Quando o expediente acabou, Ana e Mat desceram junto comigo. Por algum motivo, haviam pego amor em Benj e queriam dar um alô pra ele antes de sairmos. Afinal de contas, era tudo o que eu precisava, né? Que meus melhores amigos se apaixonassem pelo cara que eu nem tô namorando.

— Ele é legal, Liv. Dá continuidade nisso aí — soltou Ana, me empurrando com o ombro — Quero dizer, cê sabe, né. Todo mundo detestava aquele seu primeiro boy. Ele era um escroto.

— Tô ligada, Ana.

— Então segura esse.

— Tô ligada, Ana.

— Vai ser difícil porque ele parece que é do mundo e claramente muita areia pro seu fusca, mas…

— Tô. Ligada. Ana.

— Ai, que mau humor, sabe, Lívia, nem parece que vai dar!

Ignorei seu comentário enquanto saímos do elevador. Estávamos ainda do lado de dentro da catraca quando o avistei, do outro lado da rua: lá estava aquele homem, belíssimo, encostado no seu carro mais caro que meu apartamento. Abriu um sorrisinho charmoso quando me viu, e me puxou pela cintura, me dando um beijo estalado nos lábios enquanto olhava pro pessoal.

— Querem que eu largue vocês em algum metrô?

— Pra onde vocês tão indo? — perguntou Mat, animado.

— É surpresa.

— Lá vem ele com os jantares caros — reclamei e ele riu, me puxando pra perto e beijando a minha cabeça.

— Levei a Lívia pra comer pizza num lugar que não tinha cadeira de plástico e ela já achou jantar chique.

— Não tinha pizza com batata palha.

— Ela tá inventando isso de pizza com batata palha, né? — perguntou, exasperado. Meus amigos se entreolharam e riram — Ah, não. Vocês tão brincando comigo que isso é uma coisa comum.

— Mas é. Tem pizza de lasanha também — defendeu Mat, e ele nem estava brincando.

— Pelo amor de Deus.

Balançou várias vezes a cabeça como se tentasse tirar aquele conceito nojento da própria mente. Entramos todos no carro e ele deixou o pessoal no metrô antes de seguirmos viagem. Quando ligou o som, estava tocando João Gilberto, e não pude conter uma risada.

— Música de velho?

— Você gosta, não gosta?

— Gosto.

— Então deixa tocar.

Batucava os dedos enquanto “Por que discutir com Madame” tocava, e eu cantava baixinho. Encostei na janela enquanto observava a paisagem, e pude vê-lo sorrir de canto.

— A gente não vai só jantar hoje.

— Quais são os planos?

— Você já patinou?

— Você tá brincando comigo?

— Não, falo muito sério. Já patinou no gelo?

— Nunca na vida. Eu sou um desastre em qualquer atividade física.

— É o que vamos ver.

Permaneceu com os olhos no trânsito, mas pude ver um sorrisinho de canto de boca. Ele era realmente inacreditável.

— Você acha legal me ver me estabacar no chão, Benjamin?

— Eu achei que podia ser romântico te levantar no gelo e te rodopiar, você não?

— Não, porque eu vou cair igual bosta no meio da pista!

Nesse momento ele não aguentou e soltou uma gargalhada. Havíamos parado no meio do caminho, pois o trânsito no horário de rush de uma sexta-feira não é algo que se pudesse controlar pela ansiedade de patinar no gelo, e ele se virou para mim.

— Você vai voar como uma barbie princesa Butterfly, eu tenho certeza.

— Eu não teria tanta.

— Às vezes a gente precisa colocar fé nas nossas palavras, não acha?

— Eu ainda não sei porque não me joguei pra fora desse carro.

— Lá no fundo, você tá animada.

Me limitei a revirar os olhos, e virar pra frente, mas a verdade é que sim, eu estava muito animada. Quer dizer, a última vez que tive um encontro divertido com Henrique deve ter sido sei lá, nos nossos 16 ou 17 anos. Depois disso, nós sempre fazíamos a mesma coisa: cinema, jantar (em alguma grande rede de fastfoods, ou numa pizzaria de bairro, salvo em ocasiões especiais, quando ele gostava de me levar no Outback), sexo. Quer dizer, não era exatamente ruim, mas também não tinha nada de muito animador quando a sexta-feira chegava.

E lá estava eu, no meu segundo encontro, indo a uma pista de patinação de gelo. Não conseguia ter outra reação além de sorrir como uma tonta durante todo o trajeto, e não demorou muito para que Benj reparasse.

— O que é esse sorrisinho?

— Você é inacreditável.

— Devo considerar um elogio?

— Pode-se dizer que sim.

Ele sorriu de volta e segurou minha mão. Passamos algum tempo ouvindo músicas muito velhas que ele provavelmente não suportava, de mãos dadas enquanto conversávamos sobre meu dia e o dele, e eu ainda não podia acreditar que aquilo não era um sonho.

Quando chegamos no tal centro de patinação artística, o lugar era enorme. Benj estacionou na porta e um manobrista — é claro — veio buscar seu carro enquanto entrávamos.

Nunca na minha vida me senti tanto num filme de comédia romântica americano quanto naquele momento. O lugar era igual a tudo que eu sempre vi nos meus filmes de adolescente.

— A gente pode comer antes de andar, mas sugiro que não patine de barriga cheia.

— Ah, eu concordo plenamente.

Caminhamos até um estande onde uma moça muito sorridente e ridiculamente bonita entregava os patins aos clientes. Ri, sozinha.

— Que foi?

— Eu tô me sentindo num filme da Lindsay Lohan.

— Você precisa de verdade sair mais de casa, Lívia.

Ele riu, olhando pro meu pé — e levantando-o em seguida, para ver o número “34” estampado na sola do meu tênis -, pedindo um par de patins pra ele e um pra mim, me arrastando até um banquinho. Depois de levar nossos sapatos até um lugar seguro onde não seríamos roubados — tendo a delicadeza de me deixar sentada para não sujar meus pezinhos -, voltou para que colocássemos juntos nossos patins. Suspirei, nervosa.

— Tô cagada de medo.

— Você é uma lady.

— Ah, eu sei.

Como suspeitei, o cara parecia ter nascido sobre um par de rodinhas. Quando se levantou, era como se não estivesse usando nada além de seus pés pra caminhar. Andava de costas para vigiar meus movimentos, e deslizava com a facilidade de quem faz aquilo a vida toda. Ao contrário de mim, que, mesmo ainda segurando uma de suas mãos, me apoiava em tudo que visse pela frente, morrendo de medo de cair.

Logo entramos no ringue. Crianças acompanhadas de seus pais, um grupo de amigas adolescentes supervisionadas por uma mãe mais plastificada que a Barbie e até uma senhora idosa esfregavam na minha cara o quanto aquilo era fácil. E, é claro, também tinha o Benj.

Ele se divertia com o medo no meu olhar, era nítido.

Segurava em mim e andava devagarzinho — até mais devagar do que a idosa em questão -, e toda vez que eu cambaleava, gritava “Epa, cuidado!” alto o bastante para que todos no ringue olhassem para nós. Então chegou meu momento de brilhar.

— Me solta, você vai ver, eu vou conseguir.

— Melhor não, Liv.

— Eu assisti Eu, Tonya, Benjamin, eu sei o que eu tô fazendo.

— Eu assisti Velozes e Furiosos, Lívia, e você não me vê apostando rachas.

Respirei fundo, ignorando seus comentários negativos, e me soltei de tudo que me mantinha estável. Eu precisava mostrar àquele homem que eu conseguia me manter em pé sem o apoio dele. Acredito que tenha sido muito bonita a proposta, pois quando olhei de relance, Benj estava de braços cruzados, me olhando a certa distância, e parecia patinar em câmera lenta para me dar espaço, mas ele parecia impressionado com a minha coragem. Foi o incentivo que eu precisava para tentar voar.

Dei um total de quatro passos antes de deslizar de joelhos no chão.

Logo, como um cisne pousando n’água, ele deslizou para parar ao meu lado, mas, ao contrário de mim, o dele não teve o impacto de um tombo.

Quando percebi os olhos dele em mim, preocupados, e suas mãos envolvendo minha cintura para me ajudar a reerguer, não pude evitar uma risada um tanto escandalosa.

— Tá rindo do que, maluca?

— De você! — continuei rindo, enquanto ele me ajudava a levantar e me encostar num dos cantos do ringue — Todo preocupadinho.

— Deixa eu ver seu joelho.

Ele estava muito próximo a mim. Ajoelhado na minha frente, como se fosse me pedir em casamento, mas analisando o tecido recém rasgado na minha perna. Por um momento, lamentei pela calça novinha que eu acabara de perder, mas o período de sofrimento não durou muito tempo. Benjamin se aproximou do meu joelho e soprou, e aquilo provocou um arrepio que percorreu daquela articulação recém assoprada até os meus fios de cabelo. Mordi o lábio enquanto ele fazia carinho, e se levantava em seguida.

— Chega de patinação pra você, mocinha.

— Mas eu nem comecei a mostrar meus talentos!

— Você quer perder o que sobrou da sua calça?

— A gente acabou de chegar! — resmunguei, fazendo manha e ele riu — Que foi?

— Te trago aqui de novo depois. A gente vai devagar, e não vou te deixar largar minha mão até que eu esteja confiante de que você está pronta pra andar sozinha.

— Eu não tenho 10 anos.

— Pois então não aja como se tivesse — resmungou — Vem, vou te pagar um lanche.

Bati palminhas, o seguindo para fora do ringue. Nesse pequeno trajeto, finalmente deslizei com leveza até a saída, e Benj riu.

— Agora você anda que nem gente.

— Agora eu não estava preocupada em te impressionar!

Ele riu, ignorando meu flerte. Me sentou no mesmo banquinho em que nos sentamos para calçar os patins e, como se eu fosse a Cinderela, colocou meus tênis de volta. Levantou meu pé e me encarou, apontando pra ele.

— Olha o tamanho disso. Como você se mantém em pé?

— Desculpe, nem todo mundo precisa de jet skis no lugar dos tênis.

— Vou ignorar a sua ofensa por você estar lesionada.

Eu não estava exatamente lesionada. Havia ralado o joelho e, no máximo, torcido um pouco o pé. Mas isso não o impediu de jogar meu braço sobre seu ombro e me carregar como se eu tivesse acabado de levar uma rasteira e caído no asfalto quente. Caminhamos assim até a lanchonete e ele pediu dois lanchões e refrigerantes do tamanho das nossas cabeças.

— Sabe — comecei, e ele me olhou enquanto eu falava — Eu sempre sonhei em ser uma dessas meninas que andam de patins no mercado.

Ele gargalhou, quase engasgando com o sanduíche. Após algumas tossidas e um vigoroso gole de refrigerante — no qual não consegui não olhar para o pomo de adão subindo e descendo, e aquilo nunca havia sido uma questão de atração pra mim até aquele instante -, segurou minha mão.

— Eu sinto te decepcionar, linda, mas acho melhor você ter outro sonho.

— Você não me apoia em nada — tirei a mão da sua e joguei uma batata em sua direção, e ele pegou com a boca — Isso foi impressionante.

— Você não faz ideia do que essa boca pode fazer.

Encarei-o, enquanto ele sorria malicioso. Em seguida, deu uma mordida que tirou metade do sanduíche e eu não pude evitar uma gargalhada.

— Ridículo.

— Não tenho culpa dos seus pensamentos impuros.

Após comermos os sanduíches, um pretzel e analisarmos mais alguns tombos na pista, nos levantamos para ir embora. Benjamin continuava lidando com a situação como se a minha lesão fosse muito séria, mesmo sendo um tombo ridículo no gelo.

Quando chegamos no carro, ele afastou o banco o máximo que podia, para que a minha perna ficasse esticada e voltou com a playlist de bossa nova, até cantarolando alguma das canções (tipo Garota de Ipanema, que eu sequer gostava). Colocou meu endereço no waze e fechei os olhos, me deixando relaxar. Mas, muito rapidamente, ele parou.

Quando abri os olhos, estávamos no estacionamento de uma drogaria.

— Tá fazendo o quê, Benjamin?

— Fica aí.

— Cara, eu torci o pé. Não precisa de nada disso.

— Fica aí.

Repetiu e saiu do carro. Enquanto estava fora, tirei o celular do bolso para avisar às meninas onde estava.

Liv: Adivinhem onde esse homem me levou.

Enviei e fechei os olhos. Não se completaram nem dois minutos antes de o celular vibrar pelo menos 6 vezes. A grande maioria, figurinhas de Barbara.

Barb: PRO MOTEL?

Gi: Meu Deus do Céu que mensagem capciosa, Lívia.

Cami: Me diz que não foi pra uma reunião da Hinode pra eu não parar de gostar dele.

Liv: A gente patinou no gelo. Agora xau, torci o pé e ele tá voltando da farmácia. Deve ter comprado um salonpas.

Guardei o celular enquanto o via sair da farmácia com uma sacola cheia de coisas. Jogou em cima de mim e depois fechou a porta e entrou do seu lado.

— Tá, agora a gente vai no posto de gasolina.

— Mas o tanque tá cheio.

— Mas não tinha gelo na farmácia.

— Pelo amor de Deus, Benjamin.

— Eu vou cuidar disso aí, Lívia, eu avisei que ia.

Apenas assenti contrariada, e ele me levou até o posto de gasolina. Comprou gelo na loja de conveniência, duas cervejas e voltou pro carro. Depois, finalmente, dirigiu até em casa.

— Eu vou subir com você, mas eu te juro que é só pra cuidar disso aí.

Assenti, deixando para colocar meu plano de sedução em prática quando já estivéssemos lá em cima. Ele guardou o carro na minha vaga na garagem e subiu junto comigo, me apoiando e carregando todas as compras que fez. Quando chegamos ao apartamento, se sentou na rede.

— Vai tomar um banho e veste um pijaminha que eu vou cuidar desse troço depois.

— Quer tomar banho comigo? — brinque, e ele negou — Então tá, você quem sabe.

Dei os ombros e entrei no banho. Tentei ser o mais rápida possível sem parecer que não tomei banho direito, e em 15 minutos saí do banheiro com um baby doll bonitinho. Não sexy, porque infelizmente eu não tinha pijamas sexies. Era apenas curto e fofo.

Quando cheguei na sala, Benj sorriu. Me encaminhou até a cama e me sentou lá, colocando um band-aid do Bob Esponja no meu joelho após higienizá-lo com spray antisséptico e uma compressa de gelo improvisada no meu pé.

— Boa. Tem tudo o que precisa? Quer comer alguma coisa?

— Não, tô bem.

— Que bom. O celular tá fácil e tá carregado?

— Carregador na tomada, o celular ficou na sala.

— Fechou — ele correu até a sala e trouxe meu celular, voltando pra cama depois e entregando pra mim — Mais alguma coisa?

— Você vai ficar pra dormir? — mordi o lábio, ainda na minha tentativa inútil de ser sexy. Ele sorriu, se aproximando e mordendo-o também. Em seguida, me deu um beijo breve, e empurrou meus ombros para baixo, me deitando na cama.

— Não. Eu não vou transar com você hoje, Liv. Tem como eu trancar seu apartamento sem ficar com a sua chave?

— Por quê?

— Porque eu não posso levar sua chave — respondeu como se fosse óbvio, e então entendeu a pergunta — Ah, o sexo! Porque você não tá pronta e eu respeito isso. Não vai ser agora.

— Tranca e joga a chave por baixo da porta depois, vai dar bom — resmunguei, contrariada, e ele riu — Boa noite, Benj, obrigada por tudo.

— Eu que agradeço, bebê — beijou minha testa, e apontou pra cerveja na mesa de cabeceira — Tem cerveja ali caso queira tomar, viu? Minha versão fofinha de leite quente do lado da cama — e quando eu fui abrir a boca pra soltar um reclame, ele colocou o dedo sobre a minha boca — Sem comentários maliciosos.

— Não farei.

— Ótimo. Te aviso quando chegar em casa, prometo.

Me beijou novamente e saiu. Fiquei deitada resmungando sobre a injustiça que era ele não querer transar comigo sendo que eu também queria, e o ouvi dando risada enquanto ia embora. Ouvi a porta sendo trancada e o metal em contato com o piso, então soube que eu já estava sozinha e em segurança.

Não era exatamente o que eu queria, mas no fundo, sabia que era o que eu precisava.