Luzes de Neon

11 II. Benj ○ Heaven is a place on earth with you.


Notas iniciais
A partir de agora a narração é do Benjamin ;)

Eu sabia que tinha feito merda, e das grandes, lá pela segunda ou terceira vez que voltei pra casa depois de encontros com Liv.

Mas é difícil dar dois passos pra trás, olhar nos olhos dos colegas de apartamento e dizer: maluco, cancela o Tesla aí, porque talvez eu não queira mais brincar de “vou fazê-la implorar pelo meu pau ou sair dessa ileso”.

No fim das contas, eu ganhei. Tava de Tesla porque nós terminamos sem que eu tivesse transado com ela, mas a que custo, né?

O relógio da rua marcava 9 graus e eu fui burro o bastante pra sair de casa de conjunto de moletom, como se aquilo fosse me aquecer. Acho que ceguei, tava meio desesperado com medo dela nunca mais querer olhar pra minha cara se eu demorasse demais, mas também não podia contar com todas as horas que passei do lado de fora.

Não tinha exatamente um plano quando peguei o carro pra vir pra porta da casa dela. Ainda puta comigo, estacionei na vaga da garagem destinada a ela — que por algum motivo, Lívia nunca vendeu -, e segui pensando numa maneira de ser ouvido,

A luzinha na minha cabeça veio quando comecei a ver os jovens saindo do metrô com a praça Roosevelt como destino. Me veio um flashback de um dos rolês que dei com Liv, e perguntei pra ela se não tinha nada minimamente jovem que pudesse entrar na sua playlist, do que ela chamava de clássicos e eu chamava de música velha.

Claro, ela gostava de Lana del Rey.

Caralho, ela gostava de Lana del Rey.

Como hoje em dia quem tem um celular com Rappi, tem tudo, em alguns instantes lá estava uma caixinha de som na minha mão, e eu estava pronto pra fazer a maior cafonice que já fiz na minha vida.

Não me garantia o bastante pra cantar pra ela, e também acho que não existiria a possibilidade dela me ouvir.

Lá pelo meu trecho favorito (I heard that you like the bad girls, honey, it’s that true?), ela apareceu na janela, com uma carinha incrédula.

Agradeci a todos os santos por ela não morar no último andar.

— Que porra você tá fazendo aí, Benjamin?

— Vim pedir perdão por ser um idiota.

— Mas eu não sou. Vai embora.

Aumentei o volume e coloquei Dormi na Praça no celular. Eu sei, a qualquer momento ela iria me matar.

— Desliga essa porra, Benjamin!

— Não! — gritei de volta. Pude percebê-la rolar os olhos e Bárbara apareceu na janela — Ei, Barb!

— Você tem água de coco na cabeça, menino?

— Se pá que eu tenho. Fiz merda, tô tentando consertar.

— Que jeito diferente, né?

— É o que temos pra hoje.

— Sobe aí! — gritou, animada — Adoro um climão!

— Barb! — gritou Livia — Fica aí. Não ouse subir.

— Eu vou começar a gritar umas sacanagens hein! — ameacei — Vou falar como você fica linda quando geme meu nom…

— Sobe logo, Benjamin! — me interrompeu.

Suspirei aliviado e entrei no prédio. Gil, o porteiro, riu pra mim e permitiu minha subida sem nem me anunciar: provavelmente tinha ouvido a pataquada toda e eu dispensava apresentações àquela altura.

Quando cheguei na porta do apartamento, Lívia já me esperava na porta.

Quer dizer, eu já a vi mais linda, com certeza, mas ela sempre me arrancava um sorriso idiota. Tava com uma camiseta comprida, o cabelo solto e bagunçado de quem acabou de levantar da rede e o plus: a cara toda suja de brigadeiro. Minha vontade era de lamber o dedo e limpar a bochecha dela, mas só cocei a nuca, esperando que ela me desse um aval pra tomar qualquer outra atitude.

— Entra logo.

Sorri, passando por ela e entrando no apê que era como se fosse uma extensão da minha casa àquela altura. Barb estava sentada na rede com uma panela de brigadeiro, e sorriu pra mim.

Ela era aquele tipo de melhor amiga monstro que todo cara odeia quando começa a namorar. Ninguém gosta da melhor amiga da mina que a gente tá pegando. Imaginei inclusive que ela fosse me capar se algum dia descobrisse sobre a aposta, mas lá estava ela, sorrindo pra mim.

Talvez fosse uma técnica de dissuasão pra me desarmar e me tornar um alvo mais fácil. Pode ser.

— Sabe o que é pior? — soltou ela, quebrando o silêncio constrangedor de 30 segundos desde que entrei — Eu gosto de você.

— Jura? — perguntou Liv, claramente indignada. Na verdade, até eu estava surpreso — Eu te contei o que ele fez, né?

— Sim. Mas eu gosto. Primeiro, você deu um murro no Henrique, isso já conta muitos pontos. E outra, cê tem muita bola de entrar aqui depois de tudo. Queria cortá-las com uma faca quente, mas vou esperar pra ver suas intenções.

— Acho que nem eu sei minhas intenções — soltei. Isso não parecia muito inspirado, mas a real é que eu havia decidido ser 100% franco com ela desde o momento em que saiu do meu apartamento.

— Que bom. Ia pedir pra você se explicar mas isso já me poupa muito tempo.

— Isso não quer dizer que as intenções não sejam boas.

— Afinal, você pegou o Tesla?

— Barb, é melhor você ir embora — soltou Liv, puta. Algo me diz que ela não ia querer falar do tesla.

— Peguei — soltei, meio sem pensar — Peguei sim. Meu colega de quarto contou pro maluco dono do carro no momento em que você saiu e ele vai deixar a chave lá pela manhã.

— Como assim ela descobrir da aposta implica em você ganhá-la?

— Na verdade eu acredito que o Arthur ter contado pra ela da aposta anulou tudo, e…

— A gente vai mesmo discutir sobre isso?

— Tá bem, tô saindo. Vou me arrumar pra um open que vai ter na Mackenzie, se quiser aparecer lá, será muito bem vinda — Barb beijou a testa de Liv, que fez careta quando falou de Mackenzie e não pude evitar uma risada, afinal, era lá que eu havia me formado.

— Ela odeia mackenzista. Sei disso, sou um deles.

— O mais babaca da paróquia tá aqui na minha sala né.

Dei os ombros enquanto Barbara saía do apartamento e nos deixava sozinhos. Liv encostou a porta e apenas quando ouviu o elevador descer, suspirou e se sentou no sofá. Acompanhei-a, mas sentei no pufe à sua frente. Foi quando ela soltou o ar — como se estivesse segurando por muito tempo -, desistiu de ficar sentada e rumou à cozinha.

— Quer ajuda?

— Não. Só vou precisar de uma cerveja pra ter essa conversa.

Depois de pegar duas long necks na geladeira, jogou uma pra mim e voltou ao sofá. Finalmente se sentou em posição de indiozinho, prendeu os cabelos num rabo de cavalo alto — como se fosse praticar um novo esporte ou me pagar um boquete, ainda não tinha decidido qual comparação seria mais precisa, mas era como se fosse começar uma missão muito importante -, e abriu a garrafa com o dente.

Aquela era mesmo a mulher da minha vida.

— Tá, Benjamin. Você veio até aqui, tocou sua música na janela, conseguiu entrar no apartamento e eu até te dei uma cerveja. Pode me dizer a que veio?

Abri a garrafa com a mão — prezava pelos meus dentes mais do que ela, pelo visto -, dei um gole vigoroso na cerveja e suspirei. Aquela seria uma longa noite.