mais bonito — incentivou Caíque — Se ela sair com esse cara, vai ficar triste pro resto da noite pensando que podia estar com você.
— É verdade — continuou Art — Você tem muitos defeitos, Bennie, mas pelo menos é bonito pra caralho.
— Talvez isso não seja o bastante.
— Não é mesmo, mas ajudaria se você não fosse um merda, né?
Assenti com a cabeça e continuei comendo o meu gnocchi do Falcão, me sentindo ridículo com aquela informação, ao mesmo tempo em que me questionava se era o Falcão do brega ou o Falcão do Rappa. Durante todo o jantar, incluindo a sobremesa desproporcionalmente gigante, comi empurrado. Tava puto, sem sentir o gosto de nada e com a terrível sensação de que seria melhor ter ficado em casa sentindo pena de mim mesmo. Quando acabei, pedi licença e me levantei pra ir ao banheiro, lavar o rosto e tomar tento: eu precisava voltar a ser eu.
Eu tinha poucas qualidades em termos de personalidade. Mas uma delas, sem dúvida, era o fato de eu ser engraçado pra caralho. Boa companhia para, literalmente, qualquer rolê, e aquela situação toda estava tirando de mim a única característica que ainda me fazia ter amigos apesar de, na maioria do tempo, ser e reconhecer que sou um bosta.
Lavei o rosto, repeti algumas vezes pra mim mesmo que eu precisava voltar a, no mínimo, ser uma pessoa fácil ou neutra de conviver, e abri a porta do banheiro. Então, lá estava ela.
Encostada na divisa entre os banheiros feminino e masculino, olhando pra mim com cara de monstro — ou pelo menos, tentando. Ela era muito bonitinha pra parecer um monstro. Era no máximo um Gremlin.
— Posso ajudar? — perguntei, perturbado.
— Você não tinha esse direito, Benjamin.
— ...De mijar? — eu nem estava tentando ser engraçado, só realmente estava confuso — Ou de frequentar um lugar cafona desse?
— Você sempre odiou esse lugar! O que você tá fazendo aqui?!
— Olha, Liv, desculpa, a Amália… — comecei, tentando entender o motivo de tanta hostilidade, até que a ficha caiu — Você marcou seu encontro duplo aqui porque achou que não tinha a mais remota possibilidade de cruzar comigo?
— O quê?! — grunhiu, e sua voz esganiçada entregou tudo — É claro que…
— Você tinha medo de me encontrar e pensou muito seriamente em todos os lugares que eu achava bregas demais pra frequentar quando você pediu pra vir, não foi?
— Olha, — admitiu, exausta, e não pude evitar de sorrir — Era isso ou o Coco Bambu.
Ok, essa me pegou de surpresa.
Conscientemente, Lívia pensou em mim antes de ter esse encontro. Pensou em lugares que eu não iria, pensou no que eu gostava ou não gostava e, a dedo, escolheu o restaurante que eu julgo mais cafona na história do universo, porque uma vez, antes de irmos jantar fora no meu dia de escolher — tínhamos um rolê bancado por mim e um por ela, e, nesse dia em questão, estávamos à caminho de um restaurante premiado com estrela michelin -, ela ousou me perguntar se podíamos comer no Paris 6 da próxima. Exatamente nesse. Da Haddock Lobo. Realmente, pior que isso, só o Coco Bambu.
— Eu odeio camarão internacional.
— Eu sei, Benjamin.
— Estraguei seus planos? — sussurrei, e ela deu um passinho pra trás — Muito perto?
— Odeio tua voz de fumante.
— Ah, vai se fuder! — soltei e ela riu — Você acha minha voz rouca um charme.
— Filho da puta — resmungou — Eu preciso voltar pro meu encontro.
— O engomadinho vai te achar uma constipada.
— Você anda por aí num Mesbla e acha que pode chamar alguém de engoma…
— Tesla.
— Foda-se!
— E eu posso chamar quem eu quiser de engomadinho. Eu sou rico, mas não sou engomadinho.
— Você é fresco.
— Sim.
— Enjoado pra comida.
— E ainda assim comi um gnocchi carbonara, acredita?
— Achei que fosse pedir carne.
— O prato de carne daqui deve ser mais cafona que o gnocchi.
— Insuportável.
— Insuportável é a vontade que eu tô de te pegar pelo braço e te tirar daqui agora, Lívia.
Aquilo foi mais sério do que eu imaginei. Quer dizer, eu tô acostumado a ser um canalha, e a cantar mulheres. Mas eu nunca fui assim com ela, e também não é como se eu quisesse ser um Don Juan barato a essa altura do campeonato com ela. Já tinha feito merda demais, aquilo não era nem justo.
— Foi mal — soltei, em seguida — É muito vinho na cabeça pra suportar essa porra.
— Então cê não quer me beijar agora?
— Aperol 2.0 não vai gostar nada disso.
Ela soltou uma gargalhada. Alta o suficiente pra eu tapar a boca dela, porque sabia que, se Arthur ouvisse, ele viria aqui perguntar o motivo do riso e querer participar. Maconheiro é uma praga.
— Que foi, maluca?
— Acredita que ele pediu uma JARRA DE APEROL?
Segurei o riso e o ímpeto de tirar sarro do menino. Segurei as duas mãos dela, levei até a boca e beijei cada nó de dedo daquela mulher, guardando esse momento numa caixinha especial dentro da minha cabeça.
— Eu não vou ser um filho da puta contigo de novo, Liv — sussurrei — O Aperol: o retorno, é bem melhor que eu.
— O que você…
— Tchau, linda.
E na ação mais altruísta e difícil de toda a minha vida, dei um beijo demorado na testa dela antes de voltar pra mesa do pessoal e deixá-la ali, com cara de paisagem.
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