Luzes de Neon
20 Dancing Queen.
Dei o espaço que Jaque precisava. Depois daquele dia, os únicos contatos que tivemos foram para tratar dos filhotes, que conseguimos adotantes responsáveis (a contragosto da mercenária colega de quarto da minha amada ex rolo que não pode ser chamada de namorada).
E após os dois términos em tempo recorde, eu havia resolvido focar todas as minhas energias no trabalho, no trato do meu cachorro (e inclusive sua castração, que não podia ser mais adiada) e em fazer mais uma ou duas tatuagens, principalmente para ter a desculpa de não encher a cara.
Mas, é claro, meus amigos não estavam dispostos a me deixar passar por essa desse jeito, ou ao menos, não me deixar ficar um ano na sabatina, como era o meu planejado.
— Olha, eu ainda tô muito magoado com você por conta da Jaque, mas se você tá sofrendo pela Liv, você devia comer outra — soltou Art, como se aquela solução fosse muito fácil de ser tomada e eu que fosse o idiota.
— Ele não quer comer outra — Caíque respondeu por mim — Ele gosta dela.
— Benjamin? Gostar de mulher? Essa é nova — riu Gabbo.
Eu sempre me perguntava porque Gabbo continuava sendo nosso amigo e a cota LGBT da família torta que escolhemos. Por algum motivo, ele não ligava de andar junto com um monte de macho escroto que só falava merda e mandava pornografia no grupo. Estava sempre lá, como uma fada madrinha e uma voz da razão, para nos dizer o quanto estávamos sendo imbecis.
Tenho certeza de que, se ele não fosse irmão do Art e não nos conhecesse desde os 10 anos, nos odiaria muito. Mas, graças às forças que regem o universo, ele estava ali.
— Eu gosto de mulher — me defendi, ainda olhando para o nada e fazendo carinho em Charles Bronson.
— Meus queridos, nenhum de vocês gosta de mulher.
— Só tem você de bicha aqui, Gabbo — resmungou Caique.
— Não é isso que eu quero dizer, né, amor. Vocês comem mulheres, mas vocês amam um ao outro. E o tesla do Matheus, claro. Ou do Benj. Não sei com quem tá esse carro mais.
— Eu amo minha mina! — defendeu-se Caíque.
— Caíque, você disse pra sua mina que ia pra casa da sua mãe e tá aqui fumando maconha e jogando fifa.
— E daí?!
Era duro admitir, mas Gabbo tinha um ponto muito bom. Até hoje, nenhum de nós tinha dado prova nenhuma de que via mulheres como qualquer coisa que não um objeto sexual. Antes da Liv, eu nunca fui o tipo de cara que tem amigas, ou que cultiva amizade com mulher. A vida inteira as mulheres passavam por mim como objetos.
E aquilo me caiu como uma bomba.
— O que foi que aconteceu comigo? Eu já era uma criança misógina e filha da puta? E como eu faço pra voltar a ser assim?!
— O tiro saiu pela culatra no momento em que você fez aquela aposta imbecil, bebê — ele se sentou ao meu lado e beijou minha cabeça — A Liv não é um pedaço de carne, nem um invólucro desagradável ao redor de uma buceta. Você gosta dela. De passar tempo com ela, fazer coisas que ela goste e que não envolvam trocas de fluidos. Irônico, né? Se só tivesse comido e ido embora como é do seu feitio nada disso estaria acontecendo.
— Até novela ele tá vendo! — Arthur riu sozinho, mas Gabbo o encarou com um olhar de fuzilamento — Eu achei engraçado.
— E é — admiti, derrotado — É meio ridículo até.
— Não acho ridículo. Ridículo é pingar de balada em balada procurando uma vítima pro abate, Benjamin. Você finalmente deixou de ser um menino pra se tornar um homem.
— Parabéns, Simba.
— Ah, vai pra puta que pariu, Arthur — resmungou Gabriel, jogando uma almofada na cara do irmão — Você precisa mudar sua rede de amigos, Benj, acho que você é cagado por causa da gente.
— Eu sou cagado porque nasci cagado. Acho que preciso de terapia.
— Enquanto não arruma ajuda profissional, quer ir pra balada comigo? Vai ser legal! Tipo meninas indo pra balada, só com o objetivo de dançar?
— Você vai me largar pelo primeiro boy que aparecer interessado, né?
— Claramente.
— Vou me trocar.
Às vezes, mas só às vezes, eu gostava muito mais de sair com o Gabbo do que com os outros caras. Não me sentia pressionado a pegar mulher — o que era meio que um jogo nosso, quase um desafio intrínseco de quem pega mais -, e às vezes eu realmente gostava só de sair pra encher a cara, tomar um doce e dançar. Eu realmente gostava disso.
E quando eu poderia virar para os meus amigos e dizer “ei, será que hoje podemos não trazer ninguém pra casa, e só dançarmos juntos numa festa?”
Isso soa tão ridículo que daria um esquete de um programa de comédia ruim.
Claro, sair com o Gabbo não era também sinônimo de perfeição, de rolê dos sonhos. Tinha o ônus de um monte de cara dando em cima de mim? Tinha. Mas ao mesmo tempo, parando pra pensar, não é o mesmo que eu fazia nas festas hetero?
*BAM*!
Esse é o som do tabu que quebrei na minha própria cabeça.
— Não quer sair com a gente pra pegar mulher? — ofereceu Caíque.
— ELE NÃO QUER NINGUÉM QUE NÃO SEJA A LÍVIA! — pude ouvir o ganido de Charles Bronson enquanto saía da sala, assustado, após o escândalo de Gabriel — E você namora, Jesus Cristo.
— A Amália é a mais corna do Brasil, coitada — riu Art — Por isso eu não namoro.
— Até porque você é um ótimo partido, né não?
Me enfiei numa calça jeans e coloquei mais uma camiseta branca — meu armário era exatamente igual ao de um personagem da turma da Mônica: calças jeans de todas as lavagens, e apenas camisetas brancas de gola V — e coloquei o braço sobre o pescoço de Gabbo.
— Vamo?
— Vamo, chaveirinho hétero.
Pedimos um uber e fomos pra qualquer uma dessas baladas gays que ficam na Augusta. Hoje meu objetivo era encher a cara e aceitar qualquer coisa que parecesse alucinógena e fosse oferecida por alguém que não fosse querer favores sexuais em troca delas.
Estava xavecando a menina do bar pra conseguir uma cerveja no meio de tanta gente pedindo quando a vi.
Infelizmente, não era Lívia, mas era quase.
— Gi?
— Benj? Você é gay?! — perguntou, assustada. Era incrível como ninguém cogitava a possibilidade de um bissexual existir. Não sou, mas fiquei ofendido.
— Tô com um amigo, mas eu gosto de vir pra cá ficar louco de bala e dançar.
— Você é esquisito.
— Tô ligado.
Ela riu, ainda desconfortável com a minha presença. Claro que estaria: depois da merda colossal que ela fez, eu também estaria com vergonha se fosse ela. Eu gostava demais da Lívia para esquecer, e ao mesmo tempo a respeitava demais pra me meter, ainda mais na atual conjuntura, em que tô tentando me manter distante.
— Tem visto a Liv?
— Vocês terminaram?
— Ah, eu fiz merda.
— Pois somos dois.
Ela bateu a taça de caipiroska de tangerina — ela precisava urgentemente parar com essa obsessão — na minha garrafa e riu amarga. Passou-se algum tempo comigo ali sentado do lado daquela aura negativa toda, antes que Gabbo viesse me salvar.
— Você não veio aqui pra pegar mulher, vamos embora!
— Ei, essa é…
— Essa não é a Lívia!
— Eu sei que não, ela é…
— Não me interessa!
Antes que eu pudesse explicar qualquer coisa, ele me puxou pra pista. Estava tocando algum pop dos anos 90, o que deixava todo mundo em volta muito agitado. Até eu comecei a rebolar a bunda, e Gabbo enfiou um papelzinho debaixo da minha língua.
— Curte essa merda, é pra isso que eu te trouxe.
— Eu amo você!
— Não grita isso aqui que vão achar que eu te namoro! — me bronqueou.
Assenti e ele me largou no meio da pista pra beijar um desconhecido.
A partir daí, não me lembro de muita coisa. Flashes coloridos, uma perda momentânea dos sentidos, e depois de estar passeando de SAMU.
ϟ
Quando abri os olhos, percebi que estava num hospital.
Gab estava numa poltrona ao meu lado, Caíque, Amália e Arthur dividiam um sofá e, por um minuto, fui grato àqueles filhos da puta por gostarem de mim o suficiente pra irem todos para o hospital atrás de mim depois de uma reação exagerada à droga.
Cutuquei Gabriel, que saltou dramaticamente da cadeira.
— Você tá vivo! — gritou — Eu não acredito que você tá vivo! — me abraçou com força, colocando minha cabeça em seu peito, e pude perceber seus batimentos acelerados. O cara realmente achou que eu ia morrer
— Eu quase morri?
— Benjamin, você lembra por que tá aqui? — perguntou Caíque, num tom muito calmo pra ser dele e pra ser uma coisa light.
— Fiquei doido de bala?
— Cara, você acha que a gente estaria num hospital se você estivesse só louco de bala?! Você ficou doido de bala, ligou pra Livia, disse que queria ela de volta, ela disse que não queria você, e você saiu andando pela rua e foi atropelado por um carro. Cantando De quem é a culpa, da Marília Mendonça.
— Eu fui o QUÊ?
— Não foi nada grave pelo visto, foi só um totó porque o motorista brecou quando te viu. Sorte desse monte de guache que você passa na cara, senão tinha morrido. Seria cômico se não fosse trágico, né? — disse Ams, dando risada depois.
— Santa festa gay.
— E a gente ligou pra Lívia.
— Vocês o quê?
— O Arthur gritou com ela e disse que ela te matou.
— VOCÊ O QUÊ?
— Ela veio aqui, chorou em cima do seu corpo, e saiu pra tomar um café, mas disse que voltava.
Não consegui reagir, e isso pra mim era novidade.
A gente se conhece há pelo menos uns 10 anos. Desde a oitava série. E todas, literalmente todas as vezes em que estávamos em alguma situação onde a tensão podia ser cortada com a faca, eu fazia o papel de peixeira e aliviava o clima com uma piadinha de merda. Isso desde o dia em que o cachorro do Art perdeu uma perninha (“Quando ele castrou perdeu coisa muito pior e a gente não chorou, né?”), mas sobreviveu e ficou de boa, até quando o pai do Gab o expulsou de casa por ser gay, e jogou um jarro na cabeça dele (“Certeza que ele vai se arrepender do que fez, cara, não se preocupe. Esse jarro custou uma fortuna, é porcelana chinesa”).
Dessa vez, não houve nada. Acho que eu estava oco. Talvez alguma coisa tenha acontecido com a minha mente brilhante durante o acidente.
Mas quando eu a vi, passando pela porta, o tico e o teco voltaram a funcionar.
— Precisei ser atropelado por um ônibus pra você prestar atenção em mim, Liv?
Houve certa comoção dos caras, como se dissessem “finalmente ele demonstrou que a cabeça não parou de funcionar”, mas ela permaneceu séria. Estava com um café na mão e uma cara de quem havia acabado de acordar e corrido pra lá, o que, de uma maneira egoísta e canalha da minha parte, me alegrava por saber que ela não tinha colocado outro em sua cama.
— Me desculpa.
— Tudo bem, você tava chapado.
— Por tudo.
— Esquece, Benjamin.
— Obrigado por ter vindo.
Foi então que percebi a minha família desajustada sentada no sofá do quarto, com as mãos apoiando os queixos, assistindo à nossa conversa como se fosse a novela das 6. Não precisei nem pedir para que eles saíssem: acho que meu olhar bastou. Inventaram uma desculpa esfarrapada e saíram os três em fila indiana.
Quando estávamos sozinhos, Liv soltou um suspiro, sentando-se na poltrona onde Gab repousava quando acordei.
— Eu me preocupei com você.
— E eu agradeço por isso.
— Benjamin, você podia ter morrido.
— Podia mesmo.
— E a gente estaria brigado!
— E isso faz diferença pra você? — perguntei, confuso — Quer dizer… Você não queria que eu morresse e a última coisa que você me disse tenha sido…
— Benjamin. A última coisa que você me dissse foi “ A última coisa que eu queria era te machucar.” — sussurrou. Ela lembrava. Mas também, podia ter falado qualquer coisa, e eu não lembraria se é verdade ou não — Eu não queria que você morresse sem a gente saber o que poderia ter sido. A vida é muito frágil, e você foi um cachorro, mas…
— Você gosta de cachorros? Eu fui um cachorro tipo o Charles Bronson, ou um cachorro tipo o Cujo?
Ela riu.
Graças a Deus, ela riu.
— Você foi um Cujo.
— Mas…?
— Mas é o Charles Bronson.
— Ufa.
Ela sorriu, fazendo carinho no meu rosto e apertando meu nariz. Se sentou na beira da cama, e segurou minha mão. Fiz carinho na dela com o polegar, e depois fui ousado: levei-a até os lábios pra beijar os nós dos seus dedos.
— Eu gosto quando você faz isso. É um carinho fofo.
— Eu sou fofo.
— Você me apostou. Depois namorou com outra pessoa. Assumiu ela pros seus amigos e não me assumiu. Vocês transaram constantemente. E teve uma cria de cachorros com ela.
— Eu não disse que eu era inteligente — continuei com seus dedos muito próximos dos meus lábios — Mas sou fofo o bastante pra ganhar uma segunda chance?
— Eu não posso te dizer não enquanto você tá numa cama de hospital depois de ser atropelado, Benjamin, isso não é justo.
— Também não disse que eu tinha um bom caráter. Só sou fofo, não exija demais de mim.
— Moscow Mule sente sua falta — ela soltou, e percebi que aquilo a amoleceu.
— Eu também sinto a dele.
— Se você quiser sair daqui e visitá-lo… — abri um sorriso, e ela assumiu uma carranca — Não quer dizer que a gente voltou, tá?
— A gente não precisa ser exclusivo. Podemos ser amigos que eventualmente ficam na casa um do outro e agora podem transar.
— Você vai me levar pra passear de tesla?
— Pra onde você quiser.
Ela riu e beijou minha testa. Suspirei, aliviado.
— Que foi?
— Nada, só tô feliz que você não me odeie.
— Vai ter que convencer a Barbara de não te odiar também.
— Aliás, eu vi a Gi naquela festa que eu tava. Vocês não se falaram mais?
— Ela deu pro Henrique.
— Eu sei. Te fez um favor, né? Agora não tem mais a possibilidade de você voltar com o Aperol.
Ela riu. Se sentou do meu lado e tomou um gole do café, que a esta altura já estava frio, então fez careta. Começou a tagarelar tudo que eu havia perdido naquele período em que estive fora da sua vida. Realmente, foi comprovado o caso entre bodas de estanho e Giovanna, e aconteceu desde antes de Lívia terminar com ele. Gi foi banida do grupo, estava andando com umas amigas esquisitas e Liv estava ensaiando um discurso para fazê-la voltar, mas Barb era terminantemente contra.
No trabalho, ela havia sido promovida, e estava ganhando mais, mas o ônus era ter que dar ordens em Mat e em Ana, o que, na cabeça tonta dela, poderia estremecer a relação. Como se eles não fossem amigos e fossem ficar felizes por ela estar bem na vida, e poder pagar por um vinho melhor do que os de garrafa pet que ela consumia atualmente. E finalmente eu nunca mais veria uma cerveja Sol naquela geladeira.
— E você?
— Eu sofri durante todos os dias sem você. Pode perguntar pros caras. E você sabe que eles não vão mentir, afinal, quem foi que te contou sobre a aposta, né?
— Podemos não falar disso nunca mais?
— Com certeza.
Ela riu e se aconchegou do meu lado, mostrando um milhão de fotos de Moscow Mule. Em algum momento, meu celular vibrou.
— Pega pra mim?
— E se for uma menina mandando foto da teta?
— Acredito que não seja — ri — Mas se for, não vou esconder de você. Só não vou te mostrar, não seria ético.
Me encarou desconfiada e pegou o celular. Era uma mensagem no grupo dos caras, chamado Três Solteirões e um bebê, e fez Liv rir.
— Quem é o bebê?
— O Gab.
— Achei que fosse o Charles Bronson — riu — Põe a cara aqui pra desbloquear
Sorri pro celular, como se aquilo fosse fazer diferença, e ela o desbloqueou. Era uma mensagem de Art, avisando que agora que eu já estava sob os cuidados dela, eles estavam indo embora. Traidores.
— Acho que você vai ter que ficar aqui até eu receber alta.
— Puts, estragou meus planos.
— Tinha um encontro? — brinquei, e ela riu.
— O Gim Tônica tava me esperando.
— Por que não foi?
— Não conseguia tirar você da cabeça.
Ela parecia envergonhada com a resposta, então optei por não fazer piadinhas em cima. Só segurei sua mão e beijei os nós dos dedos — de novo, temendo soar repetitivo -, e permanecemos num silêncio confortável por algum tempo.
Depois ela colocou um capítulo do Cravo e a Rosa para assistirmos no celular dela, e eu estava quase dormindo quando o médico voltou ao quarto.
— Pronto pra ir embora?
— Ele não vai ter que dormir aqui pra ficar em observação?
— Não, tá liberado já. Você teve sorte, garoto, foi só um susto.
— Graças a Deus — ela soltou o ar pela boca, e eu sorri. Ela estava mesmo preocupada — Posso levá-lo pra casa então?
— Pode. Ele tem que ficar em repouso, beber bastante água, descansar bastante.
— Pode ficar tranquilo, doutor, vou cuidar dele.
Liv me sorriu, doce, e por um momento quis sentir uma malícia na sua voz. Mas acho que ela só ia cuidar de mim mesmo.
E se tudo desse certo, esse “cuidar de mim” não tinha prazo de validade estabelecido.
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