Apesar da dor, descobri que havia vida após o término.

Nunca mais havia encontrado nem sinal dela, e seguia firme no meu relacionamento aberto com Jaqueline. Quando descobrimos a gravidez de Holly, ela tinha 2 semanas, das nove que durava a gestação de um golden retriever, e agora faltava menos de 10 dias pra nossa ninhada nascer.

No ultrassom, vimos que ela teria 8 filhotes. Precisamos então fazer um conselho com os moradores e interessados na saúde e vida do nosso casal premiado de cães, e por isso estávamos em casa em uma sexta-feira à noite, com meus dois maravilhosos colegas de quarto, Amália, Gabriel (o irmão de Arthur e nosso chaveirinho gay, que continuava não só convivendo conosco mas nos amando apesar de sermos o mais puro suco do chorume heterossexual) e Jaque com suas duas colegas de quarto, Carol e Marcela. Art e Marcela tinham um casinho mal resolvido.

— Eu não queria nem a Holly quando a Jaqueline inventou de trazer cachorro pra dentro de casa — resmungou Carol. Eu odiava a Carol. — O que que a gente vai fazer com oito praguinhas?

— Doar.

— Doar? Esse cachorro vale… — ela abriu o celular — Pode custar 6 mil reais por cachorro!

— Tá passando fome, Caroline? Quer que eu te faça um pix pra pagar a conta de luz? — perguntei e Jaque me deu um beliscão — Mas é sério, porra, tá querendo capitalizar o útero da Holly e quer que eu trate isso como coisa normal!

— Ai, larga de ser hipócrita, vai, Benjamin. Se você é tão terminantemente contra a compra e venda de cães, o Charles Bronson foi deixado magicamente na sua casa, numa cestinha?

Aí eu não aguentei. Gargalhei na cara dela.

Era uma história engraçada, essa. Charles Bronson não só não tinha sido comprado, como eu mesmo tinha sido responsável pelo resgate dele e do resto da ninhada

— Você não devia ter perguntado isso — riu Gabriel — Você não conhece a Luisa Mell aqui. Prepara a pipoca, ele tem uma tese de TCC sobre isso.

— Como assim? — ela continuava com a maior das caras de cu, claramente 0 interessada na história de vida da praguinha responsável por ter emprenhado a praguinha delas.

— Eu não compro vida não, Caroline. Eu resgatei a mãe, o pai, a ninhada do Charles Bronson e mais umas duas fêmeas matrizes de um pulgueiro. Minha mãe até hoje cria todos os cachorros velhos e a gente saiu doando todos os filhotes. Não ganhei um centavo e ainda apanhei e fui processado por isso. Mas fica tranquila, o advogado da minha família é muito bom e a gente ganhou a causa.

— Você roubou esses cachorros?! — perguntou Marcela, estupefata.

— Elas nem comiam, Má — interveio Ams. Ela conhecia aquela história, até pegou um filhote pra dela — Benj foi o herói da cachorrada toda.

— Que bonitinho o São Francisco de Assis — ironizou a puta.

— Eu só gosto de bicho. Odeio gente. Porque existe gente tipo você. Que compra e vende filhotes como se fossem uma bolsa.

— Você quer mesmo entrar numa discussão sobre isso? Acha que todos os canis do mundo…

— Porra, me desculpa, Carol! — entrei num personagem que deixou todo mundo assustado — Me mostra!

— O quê?

— Seu certificado. De pedigree, de salubridade, de ambiente controlado pro parto e pra criação, dos microchips que você vai colocar nesses dogs pra poder vender por seis mil, do seu parceiro pra vacinação, o pedigree que garante a linhagem perfeita da Holly… Ih caralho, não vai rolar. Quando eu resgatei o Charles de uma casa de 40 metros quadrados e 15 cachorros não achei o dele.

— Tá, tá, tá, já entendi.

A gente não se bicava e acho que nenhum dos dois tinha muito saco pra disfarçar isso e não pesar o ambiente. Jaque soltou um suspiro longo — modo educado de dizer que ela bufou com ódio de nós dois — e me deu a mão, voltando a tagarelar sobre a guarda compartilhada, sobre onde íamos criar os filhotes — provavelmente a gente ia levar a Holly pro sítio da minha mãe onde a mãe do Charles Bronson e as outras viviam.

Depois a gente pediu uma pizza, acendeu unzinhos e bebeu um monte e tudo ficou mais leve, mas a pólvora ainda tava lá.

Eventualmente, Caroline foi embora sozinha pra casa, já que Má ficaria com Arthur e Jaque comigo. Quando estávamos só os dois no quarto, Jaque estava deitada no meu peito e soltou um suspiro.

— Que foi, principessa?

— Você e a Carol.

— Ela me odeia.

— E você faz de tudo pra melhorar essa relação né, principe.

— Ela queria vender nossos netos, Jaqueline.

— Não conhecia esse seu lado.

Beijei sua testa e ela deitou no meu peito, ficando em silêncio por algum tempo.

Era confortável estar com Jaqueline. Acho que na verdade mais do que isso, era a escolha óbvia. Era amiga dos meus amigos, tinha um jeito parecido com o meu, aceitava muito tranquilamente que a nossa relação fosse aberta e inclusive trocávamos diversas figurinhas sobre isso. Até mènage com uma amiga dela já fizemos.

Mas eu sabia que aquilo estava errado.

Eu não amava a Jaqueline. E o jeito que ela me olhava, os sorrisinhos que me dava e a maneira tranquila com que ela adormecia do meu lado me faziam pensar que talvez não fosse justo que ela sentisse tanto por alguém que não pode retribuir.

E o pior: não é que esse alguém, que no caso, sou eu mesmo, não possa retribuir por inaptidão emocional. Quer dizer, também. Foi isso que destruiu o meu relacionamento anterior.

Mas era justamente esse relacionamento anterior, que era um grande “e se”, entre duas pessoas que, como a própria outra parte havia dito, nem se conheciam e projetaram coisas demais naquela suposição que criaram.

Seja pela suposição ou uma realidade, não existia outra pessoa pra mim. Eu não queria mais ninguém ocupando um lugar que eu guardaria pra sempre pra Lívia. E isso não era justo com ninguém. Nem comigo, nem com a Lívia, mas principalmente, não era justo com a Jaque.

Nunca disse que a amava e que a pediria em casamento, mas a situação dos nossos cachorros tornou tudo mais sério do que eu gostaria. E eu não podia deixá-la achar que as coisas poderiam evoluir.

Eu não queria ser a Summer.

— Jaque — sussurrei, e ela acordou.

— Diga — resmungou. Ela acordava de péssimo humor.

— Eu acho que a gente tá cometendo um erro.

— Na criação dos cachorros? Relaxa, meu bem, eles ainda nem nasceram.

— Não, Jaque. A gente.

Silêncio.

Caralho eu sou muito ruim de término. Jaque de repente ficou igualzinha ao Chaves paralisado e, dado o meu provável grau de transtorno de déficit de atenção, pensei que talvez se eu a molhasse ela destravaria, igual ao chaves.

— Me desculpa — sussurrei.

— Por quê?

— Porque eu tô terminan…

— Isso eu sei, Benjamin — que conste nos autos: ela nunca me chamava de Benjamin — Por que você acha que a gente está cometendo um erro?

— Porque a gente tá.

Seguiu em silêncio. Esperando uma resposta decente, e eu sabia que ela merecia uma.

— Lívia.

Ela bufou. Sonoramente. Não fez a menor questão de disfarçar.

— Sério?

— É.

— Vocês…

— Não, a gente não voltou.

— Então não tem motivo pra isso, Benjamin1 Você não tem nada com essa menina!

— E é isso que me fode, xuxu. E eu não vou te usar de tapa buraco, porque gosto muido de você pra isso.

Dei um sorriso que tenho certeza de que devia estar deprimente, e fiz carinho no rosto dela com as costas da mão. Jaque fechou os olhos e mordeu muito forte o lábio, e, depois de ter visto toda a filmografia do Woody Allen — que ela amava, e eu tinha preguiça — com ela, eu sabia que era um sinal de que não estava querendo chorar na minha frente.

Acho que, no fundo, ela sabia que eu tava certo, e não podia fazer isso com ela.

É porque eu a amava também. Mas não desse jeito.

Todos os meus melhores momentos com Jaqueline não envolviam sexo. Nós usávamos MD, ficávamos doidos e saíamos pelados no parquinho do prédio. Comprávamos passagens pra Guarapari de ônibus, íamos viajar na sexta e voltávamos no domingo pra trabalhar na segunda mesmo sendo 12 horas de viagem.

Eu não podia mais machucar alguém tão foda quanto ela.

Jaque não disse mais nada. Só pegou suas coisas, levantou e foi embora. Nem me deu tchau, nem olhou pra trás.

Eu não podia culpá-la e daria o espaço que ela precisava, mas nós dois sabíamos que algum momento eu precisaria ir atrás dela.