Luzes de Neon

10 Não finja que eu não tô falando com você


Passei toda a viagem de Uber contando minha triste história de vida para o motorista, que ouvia pacientemente e não se intrometia muito. Devia estar acostumado com gente bêbada e solitária desabafando pra ele como se não pudesse pagar um terapeuta (e eu de fato não podia).

— Eu nem quis escutar qual era a justificativa dele, seu Alberto — resmunguei. — Eu achei que essa coisa de aposta só acontecesse em filme.

— Se fosse minha filha, eu ia pra casa dele e arrebentava tudo com um pedaço de pau — soltou o motorista, de repente, e não pude evitar sorrir. Ele me olhou pelo retrovisor e sorriu de volta — Você deve avisar seu pai.

— Ah, ele com certeza faria a mesma coisa que o senhor. Mas a casa toda dele é cara demais. A gente nunca conseguiria pagar depois. Eles devem ser aquele tipo de família que tem um advogado pra acionar. A gente nem conhece um advogado. Quando meu vô morreu foi um sufoco pra fazer o inventário sem um.

— Acabar com a raça de quem faz a filha da gente chorar e ir embora de uber às 3 da madrugada não tem preço, criança. Até teu falecido avô ajudaria. Mesmo falecido.

Soltou uma risada e parou o carro, na frente do prédio. Agradeci imensamente por ter me emprestado o ouvido durante a viagem e percebi que ele só foi embora quando eu entrei no elevador, o que fez meu coração se aquecer um pouquinho.

Obviamente não consegui dormir nem por um segundo naquela noite. Meu celular não parava de vibrar de mensagens tanto de Giovanna quanto de Benjamin, e em algum momento eu decidi bloquear os dois. Realmente não lidaria com aquilo, não hoje.

Após 40 minutos de banho, onde planejei por alguns instantes não gastar mais um centavo do meu salário além do aluguel e das contas básicas de subsistência para, futuramente, poder comprar uma casa com banheira para momentos como aquele, me preparei uma caneca de chá de tília.

Fiquei sentada na rede, com Lemon Pepper, o gato, fielmente deitado ao meu lado na samambaia que ficava pendurada na janela, olhando o céu se mover e a cidade acordar, até que o breu se tornasse roxo, depois o roxo virasse o papel de parede do Andy em Toy Story: um azul perfeito, cheio de nuvenzinhas quase simétricas.

O telefone voltou a tocar lá pras 9h, e era Bárbara. Ela nunca me ligava, então atendi.

— Tá tudo bem?

— Eu que te pergunto. Como passou a noite?

— Na merda — soltei, sincera demais — Além da situação com a Giovanna, aparentemente o Benjamin apostou nosso sexo.

— Como é que é? Tipo em Como perder um homem em 10 dias?

— Não sei, não fiquei lá por tempo o bastante pra ouvir.

— Caralho, Liv…

— O amigo maconheiro dele disse que se a gente transasse ele devia esquecer o Tesla do Matheus.

— Quem é Matheus?

— Sei lá quem é Matheus, caralho!

— Liv, ele apostou um Tesla.

— O que é um Tesla, Bárbara?!

— É um carro que custa três apartamentos seus, pelo menos.

— Eu não me interesso em quanto custa. O que me interessa é: ele apostou nosso sexo.

— Sinto muito, meu bem.

Senti um peso em sua voz e a vontade de me abraçar pelo telefone. Barb se ofereceu para vir em casa, mas recusei. Precisava ficar sozinha. Passaria o dia do jeito que eu mais gostava: vendo minha novela, ouvindo Maysa, comendo brigadeiro.

Agradeci a todos os santos por ainda ser sábado, e eu ter dois dias antes de voltar ao trabalho para poder me recompor. Mat e Ana não me deixariam em paz e eu precisaria colocar minha cabeça no lugar antes de conseguir justificar a minha separação repentina do homem que os dois também estavam apaixonados.

Apesar de inchada de chorar, eu estava bem, na medida do possível. Minha música — triste — ambiente me trouxe de volta ao eixo, o cheiro de chocolate misturado ao da cafeteira funcionando a todo vapor invadiu a casa e me envolveu como um abraço. Mas aí o interfone tocou.

— Seu Benjamin tá querendo subir — anunciou o porteiro.

— Manda embora, Gil.

— A senhora tem certeza?

— Absoluta. Manda embora. — pude ouvi-lo colocar a mão no interfone e resmungar com Benjamin, que retrucou abusado — Ele disse que não vai embora não.

— Fala pra ele que a rua é pública, mas que no meu apartamento ele não entra.

— Tá bom, dona Lívia, obrigado.

Desliguei o interfone e percebi que o brigadeiro havia queimado.

Claro, agora ele era o Midas ao contrário. Tudo que tinha contato com ele viraria merda, em vez de ouro.

Joguei o brigadeiro fora, lavei a panela e recomecei o ritual. Quando estava pronto, me joguei no sofá com a panela fumegante no colo pronta para assistir aos melhores programas de animação de sábado.

Em algum momento, apaguei deitada no sofá, o que já era de se esperar considerando a noite insone que tive. Quando acordei, Bárbara estava em casa, o apartamento estava limpo, as plantas possivelmente regadas e, pelo aroma, tinha uma lasanha no forno.

— A fada Amélia passou por aqui? — brinquei, me sentando no sofá e coçando os olhos.

— Bom dia, princesa.

Se sentou ao meu lado no sofá com uma colher e meteu na panela de brigadeiro que havia adormecido em meu colo. Ligou a televisão em Parks & Rec — Barb me amava, mas não a ponto de assistir novelas comigo -, e por um instante relaxei, me permitindo curtir a fossa.

Após muito tempo com pena de mim mesma, vendo a situação pelo espectro do divertidamente azul, me permiti rir da situação, e pude entender como eu devia parecer patética.

— Qual a porra do seu problema? — soltou, se sentando e me fitando com os grandes olhos.

— Eu sou uma piada.

— Não é, não — resmungou, me esmurrando em seguida.

— Eu sou aquela personagem sem graça de comédias românticas, que usa coques desarrumados, moletons largos, bebe grandes canecas de café, conhece um bonitão e imagina que vai ter cacife pra mudá-lo.

— Você certamente não vê a situação como eu vejo.

— Pois muito bem — me virei para encará-la e poder ouvir a sua versão dos fatos.

— Eu acho você uma mulher incrível — começou, e rolei os olhos. Infelizmente, nesse aspecto ela era completamente parcial, e isso em nada podia influenciar a narrativa. Ela era quase legalmente obrigada a me achar o máximo. Era a porra do papel dela, sendo a minha melhor amiga — Sim, você tem todas essas características dos livros adolescentes, Lívia. O cabelo bagunçado, as roupas que escondem seu corpo incrível, as plantas, a leitura, e até o gato — apontou para o meu felino recém resgatado que ressonava ao nosso lado — Mas você é mais que isso.

— É claro que eu sou mais que isso. Também tem as plantas, o bordado livre e as novelas dos anos 2000.

— Claro. Mas também tem o fato de você ter 24 anos, morar em São Paulo e conseguir bancar um apê na região central sozinha. Você é engraçada, bonita e bebe mais do que qualquer homem que eu conheça, sem vomitar.

— Muito obrigada por erguer minha autoestima, Bárbara, mas, com todo respeito, e daí?

— Você só se apaixonou por um pessoal que não merecia você, Liv. Você tem um dedo meio podre. Gosta de homem bonito e de caráter duvidoso.

— Isso é um fato.

— Pior que esse último gosta de você.

— Você entendeu o que ele fez, Bárbara?

— Não, Liv, é sério. Ele tem um jeito esquisito de demonstrar, mas ele gosta.

— O Benjamin?

— Ahã. Com toda a pinta de bad boy dele, ele cuida de você.

— É melhor a gente não discutir sobre isso, senão a gente vai brigar.

Me aconcheguei em seu colo, permitindo-me sair do personagem de mulher forte e empoderada e voltar a sofrer por esse homem que não me merece.

— Ah, e ele tá aí embaixo. Veio te ver.

— Bárbara, eu odeio você.

Ela riu e continuou afagando meus cabelos.

— Tá super frio lá fora, Liv — sussurrou.

— Eu não ligo, Barb. Podemos não falar sobre isso?

Ela assentiu, contrariada, e continuou cuidando de mim, mesmo que a contragosto. Até que, uns quarenta minutos depois, comecei a ouvir uma música estranha vindo pela janela.

Quer dizer, eu realmente morava do lado da Vai Vai, e consideravelmente perto da Praça Roosevelt, então a música não era bem uma coisa estranha na minha região. Ouvia em primeira mão qualquer samba enredo da minha escola do coração — morando aqui há tanto tempo, a gente acaba pegando amor, mesmo que antes eu detestasse carnaval -, e os funks dos jovenzinhos alternativos que ficavam na praça até de madrugada.

Mas especificamente às 20h45, era muito cedo pra estarem tocando Lana del Rey.

— Isso é videogames? — questionou Barb, enfiando a colher na boca e encostando o cabo em seu queixo, quase que recriando O Pensador de Rodin.

Heaven is a place on earth with you tocava na janela e eu não acreditava naquilo.

— É ele, Bárbara.

— Tá brincando?

— Eu tenho certeza.

A contragosto, levantei e me arrastei até a janela.

E, é claro, lá estava ele, na rua de casa, com uma caixa de som na mão.