Luzes de Neon
4 Botequim
A vida continuou após o episódio com Benjamin, que havia ocorrido há quase três semanas. Ele não ligou pra me avisar que havia chegado, então entendi que tudo o que ele queria de mim era sexo, então como não obteve no primeiro encontro — em que investiu algum dinheiro, devo admitir, já que a pizza era cara, a garrafa de vinho se foi inteira e ainda teve o deslocamento -, abriu mão. Afinal de contas, com a cara que ele tinha, acho difícil que a concorrência fosse baixa.
Desde então, eu saí nos dois dias de fins de semana com as meninas, sem beijar uma boca sequer, porque meio que estava traumatizada com isso de beijar homens, e também não achei que fosse o momento de começar a beijar mulheres.
Estava saindo do trabalho acompanhada de Matheus e Ana Paula, as únicas pessoas do escritório que me suportavam fora dali. Era quinta-feira, deviam estar uns 40 graus mesmo às 19h, e certamente estávamos no direito de tomar uma cervejinha antes de irmos embora.
— Eu não aguento mais — resmungou Mat — Eu odeio o verão.
— Qualquer pessoa de bem odeia o verão — disse Ana, no mesmo tom, enquanto puxava a cadeira amarela do bar em frente à estação de metrô.
— Eu amo calor — me defendi, virando a cadeira para sentar de pernas abertas, apoiando o peito nas costas da mesma — Quer dizer, gente… É que vocês estão analisando o calor de São Paulo. Se a gente pudesse sair do trampo e ir pra praia…
— A gente pode, Lívia Maria?
— Não, Marcos Matheus.
— Então se recolha à sua insignificância de caiçara reprimida.
É verdade: meus pais são de Ilhabela e eu sempre fui uma sereinha. Amo mar desde que me entendo por gente e minha mãe sempre brincou que eu aprendi a nadar antes de aprender a andar. Quando fiz três anos, minha mãe e a de Bárbara criaram um laço que ficaria pra vida toda, e todos os anos desde então, a família dela me levava pra praia com eles. Se eu não tomar um banho de mar a cada ano novo, eu sinto que tudo vai dar errado naquele ano.
Coincidentemente, ano passado Henrique decidiu que devíamos passar num sítio, então não pulei minhas sete ondas. Isso explica muita coisa.
— Ta. Mas nem tá tão ruim, vai.
— Lívia, eu tô suando debaixo da teta — gritou Ana — E tô me expondo ao ridículo aqui.
— De fato — sussurrou Mat, enquanto se chacoalhava inteiro pra chamar o garçom — Troca o DVD que esse modão… — então, o garçom olhou para ele, arqueando a sobrancelha — Desculpa, não pude perder a oportunidade. Traz um litrão, por favor?
O atendente assentiu e entrou de volta pro bar. Estava com a cabeça apoiada na cadeira e no ombro de Ana quando o vi passando pela rua novamente.
Lá estava ele, com a pele queimada e brilhante, e a camiseta no ombro, deixando seu tórax de fora. Ele tinha muito mais tatuagens do que eu pude ver por cima da blusa.
— É ele?
— Ele quem?
— O boy que você tá secando. É o cara que você saiu, deu um beijo e depois vazou?
— O próprio.
Suspirei, derrotada, e Mat sorriu de uma maneira esquisita. Praticamente supliquei com o olhar para que ele não fizesse nenhuma merda, e aparentemente, ele acatou. Respirou fundo e voltou a se sentar. Quando o garçom chegou com a garrafa, ele sorriu daquele jeito novamente.
— Serve primeiro a LÍVIA, Cebola!
— LÍVIA, você quer seu copo cheio?
— Meu Deus, vocês são ridículos — abaixei a cabeça enquanto eles continuavam procurando razões pra gritar meu nome a cada frase. Virei de uma vez o copinho de pingado, cheio de cerveja gelada e barata, e abaixei a cabeça o máximo que pude, como se pudesse a qualquer momento virar uma bolinha, como o Sonic, e sair quebrando tudo por aí.
Mas antes que eu pudesse de fato virar uma bolinha, senti uma mão quente nas minhas costas e ouvi um grito reprimido de Matheus, o que certamente significava que o dono daquela mão era o mesmo que segurou a minha para me levar pra jantar umas noites atrás. Suspirei, levantando os olhos pra ele.
— E aí.
— Ei — abriu um sorriso largo que desmonta qualquer pessoa que tenha esse desvio de caráter chamado “gostar de homem” — Olha, eu queria pedir desculpas por…
— Relaxa. Você não tem que justificar nada. Nem tinha que vir aqui.
Dei um sorriso frio e ele continuou me olhando com os olhinhos minúsculos. Puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado, cumprimentando meus amigos, que logo pediram mais um copo pra ele.
— Você vai deixar seus amigos irem embora? — perguntei, olhando para os caras do outro lado da rua que iam embora sem ele.
— Eles sabem se virar.
Colocou o pé sobre a cadeira, abraçando um dos joelhos e apoiando a cabeça nele. Sorriu pra mim e continuou ali me olhando com cara de besta.
— É sério, você não precisa ficar.
— Mas eu quero. Me deixa compensar a merda que eu fiz.
— É, Liv, deixa ele compensar a merda que fez!
— Viu? Seus amigos sempre gostam de mim.
— Meus amigos não têm muito crivo.
— É que o ex dela era muito ruim! — justificou Mat — Cebola, traz mais um litrão e uma porção de calabresa que hoje a noite vai ser animada!
— Vocês são terríveis. Hoje é quinta-feira, o menino trabalha amanhã…
— Tá tranquilo, umas cervejas e uma porção de calabresa nunca mataram ninguém.
Sorriu malicioso e, aos poucos, fui obrigada a abaixar a guarda. Era impossível não abaixar, porque o astral dele era muito bom. Logo estávamos falando sobre o trabalho de Benjamin na agência de publicidade, sobre as viagens que ele já fez pelo mundo e, claro, ele saiu mostrando as fotos de Charles Bronson pra todos.
Não quis falar muito hoje. Acho que era meu dia de observar, entender qual o problema dele e o porquê do comportamento no dia anterior e da mudança brusca. As horas se passaram, e ele continuava sendo o centro das atenções na nossa mesa de bar, quando Cebola nos olhou feio.
— Estamos fechando.
— Mas Cebola, não são nem 11 horas!
— Não me chamo Cebola e são 2h30. E é uma quinta-feira. Até os mendigos já foram embora. Por favor. Fechem a conta.
Ri baixinho, abaixando a cabeça e assentindo. Pedimos a conta e, quando estava tirando o cartão de crédito de dentro da capinha do celular, Benj segurou minha mão.
— Eu pago sua parte.
— Benjamin, você acha que eu sou pobre? — perguntei, quase ofendida, e ele riu — Você realmente não precisa pagar tudo pra mim sempre, é sério.
— Relaxa — sorriu e piscou charmosamente — Pago a minha parte e a dela.
— Que homão, viu. Arranjou seu velho da lancha, Cabral!
— Cala a boca, Mat — sussurrei, e Benj gargalhou — Tá vendo? Você que quis beber com a gente.
— Eu não sou velho e nem sou rico. Vocês se contentam com muito pouco, pelo amor de Deus.
— Você tem cara de quem tem hb20 branco e só usa roupa da reserva — comentou Ana, fitando o nada enquanto passava o cartão. — A gente tem que parar de beber tanto durante a semana, tá estourando meu orçamento.
— Eu não tenho um hb20 branco — soltou Benj, franzindo o cenho — Tenho um creta chumbo.
— Você não pode se sentar no bar com a gente. Nós somos muito diferentes.
— Vocês são tipo Romeu e Julieta se a Julieta passasse fome! — soltou Mat, e eu o belisquei por debaixo da mesa — Ai, puta!
— Tá tudo bem, a gente vai superar essas diferenças todas. Quer que eu te leve pra casa?
— De creta? — ironizei e ele riu .
— Não, eu bebi. Vamos de uber mesmo.
— Mas ela mora longe.
— Tá tudo bem.
— Você tem um irmão viado? Eu juro que eu aceito se você tiver um irmão viado. Pode ser um amigo que estudou com você também.
— Pelo amor de Deus, Matheus.
— Ué, Liv, você já garantiu o seu!
Enquanto levantávamos e Mat me buscava um trident verde — desde a primeira noite com Benj, eu estava viciada em trident verde e no retrogosto refrescante dele. Não queria admitir que era a lembrança da sensação, do sabor, de Benjamin em mim.
Quando abri o pacote, ofereci a todos os presentes, e os três aceitaram. Ficamos parados, esperando o uber na frente do bar, e observei preocupada os meus amigos.
— Vocês vão embora como?
— Não sabemos. Vai ser uma aventura da madrugada.
— Querem dormir lá em casa?
— Eles podem dormir na sua casa e eu não? — perguntou Ben, fingindo-se ofendido.
— Vocês todos podem ir dormir lá em casa, considerando as circunstâncias. Mas vou avisando, o apartamento é minúsculo. Alguém vai dormir no sofá, alguém vai dormir na rede e alguém vai dividir a cama comigo.
— Me parece perfeito.
Ele sorriu malicioso e tirou a jaqueta que estava amarrada em sua cintura, jogando sobre meus ombros. Arqueei a sobrancelha, encarando-o e ele só resmungou um “Tá frio, ué”, me puxando para perto. Encostei em seu peito, mexendo na correntinha de ouro em seu pescoço.
— Não sabia que você era religioso.
— Não sou. Mas ainda assim eu gosto muito da minha mãe, e ela que me deu.
Logo o motorista do aplicativo chegou, e nos enfiamos todos no carro. Mat foi na frente, Ana sentada atrás dele, eu no meio e Benj atrás do motorista. Ele já tinha o meu endereço, então não precisei nem repassar. Encostei no ombro de Ana e dormi até em casa, mas, estranhamente, quando acordei, estava encostada sobre o ombro dele, e não dela. Provavelmente, Ana empurrou minha cabeça para o ombro do cara.
Saímos do carro e subimos todos para o apartamento. Secretamente, eu estava com vergonha de abrir meu apartamento para Benjamin: não tinha nada de errado com ele, não tinham infiltrações no teto, nem nada quebrado. Era tudo a minha cara, mas era ridiculamente pequeno e todos dormiríamos espremidos ali.
— Podem ir se acomodando, eu vou tomar um banho.
Larguei Benj na sala com meus amigos e tomei uma ducha o mais rápido que pude. Saí do banheiro com uma camiseta comprida que não tive coragem de devolver a Henrique, pois era o pijama perfeito, e me deparei com Mat dormindo na rede e Benj e Ana escorados um no outro, cochilando no sofá. Delicadamente cutuquei Ana, que me encarou, prestes a me xingar.
— Vem pra cama comigo.
— Lívia, não há a menor chance de você dormir comigo na cama e esse homem dormir na sala.
— Você é ridícula.
— Aproveita a oportunidade uma vez na vida. Você não precisa dar pra ninguém, só dormir de conchinha — sussurrou, beliscando meu braço.
Rolei os olhos, cutucando Benj dessa vez. Ele abriu um dos olhinhos, muito pequenos, e coçou o outro. Ajudei-o a levantar e o arrastei até meu quarto, fazendo-o rir.
— Você não é nada discreta na sua tentativa de me fazer dormir com você.
— Ei, você que se convidou — ri, tirando metade dos travesseiros da cama para que pudéssemos dividi-la e afofei os lençóis — Nós vamos só dormir, viu?
— Tudo bem, vamos no seu tempo.
— Eu agradeço. Algum dia, vou te contar o motivo dessa nóia toda, e você vai entender meu lado.
Vi seu rosto embranquecer e os olhos se arregalarem. Ele até parou de tirar as calças, que estavam um pouco abaixo de seu quadril.
— Espera, você não… — demorei um pouco pra entender, devido à quantidade de álcool no meu sangue. Continuei fazendo careta — Liv, você já…
Ah, sim. Ele estava questionando se eu ainda era virgem.
Não aguentei e soltei uma gargalhada, e ele riu aliviado, se sentando no chão para terminar de tirar a calça. Dobrou-a delicadamente, colocando sobre o recamier e o usou para engatinhar até mim na cama. Me puxou para si e tirou o cabelo do meu rosto.
— Confesso que estou aliviado. Não sei se sou cavalheiro o bastante pra ser seu primeiro.
— Você não se acha digno de me desvirginar?
— Eu tenho certeza que não sou.
Riu e me deu um beijo estalado nos lábios. Sussurrou um “boa noite” antes de me aconchegar em seus braços e adormecer, ridiculamente rápido. Aquilo era tão confortável que não demorei pra fazer o mesmo.
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