Luzes de Neon

5 Meia, tênis, meia, tênis


Na manhã seguinte, acordei num pulo com o despertador. Sentada na cama, percebi que o braço de Benjamin ainda estava esticado sobre mim, enquanto ele dormia de bruços e ressonava baixinho. Não pude evitar um sorriso idiota, e fazer carinho em seus cabelos antes de me levantar na ponta dos pés.

Caminhei até a sala, a fim de verificar como estavam meus dois colegas de trabalho; se ainda estavam vivos, e de pé. Ana e Mat estavam no mesmo processo que eu, levantando-se preguiçosamente.

— Já coloca o café pra fazer, minha filha, que a gente vai ter que sair voando daqui. Depois você acorda esse boy — resmungou Matheus, entre bocejos — Nossa, mulher, a gente não tem mais idade pra isso não.

— Eu avisei. Um monte de vezes.

Coloquei a água para esquentar e o café no coador de pano, esperando que a mesma esquentasse enquanto discutimos sobre o quão longo o dia seria após a nossa pequena aventura de quinta-feira. Pelo menos, hoje era dia de terminar a rosa que comecei a bordar e de ver o Doutor Albieri encontrando o Léo na novela.

— Vamos sextar? — perguntou Ana, animada.

— Eu nunca mais vou sextar na minha vida, Ana Paula — fui muito incisiva no meu comentário, enquanto desligava a água pouco antes de ferver e depositava no coador — Vocês se sirvam e façam a gentileza de deixar uma caneca de café pra mim e uma pro belo adormecido. Volto já.

Caminhei em passos leves até o quarto, engatinhando na cama para verificar se o garoto ainda estava dormindo. Quando me aproximei, pude ouvi-lo ressonar baixinho, mas ainda assim o cutuquei três vezes para me certificar. Benj segurou meu dedo, soltou alguns resmungos e virou para o outro lado, então assumi que estava adormecido.

Assim, abri o guarda-roupa, peguei o uniforme ridículo que tínhamos que usar — mas ainda assim, usava com muito gosto pra não gastar roupa boa naquela empresa — e tirei o pijama pra me trocar. Enquanto ajeitava o sutiã, ouvi uma risadinha vinda da cama.

— Você está tentando me seduzir, Lívia?

— E o que você tá fazendo acordado? — berrei, enfiando a camiseta de qualquer jeito.

— Tá ao contrário.

— Puta que pariu!

Tirei pra colocar na posição correta e ele riu, se sentando na cama e espreguiçando. Enfiei a calça de qualquer jeito, ainda frustrada por ele ter me enganado e sentei pra calçar as meias e os tênis. Benj engatinhou e se sentou ao meu lado, olhando para os meus pés.

— Você calça meia, meia, tênis, tênis ou meia, tênis, meia tênis?

— Quê?

— A ordem — ele riu — Meia, meia, tênis, tênis, ou…

— Existe alguém no mundo que não calce meia, tênis, meia, tênis?

Ele arregalou os olhos, espantado com a resposta, e vestiu rapidamente a camisa, pra ir pra sala perguntar aos meus colegas se eram esquisitos como eu. Me recusei a segui-lo, terminando meu processo natural de calçar os sapatos.

— Que tipo de alienígena é você? — questionou Ana, quando apareci para tomar meu café.

— Isso é algum tipo de discussão realmente relevante, ou…?

— Lívia, isso é uma questão de lógica! — gritou Mat, exasperado — Você já tá com a meia na mão!

— Eu já acabei de calçar uma meia! Então eu já termino um pé inteiro antes de começar o outro!

— Isso não faz o menor sentido!

— Porque estamos tendo essa discussão a essa hora da madrugada?!

— É primordial — explicou Benj, enchendo uma xícara de café e brindando com a minha — Tin-tin.

— Saúde.

— Vai fazer o que hoje? — perguntou, se encostando em mim.

— Vou dormir cedo.

— Ah, não. Te busco depois do trabalho pra gente jantar.

— Você vai passar dois meses sem me mandar um alô de novo?

— Vocês vão discutir relação às 7h30 mesmo? Porque se forem, podem fazer isso no caminho? A gente vai se atrasar.

— Não vamos discutir. Tá tudo certo.

— Tudo certo então, te pego pra um datezinho depois do expediente?

— Você realmente vai insistir nisso, Benjamin?

— Eu não aceito não como resposta.

— Tóxico.

— Prefiro o termo “convincente”.

— São duas coisas completamente distintas!

— Será que vocês podem discutir isso no caminho? Se eu chegar atrasada mais um dia, a Su vai comer meu rabo.

— Credo, que delícia! — soltou Mat, levando um murro da nossa colega, muito receptiva à piadinhas — Que grosseria.

— Eu odeio metrô lotado — resmunguei, me espreguiçando — Mas vamo.

— Vocês vão me achar um burguês safado se eu quiser pegar um uber até onde tá meu carro?

— Sim, mas a gente vai te amar por isso porque aquele metrô é literalmente do lado do nosso escritório — soltou Ana, antes que qualquer um de nós pudesse responder.

— Belê. Vou chamar.

— Você é tudo, menino — choramingou Mat, emocionado.

— Vocês são muito manipuláveis. Ele nem vai dar um Hb20 pra vocês, é só uma carona de uber.

— Vai de metrô então, se é tão pouco pra você! — grasnou Ana

— Belê. Vejo vocês no escritório.

Ameacei ir embora, mas Benj segurou meu braço e beijou o topo da minha cabeça antes que eu pudesse partir. Dei uma risadinha e fiquei parada, segurando o antebraço dele enquanto observava o aplicativo localizar um motorista. Pouco tempo depois, estávamos todos alocados dentro do carro, e presos no trânsito.

— Eu tinha certeza que isso ia acontecer — resmunguei, novamente sentada no meio, e jogando a cabeça no colo de Ana. — Vamos nos atrasar do mesmo jeito, e a Su vai comer seu rabo do mesmo jeito.

— Pelo menos estamos indo com arzinho e boas companhias — brincou Benj, fazendo carinho nos nós dos meus dedos — Vai, não reclama tanto.

— Você entra no trabalho que horas? Não é possível que você seja tão tranquilo.

— Eu faço meu horário. Trabalho com um grupo de amigos e tá tudo bem se a gente atrasar uma hora ou duas desde que o resultado venha, saca?

— A liberdade de ter nascido rico é fascinante.

Ele rolou os olhos, mas soltou uma risada anasalada em seguida. Continuou fazendo carinho em meus dedos, sem tirar os olhos do celular. Eventualmente levantava minha mão para beijá-la delicadamente, dando atenção a cada um dos nós dos meus dedos, e depois colocava de volta em meu colo. Em algum momento, cochilei ainda inclinada sobre Ana.

— Chegamos, Livinha. Talvez eu goste tanto de você porque meu Mc favorito é o Livinho.

— Isso faria todo o sentido — ri, enquanto todos saímos do carro, que dava partida. No fim das contas, ele nos deixou na porta do prédio em que trabalhávamos, e ele, que havia pago o táxi, iria andando até seu destino. Meus amigos subiram, nos deixando a sós por um minuto — Obrigada pela carona.

— Posso te buscar no fim do expediente?

— Pode.

— Beleza. Me manda mensagem quando acabar, então.

Beijou minha cabeça e foi embora. Saí correndo desesperada pra voltar para o trabalho, e quando sentei à minha mesa, o chat interno que tínhamos na empresa já piscou em minha tela.

Obviamente, Matheus.

Matheus Silveira: E aí, viada!

Lívia Castro: Nada a declarar, não, bicha. A gente vai sair, ver um filme, comer um salgado e é isso aí.

Matheus Silveira: Lívia, eu duvido que esse homem tenha feito tudo isso pra comer só um salgado. A não ser que você tenha mudado seu nome pra Risole.

Pelo bem do meu desempenho profissional e saúde mental, optei por ignorá-lo naquele momento. Continuei meu expediente como se aquilo não fosse uma questão, e, por sorte, o dia não se arrastou tanto quanto imaginei que se arrastaria. Logo era 12h, e almoçamos nossas marmitas na escada de emergência do prédio para que Matheus pudesse fumar enquanto comíamos.

— A Lívia tem um encontro, Ana — soltou Mat, entre um trago e outro. Engasguei.

— Meu Deus, você vai matar a menina! — bronqueou Ana, enquanto socava minhas costas. Consegui engolir — Tudo certo, anjinho? — perguntou, preocupada, e assenti com a cabeça, tomando metade da minha Caçulinha para desengasgar — Agora desembucha sobre seu encontro.

— Vocês são terríveis.

— Terrível é você se achar amigo de uma pessoa e ela não querer te contar de um date com um homem rico.

— Ele é classe média.

— Então a gente tá na linha da fome, Lívia.

— Parem com isso — resmunguei, me ajeitando — Mas a gente vai sair.

— Você vai dar pra ele?

— Acho que vou.

Foi a vez de Matheus engasgar com a fumaça de seu cigarro.

A verdade é que nem eu esperava direito essa resposta, porque honestamente, eu nunca havia feito isso com mais ninguém antes. Porém, aquilo já estava me frustrando há algum tempo e eu não podia continuar agindo como se o sexo pudesse parar de fazer parte da minha vida só porque, de alguma forma, o meu eu romântico morreu junto com o fim do meu relacionamento. Ainda havia necessidades fisiológicas que eu precisava suprir, e, pra isso, eu não podia continuar sendo santa e casta.

Tudo o que eu sabia era com Henrique, e não é como se ele fosse o homem mais criativo da Terra. Éramos um casal bem básico, e muitas vezes penso que talvez por isso que ele foi embora. Quem quereria se casar com a mesma pessoa que você faz sexo desde os 16 anos, e que faz sempre a mesma coisa? Muitas vezes me questionei se eu transava bem, e muito provavelmente a resposta era: não muito.

Então, a melhor coisa a se fazer em relação à Benjamin, é acabar logo com esse suspense. Quer dizer, quanto mais tempo eu esperasse, mais expectativa seria criada. Em mim e nele. E eu certamente não atenderia a elas, então se for pra ele ir embora porque eu não sei fazer essas coisas direito, que vá logo. Pelo menos, ao fim desse dia, eu já terei transado com o dobro de pessoas com quem já transei até então.

— Eu preciso fazer isso logo. Quer dizer, como vocês devem saber…

— Você só fez isso com aquele canalha que te largou depois de 9 anos. Ninguém aqui gosta dele e não vamos fingir o contrário.

— A gente não terminou mal, prefiro que vocês não falem assim dele.

— Lívia. Ele te cozinhou em banho maria por nove anos.

— Eu não esperava casar com ele!

Tá, era mentira.

Eu tinha certeza que eu casaria com ele, teríamos três filhos e eu poderia me dedicar a uma carreira de romancista que nem mesmo sabia que me brilhava os olhos, mas imaginei que a vida de casada e mãe me traria inspirações para escrever lindas histórias de amor sobre amores de infância.

— Ok, Liv. Ok. Realmente vai ser bom você experimentar novas pessoas.

— Eu sequer tenho muito com que comparar.

De repente, um silêncio constrangedor tomou conta do ambiente.

— Liv? — chamou Ana, baixinho. Olhei pra ela, aguardando que continuasse — Você já teve um orgasmo?

Senti as bochechas ficarem quentes. Merda, eu odiava essa pergunta.

Não é que eu nunca tivesse. Mas foram poucas. Bem poucas, quase nulas as vezes. E geralmente é quando eu mesma me estimulava, e não com nenhuma influência do corpo de Henrique junto a mim, o que era um pouco ridículo se pensarmos que foram 9 anos e ele ainda não sabia me satisfazer sexualmente.

Acho que aceitei minha condição de mulher insatisfeita depois de um tempo, o que é bem triste.

— Claro que já!

— Não muitos, pelo visto.

— Muitos não, admito.

— Espero que o Benj tenha mais sucesso que o Henrique então — soltou Mat.

O silêncio no ambiente pesou, e eu fiquei muito grata a ele quando mudou de assunto para um de seus dates de Grindr. Quando voltamos do almoço, voltei a trabalhar e ele me mandou mais uma mensagem.

Matheus Silveira: tá tudo bem, viu, gata? Não acho que seu relacionamento tenha sido uma merda por isso, e ainda assim espero que você seja a mulher mais feliz do mundo em todos os aspectos.

Respondi apenas com um “♥”, mas ele sabia o peso daquilo pra mim. Durante todo o resto daquele dia, me preparei emocionalmente para o que estava por vir: meu derradeiro real primeiro encontro após Henrique.

Às 18h45, faltando quinze minutos para o fim do expediente, mandei uma mensagem pra Benj.

Tô terminando aqui.

Ele respondeu segundos depois, com “Já tô te esperando na porta”, e meu coração gelou por um momento. Percebi que, apesar de não estar exatamente pronta pra isso, agora já era tarde demais para recuar.

E também não é como se eu quisesse recuar.