Luzes de Neon
3 Pizza Napolitana
Quando acordei — à tarde daquele mesmo dia-, o celular estava repleto de mensagens das meninas, e algumas de Benjamin. Resolvi ver primeiro as dele, e se resumiam a algumas figurinhas de crianças bonitinhas e uma foto do mesmo labrador com quem dividia a foto de perfil, e ele escreveu: Esse é o Charles Bronson. Não sei puxar assunto com mulheres, mas uma foto do Charles Bronson sempre ajuda na comunicação.
Eu ri, mandando uma foto das minhas suculentas e dizendo que elas eram o mais próximo que eu tinha de animais de estimação, e criei coragem para abrir o grupo das meninas. Quando abri, quase caí pra trás.
Alguma daquelas palhaças havia tirado não uma, não duas, mas várias fotos minhas com Benj pra jogar na minha cara caso eu quisesse me fazer de doida e dizer que nada havia acontecido. Me senti com paparazzi me vigiando, mas não me deixei abalar. Mandei meia dúzia de figurinhas engraçadas que expressavam minha indignação e segui com a minha rotina.
A verdade que eu jamais admitiria é que eu estava mesmo precisando daquilo. Sair de casa, ter alguma história pra contar, dar risada com as meninas e beijar uma boca. Mas agora, todo o romance do qual eu queria saber era do de Lucas e Jade.
Ainda assim, durante todo o dia, Benj se mostrou interessado no que eu estava fazendo. Perguntou um milhão de vezes como estava indo o bordado, e também mandei foto da minha taça de vinho e ele perguntou qual rótulo mais me agradava.
Eu senti falta de me sentir acarinhada e importante.
De todas as coisas que me faziam falta num relacionamento, a que mais pesava era a falta de alguém que demonstrasse qualquer tipo de preocupação com o que eu estava fazendo. Não só do sexo e do romance se vive um namoro.
Quando já era noite e estava preparando o jantar, Benj mandou outra mensagem.
Tá fazendo?
“Janta” — respondi, enquanto mexia o molho branco pro macarrão, com a perna esquerda apoiada sobre a direita, como se eu fosse um flamingo.
E o que tá fazendo?
“Janta” — respondi de novo, mandando uma figurinha de uma criança asiática com os olhos revirados.
Palhacinha. Tava pensando em te chamar pra jantar, mas 0 vontade de dividir uma pizza com o Carlos Alberto de Nóbrega.
“Você vai pagar?” — perguntei, mandando mais uma figurinha de criança asiática, dessa vez balançando as perninhas.
Posso passar na sua casa ou você ainda não confia em mim?
“Na verdade não confio e você não vai jantar na minha casa.”
Preciso do seu endereço pra te pegar.
Ok, fazia sentido. Compartilhei a localização com ele e desliguei o fogão, correndo de um lado pro outro para me arrumar. “Passo aí em uma hora” — foi a última mensagem que ele mandou.
Foi aí que eu entrei em desespero.
Não é que o cara tinha simplesmente me visto num dia bom: ele havia me visto montada pelo esquadrão da moda. Eu, sozinha, não fazia ideia do que vestir. Sempre fui muito mais comfy do que trend, segundo as revistas da Capricho que lia com Bárbara na adolescência. Respirei fundo, tentando racionalizar: ok, Lívia, se esse rapaz merece sua saída da toca, ele não vai se importar se ontem você era a Barbie, e hoje você é apenas a Lívia.
Tá, nem eu mesma consigo acreditar nisso.
Saí desbravando meu armário em busca de algo que não fosse muito espalhafatoso, para que ele não pensasse que passei horas procurando aquilo, nem simples demais, para que ele pensasse “Ela só calçou um chinelo e veio me ver”.
Decidi que iria com uma saia longa e estampada que eu e Bárbara compramos na praia, e um cropped justo. Tomei um banho de meia hora, lavei a louça na pia — odiava ter que chegar em casa e pensar em limpar qualquer coisa-, me maquiei, vesti e sentei no sofá, ansiosa demais pra pensar em qualquer outra coisa.
Não conseguia parar de balançar a perna. As meninas dizem que eu devia procurar um médico porque devo ter a Síndrome das Pernas Inquietas.
Continuei a me balançar pelos próximos 15 ou 20 minutos, o que resultou em pernas, além de inquietas, dormentes. Estava fazendo alongamentos quando o interfone tocou: era a hora.
— Sim? — grasnei para o interfone, e o porteiro soltou uma risada anasalada e anunciou que ele estava na porta. Assenti com a cabeça, e me dei conta de que isso não faria diferença nenhuma. Eu suava de nervoso — Ah, avisa que eu tô descendo!
Saí tropeçando em tudo que encontrei no caminho, e, milagrosamente, consegui chegar até o térreo sem rasgar o meu saião. Quando a porta do elevador abriu, pude vê-lo no hall de entrada, conversando despreocupadamente com o porteiro.
Agora, com luz ambiente e sem álcool no meu organismo, eu finalmente pude confirmar o quanto ele era bonito. Saí do elevador e passei algum tempo parada o analisando: os cabelos, curtos e desgrenhados, tinham as pontas muito claras, de quem a) pega muito sol ou b) descoloriu num momento de tédio, mas considerando a pele bronzeada, acredito que seja a primeira opção. Os olhos são muito pequenos e somem quando ele sorri, isso é lindo. Os braços são cobertos de pequenas tatuagens, todas pretas, nenhuma colorida, e a camiseta branca de gola canoa permite que o destaque seja justamente aquele corpo, e todas as suas artes.
Finalmente percebi que eu poderia estar parecendo uma psicopata ali parada o analisando, então tratei de retomar o controle das minhas pernas e caminhar até ele.
— E aí — cumprimentei, tentando soar natural como se tivesse muitos encontros, e o porteiro riu da minha cara, denunciando minha farsa — Eu tô tentando parecer natural, Gil, não corta minha onda.
— Vocês estão armando esse teatrinho pra eu pensar que você é uma mulher bela, recatada e do lar?
— Eu tô tentando não parecer uma mulher bela, recatada e que não sai do lar.
— E ela não sai mesmo.
— Obrigada, Gil.
Ele deixou a cabeça tombar para trás e deu uma gargalhada deliciosa. A voz desse homem também era uma coisa: não sei se era rouca porque ele fumava, ou se já era naturalmente assim, mas o som daquela risada poderia ser meu despertador, e eu acordaria feliz todos os dias.
— Tá, vamos comer logo essa pizza. Eu deixei de jantar macarrão ao molho branco com brócolis porque você me prometeu uma pizza.
— Eu te salvei, então.
— Não me diga que você é do tipo de pessoa que tem doze anos e não come brócolis?
— Você reparou que nem me deu oi?
Já estávamos na calçada quando ele me surgiu com essa pergunta. Virei para encará-lo sem entender nada, e ele me beijou.
Não foi um beijo demorado nem muito emocionado, mas pude sentir, mais uma vez, o hálito de trident verde em sua boca. Sorri, empurrando-o enquanto segurava a gola de sua camiseta.
— Oi — sussurrei, olhando pra ele — Satisfeito?
— Mais ou menos — ri, e ele me empurrou com o ombro. — Eu tive essa uma hora pra procurar algum lugar legal por aqui que tivesse pizza.
— Estamos no centro. Qualquer lugar tem pizza boa e barata.
— Eu não vou te levar pra qualquer lugar.
— Você não ouse me levar pra um lugar caro. Eu tô de chinelo — apontei para a rasteirinha nos meus pés, indignada.
Deu os ombros, me enfiando dentro do carro e entrando pelo outro lado. Ligou o waze e me deu o celular na mão, para que eu escolhesse alguma playlist no spotify.
— Pode apostar, você não vai gostar das minhas músicas.
— É k-pop? Se for, me devolve esse celular.
— Não. Mas k-pop não é tão ruim quanto dizem.
Dei os ombros e coloquei qualquer playlist com João Gilberto e encostei a cabeça na janela e ele soltou uma risada gostosa.
— Sério? Música de velho do caralho, hein, Lívia.
— Você não gosta de k-pop, não gosta de João Gilberto, do que você gosta?!
— De música de jovens adultos. Não de criança nem de gente velha.
Resmunguei uns palavrões e ele riu, apertando minhas bochechas sem tirar os olhos do tráfego. Pegou o celular e mudou pra qualquer rap esquisito que eu não conhecia. Dei os ombros, fechando os olhos e mexendo as pernas.
— Tá nervosa?
— Eu? — exclamei, assustada, por ser tirada da minha contemplação da música — Devia?
— Não. Não é como se a gente não tivesse se pegado antes.
— Mas não foi um rolê, né.
— Date.
— Ãhn?
— Date. Rolê é quando tem amigo.
— Você entendeu o que eu quis dizer.
— Entendi, tá tudo certo, bebê.
Ri e troquei de música, voltando para João Gilberto. Comecei a cantarolar Desafinado, e ele sorriu.
— Você canta bonitinho — senti as bochechas ferverem, e abaixei a cabeça, disfarçando um sorriso bobo — E fica ainda mais bonitinha quando tá tímida.
— Cala a boca!
— Atrevida.
Apertou de novo meu rosto e parou o carro na frente de um lugar maravilhoso. Era um casarão imenso, iluminado com luzes quentes, e com o nome em fontes elegantes, sem placa, só com as letras pretas em relevo na parede. Suspirei.
— É lugar chique.
— Não é chique.
— É chique sim.
— Pra mim não é.
Deu os ombros e eu ri. Ele me olhou pelo canto do olho e soltei um “Playboyzinho”, entre tossidas. Me deu um empurrãozinho com o braço enquanto saímos do carro e ele entregava a chave pro manobrista.
— Nenhum lugar que não seja chique tem manobrista, Benj.
— Pelo amor de Deus, que tipo de podrão você frequenta?
— Restaurante a quilo e shopping center.
Ele riu e me deu o braço. Quando entramos no restaurante, o som dos saxofones compunha a trilha sonora, e me deixei levar pelo clima que ele ambienta. Naquela noite, eu só queria ser uma pessoa fina que não reclamava de preços e só aproveitava as coisas boas da vida. Deixei Benjamin fazer a tratativa de escolher a melhor mesa xavecando o host, e puxar a cadeira pra mim antes de sentarmos.
Observei-o em seu habitat. Abriu a cartela de vinhos, escolheu um cujo nome é impronunciável e disse para o garçom que poderia trazer a garrafa. Assim que ele se retirou, sorri.
— Que foi? — perguntou dando uma risadinha tímida.
— Nada, tô me deixando levar.
— Pelo encontro?
— Sim. É como uma valsa — ele sorriu com a comparação — E tô te deixando me guiar.
— Pode deixar, eu sei pedir pizza.
— Mas eu quero ajudar a escolher o sabor — abri o cardápio e percebi que ele, enquanto folheava o cardápio, olhava pra mim disfarçadamente — Essa não.
— Que foi?
— Não tem pizza de batata palha?!
— Pelo amor de Deus, Liv — riu — Não, não tem pizza de batata palha.
— Nem de lasanha?
— Tá brincando que tem disso.
— A gente tem que dar uns rolês por minha conta.
— Deus me livre. Eu tenho estômago sensível.
— É que você tem dinheiro. Gente rica é assim mesmo.
No fim, tivemos que escolher um sabor sem muitas coisas interessantes, pois aparentemente não era muito refinada uma pizza com camadas de bacon, cheddar, catupiry, carne seca, ovo frito e calabresa. Deixei que ele pedisse uma napolitana e fingi não me decepcionar, já que o vinho estava muito bom.
Na verdade, meio que tudo estava muito bom. A conversa fluiu melhor do que eu esperava, e ele não era um completo boçal como achei que poderia ser. Falamos sobre cinema, músicas, gastronomia e viagens. Não tínhamos quase nada em comum, mas ainda assim houve uma conexão muito forte.
Não achei que fosse me sentir confortável ao sair com alguém depois do Henrique. Quer dizer, foram muitos anos com a mesma pessoa, que me conhecia desde sempre, e essa era a primeira vez que eu saía com um homem depois do ocorrido; nem era o tipo de pessoa que tinha amizade com caras, realmente era uma coisa nova.
Estávamos dentro do carro voltando pra casa e ainda discutindo sobre todas as nossas diferenças sobre todas as coisas do mundo, quando paramos no farol vermelho.
— Tá, eu quero que você saiba que eu vou respeitar a sua decisão, mas também espero que saiba que eu tenho uma preferência pro fim dessa noite.
— Eu vou respeitosamente pedir pra que você me leve pra casa e que a gente encerre por aqui. Olha, não é que eu seja puritana nem nada, mas…
— Relaxa. Mesmo.
Ele segurou minha mão e beijou-a, enquanto dava partida no carro. Apesar da evidente esfriada na animação de Benjamin, tudo seguiu bem até a porta da minha casa. Lá chegando, ele desceu do carro pra me abrir a porta, e, quando subi o primeiro degrau em direção à portaria, ele me puxou e me deu um beijo na ponta do nariz.
— Boa noite.
— Boa noite — respondi, beijando a bochecha dele.
Benj me puxou pela cintura e me beijou novamente, tirando minha sensação de que estava com raiva de mim. Foi um beijo rápido, tal qual o de oi, mas mais carinhoso, talvez pela intimidade que havíamos criado naquela noite. Quando terminou, colou a testa na minha e beijou a ponta do meu nariz novamente.
— Me avise quando chegar em casa — pedi, e ele assentiu com a cabeça, voltando pro carro e me mandando um beijo.
Subi pra casa e esperei aquela resposta, que nunca chegou.
Fale com o autor