Luzes de Neon

17 Why'd You Only Call Me When You're High?


Quando entrei em casa, dei de cara com Amália, Arthur e Caíque estirados no sofá cama que haviam aberto. Charles Bronson correu para deitar nos pés de todos.

Quer dizer, a esta altura do campeonato, eu me questionava sobre os motivos dela pagar aluguel em outra casa, com um monte de mina que ela nem mesmo considera amiga, e não simplesmente ter juntado todas as tralhas dela e ter oficialmente se mudado pra cá. Oficiosamente, desde que comecei a sair com a Jaque, ela enxergou uma oportunidade de se instalar também.

Nem tava reclamando, de coração. Eu amo a Amália. Durante muitos meses nós a repelimos daqui como se aquele fosse um lugar de machos, tipo um clube do bolinha versão adulta, e se ela entrasse, estragaria tudo jogando frufrus e purpurinas em todo ele.

Ledo engano. Ledo, ledo, ledo.

No lugar disso, ela deu vida pra casa: não falo só de comida com geladeira. Eram as polaroids com fotos de todos nós que ela mesma tirou e colou por toda parte, os quadros de arte da feirinha que ela frequentava pra decorar a nossa casa. Não parecia o apartamento mobiliado e pronto para morar que o pai do Caíque descolou pra gente viver, mas um lar mesmo.

Nota mental: Lívia me tornou baitola.

Me joguei entre eles e Ams me fez um cafuné. Era uma mãe completa e perfeita, e agora eu não podia mais desver a nossa relação familiar funcionando sob esta dinâmica: eu e Art como os filhos desajustados — e creio que indesejados, considerando nosso pai — e Caíque e ela como nossos pais zelosos.

— Vi a Liv hoje — soltei, enfiando a cabeça na almofada. Amália riu alto — Tá rindo de que, desgraçada?

— Como foi, meu bem? — segurou o riso e se arrumou no sofá, colocando minha cabeça em seu colo — Meu Deus, espera, você tava com a Jaque?!

— Sim.

— E ela?! — as duas marias fofoqueiras que realmente dividiam o apartamento comigo finalmente se animaram.

— Ela quem? Espera, são muitas variantes dessa situação — me ajeitei, balançando a cabeça e tentando organizar os pensamentos.

— A Lív.

— Ficou chocada. Eu ofereci um filhote pra ela.

— Você se ofereceu pra comprar um filhote pra ela? Benjamin, que porra de ex ficante é você?!

— A gente acha que o Charles Bronson vai ser pai.

De repente se gerou uma comoção com essa informação, e eles ignoraram todo o resto. Resolvi aproveitar a deixa — desisti daquela pataquada entre o momento em que escolhiam o nome do filhote que eles queriam herdar e vendo camas para o suposto novo morador — e levantar pra fumar meu cigarro.

Sentei na sacada, enrolei com um cuidado que só era destinado à seda e corpos femininos, e dei uma tragada, sentindo os ombros relaxarem imediatamente.

Daí o celular vibrou no meu bolso. E, para a minha surpresa, era Lívia.

Gelei. E, aliás, percebi que não tinha trocado o contato dela: Doll seguia vivíssima

Ei.

Ei? Ei era tudo o que ela tinha pra me dizer? Eu não sabia o que responder a um EI depois de tudo que havíamos vivido. Esperei que ela falasse mais alguma coisa.

Não falou. E, infelizmente, eu não podia, nem queria, ignorá-la.

E aí — mandei, despretensioso.

Doll está digitando...

Doll está digitando…

Doll parou de digitar.

O telefone começou a tocar. Doll.

Puta merda, só essa mulher pra me fazer falar ao telefone.

— Ei — atendi, e ela riu.

Desculpa. Eu sei que você odeia falar por ligação.

— Lívia, eu amo a tua voz. Você podia me recitar a sua lista de supermercado, que eu não vou ligar — ela soltou uma risadinha tímida e quase pude sentir o calorzinho das suas bochechas enquanto mudam de tom — Tomou duas taças de vinho e tá me ligando?

Me respeita, eu lá sou mulher de ficar louca com duas tacinhas? — resmungou, e passou um tempo em silêncio — Matei aquelas garrafas do vinho branco podre de chique que cê deixou aqui.

— Ué, mas eu não deixei… — pensei um pouco. Puta merda — Cê não tá falando daquele vinho português que a gente achou que fosse 25 reais e era 250 a garrafa e a gente levou quatro pra casa não, né?

O próprio — ela gargalhou e ouvi alguma coisa quebrar. Soltou um resmungo que creio que tenha sido um ‘ai caralho’, pelo que a conheço, e logo se recompôs — Daí eu lembrei de você.

— E o aperol remasterizado versão 4K?

— Foi pra casa dele, tá maluco que eu deixo Renan dormir aqui em casa?

— Fico feliz. A gente nunca sabe que tipo de doido põe pra dentro.

Aquela cachorra dorme aí?

— Tá falando da mina ou literalmente da…

Tô falando dos dois, Benjamin, não me enrola!

— Dorme, Liv.

Ela se calou. Por um momento, pensei até que poderia ter dormido, já que ingeriu dois litros de vinho branco, mas aquilo não era do feitio dela. Liv bebia melhor que eu desde sempre, não é diante de um cenário desse que ia cair dura. Aquilo havia a desestabilizado.

— Liv?

Me desculpe por incomodar você e sua namorada.

— Ela não é a minha namorada. Só disse que era porque o Aperol disse que era o seu.

Porra, mas que amigona gente boa ela.

— E ela é mesmo.

Olha Benjamin, eu não vou ficar aqui ouvindo você defender a avó dos seus netos, tá legal? Foi um erro ter te ligado, e eu sinto muito.

— Tá bom, Liv.

Silêncio novamente.

Ah, quer saber? Foda-se.

— Liv? — ela resmungou um “hm” mal humorado, e eu ri só de imaginar a carinha dela — Tô indo praí.

Se você vier, eu vou bater a porta na sua cara.

— Fechou. Ainda tem vaga na garagem?

Tem. Mas você não pode usar.

— Tá ocupada?

Eu não te quero aqui, Benjamin, você não entendeu? — gritou.

— Então me ligou pra quê?!

Depois de cinco segundos sem resposta, desliguei o telefone e saí pela casa procurando a chave. Foda-se. Eu iria atrás dela.