Luzes de Neon
15 Blind Date
— Talvez eu deva fazer terapia — soltei, e em seguida dei um trago no cigarro.
O fim de semana tinha acabado e já era noite de segunda-feira. Caíque ainda estava sentado na mesa de jantar trabalhando igual um camelo, a televisão estava ligada no Jornal Nacional, e eu estava na varanda junto a Arthur. Essa era nossa rotina de segunda a quinta-feira: eu e Art acordamos tarde, geralmente ficamos até tarde no trabalho também, mas quando pisávamos em casa, a gente acendia um baseado, ou assistia uns desenhos com a desculpa do ócio criativo, enquanto Caique continuava se fudendo de trabalhar.
— Irmão, você é a pessoa que eu conheço que mais precisa de um terapeuta — Art apontou seu cigarro na minha cara antes de continuar a falar — Você mudou muito
— E não foi pra melhor — gritou Caíque, de dentro de casa. Em seguida, se levantou e se juntou à gente da varanda — Que se foda, amanhã eu continuo, me passa esse cigarro pra cá.
— A Amália vem pra cá hoje — lembrei — Vocês vão pro jantar de noivado de alguém que ela conhece.
— Desde quando você é a minha secretária?
— Quer que ela te beije e saiba que tava fumando maconha?
— Odeio quando você tem razão.
— Tô ligado.
Desde a minha história com a Lívia, eu tinha começado a valorizar mais a Amália. O tanto que ela rala pra manter aquela relação, o tanto que ela cuida até dos amigos — maconheiros e infantis — dele. O mínimo que Caíque podia fazer era não ser um merda.
— É isso, amanhã vou procurar terapia.
— E hoje? O que podemos fazer por você hoje? — perguntou Caíque, como se fosse um coach.
— O que eu posso fazer?
— Já pensou em encontrar outra pessoa?
— Eu concordo — disse Art, animado — Vamos, dá aqui seu celular, Bennie.
— É a coisa mais legal do mundo mexer no tinder do seu celular, cara, não tem ninguém que não dê like.
— Cês tão exagerando.
— É sério. Dá pra sonhar em um futuro com qualquer uma delas.
— Cês façam o que acharem melhor aí. Eu vou tomar um banho antes que Amália chegue e diga que eu tô fedendo.
— Você gosta mais da Amália que eu, cara? — brincou Caíque — Quando isso começou?
— Quando eu tive um projeto de namoro — ri por educação e saí da varanda.
Por mais que eles digam que a Liv me estragou, tenho certeza que fez o contrário. A real é que eu estava vendo a Amália com um ser humano e não uma extensão do Caíque, e isso não os deixava felizes, porque eu era muito mais legal quando tratava mulher que nem bosta.
Sendo bem honesto, eu também sentia falta do Benjie de antes.
O Benj de antes não estaria preocupado com o que os caras estariam fazendo com o celular, não só pelo Tinder, mas pela quantidade exorbitante de contatinhos que eu tinha no Whatsapp, e principalmente Arthur sabia. Já o novo se preocupava demais com cada uma daquelas carinhas que poderiam ser abordadas pelos dois boçais que dividiam apartamento comigo.
Demorei bem menos do que eu queria e precisava no banho. Por mim, acho que passaria uns 3 dias úteis deixando a água cair na nuca, mas não deu nem 15 minutos e eu já tava saindo pelado pela casa.
— Benjamin! — gritou Amália, tapando os olhos — Meu Deus do céu, cara, você não pode sair andando pela casa sem roupa!
— Eu só moro com homens, minha filha, tá fazendo o quê aqui?! — gritei, voltando pro quarto — Tá lindo seu vestido, Ams!
— Brigada, querido! Quer vestir um terno e ir com a gente no jantar?
— Agora a gente tem que arrastar o Benjamin pra todo canto? A gente adotou ele, foi? — resmungou Caíque.
— Ela tá tentando arranjar uma namorada pra mim! — gritei do quarto.
— Nem vem, a gente já te fechou um date.
— Vocês o quê?! — perguntei, voltando pra sala de cueca.
— Com a Jaque! — Art disse, animado, levando o celular pra me mostrar — Você já saiu com ela duas vezes, ela já veio aqui em casa, tem uma tatuagem bonita na coxa. Vocês vão sair pra tomar uns drinques.
— É sério isso?
— Sim, ela já aceitou.
— Hoje é segunda-feira — Ams parecia espantada — Você realmente conseguiu um encontro numa segunda-feira à noite?
— E nem fui eu.
— A gente só mandou uns foguinhos, umas figurinhas e perguntou “tá a fim de tomar umas?”, e ela perguntou “onde?”
— E como vocês escolheram a Jaque? — perguntei, curioso. Fazia sei lá, uns dois anos que eu não falava com ela.
— Ah, a gente abriu uma página de rifa. Como não tinha nenhuma Rosalva na sua lista, foi Jaqueline.
Houve um silêncio absoluto antes de todo mundo ali se cagar de rir.
Amália não conseguia acreditar na cara de pau dos dois, e nem no quanto a minha foto com Charles Bronson convencia. Isso ninguém podia tirar de mim: a facilidade com que eu convencia mulheres a saírem comigo. Em qualquer situação inóspita. Terça-feira à tarde? Vamos. Segunda feira de madrugada? Por que não? Beber na praça Roosevelt? Topo! Enterro da vó? Me chama que eu vou!
— Preferia ir pro jantar de noivado de vocês, sempre tem uma dama de honra desesperada que termina a noite aqui em casa.
— Ô, meu bem, já voltou a ser o antigo Benjamin que todas as mulheres amam odiar?
— Tô na luta, xuxu.
— Agora vista suas calças, eu amo você mas não o bastante pra ficar te vendo seminu na sala de casa.
— Não saiam antes de mim, quero uma carona pro bar. Eu nem sei pra onde eu vou.
Ams riu, ainda incrédula com toda essa situação. Voltei pro quarto para me vestir e fazer um carinho na cabeça do meu melhor amigo do mundo, Charles, depois voltei para a sala. Precisava do briefing do meu encontro antes de sair de casa.
— O que eu preciso saber pra esse rolê?
— Trata isso como uma entrevista de emprego, viado. Pesquisa antes.
— Eu nem queria estar indo nesse encontro!
— Mas agora você vai! — resmungou Art. Ele certamente era o mais empolgado — Eu gosto da Jaque.
— Você a conheceu?
— Aham. Sem querer — sorriu — Você não trouxe ela aqui em casa nem nada, a gente encontrou essa menina numa festa da Mackenzie e sempre pensei: ela é a namorada certa pro Benj.
Por essa eu não esperava. Rolou uma expectativa de que esse encontro desse certo, e pelo brilho no olhar do meu maconheiro de estimação, eu iria fazer aquilo direito, por mais que não tivesse cabeça pra namorar com ninguém.
— Posso saber o porquê?
— Sei lá. Achei sua vibe.
— Sério isso? Nenhuma consideração a mais?
— Ela é bonita pra caralho e tem um golden retriever. É tipo você.
Ok, era um bom argumento. Já tínhamos assunto: ela tinha um golden retriever também.
No fim das contas, Amália ficou com dó de largar o Arthur sozinho em casa, enfiou um smoking meu nele — que, dessa vez, tomou banho, porque eu não permitiria que ele empesteasse minha roupa de festa com cheiro de lenço umedecido — e o colocou dentro do carro pra ir junto à festa.
Me largaram num bar da Vila Madalena e eu tive que olhar umas três vezes pra foto de perfil da menina antes de encontrá-la, sentada no bar.
Tá, ela realmente era linda. Eles tinham escolhido bem. Quando cheguei do lado dela e coloquei uma mão em suas costas, ela me virou um tapa na cara.
— Jesus, eu caí num catfish?! — gritei, e ela então percebeu o que tinha feito — Desculpa, vou procurar meu parzinho. Deve ser um velho querendo vender meu rim.
— Meu Deus do Céu me perdoa! — gritou, colocando a mão onde tinha batido — Eu sou uma pessoa reativa! Achei que fosse um tarado!
— Vou pensar muito bem antes de te beijar hoje.
Apesar daquele percalço, eu tava em casa. Primeiros — e geralmente únicos — encontros eram a minha expertise desde os 19 anos. Na verdade, aquele — literalmente — tapa na cara me ajudou a acordar pro encontro: rendeu assunto, me trouxe pra lá e me fez esquecer de qualquer outra coisa que não fosse o momento atual e a pessoa com quem eu estava naquela noite. Era o que eu precisava.
Nós bebemos — muito -, conversamos sobre os cachorros, sobre quão destrutivo é criar um animal do tamanho de um lobo dentro de casa e sobre as maravilhas de se dividir apartamento com dois colegas. Ela, realmente, era bem mais parecida comigo do que a Lívia, ou do que qualquer outra mulher que eu pudesse encontrar.
Por um impulso, convidei-a pra ir pra minha casa, e muito me surpreendi a encontrá-la vazia. O pessoal estava investindo pesado em me juntar com essa menina.
Bebemos mais umas cervejas, começamos a nos pegar no sofá e, como era de se esperar, transamos antes de chegar no quarto.
Bem-vindo de volta, velho Benj.
Quer dizer, mais ou menos. Talvez o velho Benjamin ficasse decepcionado comigo.
Em vez de chamar um uber e dispensá-la no fim da noite, Jaque dormiu comigo. Tomamos banho juntos, ela vestiu uma camiseta minha, dormimos abraçados e, na manhã seguinte, quando acordei, a cama estava vazia. Era quase como um clichê hollywoodiano.
Olhei no celular e já eram quase 8h. Nem uma mensagem no whatsapp se despedindo a desgraçada deixou. É isso que a gente ganha por tentar ser responsável afetivamente. Tudo bem, a minha parte eu fiz e a minha consciência, recém-descoberta, estava limpa.
Levantei torto de sono, cambaleando até a cozinha, e lá estava ela. Ainda com a minha camiseta, fazendo uma tapioca com Arthur.
— Ei, bom dia! — exclamou Art — Jaque me fez tapioca com queijo. Falei pra ela que cê curtia com doce de leite. Ela perguntou como você mantém o corpo comendo tapioca com doce de leite de café da manhã.
— Ele toma bomba — Caíque respondeu, de boca cheia.
— Tá comprando meus amigos com comida? — dei um selinho em Jaque e ela sorriu, fazendo carinho no meu cabelo — Você não precisava fazer isso, tá ligada né?
— Relaxa — apertou meu rosto e me deu outro selinho — Eu gosto de agradar. Vou comer aqui com vocês e já já vou daqui direto pro trabalho.
— E você pretende ir com a roupa cheirando cigarro? — perguntei, e ela riu.
— Pensei em ir com essa camisa mesmo. Depois te devolvo, passada e engomada, juro.
Segurei a mão dela para rodopiá-la e vê-la com a minha blusa. Quando olhei pro lado, Art estava com um sorriso de criança. Como se os pais tivessem acabado de desistir de se divorciar. Apenas concordei com a cabeça e ela enfiou um teco de tapioca na minha boca. E o pior é que tava uma delícia.
— Fiz uma crostinha de queijo.
— Temos uma masterchef em casa — beijei o ombro dela e a deixei servir a tapioca. Dividimos o mesmo prato, e ela tomou um chá verde — que eu nem sabia que tinha — e eu um café preto.
— É isso, tô indo, galera! Muito obrigada pela hospitalidade, beijinhos!
— Me avisa quando chegar — beijei o nariz dela, que foi embora toda felizinha.
Quando ela saiu do apartamento, todos os presentes — os dois colegas de quarto e Amália — trocaram olhares e sorrisinhos maliciosos.
— Tá, podem rir. “Engatou um namoro em outro, Benjamin? Essa Lívia realmente te estragou, Benjamin”
— Eu gostei — disse Ams, abrindo um sorriso — Quer dizer, ela não é a tal da Lívia, não faz teus olhos brilharem como estavam brilhando no Paris 6, mas eu gosto dela.
— A Liv é insubstituível — ri, me sentando e tomando um gole de café — Mas a Jaque é legal.
— E a gente não vai deixar você ser filho da puta com ela — Art parecia muito satisfeito e certo do que dizia. Ele não ia deixar que Jaque fosse uma foda isolada.
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