Luzes de Neon
16 Golden Retrievers.
Dois meses haviam se passado, e eu e Jaqueline estávamos numa espécie de relacionamento aberto. Não éramos exclusivos, porque isso era pedir demais. Mas era ela que dormia em casa, que viajou pra Riviera como meu parzinho, com quem a gente alugou um sítio e que foi de minha acompanhante naquele casamento da amiga da Amália.
Foi a primeira vez que fui a um casamento desses e não saí com a dama de honra desesperada: saí junto com uma mina tão louca quanto eu, carregada junto comigo pelos meus amigos, putos por eu ter encontrado alguém à minha altura em artes cachaceiras.
Era uma quinta à noite e estávamos passeando no Ibirapuera com Charles Bronson e Holly Golightly — nossos golden retrievers com nomes em homenagens a um ator famosão dos anos 60 e de uma personagem de filme clássico dos anos 60 -, como se fôssemos os protagonistas de 101 dálmatas. A gente tinha essa rotina: passeávamos com os cachorros, corríamos, fazíamos academia de vez em quando, fritávamos nas baladas.
Era tipo um namoro, mas ambos ciscavam em outros terrenos o tempo inteiro e ainda batiam figurinhas depois.
— E o que a gente vai fazer nesse fim de semana, moreco? — perguntou e eu ri em seguida — Ai desculpa, Benjamin, eu sou cafona.
— Eu gosto do seu cafona — ri e apertei seu queixo. Quando fui beijá-la, Charles Bronson deu um solavanco e não consegui finalizar o que planejava — Cachorro do cacete.
— O Charlie é castrado? — perguntou, arqueando a sobrancelha, e, envergonhado, neguei com a cabeça — Merda, Benj. A Holly também não.
— Tá brincando.
— Eles tão convivendo muito. Holly vive dormindo lá na sua casa.
— Jaqueline, eu acho que se dois cachorros do tamanho do Charles e da Holly estivessem transando, alguém já teria percebido.
— Já parou pra pensar que a gente passa muito tempo chapado, Benjamin?
Silêncio absoluto.
Depois a gente começou a rir. Muito alto. Não estava acreditando que havia a possibilidade de podermos parir uma ninhada de mini Charles e mini Hollies. Encontramos um banco no parque pros dois descansarem no chão e pesquisarmos mais sobre gestações de cachorros, partos e coisas do gênero.
— A Holly pode parir oito bebês.
— Que que a gente vai fazer com oito filhotes, Jaqueline, me fala?
— A gente vende e compra um celta.
Nos encaramos por um momento e começamos a rir de novo.
Era o que a gente fazia. Como estávamos frequentemente chapados, a gente frequentemente começava a rachar o bico sem motivo nenhum. Acabou que isso refletiu na nossa relação sóbria, viramos amigos que transam e era bom pra caralho.
— Ótimo. A gente compra um celta. Eu tô com um tesla, você tem a porra de um HB20 branco como se fosse a Miss Odonto, e você quer um celta?
— Eu não sei o que fazer com esse dinheiro!
— A gente não vai vender cachorro nenhum!
— E se a gente fosse pra Paris?!
— Clichê.
— Eu gosto de Paris — resmungou.
— Claro que gosta.
— E pra onde você iria, sou diferente de todos os garotos?
— Na Europa ou em qualquer lugar?
— Qualquer lugar.
— Camboja.
Narrei a ela toda a programação da viagem dos meus sonhos pro Camboja — que eu acredito que não conseguiríamos fazer nem se vendêssemos os oito filhotes, mais a Holly e o Charles — enquanto ela me olhava maravilhada.
Eu gostava disso. Talvez fosse meio babaca da minha parte, mas a Jaqueline me olhava como se eu fosse muito mais inteligente do que eu de fato sou. Ela me olhava com uma admiração que mais ninguém já me olhou, e isso alimenta meu ego.
Liv não me olhava assim. Ela questionava tudo o que eu falava mesmo que não tivesse metade da experiência em viagens que eu tinha. Também dizia que eu era chato, que brega era eu e que essa minha mania de querer ser diferente de todo mundo era um porre. Ela me motivava a querer provar a todo o tempo que eu era diferente, e talvez por isso a admiração de Jaque me amacie tanto, depois de apanhar um bocado com aquela malcriada.
— A gente pode sair dando golden retriever pras pessoas tipo um brinde de festa de aniversário — sugeri e ela gargalhou, enquanto a gente se levantava e caminhava pro carro dela — Ah, para, não ri!
— É a ideia mais bonitinha que você já deu sobre qualquer coisa!
— Eu sei. Espero que os bebês nasçam em novembro.
— Sabia que você era escorpiano.
— Eu dou na cara, né?
Ela riu, assentindo. Estávamos caminhando e voltando pro parque quando, mais uma vez, como uma assombração, Liv apareceu. Com o mesmo engomadinho do Paris 6, só que agora versão João Doria esporte-chique.
— Ah vai se fuder — sussurrei e Jaque arregalou os olhos — Não é você não!
— Você quer me explicar o que tá acontecendo?
— Um fantasma — ri, e ela entendeu.
Por algum motivo, eu realmente me sentia seguro com Jaque pra contar a ela tudo sobre a minha vida. Acho que talvez eu não quisesse impressioná-la, então não tinha motivo pra esconder dela qualquer merda ou fantasma que eu tivesse. Contei sobre Liv, sobre a aposta, sobre como aquele carro havia parado na minha mão, sobre tudo. E ela, ainda assim, me abraçou e ficou ao meu lado.
— Ela é linda — sorriu, meio triste.
— Vou fingir que nem vi.
Charles Bronson deu três latidas vigorosas em direção à Lívia, e saiu me arrastando em direção a ela.
— Traidor — sussurrei. Holly e Jaque haviam me acompanhado, e agradeci mentalmente por isso — Ei, Liv.
— Ai meu Deus, que saudade de você, Charles Bronson! — grasnou, se agachando pra apertar a cara daquele Judas — E você tem uma irmãzinha!
— Na verdade, acho que são um casal. Suspeitamos que eles tenham gerado bebês — Jaque respondeu e eu não pude evitar dar risada.
— Ah, oi! — disse Liv, tentando manter a compostura — Desculpa, eu sou a Livia.
— Jaqueline — Jaque abriu um sorriso lindo e beijou a bochecha de Liv em cumprimento.
— Benjamin — estirei a mão ao Aperol 2.0, que me encarou enojado — Conheci a Lívia há algum tem…
— Não era você no Paris 6? O amigo da Bárbara?
— Olha como eu marco as pessoas — tentei rir, e a essa altura, Jaqueline mordia o lábio pra segurar o riso da minha desgraça, já que eu também tinha contado desse episódio pra ela. Pode não ser perfeita pra mim, mas no geral, essa mulher não tem nenhum defeito — Eu mesmo. Você é…?
— Renan. A gente tá namorando.
Aquilo me acertou como uma facada.
Enquanto processava essa informação, Jaqueline apertou meu braço, fazendo carinho e beijando o meu ombro.
— Nós também — respondeu por mim — Nossos cachorros até vão ter bebês!
— A diferença é que a gente não tá namorando, Renan — Liv sorriu, se soltando dele — Mas fico feliz por vocês.
— Se você quiser a gente te dá um golden — minha voz falhou como a de um adolescente, mas mantive meu sorriso enquanto dizia. Liv não respondeu — Então… Vamo, xuxu?
— Vamos. A gestante precisa repousar.
— Tchau, Liv. Tchau, Renato.
— É Renan.
— Desculpa, Aperol — sussurrei e ele me encarou, mas não ousei repetir — A gente se vê por aí.
— Espero que não — ele sussurrou também, e ficou claro que tinha ouvido o meu apelido — Claro, até mais!
Liv continuou sem responder, então fui embora sem cumprimentá-la novamente. O caminho até o carro com Jaque foi silencioso, enquanto colocamos os cães no banco de trás e ela dava partida, em direção à casa dela. Colocou sua playlist — brega e previsível — de pop dos anos 2010 e então segurou minha mão.
— Tá tudo bem, eu sei que a gente não namora, tá? Não ia deixar você sair por baixo.
— Alguém já te disse que você é perfeita?
— Eu faço meu melhor — riu — Acho que hoje você vai preferir dormir sozinho?
— Preciso colocar a cabeça no lugar.
— Eu concordo.
Mais um tempo sem conversas rolou, enquanto ela cantava a alguma música da Taylor Swift e eu olhava pro nada, batucando sobre os joelhos. Agradeci mentalmente pelo silêncio confortável da viagem, quando ela parou o carro na frente do meu prédio e se virou pra mim.
— Ei — ela sussurrou, e olhei pra ela — Cê sabe que eu sou total flex, né? E aquela mulher mexeu comigo sem que eu nem a conhecesse. Fica tranquilo, que não tenho nenhum ressentimento.
— Valeu, Jaque.
Após mais um silêncio preenchido pela Billie Eilish, com sua voz de quem não está cantando, mas sussurrando um ASMR gostoso pra você dormir, Jaque pigarreou.
— Tá tudo bem entre a gente, né? Você não vai me largar com uma ninhada de filhotinhos pra criar?
— Mesmo que dê alguma merda, nós temos guarda compartilhada, te prometo — sussurrei, e ela sorriu — Eu nunca tive nada tão maduro quanto tenho contigo. Mesmo se eu me casar com a Lívia, não vou sumir da tua vida do nada.
— E eu agradeço por isso. A gente é mais amigo que namorado.
— Deus abençoe o relacionamento saudável.
— E os avós de pet mais legais do planeta. Agora xô, que eu vou arranjar uma cama pra me aquecer ainda hoje. Quinta-feira à noite o tinder tá bombando.
— Puta — resmunguei, e ela riu — Tô de brinks.
— Tô ligada. Não preciso te lembrar como a gente voltou a sair, né?
Ri com a lembrança e dei-lhe um selinho antes de sair do carro e tirar Charles Bronson. Realmente, independente de qualquer coisa que me ocorresse, eu não podia deixar essa mulher sair da minha vida.
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