Luzes de Neon
2 12 badaladas da Cinderela
As meninas sorriram pra ele e me olharam, maliciosas e com expectativa. Não o ouvi responder, mas senti as mãozinhas em minha cintura, me puxando para mais perto. Virei para encará-lo, e ele, como se fosse possível, diminuiu ainda mais a distância entre nossos corpos; àquela altura, poderíamos segurar uma folha sulfite contra o outro.
O cara era pelo menos uns 20 centímetros maior do que eu, mesmo comigo de salto, e eu não sou exatamente uma pessoa baixa. Ao colocar as mãos no seu peito, precisei inclinar a cabeça para poder ver seu rosto. Ainda não podia acreditar no tanto que era bonito, com seus cabelos curtos, os olhinhos pequenos quando sorria, e as covinhas que apareciam.
— Tá fazendo o quê? — perguntei, arqueando a sobrancelha.
— Vim te ver.
— A gente acabou de se ver.
— Eu sei, mas a gente deixou um assunto em aberto.
— Achei que tinha acabado.
— Mas e se a gente quiser repetir? — ele abaixou um pouco e me segurou pela cintura, tirando meus pés do chão e me fazendo dar um gritinho — Você é uma gracinha.
— Obrigada — sussurrei, beijando seu nariz — Vai querer repetir a dose?
— Quer me passar seu contato?
Balancei positivamente a cabeça e ele tirou o celular do bolso, desbloqueando e me entregando. Preenchi meu número no whatsapp dele e depois o devolvi. Ele sorriu, me puxando de novo pela cintura e me beijando mais uma vez. Mordi seu lábio e o empurrei para longe.
— Vai seduzir outras meninas agora.
— Posso até beijar outras bocas, mas vou estar pensando mesmo é em você!
Piscou e saiu. Agradeci mais uma vez pela falta de iluminação daquela festa, e continuei dançando de cabeça baixa ao som daqueles funks higienizados que colocavam pra tocar. Barb deu um berro alto o bastante a ponto de ouvirmos acima do tom da música e me puxou pro banheiro.
Sentei na pia — molhando a barra do vestido, mas estava tão suada que não liguei muito para esse detalhe — e tirei o batom da bolsinha, retocando-o porcamente enquanto fingia que estava tudo certo naquela ida para o banheiro, e que Bárbara não faria um interrogatório a seguir.
— Quem é esse homem, pelo amor de Deus?
— É o Benjamin, ele pagou uns Moscow Mules pra mim e queria pagar a caipiroska da…
— Eu não quero saber o que ele pagou, eu quero saber por que você o dispensou!
— Porque eu quero rebolar minha bunda com minhas amigas.
— Vocês trocaram telefone?
— Eu passei o meu pra ele, Barb, se for da vontade de Allah que ele me ligue…
— Se você citar O Clone outra vez, eu vou te matar.
Puxei-a pra perto e beijei sua cabeça, me apoiando em seus ombros para descer da pia. Peguei sua mão e voltamos para a pista.
O resto da noite se passou desse jeito: dançávamos até sentir os pés doerem, daí tiramos os sapatos e dançamos ainda mais. Milagrosamente, nenhuma de nós se meteu em nenhuma briga com homem babaca, resultando numa noite sem grandes traumas. Continuei bebendo Moscow Mules a noite inteira, e quando o sol amanheceu, e já podíamos pegar o metrô para voltar para casa, eu estava bebíssima.
— Ninguém aqui tem mais dinheiro pra Uber, Lívia, a gente vai ter que enfrentar esse metrô.
— Vai dar tudo certo, eu tenho certeza. Somos mulheres lindas e poderosas, vai dar tudo…
— Lívia, você está podre de bêbada! — resmungou Cami — Você tá descalça andando por essas ruas nojentas, já já pega uma micose e eu quero ver.
Estávamos saindo da balada resmungando, e quando finalmente chegamos à porta, Giovana não aguentou mais e precisou vomitar na calçada.
Basicamente, todas as nossas festas terminavam assim. Sempre me perguntava como ainda não havíamos aberto falência, ou simplesmente decidido começar a ir em festas open bar. Minhas amigas tinham gostos muito caros.
Estava sentada na sarjeta, com os sapatos nas mãos e rezando para que aquilo acabasse logo. No geral eu era o tipo de amiga que dava suporte emocional e segurava os cabelos das outras, mas hoje não existia dentro de mim força de vontade o bastante para fazê-lo. Senti meu corpo pender para trás, e deitei no chão.
Mesmo com as pálpebras fechadas, sentia a luz do sol que ainda estava nascendo incomodando meus olhos. Porém, era aquilo que me mantinha acordada, então não podia reclamar. Repetia mentalmente os nomes dos meus episódios favoritos de Friends para continuar acordada.
De repente, não senti mais a luz do sol, então abri um dos olhos. Então, finalmente sem a luz roxa, lá estava ele.
— Quer uma carona?
— Você vai dirigir bêbado? — arqueei a sobrancelha. Ele estendeu uma mão para me ajudar a levantar, e eu aceitei de bom grado, apesar de ainda tensa sobre a proposta de carona — Não, obrigada.
— Eu vou de uber.
— Você nem sabe se vamos pro mesmo lado.
— Não me incomodo.
— Mas eu não quero que você saiba onde eu moro — resmunguei e ele riu, assentindo — Desculpa.
— Não, você tá certa.
— Eu sei.
— Quer ajuda aí com ela?
— Não, estamos bem — cutuquei Gi, que parou de vomitar para erguer positivamente o polegar.
— Eu vou esperar e levar vocês pro metrô.
— Temos um changeman aqui — balbuciou Giovana, ainda entre um golfo e outro.
— Gentleman, princesa — sussurrou Camila, colocando o cabelo da amiga atrás da orelha.
Benjamin estendeu meia garrafa d’água para Giovanna, que pegou sem olhar para ele e virou em dois segundos. Após algum tempo, parece que retomou as rédeas do próprio organismo, e conseguimos levantá-la. Finalmente, estávamos prontas para voltar para casa.
— Vocês vão todas pra mesma casa?
— Eu só preciso ir pra minha. ‘Cês vão pra onde?
— Cada uma pra própria. A gente é assim mesmo. Lívia não gosta de dormir na casa de ninguém e também não tem lugar na casa dela pra mais ninguém dormir.
Pensei em me defender, dizendo que pagava muito caro no aluguel para não dormir em casa, mas me poupei do discurso. Benj riu e continuou andando conosco até o metrô. Em algum momento do percurso, pude reparar em nossas mãos entrelaçadas e nos carinhos que ele fazia na minha com o polegar. Quando chegamos na estação, as meninas passaram a catraca e, quando eu estava prestes a fazer o mesmo, ele me puxou pra perto.
— Tem certeza de que não quer vir comigo? — perguntou fazendo manha e eu assenti, beijando o peito dele — Então tá. Vou te mandar mensagem já já pra você me avisar quando chegar em casa.
Assenti com a cabeça e ele me deu um selinho. Quando passei a catraca, ele gritou um “Cuidado!” e em seguida mandou um beijo e foi embora. Ri e, quando finalmente me virei para descer as escadas rolantes junto às meninas, percebi os olhares delas pra mim.
Parecia que nunca tinham visto um homem na vida, e me encaravam como se eu tivesse encontrado a minha alma gêmea e já estivesse de véu e grinalda, prestes a entrar no altar. Não falei nada, e elas tiveram a delicadeza de fazerem o mesmo. Quando chegamos à plataforma, Bárbara e eu fomos para um lado e Camila e Giovana para o outro. Nos despedimos com gritinhos histéricos e cada dupla entrou em seu trem.
Eu e Bárbara seguimos para a região central, e as meninas iam para a zona sul. Barb morava na parte boa do centro, e eu morava na parte que realmente parecia o centro de São Paulo. Saindo dali, ela iria pro seu apartamento chique na Consolação, e eu iria para a Bela Vista — bem com cara de Anhangabaú -, no meu apartamentinho de 28m² na rua Paim. Já ela, ia pra Alameda Franca, no seu apartamentão que caberiam três famílias.
Mas aquilo não significava muito pra gente. Barb e eu éramos unha e carne, mesmo que eu fosse a plebeia e ela a princesa. Dormi em seu ombro durante todo o caminho do metrô, quando ela me chacoalhou e avisou que iria descer. Beijou minha cabeça e me pediu em nome de todos os santos para que eu acordasse de verdade, e não voltasse a dormir assim que ela saísse.
Achei melhor ficar em pé.
Mandei um beijinho quando a porta do metrô fechou e Barb estava do lado de fora, e continuei em pé, focando novamente nos episódios de Friends para me manter em pé. Foi quando o celular vibrou.
Já chegou?
Quando olhei para a foto, quase me derreti. Era dele com um labrador maior que eu, lambendo o rosto dele. Sorri, abestalhada.
“Ainda não. Tô no metrô.” — respondi.
Não deu dois minutos e ele respondeu: Me avise quando chegar, tá? Vou esperar você chegar pra dormir.
Mandei uma figurinha de OK em resposta e segui viagem. Aquilo de alguma forma me manteve acordada até o destino final, durante todos os quase 30 minutos de trajeto. Quando cheguei no prédio, cumprimentei o porteiro, que riu pra mim (claramente desacostumado a me ver naquele estado) e me abriu o portão. Assim que coloquei os pés em casa, tirei o celular do bolso e mandei mensagem no grupo das meninas e pra Benjamin.
Belê. Agora posso dormir em paz. Dorme bem, Mc Livinha.
Aquilo foi minha deixa pra tomar um banho de 40 minutos e, em seguida, fazer o mesmo que ele.
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