Luzes de Neon
1 I. Liv • Saída da Toca
Notas iniciais
Já fazia dois meses desde que eu havia terminado o namoro.
Não que este fim tenha sido uma surpresa. Nossa relação já estava mais do que saturada e era questão de tempo até alguém ter coragem o bastante pra romper esse laço. Fato é: não fui eu. Eu fui quem ficou segurando o laço cortado.
Fiquei com meu apartamento vazio, umas suculentas enfeitando meu espaço e a vontade imensa de encher a casa de gatos, mas fui forte o bastante para não fazê-lo até agora.
Há algumas semanas, comecei um novo hobby: aprendi bordado livre e o fazia enquanto assistia a novelas antigas: a da vez era O Clone. Estava em frente à televisão xingando o egoísmo de Jade quando o interfone tocou.
Eu morava sozinha num “studio” — um apelido chique para fazer com que nós paulistanos gastássemos três vezes mais do que vale uma kitnet — na região central de São Paulo e às vezes chegava ao fim do mês questionando se o meu salário medíocre de SAC seria o bastante pra pagar as contas. Todo o tempo que eu podia passar no meu apartamento eu passava. Achava que isso fazia valer todo o dinheiro investido naqueles poucos metros quadrados.
Mas minhas amigas pensavam diferente. E eu tinha certeza que era isso que elas tentaram fazer, vindo aqui. Autorizei a subida das três madames, destranquei a porta e voltei minha atenção à novela das Arábias, já com meu bastidor e agulha em mãos.
— Lívia, isso é a coisa mais deprimente que eu já vi.
Esse foi o cumprimento que recebi de Bárbara, minha melhor amiga.
Achava meio infantil esse lance de dar a alguém, dentro do seu núcleo mais íntimo de conhecidos, o título de melhor amiga, mas a verdade é que todo mundo tem uma pessoa especial, uma ligação maior do que qualquer outra, e a minha é, sem a menor sombra de dúvida, Babs. Ela me aturava desde os nossos três anos de idade quando entramos na pré-escola, e só conhecemos as outras meninas, Camila e Giovana, pois eram amigas de praia que conhecemos na casa de veraneio dos pais dela, em Niterói. Juntas, durante todas as férias de nossas vidas, formávamos o típico quarteto de amigas dos filmes adolescentes, até que as meninas resolveram se mudar para São Paulo para virarmos o quarteto adulto moderno.
— Eu não quero saber o que você acha deprimente. Eu vou ficar em casa, tomando vinho e cantando Somente por Amor enquanto bordo essas bromélias.
— Tá lindo isso — elogiou Cami, sentando ao meu lado e me dando dois tapinhas nas costas. — Você vai começar a vender isso para complementar renda?
— Não incentiva, Camila, pelo amor de Deus. Nós viemos aqui pra te tirar de casa.
— Eu não quero sair.
— Lívia, já faz dois meses. Você precisa reagir.
— Eu estou reagindo. Minha terapia alternativa é o bordado.
— Você precisa ver gente — argumentou Gi, se sentando em minha frente e desligando a televisão.
— Até onde eu sei, vocês são gente.
— Somos, Lívia, mas você precisa de rola! — gritou Bárbara, de repente. Foi um susto generalizado, e todas seguramos o riso — Que foi, gente? Alguém precisava dizer. Como vocês são frouxas e aparentemente só eu tenho voz ativa, eu fui obrigada a deixar de lado a elegância.
— Você não tem elegância nenhuma, Bárbara — resmunguei — E o que vocês têm em mente?
— A gente vai te levar pra uma balada.
— Ah, não, eu odeio balada — choraminguei, levando um tapa na nuca de Barb — O quê?
— Você pretende encontrar um homem onde?
— Eu não pretendo encontrar homem nenhum, vocês que querem encontrar pra mim.
— E nós vamos. Agora se levanta, a gente vai te vestir.
Bárbara era diferente de mim em tudo. Ela sempre fez o tipo mulherão, que coloca um salto 15 mesmo tendo mais de 1,70, ama aqueles vestidos embalados a vácuo que não ficam bem em ninguém, mas ela fica completamente perfeita em qualquer coisa que veste. Eu sempre me senti um bichinho do lado dela. Como se ela fosse a Jessica Rabbit e eu fosse o Dobby. Não é como se eu fosse feia ou não me amasse; eu me amo. Não tenho do que reclamar. Mas fato é que, perto dela, qualquer um é o Dobby.
Mesmo assim, elas me enfiaram no quarto e começaram todo o processo de transformação da Lívia bordadeira e noveleira na bonequinha Liv Festeira. Enquanto Giovana fazia minha maquiagem, Barb tentava fazer milagre com as roupas casuais do meu armário e Camila me fazia uma chapinha.
— Precisa de tudo isso? Quer dizer, a gente tá indo pro baile da Vogue?
— Lívia, todo mundo merece um dia de princesa.
— A gente não pode fazer um dia de beleza e ficar todo mundo em casa vendo Sex and the City em vez de…
— Lívia, pela última vez, ninguém aqui vai aceitar um não seu.
— Eu tô com fome.
— Lívia, vai pra puta que pariu — resmungou Barb — Achei. Vai ser esse.
Ela balançou um tubinho preto de veludo e alças finas que ela havia me dado de natal, na minha frente. Sorriu, muito satisfeita com o achado, e, quando terminaram de me maquiar — fazendo com que eu me sentisse a própria Pabllo Vittar -, me largaram sozinha para vestir o vestido e calçar uma sandália também escolhida por elas. É claro que não me deixariam usar uma sapatilha.
Quando terminei, saí do quarto e levantei os braços, comemorando a vitória de conseguir sair do meu moletom e camiseta. Recebi, literalmente, uma salva de palmas e logo estávamos no uber.
O motorista era muito gente boa, e permitiu que Bárbara colocasse sua playlist de funks proibidões, ainda cantou conosco durante todo o trajeto. Quando chegamos, ouvi Camila gritando que daria uma gorjeta muito gorda pra ele — R$2, provavelmente — pela maravilhosa corrida e entramos na fila da maldita balada.
— É open bar?
— Não, Lívia.
— Vocês vão pagar todas as minhas bebidas, né?
— Vamos, Lívia. Mas a ideia é achar um boy que pague.
— Eu não quero um boy que pague. Eu quero ralar a bunda no chão e dançar sozinha.
— Rale a bunda no chão e encontre um homem pra te bancar — sugeriu Gi, me empurrando com o ombro. — Vai ser melhor ainda, porque suas amigas vão poder ralar a bunda no chão sem irem à falência.
— Eu quero um Cosmopolitan.
— Nós não estamos em 2001. Supera, você não é a Carrie Bradshaw.
— Vocês são insuportáveis.
Quando entramos na balada, a divisão natural aconteceu: Barb e Camila foram para a pista, porque era isso que elas faziam. Eu e Giovana éramos mais dos drinques. A gente enchia bem a cara para só depois ralar com a bunda no chão. Não sentíamos a mesma segurança que elas para dançarmos sem o efeito do álcool.
Estava debruçada sobre o balcão do bar, me esticando para chamar a atenção de qualquer pessoa atrás daquele balcão, enquanto Gi rachava o bico dos meus malabarismos.
— Eu só queria um Moscow Mule — gritei — Moscow. Mule. Sabe? Vodka, hortelã, gengibre…?
— Pede uma caipirinha de vodka e tangerina pra mim?
— Sério, Giovana? Caipirinha com vodka? Já fomos melhores.
— Pede logo e não enche meu saco.
— Assim que conseguir o meu — respirei fundo, contei até dez e voltei a tentar — Vamos lá. Moscow…
— Moscow Mule — gritou um cara do meu lado, e imediatamente a barmaid sorriu pra ele e começou a preparar o drinque.
— Isso é sério? — bufei.
Quando olhei para o lado, entendi o porquê. O homem era lindo.
Na verdade, se a gente chacoalhasse uma árvore na Vila Madalena, cairiam 12 iguais, mas isso não desabona sua beleza.
Pela luz roxa, não podia ver muito além dos olhos escuros brilhantes e do sorriso largo que ele abriu para a atendente, esticando a própria comanda em seguida. Quando o fez, pude perceber também as tatuagens — que, naquela iluminação, eram apenas desenhos disformes — que cobriam toda a extensão do seu braço. Me entregou o drinque, segurando minha mãozinha minúscula com as suas duas, muito quentes em contraste à bebida gelada, e sorriu pra mim, chegando pertinho pra perguntar:
— Mais alguma coisa?
— Ela quer uma caipirinha de vodka de tangerina.
— Ninguém que pede uma caipirinha de vodka merece beber.
— Eu sei! — resmunguei e ele sorriu — Mas fazer o quê. Não posso deixá-la aqui sozinha à própria sorte, ela precisa de alguém que a resgate e peça sua bebida ruim.
Ele assentiu, abrindo mais um sorriso bonitinho e pediu a caipirinha de Giovana. Nessa hora, antes que ele pudesse pagar o dela também, estiquei a minha própria comanda.
— Eu pago o dela.
— Nada disso, relaxa.
— Você clona cartão pra pagar drinque pra tanta gente assim?
— Pelo amor de Deus, vão vocês dois dançar, eu pago meu próprio drinque — brincou Gi, esticando a própria comanda — Obrigada. Se dependêssemos da Liv aqui, eu ia passar a noite toda com a boca seca.
— Pedir drinques aqui é uma arte pra poucos.
Piscou pra Gi, que pegou seu copo e me largou com o cara.
Durante muito tempo, eu estive namorando. Na verdade, Henrique foi meu primeiro namorado da vida. Tínhamos 14 quando começamos, e estivemos juntos por quase 10 anos. Após mais da metade da minha vida com o mesmo homem, eu não sabia mais nada sobre nenhum outro,
Não é como se eu soubesse qualquer coisa, após esses anos todos com o mesmo cara, sobre flertar em festas. E lá estava eu, sozinha com aquele homem que certamente tinha mais experiência em beijar gente em um molar do que eu tinha no meu corpo inteiro.
— Liv, então? — sussurrou no meu ouvido.
— Liv — afirmei, puxando o canudo de metal (canudo este que eu não conseguia morder, o que me deixava muito agoniada e diminuía minhas chances de flertar utilizando minha bebida) — E você?
— Benjamin. Mas pode chamar de Benj.
— Não seria Ben?
— Todo Benjamin é Ben. Só eu sou Benj.
Sorri, assentindo e continuei bebendo sem olhar para ele. Benj não se deu por vencido, e continuou puxando alguns papos nada a ver, sobre minha tatuagem no braço — um gato e uma taça de vinho, porque eu gostava de gatos, e taças de vinho — e sobre as dele, que eram muitas para contar. A verdade é que a conversa era mera formalidade, porque escutar o que o outro dizia era muito difícil.
Benjamin se aproveitava da situação para ficar perigosamente perto de mim, sussurrando em minha orelha, e fazendo com que eu sentisse seu hálito de cerveja cara e trident verde — que não sei se estavam juntos ou ele só era muito limpinho e se mantinha sempre com um aroma de hortelã mesmo. Enquanto o fazia, despretensiosamente fazia carinho na minha coxa, e, dadas as circunstâncias, não era como se aquilo estivesse exatamente me incomodando.
Educado que era, não me deixou pagar por nenhum dos drinques que pedi — foram pelo menos 4 iguais até que eu começasse a sentir o formigamento do álcool fazendo efeito em meu organismo. Assim que comecei a sentir os faniquitos, não consegui mais ficar parada.
— Você vai me desculpar pela indelicadeza, mas eu preciso ir dançar.
Estava em pé e me apoiei em sua perna para me despedir e agradecer, mas Benjamin me segurou pela cintura e praticamente me sentou em seu colo. Fez carinho em meu rosto com o polegar e mordeu os lábios.
— Só isso que tem a me dizer?
— Quer que eu pergunte seu PIX pra te pagar os drinques? — brinquei, fazendo carinho em seu rosto.
Ele riu e negou com a cabeça, me puxando para ainda mais perto, como se fosse possível, e me beijou.
Benjamin me colocou sentada em seu colo, e por um momento pensando se aquele banquinho não cederia ao peso dos dois, mas não cedeu. Aquele foi o último pensamento racional que passou pela minha cabeça, antes de começar a querer arrancar a camisa de botões que ele estava vestindo.
Aquilo era a coisa mais louca que eu já havia feito, e isso dizia muito sobre a falta de experiências loucas. Sentia-o me acariciar na parte interna da coxa, apertando suavemente enquanto subia gradativamente as mãos, e eu usava as minhas para puxar seus cabelos e arranhar levemente suas costas. Benj separou os lábios dos meus para distribuir beijinhos por meu pescoço e colo, e eu correspondia jogando a cabeça para trás, aumentando seu alcance.
De repente, retomei a consciência e balancei a cabeça, descendo de seu colo e mordendo seu lábio, dando um beijo estalado depois.
— Tchau.
Dei uma corridinha ridícula até a pista de dança, onde estavam as garotas. Barb estava toda rebolativa, fazendo o quadradinho perfeito, quando me viu e me olhou maliciosa.
— Giovana já me contou tudinho sobre o bonitão que te pagou bebida, hein.
— Não começa, Bárbara.
— É aquele que tá olhando pra cá? — gritou Camila, pra que todas pudéssemos ouvir.
Não tive coragem de olhar pra trás. Continuei dançando, com as duas mãos sobre os joelhos e a cabeça baixa, porque se eu olhasse, iria parecer um convite pra ele dançar comigo. Não é o que eu queria agora. Estava recuperando o fôlego, e sentia o rosto queimando de vergonha e os lábios ardendo pela fricção contra os dele.
— É ele mesmo! — gritou Gi — Eu vou convidá-lo para…
— Não ouse!
Ela não precisou convidar. Estava dançando e apontando o dedo pra minha amiga alcoviteira quando senti o perfume amadeirado daquele homem junto a mim.
— Oi, gente, esse é o Benj — grunhi, apontando o dedo para trás.
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